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By Ferramentas Blog

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

APOSTILA 14 - TEOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO 2

APOSTILA

TEOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO II

Professor: Cornélio Póvoa de Oliveira


1 – O PROBLEMA DO MAL COMO SOFRIMENTO
No Velho Testamento o problema do mal é representado por vários pontos de vista através da longa história de Israel, e está sempre relacionado com a doutrina do pecado.


1.1  – O Pecado, a Culpa e a Punição
No Velho Testamento o pecado sempre acarreta o reconhecimento da culpa e a justiça da punição do pecador.
·         A culpa é o sentimento que nos faz compreender e reconhecer que o pecado merece censura e uma punição. Mas nem sempre o pecador sente-se culpado do seu erro. Nem sempre tem consciência plena do seu erro. Exemplo: Davi não reconheceu a gravidade de seu crime, nem experimentou a convicção de culpa, até que o profeta Natã lhe contou a parábola que lhe revelou a horrível injustiça que tinha praticado.
No Velho Testamento o bem e o mal não podem ser tratados da mesma forma.
Deve ser reiterado o fato de que a religião de Israel, pelo estabelecimento do concerto com Javé no Sinai, rompeu com as religiões cujos deuses eram caprichosos e podiam castigar arbitrariamente o seu povo, sem qualquer justificação fora da sua própria ira passageira, ou a sua ambição pessoal de aumentar o seu poder e a sua autoridade sobre os seus rivais. Não reconheciam, nem seguiam, qualquer norma da justiça.
O Senhor Javé apresentou-se aos israelitas como o verdadeiro Deus, justo e misericordioso em todas as suas atividades e relações. Havendo experimentado o poder e a bondade do Senhor na sua própria salvação, Israel teve base mais firme para a confiança perfeita na bondade do Senhor, mesmo quando não pudessem entender algumas das suas atividades.
Na relação tão intima entre Deus e o seu povo, Israel sentiu-se diretamente responsável por qualquer sofrimento que lhe sobreviesse. Devemos considerar que estamos falando do período em que a nação de Israel ainda estava se formando como nação (Êxodo-juízes).

·         Pecado (erro) à punição
·         Justiça à retribuição (felicidade, prosperidade, etc.)
·         O sofrimento e o mal, no período anterior ao Exílio, século sexto antes de Cristo, era visto como uma realidade provocada por Deus para punir o pecador. A questão do sofrimento e da felicidade eram vistos dentro de um esquema simplista de justiça-retribuição e pecado-castigo. Os amigos de Deus serão felizes e terão uma vida longa (Dt 5, 3; 30, 15; Sal 41, 3; Prov 13, 21).
·         Uma vez que esta é a condição humana, o premio do justo acontece sobre a Terra, tal como o castigo do pecador: o justo terá uma vida longa, muitos filhos, muitas terras e rebanhos. Tudo lhe correrá bem. Por outro lado, Deus provocará o mal, a fim de castigar o pecador. Este terá uma vida atribulada. Os seus filhos não sobreviverão ou serão atormentados com doenças. As suas terras e rebanhos não produzirão. Após a morte, a sorte do pecador e a do justo é exatamente igual: habitar no lugar das sombras que é a morada dos mortos (cf. Gn 37, 35; Nm 16, 30; Is 5, 14; 38, 18; Ez 26, 20; 31, 14-17; Sal 22, 30; 28, 1; 30, 4; 30, 10; 55, 16; Prv 1, 12; 5, 5).


1.2  – O Ponto de Vista Sacerdotal do Sofrimento
Segundo a literatura sacerdotal, principalmente Levítico, Números e Crônicas, todo o sofrimento, incluindo os males físicos, cai sobre o homem por causa dos seus pecados.
Depois de descrever, no capítulo 26 de Levítico, as maravilhosas bênçãos da prosperidade que o povo receberá, sob condição de obedecer à lei, o escritor enumera os males que o Senhor trará sobre ele, se ouvir, rejeitar e não cumprir todos os seus mandamentos.
Os sacerdotes interpretaram todos os sofrimentos humanos, incluindo os desastres da natureza, como punição do pecado, embora não fosse possível descobrir, ou apontar, o pecado que teria trazido o desastre. Não surgiu para eles o problema do sofrimento do justo ou do inocente, porque o sofrimento era prova direta do pecado do sofredor ou dos seus pais. Também os sacerdotes não fizeram qualquer distinção entre a violação das leis cerimoniais e o pecado contra os princípios da justiça humana.
Mas este foi um período de treinamento do povo de Israel que, por causa da solidariedade do grupo, nem sempre podia entender a relação ente a livre vontade e a responsabilidade pessoal. Esta questão da responsabilidade pessoal foi esclarecida mais tarde pelos profetas Jeremias e Ezequiel.

·         Sofrimento à pecado generalizado do povo à punição

1.3  – O Ensino dos Profetas
A experiência dolorosa do exílio questiona o esquema pecado-sofrimento, justiça-felicidade. Os justos, ao pretenderem ser fiéis a Deus sofrem mais que os pecadores que se adaptam aos modelos de vida dos pagãos. Os justos são humilhados e torturados, enquanto os pecadores passam bem. Jeremias, apercebendo-se desta aparente contradição, interroga-se e interroga o próprio Deus: como é possível os justos estarem a sofrer tanto, enquanto os pecadores passam bem? Acredita que Deus é justo, mas não entende esta contradição (Jer 12, 1-3). O justo parece um cordeiro destinado ao matadouro (Jer 11, 19).
Após o Exílio vão surgir várias tentativas de reformular a interpretação tradicional do sofrimento: o Deutero Isaías, (cf. Is 52, 13-53, 12; 42, 1-4; 49, 1-6) o relato da queda original (Gn 3, 1-20) e o livro de Jó. A solução encontrada pelo relato da queda original bem como pelo livro de Jó coincidem. Influenciados pelo pensamento persa concluem que Deus não é o autor do mal e do sofrimento.
Segundo esta reformulação, o sofrimento humano é provocado por um sujeito sobre-humano, invejoso da amizade que reina entre Deus e o Homem (cf. Jó 1, 6s; 2, 1s;  Gn 3, 1-5. Segundo o relato de Jó, Satanás, conselheiro da corte divina, fica cheio de ciúmes quando se apercebe de que Deus é amigo do justo Jó. Elabora uma série de argumentos e artimanhas que trazem grande sofrimento a Jó.
O Deutero Isaías situa-se na linha clássica: a causa do sofrimento é o pecado. O justo sofre, não por causa dos seus pecados, pois é justo, mas por causa do pecado dos outros. O sofrimento do justo assume, deste modo, um sentido redentor: resgate pelo pecado dos outros:
Os grandes profetas dedicaram os seus talentos e a sua vida ao ensino dos princípios da justiça ética.
Eles não apenas interpretavam a lei Moral de Moisés, ao povo da sua própria época, como revelavam a atuação de Deus na história do seu povo. Os profetas compreendiam que eram mensageiros, chamados para denunciar os ensinos falsos sobre a eficácia dos ritos religiosos e os pecados da injustiça social, a imoralidade e a desumanidade do seu povo.
Com ênfase na eficácia do sistema sacrificial, os ensinos da justiça ficaram quase esquecidos ou desprezados, como se pode observar na severa condenação dos reis, juízes, sacerdotes, lavradores e negociantes pelos profetas. O seu conhecimento mais profundo da justiça do Senhor iluminou o espírito dos profetas para entender os princípios éticos que Deus, pela sua própria natureza, tinha que exigir do seu povo.
Vamos destacar algumas das atuações dos profetas:
·         Condenaram os ricos e poderosos à Os profetas reformadores não protestaram contra a idéia prevalecente de que o sofrimento era sempre a punição do pecado. Mas limitaram a sua discussão do pecado às ofensas dos ricos e poderosos contra a justiça social: a opressão dos pobres e indefesos, a prática do engano, violência e suborno dos tribunais, para se enriquecerem e viverem em luxo, enquanto apresentavam ofertas e holocaustos sobre os altares para ganhar o favor do Senhor. Os profetas condenaram severamente os pecados de várias classes, mas ainda consideravam de maneira global o povo na sua relação com Deus.
o   Sofrimento à pecado social (apontavam pessoas ou uma classe social) à punição

·         Responsabilidade pessoal à Os profetas também atacaram as desculpas usadas pelo povo de que sofriam por causa do pecado de seu pais: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram” (Jr 31.29; Ez 18). Jeremias e Ezequiel desenvolvem a doutrina da responsabilidade pessoal. Através destes profetas Deus afirma que não condenará os filhos pelos pecados dos pais e nem os pais pelos pecados dos filhos, cada um dará conta do seu pecado. Contudo devemos nos lembrar que os profetas acusam os filhos de pecarem também. Em fim, eles não eram inocentes como pretendiam afirmar.

Obs.: Segundo o ponto de vista cristão, a saúde, a prosperidade e as outras vantagens materiais e sociais não podem ser consideradas como provas absolutas da bondade e da justiça do homem.
Deus sempre se apresentou como defensor dos fracos e oprimidos, dos órfãos e das viúvas, em fim, de todos marginalizados pela sociedade, contudo não os transformou em milionários, não os fez se tornarem pop star, mas deu a eles esperança no mundo vindouro. O abandono dos necessitados seria contrário à natureza de Deus.
O que os profetas afirmavam é que a prosperidade do ímpio não durará, e o opressor de Judá no fim será destruído, e o justo viverá para sempre.



1.4  – O Problema do Sofrimento nos Salmos
O livro dos Salmos apresenta a vida religiosa de Israel através de um longo período de tempo. Escrito por diversos autores, os Salmos representam uma variedade de experiências religiosas e muitas qualidades de sentimentos humanos. Em geral, os autores representam o ponto de vista tradicional dos sofrimentos (pecado à castigo). Reconhecem que, às vezes, os ímpios prosperam e os inocentes sofrem.
O ensino mais importante dos Salmos, que tem sido o segredo da sua popularidade e influência na vida das pessoas religiosas, é a fé triunfante dos salmistas, apesar do problema misterioso do sofrimento. Experimentaram todas as qualidades de dor e agonia; zombaria e perseguição de inimigos; acusações injustas pelos associados e amigos falsos; espíritos torturados pelo sentimento de culpa, doença e medo da morte. Em alguns casos os salmistas sofreram na sua miséria por causa da demora do socorro divino.
Muitas vezes não achando nesta vida a solução do problema do sofrimento, os salmistas, chegaram a crer que tudo seria endireitado na vida além da morte (Sl 16.10-11; Sl 17.15). Esta solução recebeu o apoio de Jesus, do Novo Testamento e do cristianismo em geral.

1.5  – O Problema do Sofrimento na Literatura de Sabedoria
Os livros de Provérbios, Eclesiastes e Jó, deste grupo, escritos por israelitas, apresentam meditações sobre a vida humana em geral, sem limitar os seus pensamentos à comunidade de Israel. Dois destes livros, Jó e Eclesiastes, desafiam com ousadia a teoria tradicional da distribuição da justiça imparcial. Eles refletem o ensino da responsabilidade pessoal, apresentado com força por Jeremias e Ezequiel.

Provérbios
Os autores de Provérbios seguem, sem a perturbação de dúvidas, a teoria de que Deus sempre recompensa os sábios, os prudentes, os sóbrios, os brandos, os honestos, os verdadeiros, os misericordiosos e os tementes a Deus. Não se pode negar o valor destes ensinos do ponto de vista da experiência em geral, mas não têm aplicação universal.

Eclesiastes
Para o autor de Eclesiastes não há diferença entre a sorte dos justos e a dos ímpios, “o mesmo sucede ao justo e ao perverso” (9.2; 7.15; 8.14). Com esta posição, embora extremista, a critica tinha o seu valor negativo. Negava que o sofrimento fosse a prova decisiva da iniqüidade do sofredor. Mas o seu modo de tratar o problema do sofrimento é um tanto superficial, e não penetra no âmago da questão.

A luz da sua própria experiência, e das suas observações, ele declara que o ensino tradicional é falso. É fato inegável que os justos sofrem, e que muitos dos ímpios prosperam.
Este livro nos apresenta uma nova perspectiva sofre o sofrimento. O sofrimento traz benefícios aos sofredores. Qual a função do sofrimento na vida do homem?
·         Disciplinar e purificar (Jó 6.17-18).
·         Aprofundar, enriquecer e amadurecer aqueles que temem a Deus (Jó 33.15-30; 36.8-21).
·         O livro de Jó ensina também que depois da morte seremos vindicados e tratados com a justiça divina que nos foi negado nesta vida. Esperança de receber no céu a vida abundante prometida por Deus, assim como os salmistas esperavam.

2        – A SALVAÇÃO NO VELHO TESTAMENTO
No Velho Testamento, o termo salvação abrange todas as qualidades de socorro que os israelitas, recebem do seu Deus, o Senhor Javé. O verbo hebraico yasha’ significa fazer largo, viver em abundância, conseguir a vitória, libertar do poder do inimigo, salvar da opressão, do pecado, da aflição, da doença, da morte, etc. O substantivo yesha’ ou yeshua’, pode significar a salvação em qualquer um, ou em qualquer conjunto, destes vários sentidos. A palavra pode ser usada para significar a salvação do mal na vida futura, ou no sentido de libertação de todas as qualidades de aflição da vida neste mundo.
A salvação no Antigo Testamento significa que o processo é iniciado e efetuado pelo Senhor, em favor do seu povo. Em todas as suas formas, a salvação é teocêntrica, no sentido de que é sempre iniciada e conseguida por forças e pessoas escolhidas e dirigidas por Deus, para cumprir o seu propósito e alcançar o seu alvo.
Todos os homens de Israel, inclusive reis, os príncipes, os sacerdotes, os profetas e o povo em geral tinham que depender de Deus, de quem recebiam a vitória, a liberdade, o socorro e a satisfação de todas as suas necessidades. Assim a história de Israel é a história das atividades do Senhor na vida do povo que tinha liberto do Egito e escolhido como o seu povo sacerdotal entre as nações do mundo.

2.1  – O Concerto e a Salvação no Velho Testamento
O concerto ou aliança (berith – hebraico / diathêke – grego) tem uma relação fundamental com a doutrina da salvação no Velho Testamento. O fato é que o concerto do Sinai foi feito com o povo que pertencia ao Senhor como seu povo peculiar, salvo, santo e escolhido como servo do seu Deus.

2.1.1 – O concerto entre Deus e o povo gerou deveres e responsabilidades
Entre os povos antigos havia uma crença de que um deus não podia existir sem o seu povo. No seu próprio interesse os deuses tinham que proteger o seu povo dos perigos de extinção pelas guerras ou outras calamidades.
Nos tempo de Oséias e Amós, e por algum tempo depois, talvez influenciado por este pensamento, Israel pensava que o Senhor tinha a obrigação de preservar o seu povo. Os profetas dão muita ênfase ao amor fiel (hesed) do Senhor no cumprimento das promessas do concerto. Mas ao mesmo tempo os profetas explicam as conseqüências terríveis da ingratidão, da injustiça e da infidelidade do povo do concerto.
É Deus quem toma a iniciativa e quem faz o concerto com o seu povo. Israel pode aceitar, ou rejeitar, o concerto oferecido pelo Senhor, mas nunca pode determinar os seus termos ou condições: “Eis que lhe dou o meu concerto” (Nm 25.12).
Quando o Senhor ofereceu ao povo de Israel o seu concerto, assim aceitou a responsabilidade de cumprir as suas promessas que Ele mesmo, e não Israel, tinha estipulado. Na aceitação do concerto, Israel também prometeu cumprir as suas condições (Êx 19.5).

2.1.2 – O concerto foi estabelecido com o povo e não indivíduos
Deus estabeleceu o seu concerto com o povo no seu conjunto, e não com indivíduos. O israelita participava dos benefícios oferecidos como membro do grupo. O povo podia ser representado por um grande vulto como Moisés, ou por um grupo de anciãos, mas o concerto sempre operava em relação com a comunidade inteira.

2.1.3 – O concerto e a revelação
Devemos lembrar que a revelação de Deus no Velho Testamento é verdadeira e válida, mas representa um processo histórico, e assim se adapta ao povo dentro do seu tempo. Ex.: A revelação do Messias que se inicia no livro de Gênesis 3.15 e vai se revelando mais detalhadamente aos poucos na história de Israel.
A luz da revelação mais clara da santidade e da justiça de Deus, por intermédio dos profetas, modificou-se o entendimento do escopo e das exigências do concerto.
Abaixo as novas ênfases proclamadas pelos profetas:
·         Os profetas proclamaram cada vez mais claramente que o povo do concerto tinha que ser uma comunidade espiritual (Ez 36.26 e 27; Joel 2.28-32).
·         Os profetas desenvolveram o ensino da responsabilidade pessoal. Embora a aliança fosse feita com o povo, cada pessoa se tornava responsável diante de Deus por seus atos e seria julgada por Deus individualmente.
·         Deus cumpriria sua promessa, feita no concerto, através daqueles que lhe eram fiéis. Estes fiéis seriam chamados de Seu povo.

2.2  – O Sistema Sacrificial dos Israelitas
Ao tratarmos do sistema sacrificial dos israelitas precisamos nos atentar para alguns princípios.

2.2.1 – A salvação pela graça precede o sacrificio
No Velho Testamento o sistema sacrificial nunca se apresentou como meio de salvação. Os sacrifícios são tratados como “expediente do homem para a sua própria redenção”. A salvação era baseada na graça de Deus em ter escolhido o povo de Israel. O sistema de sacrifícios contribuía na manutenção dessa graça, mas não era a razão da graça de Deus sobre este povo.

2.2.2 – O sistema sacrificial israelitas em comparação com outros sistemas
Existem semelhanças entre o sistema sacrificial dos israelitas e o de outro povos semíticos, mas é o significado dos ritos para a verdadeira fé de Israel que tem importância.
Morando em um ambiente politeísta e associados com vizinhos corrompidos, os israelitas tinham que lutar para manter a fidelidade ao seu Senhor. Reconhecendo que o povo, na sua enfermidade moral, poderia cair em várias qualidades de erros, o Senhor estabeleceu o sistema de sacrifícios e ofertas para fazer expiação dos pecados de enfermidades e ignorância. Assim o sistema ritual foi instituído para tratar de pecados cometidos dentro do concerto. Desse modo ofereceu ao povo meios de livrar-se do sentimento de culpa. Este meio de livramento atendia a uma qualidade limitada de pecados. Para os pecados de rebelião contra Deus, não havia expiação, porque tais pecados eliminavam o pecador (o pecador era condenado a morte) do povo do concerto.

2.2.3 – O progresso da revelação sacrificial
Quando os profetas receberam uma revelação mais completa do caráter de Deus, entenderam mais claramente a natureza do pecado. Reconheceram a tendência e o perigo de atribuir eficácia ao próprio sacrifício, ao invés de lembrar que era apenas um símbolo de arrependimento e da fé do ofertante, e que nestas condições Deus perdoa o pecado. A lei cerimonial servia para ensinar, treinar e preparar o povo para entender o que o Deus santo e justo requer do homem.
·         O sacrifício de animais não removia na verdade o pecado do homem, mas ensinava ao povo e os preparava para o grande sacrifício que seria oferecido por Deus e que removeria os pecados definitivamente de todos os homens. Sacrifício este realizado na pessoa de Jesus Cristo.
·         O sistema sacrifícial ensinava aos homens que estes precisavam se arrepender de seus pecados para serem perdoados.

Os profetas entendiam que o sacrifício era apenas simbólico do espírito reto que devia acompanhar a oferta. Com a interpretação profética do significado do arrependimento e o entendimento mais profundo da graça de Deus, os profetas ensinavam que o motivo do perdão do pecado está sempre no amor eterno e fiel do Senhor, e, não no sacrifício em si.

2.2.4 – O valor do sacrifício
1.      Aliviava o pecador do sentimento de culpa.
2.      Ajudava o pecador em sua comunhão com Deus.
3.      Aprofundava o pecador no conhecimento da santidade e justiça de Deus.
4.      Apontava a salvação que Deus realizaria através de Cristo Jesus.

2.3  – A Pessoa e a Função do Sacerdote
O sacerdote é ministro do Senhor que colaborava no aperfeiçoamento da teocracia, juntamente com o profeta, o rei e o Servo do Senhor.
O concerto representa a relação entre Deus e o povo. O Senhor é o Deus de Israel, e Israel é o povo do Senhor. A lei cerimonial foi um meio de separar o povo escolhido do mundo para o serviço do Senhor.

2.3.1 – Todos os homens de Israel eram sacerdotes
A nação de Israel, santificada e assim preparada para o serviço é designada como um reino de sacerdotes, homens que deveriam intermediar entre os demais povos e Deus. Todos os homens da nação sacerdotal tinham o privilégio de aproximar-se de Deus no serviço. Tinham privilégios iguais quanto ao direito de apresentar ofertas ao Senhor. Há vários exemplos de homens que exerceram este direito, como Gideão (6.15, 19-22), Davi (2 Sm 24.24 e 25), Salomão e outros.
·         Estes podiam ministrar desde que fora do Tabernáculo ou Templo e apenas para o culto individual.

2.3.2 – No culto nacional somente o sacerdote levita podia servir
Todavia este privilégio individual não interferia no culto nacional, e não podia dispensar ou tomar o lugar do culto do conjunto do povo que tinha entrado em concerto com o Senhor. O culto nacional tinha que ser celebrado no santuário central por um grupo de sacerdotes que eram servos do Senhor e representantes do povo. Como intermediários entre o povo e Deus, os sacerdotes tinham que chegar perante o Senhor no serviço. Tinham que ser semelhantes, tanto quanto possível, ao Senhor no seu caráter e nos seus motivos. O ideal de santidade do sacerdote não podia ser perfeitamente realizado, mas podia ser representado simbolicamente, para ensinar ao povo um entendimento cada vez mais claro do ideal.
Foi santificada a tribo de Levi exclusivamente para prestar qualquer serviço relacionado com o tabernáculo. Dentro da tribo de Levi foram designados no Monte Sinai os filhos de Arão, com o privilégio exclusivo de ministrar diretamente perante o Senhor. Finalmente, o sumo sacerdote, representando as virtudes e a santidade de toda a casta sacerdotal, era o único que podia entrar no lugar santíssimo, como intermediário entre todo o povo e o Senhor. Mas, com todas as suas regalias, podia entrar neste lugar mais santo apenas uma vez por ano.

2.3.3 – Resultado dos sacrifícios oferecidos pelos sacerdotes
O sistema sacrificial culminava no grande dia de expiação. Este era o dia mais santo e mais importante na vida religiosa do povo de Israel.
O resultado conseguido pelos sacrifícios oferecidos pelos sacerdotes em favor do povo se encontra nos significados da palavra hebraica kaphar (substantivo kopher). Esta palavra hebraica pode significar resgate, preço da vida, expiar, propiciar, reconciliar e cobrir.
Não podemos nos esquecer que os efeitos destes sacrifícios eram apenas simbólicos e que para estes realmente tivessem validade era necessário arrependimento por parte do ofertante.
“Acaso tem o Senhor tanto prazer em holocaustos e em sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? A obediência é melhor do que o sacrifício, e a submissão é melhor do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15.22).

2.4  – O Motivo Divino em Perdoar
Quando o Senhor na sua compaixão, redimiu os filhos de Israel, e lhes deu o seu concerto no Monte Sinai, assim estabeleceu a base das suas relações com eles em todas as atividades históricas que prepararam o caminho para a fundação do reino de Deus no mundo inteiro. No sistema sacrificial dos israelitas, as ofertas apresentadas ao Senhor representaram apenas o espírito de arrependimento do ofertante, enquanto o amor imutável do Senhor operava persistentemente no perdão do pecador desviado que desejava o restabelecimento da comunhão com o seu Deus.
O perdão divino nunca é incondicional (não existe perdão se não houver arrependimento), e nunca pode violar a justiça divina. O pecado de deslealdade e de desconfiança de Israel no deserto foi perdoado de acordo com a súplica de Moisés (Nm 14.20), mas neste caso a geração velha, os responsáveis, não têm permissão de ver a terra da promessa (Nm 14.23). O Senhor, porém, é sempre compassivo, e perdoa abundantemente quando o iníquo ou o injusto abandona o seu caminho e volta ao Senhor (Is 55.6-9).
O perdão cancelava a culpa e certas conseqüências do pecado, mas não mudava  a natureza ética do Senhor, nem a base moral do seu governo do mundo. Davi, assim como Manassés, receberam pleno perdão do seu pecado, mas o perdão não evitou a operação normal das más influências em suas famílias e no declínio dos seus reinos.
O amor e a justiça do Senhor sempre constituem o seu motivo imutável no perdão do pecado. A natureza divina, a santidade que abrange a justiça, não pode deixar de exigir o arrependimento e a fé por parte do pecador, sem o qual nenhum sacrifício e nenhuma oração pode induzir o Senhor a perdoar o pecado. Deus tem prazer em perdoar, “por amor do seu Nome”, todos os que almejam o perdão e Ele mesmo faz a expiação dos nossos pecados (Salmo 65.3).



2.5  – O Mistério da Eleição de Israel
A história do povo de Israel é dominada pelo conceito da eleição de Israel como o povo sacerdotal do Senhor.
Os escritores bíblicos não puderam explicar, como também os teólogos nunca têm podido explicar, o mistério da eleição de Israel. Por que Israel? Por que Abraão?
A comunidade de Israel foi eleita e separada do mundo para transmitir a palavra de redenção às nações (Gen 12.2-4; 18.18; 22.17 e 18; 26.4).
A Bíblia insiste em que Israel não escolheu ao Senhor. O Senhor fez a escolha, e estabeleceu Israel como nação. O concerto que o Senhor deu a Israel no Sinai foi o laço que uniu o povo com Ele, dando-lhe o privilégio de receber as bênçãos do seu Deus, incluindo a orientação da sua vida nacional. O concerto não impôs ao Senhor quaisquer obrigações. No seu amor imutável, tinha já escolhido a Israel como o seu povo para transmitir às nações a mensagem da graça divina. Com a eleição, o Senhor tinha demonstrado que era o Deus de Israel, e assim tinha aceito as suas obrigações antes de apresentar o concerto ao povo. O Senhor declarou ao povo que, da sua parte, nunca terminaria o concerto.
O amor do Senhor para com Israel nunca foi limitado estritamente pelas condições do concerto. O seu hesed para com o povo eleito nunca vacilou, nem quando Israel se mostrou como povo de cerviz dura.
Os profetas condenaram severamente a ingratidão e a deslealdade dos Israelitas, e a história indica que os obstinados e os infiéis foram cortados da comunidade. Para tais pessoas a eleição não tinha mais valor. Eleitos para servir, a eleição perdeu sua significação para os israelitas que repudiaram as obrigações de serviço (queriam ser servidos e não servir). Todavia, os profetas não subestimaram a persistência e os recursos do amor imutável do Senhor na direção da história de Israel de tal maneira que o restante dos fiéis pudesse realizar o propósito divino da eleição.
Nas profecias, desde Isaías até Zacarias, um período de mais de duzentos anos, encontram-se mensagens sobre a salvação e o preparo do restante dos fiéis para efetuar o propósito do Senhor na eleição de Israel. Ensinos dos profetas:
·         O Senhor dos exércitos, com os maravilhosos recursos do seu amor e justiça, está sobrepujando as ambições e as lutas políticas das nações na direção do seu povo no cumprimento do propósito divino na eleição de Israel.
·         Os profetas entendem, cada vez mais claramente, que é o propósito do Senhor estabelecer o Seu reino entre todas as nações do mundo (Is 11.9).
·         Os profetas percebem e explicam a fome espiritual das nações e o seu regozijo no privilégio de apegar-se ao povo do Senhor (Is 14.1; Zc 8.22 e 23).


3 – O REINO DE DEUS (POVO e o REINO)
            É profundo o significado bíblico da frase “o reino de Deus”. Examinado à luz do conceito da soberania de Deus, o governo divino do universo é eterno; é também manifestado na direção da vida dos homens, e será realizado na sua perfeição ainda no futuro. A frase exata não consta no Velho Testamento, mas os escritores apresentam o Senhor Deus como o Criador e Soberano ou Controlador de todas as coisas, segundo a perfeita sabedoria do seu propósito. Na escolha de Israel como o seu povo sacerdotal, o Senhor revela o seu propósito de estabelecer o seu reino entre todas as nações do mundo. Na realização progressiva deste propósito, ele se revela como o diretor da história humana. Estas idéias fundamentais do Velho Testamento já foram mencionadas várias vezes no curso desta obra, e têm que ser lembradas no exame bíblico do reino de Deus.

3.1 – O Povo de Israel e o Reino de Deus
É fato de importância histórica que os escritores do Velho Testamento, em geral, reconhecem Moisés como o fundador da sua nação. Ele é reconhecido também como o profeta que transmitiu a Israel a revelação do seu Deus Javé. Através do Velho Testamento inteiro Javé é o Deus de Israel.
A religião de Israel foi excepcional, incomparável, não somente na sua origem, como também em suas características fundamentais.
Primeiro de tudo, a sua fé foi monoteísta. Para Israel, havia um só Deus, e o mandamento, “Não terás outros deuses perante (além de) mim”, proibia o reconhecimento de qualquer outro deus. Alguns israelitas reconheciam a existência de outros deuses, mas quando os adoravam era cortados da congregação dos fiéis, como no caso daqueles que adoraram o bezerro de ouro.
Segundo, Israel cria firmemente que o seu Deus era o Controlador dos eventos da história. Na direção da história ele revela o seu poder e a sua justiça. Esta crença é muita significativa em relação ao estabelecimento e ao desenvolvimento do reino de Deus no mundo. Os deuses dos pagãos eram apenas personificações das forças da natureza, sem caráter definitivo. A sua força era limitada pelos deuses rivais. Eles não tinham qualquer entendimento moral dos eventos. Em contraste, o Deus de Israel dirige os movimentos dos corpos celestiais e todas as forças da sua criação. Não tem qualquer habitação fixa, e pode vir logo em socorro do seu povo no Egito, em Canaã ou em qualquer outro lugar.
Terceiro, escreveram a história de Israel com o fim de registrarem a ação de Deus em sua própria história. O Velho testamento apresenta narrativas de grande valor histórico, mas os autores não escreveram para preservar os fatos dramáticos da sua história política, nem para interpretar cientificamente o significado da sua cultura par ao progresso da civilização. Os escritores bíblicos criam firmemente na relação entre a história e a religião.
Deus não fica isolado do mundo que fez, nem do homem criado à sua imagem. A saída de Israel do Egito é interpretada como ato do amor imerecido do Senhor. Todos os sinais e maravilhas que acompanharam o livramento do poder de Faraó são reconhecidos como atos da graça de Deus. O concerto que o Senhor ofereceu a Israel no Monte Sinai foi mais uma revelação da sua amorável benegnidade.
Quarto, a aliança (concerto) feita com Deus gerou um sentimento nacionalista e perigoso. O livramento e a aliança de Israel com Deus deu um profundo sentido com relação ao seu destino entre os povos do mundo (Êx 19.5 e 6). A finalidade da sua escolha despertou no povo uma confiança que nenhuma tragédia nacional podia destrui-los. O conceito da história que Israel recebera na revelação do propósito do Senhor na sua eleição desenvolveu no povo a tendência de olhar para o futuro com esperança, especialmente nas experiências de vexame e desânimo.
Em certos períodos da sua história Israel focalizou seu pensamento quase exclusivamente no privilégio do seu lugar entre os povos do mundo, e nas promessas que tinha recebido como o povo da escolha divina. Com o crescimento do espírito do nacionalismo, o povo tinha que lutar com a dificuldade de se lembrar de que o seu Senhor, Javé, era o Deus de todos os povos e não meramente de Israel. Com todas as suas imperfeições, Israel nunca chegou a crer que fora escolhido como o povo do Senhor por causa dos seus méritos. Fora escolhido para servir como testemunha do poder e da graça do único Deus, o único Salvador da humanidade.
Quinto, de tribos a uma monarquia. Israel não surgiu como uma nação. Inicialmente era apenas uma liga de tribos, unidas pela fé em Deus. As tribos mantiveram a sua independência por duzentos anos. Os anciãos das tribos exerceram autoridade moral, mas não havia um governo central. “Naqueles dia não havia rei em Israel; cada um fazia o que era reto aos seus olhos” (Jz 21.25).
O livro de Juízes explica como as tribos, sem autoridade central, mantiveram a sua existência como povo. Em tempos de perigo, quando vizinhos ameaçavam subjugálos ou destruí-los, um homem corajoso, sob o poder do Espírito do Senhor (Jz 3.10; 14.6), reunia homens das tribos vizinhas e libertava o povo da opressão. Assim o livertador ganhava o prestígio e recebia o título de juiz, mas não estabelecia a sua autoridade como rei sobre o povo.
Esta teocracia (governo do Senhor), neste primeiro período da história de Israel, mostrou-se firme e persistente em manter-se contra o estabelecimento de cidades-estado entre as tribos, semelhantes aos governos dos pequenos reis cananeus.
O capítulo 4 de 1 Samuel conta a história da derrota dos Israelitas pelos filisteus. A Arca foi capturada, os filhos do sacerdote Eli, Hofni e Finéias, e muitos outros israelitas foram mortos. Foi uma grande humilhação militar e moral para Israel.
Esta demonstração do poder e do propósito dos filisteus despertou os israelitas para reconhecer que o único meio de defender-se contra o perigo dos invasores era a união de todas as tribos. Apesar da oposição, os israelitas fundaram, com relutância, a monarquia, escolhendo Saul, da tribo de Benjamim, como o primeiro rei.
Salomão aboliu a liga das tribos e estabeleceu o estado com a autoridade centralizada no rei. Assim a teocracia, preservada no princípio do reinado de Davi, gradualmente deu lugar à dinastia, acompanhada por mudanças radicais na sociedade nômade do povo do concerto.
Apesar das aparentes vantagens, o desenvolvimento da religião mantida pelo estado trouxe novos perigos para a religião de Israel. Os reis se esforçaram para controlar e subordinar a religião aos interesses do Estado, quando isto era considerado par ao bem do seu reinado (1 Rs 1.7 e 25; 2.26).
Embora reconhecido como o ungido do Senhor, o rei nunca foi considerado como o mediador da salvação nacional, como na Babilônia. Israel enfrentou o perigo de igualar o reino político de Davi com o reino de Deus, e pensar que o Senhor tinha estabelecido o seu reino na terra na sua forma final, através dos reis israelitas.

            3.2 – A Natureza do Reino de Israel
Dt 17.14-20 -  14 Quando entrares na terra, que te dá o SENHOR teu Deus, e a possuíres, e nela habitares, e disseres: Estabelecerei sobre mim um rei, como todas as nações que se acham em redor de mim, estabelecerás, com efeito, sobre ti como rei aquele que o SENHOR teu Deus escolher”.
O sistema monárquico, portanto, não era, por si mesmo, fora do plano de Deus apenas precisava esperar a hora certa e a seleção feita por Deus.

O conceito do reino de Israel como teocracia foi mantido apesar das suas falhas e fraquezas. Com relação ao conceito do Reino de Israel percebemos dois pontos de vistas, segundo a literatura histórica, o ponto de vista “J” (Javista) que não manifesta a hostilidade contra os que fundaram a monarquia; e o ponto de vista “E” (Elohista) que são contrários ao sistema monárquico, acreditavam que este causaria sérios problemas a Israel.
Contudo estes dois pontos de vista concordam que o Senhor escolheu o primeiro rei de Israel, e que não abandonou o seu povo, mesmo quando alguns dos reis se revoltaram contra a vontade de Deus e muitos israelitas se afastaram do Senhor.
O conceito do destino de Israel, segundo o concerto do Sinai, foi mantido pelos fiéis, mesmo no período do reino dividido e depois do reino de Judá, apesar dos muitos obstáculos, como interesses pessoais e o indiferentismo por parte dos reis e de multidões do povo.
O sentimento contra a monarquia, representado por Gideão, Jotão e Samuel, nunca foi completamente apaziguado. Persistia a convicção de que a monarquia não concordava com o destino verdadeiro de Israel, visado na sua eleição. E a história de Israel revela a antipatia e a oposição de muitos reis contra a orientação profética que procurava manter a fidelidade do povo ao Senhor.
À primeira vista, a oposição de Samuel parece estranha à luz da promessa de
Deuteronômio 17:14-20, onde diretrizes foram dadas sobre como agir na eventualidade
de o povo desejar um rei. A oposição de Samuel, porém, como a de Javé também, era uma condenação do espírito do povo e seus motivos para desejar um rei: os israelitas queriam ser "como todas as nações" em terem um rei (8:5,20). Era também uma tácita declaração de descrença no poder e na presença de Deus: queriam um rei para ir na frente deles e lutar nas suas batalhas (v. 20).
Deus graciosamente cedeu aos pedidos do povo, depois de Samuel ter feito todo o possível para tornar os israelitas conscientes das responsabilidades de viverem sob a tutela de um rei (1 Sm 8:10-19).

·         Reino do Norte – Rompeu com a política de Salomão, e prosseguiu, adotando o mesmo modo de governar; e o governo dominava a religião estatal com maior rigor do que o de Salomão. Os profetas de Javé eram vistos como arruaceiros e inimigos da ordem. Ex.: Elias vs. Acabe – luta pela justiça social (Acabe mandou matar a Nabote); Eliseu unge a Jeú que destrói a família de Acabe; Amós que exige do rei justiça para com o povo (Am 5.7, 10-12); Oséias que afirma que a adoração a outros deuses é adultério aos olhos de Deus. – Os profetas reconheciam que o reino de Israel territorial (físico) estava destinado à destruição, entretanto não perdiam a esperança quanto ao futuro de Israel, pois acreditavam que Deus trataria com Israel, mas no fim este seria seu povo, e Ele reinaria para sempre sobre eles.
·         Reino de Judá – Este viveu momentos de altas e baixas em sua relação com Deus. Cinco reis marcaram a história por suas reformas e decisão de andar nos caminhos de Deus, os demais viveram na idolatria. Entretanto o reino de Judá, permaneceu fiel a casa de Davi, e, Deus tinha uma aliança com Davi[1]. Os profetas também foram rechaçados pelos muitos reis de Judá. O profeta Miquéias denuncia os pecados de Judá quase tão severamente como Amós tinha condenado a corrupção de Israel. Entretanto os profetas Isaías, Jeremias e Ezequiel afirmavam constantemente que Deus enviaria seu servo, descendente de Davi, para reinar sobre Israel e sobre as nações. O sonho permanecia mesmo no exílio e pós-exilio. Deus levantaria Israel, restauraria sua sorte e o Messias governaria sobre as nações, cumprindo dessa forma o chamado sacerdotal de Israel.

            3.3 – O Restante Fiel do Povo Escolhido
Apesar da infidelidade do Estado de Judá, sob o governo de reis como Acaz e Manassés, os profetas, principalmente Isaías não criam que a nação seria completamente destruída, como foi destruído o Estado de Israel. Apesar de ter caído Judá nos mesmos pecados que destruíram o Estado de Israel.
Isaías acreditava que na direção da história humana, Deus usa os poderes (pessoas, sistemas de governos, etc.) como a Assíria, para conseguir os seus propósitos. O Deus soberano dirige a história da humanidade de acordo com o seu propósito supremo, e não o abandona a qualquer poder ou ideologia política dos homens.
Deus não poderia falhar em sua promessa para com Abraão, Moisés, Davi, em fim com a nação de Israel, o que fez com que Isaías e outros profetas, compreendessem o cumprimento das promessas a partir daqueles que eram fiéis a Deus.
A doutrina do restante fiel do povo de Deus é um dos ensinos característicos de Isaías (4.2-4; 10.20-22; 37.30-32).
Judá tinha caído num estado tal de corrupção, que não podia mais ser identificado como o reino de Deus. Mas permaneceram ainda homens fiéis, que não se esqueceram do amor e da fidelidade do Senhor no cumprimento das promessas do concerto, e o profeta tinha certeza de que o Senhor sempre teria o seu restante fiel e que o propósito final de Deus não podia falhar.
Isaías acreditava que Deus salvava, purificava e orientava o restante através das guerras, das invasões do estrangeiro, do cativeiro, e, estes por sua parte, confiavam em Deus, preservavam as Escrituras da revelação divina e mantinham a esperança no Messias vindouro. Há evidências de que o profeta esperava o Messias.
A idéia de um restante é largamente empregada no Velho Testamento, como no caso de Noé e dos sobreviventes do dilúvio, os da linhagem de Abraão, da chamada ou separação de Abraão e depois de Jacó.
A doutrina da eleição liga-se com a idéia do restante, como no caso da escolha de Noé, de Abraão, de Moisés e dos próprios profetas.
Os profetas, chamados para proclamar a mensagem do Senhor aos seus contemporâneos, serão salvos, juntamente com os fiéis do seu povo e preservarão as Escrituras da revelação divina. (Obs.: Nem todos israelitas ou judeus serão salvos, mas somente os fiéis – esse ponto de vista  é uma progressão da compreensão das Escrituras).
           

3.4 – O Dia do Senhor
            O Dia do Senhor é o dia de juízo do Senhor. O termo refere-se ao julgamento dos atos dos homens e das nações na história, e também no fim da história. Como foi indicado na discussão do restante fiel do Senhor, o reino de Deus visa a vindicação da justiça e dos justos.
Os israelitas, em geral, tinham a tendência de pensar, por muito tempo, que eles eram os justos (justificados), em virtude da sua eleição como o povo do Senhor. Em certos casos esta opinião recebe apoio nas Escrituras e assim se justifica, em parte, especialmente quando a vida moral e religiosa dos israelitas é comparada com a de seus vizinhos. É deste ponto de vista que se entende o significado do Dia do Senhor na profecia de Obadias. Neste dia de julgamento a maldade das nações cairá sobre a cabeça delas, mas para os da casa de Jacó haverá livramento (VV. 15-17).
O povo de Israel pensava que o Dia do Senhor significava o estabelecimento do seu governo benéfico sobre o povo escolhido. Mas não compreendiam a justiça de Deus, que exige a justiça do povo do Seu reino.
Sofonias já descreve o castigo terrível que cairá sobre Judá (Sf 1.4-16) e descreve no final de suas palavras a proteção de Deus para com àqueles que permaneceram fiéis (Sf 3.8-20).
Textos como o de Ezequiel 30.3-10, Isaías 13.6-22 e  Joel 3.11-13 anunciam o Dia do Senhor como juízo.
Os profetas assim entenderam que o Dia do Senhor é o dia em que Deus havia de julgar os povos e as nações com justiça, e estabelecer o Seu reino eterno em todo o mundo.

            3.5 – O Novo Concerto
Os reinos de Israel e Judá violaram o concerto do Senhor, e assim fracassaram como estados do povo escolhido.
Os profetas Jeremias e Ezequiel, como mensageiros de Deus, anunciaram fielmente a tragédia do julgamento divino sobre o Estado de Judá, reconhecendo que Deus estava operando na história para a realização do seu propósito moral. Graças à pregação de Jeremias e Ezequiel, a fé de Israel, mostrou-se suficientemente forte para sobreviver à mais terrível catástrofe.
O profeta Jeremias apresenta novas interpretações de verdades espirituais imperfeitamente entendidas na sua época. Ele pôs em relevo a espiritualidade da natureza de Deus.
Para demolir as falsas esperanças do povo Jeremias tinha que expor a incompatibilidade da injustiça de Judá com a justiça de Deus. A perfídia do Estado de Judá não podia suportar a luz brilhante da justiça divina. Jeremias entendeu e explicou mais claramente do que os seus predecessores que o verdadeiro culto do Senhor é espiritual, e assim não depende do templo, nem de qualquer lugar como Jerusalém. Pode-se adorar a Deus em qualquer lugar, até nas planícies da Babilônia, sem templo.
Outra verdade de profunda importância esclarecida por Jeremias é o valor supremo do culto a Deus que surge do coração sincero do homem individual. O verdadeiro culto é pessoal. Na condenação severa da infidelidade do Estado de Judá, o profeta chegou a compreender a futilidade da religião oficial. Não é verdade, como dizem alguns, que Jeremias descobriu o indivíduo, mas ele explicou melhor do que os seus predecessores a responsabilidade pessoal na vida religiosa.
Judá como Israel, tinha violado o concerto, e o tempo da sua salvação tinha passado.
Os profetas Jeremias e Ezequiel esperavam que os sofrimentos amargos dos cativos na Babilônia produzissem neste grupo humilhado o arrependimento, e que o Senhor, por esta prova do cativeiro, pudesse criar um restante puro de fiéis, e que Deus fizesse com este o Novo Concerto. Jeremias, que tinha perdido o último vestígio de esperança no Estado, nutria a esperança mais alta e mais segura no Deus de Israel, o Criador e Governador de todas as coisas. O Senhor da história realizará, na direção da história, o seu eterno propósito.
De compaixão infinita, o Senhor almejava a volta do seu filho precioso: Efraim – “pois quantas vezes falo contra ele, tantas vezes me lembro dele ternamente” (Jr 31.15-22). Certamente o Senhor nunca se esqueceria do seu propósito de criar um povo preparado que ele pudesse governar com amor e justiça.
Um Israel novo e espiritual sairá do forno de aflição, acrisolado, e o Senhor poderá fazer com ele o Novo Concerto, dado pela graça de Deus ao povo arrependido e entregue ao Senhor (Ler Jr 31.31-34).

4 – A ESPERANÇA MESSIÂNICA
Do ponto de vista dos escritores do Velho Testamento, em geral, a esperança messiânica significa a crença na vinda do reino ideal de Deus. Trata-se do futuro do povo de Deus.
Foi discutido no capítulo anterior o fracasso dos reinos políticos dos israelitas na missão de representar o reino de Deus na terra. Pesados na balança da justiça divina, os reinos de Israel e Judá foram achados em falta. O reino messiânico significa o aperfeiçoamento do reino de Deus. Como representado pelos escritores do Velho Testamento, o aperfeiçoamento do reino de Deus abrange quatro elementos: o juízo divino, a redenção de Israel, uma nova idade da história e o próprio Messias. Estes elementos são entrelaçados, mas o dominante, de que depende a plena realização da esperança, é geralmente o do próprio Messias. Mas o estabelecimento do reino ideal é representado, às vezes, como a obra direta de Deus. O povo do reino messiânico submete-se voluntariamente à vontade do Senhor e assim recebe a graça da redenção.

            4.1 – O Juízo Divino: A luta com o pecado e a esperança de vitória
Na revelação progressiva do propósito eterno de Deus, no Velho Testamento, encontram-se numerosas promessas da vitória final e completa sobre o pecado. Esta vitória será alcançada pelas atividades constantes e persistentes do Senhor na história, com os seus infinitos recursos espirituais, de acordo com as suas promessas, a sua santidade, o seu amor e a sua justiça.
Para Amós, montanhês e pastor, que tinha simpatia com os pobres e oprimidos no tem de grande prosperidade nacional, a justiça era o atributo de Deus que mais profundamente o impressionava.
Para Oséias, o pecado era o adultério espiritual de Israel.
Segundo Isaías, o pecado se manifestava no orgulho e na arrogância do povo de Judá. A falta de fé, a insensibilidade e o indiferentismo também são apontados por Isaías como pecado de Israel.
Contudo devemos nos lembrar que os profetas sempre esperaram a vitória de Israel contra o pecado.

            4.2 – A Redenção de Israel
Juntamente com as denúncias da infidelidade de Israel é proclamada a salvação divina, na condição de arrependimento e fé. Em Isaías entre as repreensões severas de Israel, o Senhor proclama pelo profeta:
Vinde agora, e raciocinemos, diz o Senhor;
Ainda que os vossos pecados sejam como o escalarte.
Ficarão brancos como a neve;
Ainda que sejam vermelhos como o carmesim,
Tornar-se-ão como a lã.

A salvação messiânica é eterna – (Ez 16.60) – Deus promete dar ao povo uma nova natureza para habitá-lo a ser fiel ao seu Deus e ao cumprimento da sua missão.
A salvação messiânica é ação da graça livre de Deus, é perfeita e sustenta-se contra todas as forças do mal – (Os 2.19, 20) – Depois do grande julgamento (juízo) que exterminará os iniquos, o renovo do Senhor se tornará em beleza e glória, e o fruto da terra, excelente e formoso para os sobreviventes de Israel. Todos os inscritos entre os vivos de Jerusalém serão chamados santos (Is 4.2,3).
Toda ferramenta preparada contra ti não prosperará; E toda língua que se levantar contra ti em juízo, tu a condenarás (Is 54.17).
A salvação messiânica é puramente espiritual – (Is 44.3) – Juntamente com o juízo divino, o Espírito do Senhor será derramado sobre o povo do Senhor. O Espírito Santo que transmitia a revelação divina aos profetas, e que efetuava a sua relação direta e pessoal com o Senhor, será, na nova dispensação, a possessão comum de todos os homens de Deus (Ez 36.26, 27; Joel 2.28,29).
A salvação messiânica removerá as conseqüências do pecado – (Ez 47.6-12; Is 11.6-9) – Os escritores bíblicos em geral, reconhecem que muitos dos males físicos, como os sofrimentos e tristezas da vida, são os resultados do pecado. A aniquilação do pecado removerá todas as formas do mal que atinge a humanidade. A maldição da terra (Gn 3.17) será tirada, e até, o solo produzirá com maior abundância.

            4.3 – O Reino Messiânico
Os profetas, no seu alto conceito de Deus, não podiam deixar de esperar o aperfeiçoamento do seu reino, o triunfo final da justiça divina no mundo. Em geral, o reino de Deus, na plenitude da sua perfeição, será realizado com a vinda e o governo do Messias, o servo do Senhor.
Embora o reino messiânico só é mencionado a partir de Davi, o conceito do “reino” já estava presente na promessa a Abraão.
O Velho Testamento ensina que Deus dirige, dentro de certos limites, a história de todas as nações, e que os israelitas eram sujeitos às mesmas leis gerais que governavam ao outras nações. A distinção principal da história hebraica é a profecia (revelação de Deus), e por meio da profecia o Senhor dirigiu a história de Israel de acordo com o seu eterno propósito, que realmente inclui todas as nações e povos do mundo.
O progresso dessa visão:
·         Abraão – Este aceita a incumbência de andar pela fé, obedecer às ordens de Deus e ser uma bênção. Recebe como promessa de Deus a terra de Canaã, um grande nome (sua descendência se multiplicaria) e que seu exemplo levaria todos que o abençoassem a serem abençoados, isto é, todos que o favorecesse seria favorecido por Deus.
·         Moisés – A eleição de Israel para o beneficio das outras nações é reconhecida como passo importante no cumprimento da promessa patriarcal (Ex 19.5, 6; Dt 28.9, 10).
·         Davi – O concerto com Davi é geralmente reconhecido como a origem do conceito do reino messiânico, e a base das profecias messiânicas (2 Sm 7.11-16). O concerto com Davi introduziu o conceito de filiação que teve influência na profecia. Nem a desobediência podia revogar o concerto. Os Salmos 2, 22, 89, 110 e outros, juntamente com muitas profecias, falam da plena confiança que o rei ideal e do mundo inteiro virá da linhagem de Davi.
·         Messias – Os profetas entenderam as imperfeições do reino de Deus na vida do seu povo. Para eles, o reino messiânico era a forma futura do reino de Deus, o aperfeiçoamento e a consumação do reino do Senhor, sob o governo do Ungido. O reino messiânico é do próprio Senhor.

            4.4 – O Servo Sofredor
A figura do servo sofredor é a mais importante da esperança profética. Entre os judeus a esperança messiânica se centralizava no Filho de Davi, como o soberano de um reino fundamentalmente político, mas divinamente justo, eterno e universal. Não há certeza de que eles jamais ligassem o conceito do Servo Sofredor com o do Rei Messiânico, mas não pode haver dúvida de que o autor dos textos de Isaías 42, 49, 50 e 53, sobre o Servo do Senhor, apresenta-o como o Agente de Deus que há de conseguir a salvação no mundo. Ele tem quase os mesmos predicados divinos que são atribuídos ao Rei Ungido do Senhor, e ao Filho do Homem, mas temos no retrato dele o ensino sublime de que a redenção será efetuada, não pela missão do Rei político, mas pelo sofrimento vicário do Servo do Senhor.
O Servo foi perseguido e atormentado e os seus sofrimentos foram interpretados pelos observadores como o castigo divino e merecido Morreu, e até na morte foi considerado um criminoso. Mais tarde Deus o exaltou e lhe deu lugar entre os grandes. Os observadores então confessaram que tinham entendido erradamente os sofrimentos do Servo. Sofreu o castigo das transgressões dos seus perseguidores. E tudo isso aconteceu de acordo com a vontade de Deus. Pelos seus próprios sofrimentos, o Servo tinha libertado os pecadores da punição que eles mereciam, para que eles pudessem ficar justificados perante o Senhor. Sim, o sofrimento do Servo foi vicário.

5 – A VIDA FUTURA
Há no Velho Testamento, dois conceitos de escatologia. Um se refere ao aperfeiçoamento futuro do reino de Deus na terra; o outro trata da vida futura do homem além da morte.
O primeiro nasce da revelação do propósito do Senhor na escolha de Israel, e se desenvolve em relação as atividades de Deus na história.
O segundo refere-se ao Sheol como a habitação de todos os mortos, e finalmente apenas como o lugar da punição dos ímpios.
           
5.1 – A Morte Física
Para os hebreus a morte física significava a partida da alma do corpo para se unir com outras almas no mundo subterrâneo (Sheol). Assim a alma se separava do corpo, mas ainda continuava a existir, embora num estado de tristeza e esquecimento, pois se julgava que a personalidade sem corpo não podia mais gozar comunhão com Deus. Cortada da “terra dos vivos”, a mera existência da pessoa quase não tinha mais significação.
Na concepção do antigo Israel, o que sobra após a morte é um mundo de poeira e escuridão, lugar representado pelo Sheol, local de trevas, apavorante, de onde não existe retorno. A morte era um esvaziamento do homem (Ecl.12:7), uma inanição.

O Velho Testamento, em geral, não apóia o ensino de que a morte é um benefício humano, de acordo com a ordem da natureza. A morte é um mal, uma amargura, um terror (Dt 30.15; 1 Sm 15.32; Sl 55.4).
Em toda parte da Bíblia a vida é reconhecida como o dom do Criador, e que não deve ser repudiada.  O suicídio entre os israelitas era muito raro. Nem o sofredor Jó, na sua miséria e nas suas dores terríveis, considerou que o suicídio seria justificável.
A morte é fato de experiência. Homens morrem em todas as variedades de circunstâncias. Alguns, como Abraão, Jacó, José e Moisés, morrem em idade avançada, depois de uma vida ricamente abençoada. Outros são cortados na infância ou na mocidade. Ainda outros caem às mãos do inimigo, na guerra, por doenças, pragas, fome, tempestade, epidemias e terremotos. A morte está sempre ceifando as suas vítimas.
A explicação mais provável para a atitude israelita a respeito da morte em sua consciência social é que para um homem era apavorante morrer sem filhos ou morrer na expectativa de que sua família seria extinta depois dele. Um homem podia continuar a viver, de certa maneira, em seu nome que era usado pelos seus filhos: “fulano, filho de beltrano”. Ele continuava também a viver em seu bom nome, a memória que deixava de si mesmo. A expectativa do israelita de “não morrer inteiramente” era algo que o homem bíblico podia alimentar.

            5.2 – Sheol
Não há no Velho Testamento qualquer declaração para sugerir que a morte fosse a extinção total de uma pessoa.

Pois um fogo se acende na minha ira, e arde até a profundeza do Sheol, devora a terra e a sua novidade, e abrasa os fundamentos dos montes” (Dt 32.22).

As gerações dos antepassados de todos os homens, todas as tribos e nações habitam juntos o Sheol.
O profeta Isaías representa a chegada do rei da Babilônia ao Sheol (Is 14.9-11). Algumas notas a respeito deste texto:
·         “O Sheol embaixo excita-se por ti” – A palavra “excita-se” se refere as almas que lá estão. Elas estão ansiosas pela chegada do rei.
·         Os habitantes do Sheol são chamados de “refaim” (sombras). O que significa que eles estão esquecidos, silenciados (Sl 88.2) e enfraquecidos.
·         O grande ensino é que a morte não termina com a existência do homem.

            5.3 – Novas Revelações Sobre a Vida Futura
A interpretação do significado do cativeiro e a orientação mora e espiritual de Israel pelos profetas, na volta do cativeiro, é uma das maravilhas da história. Este povo derrotado e quebrantado foi levantado pela graça de Deus através do ministério de seus profetas.
O seu Senhor Javé não os tinha desamparado, mas pelos infinitos recursos da Sua sabedoria tinha demonstrado a futilidade de confiar nos poderes políticos como meios de promover o reino de Deus no mundo.
A partir do cativeiro a leitura das promessas de Deus para Israel recebeu revelações surpreendentes através das palavras dos profetas com relação ao futuro de Israel, como povo de Deus.
Para entendermos essa verdade precisamos entender o desenvolvimento da teologia do Velho Testamento.
·         Primeiro - Israel compreendia seu chamado, sua salvação e seu futuro como povo. A missão messiânica era do povo de Israel. O reino messiânico era do povo de Israel. O que levou os israelitas a crerem que fariam parte do reinado eterno do Messias por serem da linhagem de Abraão.
o   O conceito da solidariedade dos hebreus ficou tão profundamente gravado na sua memória com a libertação do Egito, e sua escolha como povo do seu Senhor Javé, que desde o principio da sua história nacional eles davam importância especial ao bem-estar e aos interesses do grupo nacional. A crença profunda na imortalidade nacional impediu o progresso do conceito da imortalidade pessoal.
·         Segundo - A partir da realidade do cativeiro os profetas perceberam que o Reino de Deus, se cumpriria através do Messias, viria da linhagem de Davi com a participação somente dos fiéis e não de todo o povo.
Com isso deu-se inicio ao desenvolvimento da crença da imortalidade pessoal.
o   Pontos de vista pelos quais os hebreus desenvolveram a doutrina da imortalidade. Primeiro – A comunhão dos salmistas com o Senhor demonstrou a semelhança entre o espírito humano e o Espirito de Deus. Da experiência desta comunhão alguns salmista firmaram a crença na imortalidade da alma (Sl 16.10, 11). Segundo – De acordo com o Novo Concerto prometido por Deus, alguns profetas ligaram a certeza da vida além com a crença firme na ressurreição do corpo. Isto significava que a vida no outro mundo seria mais ou menos igual à vida natural do presente.

            5.4 – A Doutrina da Ressurreição do Corpo
A doutrina da imortalidade pessoal, que se originou na experiência pessoal de comunhão de salmistas com Deus, ligou-se também com a esperança na vinda do reino messiânico.
Os justos que morreram antes da vinda do reino perfeito deviam ficar habilitados para participar das bênçãos da nova época. Isto seria conseguido pela ressurreição dos seus corpos, pois o corpo era considerado um elemento constituinte da personalidade.

Resgatá-lo-ei do poder do Sheol? Remi-los-ei da morte? Ó morte, onde estão as tuas pragas? Ó Sheol, onde está a tua destruição? (Os 13.14).

Os teus mortos viverão, os seus corpos se levantarão. Ó vós que habitais no pó, acordai e cantai de júbilo! (Is 26.19).

A passagem de Daniel 12.2, 3 apresenta novas idéias sobre a ressurreição. Comovido o autor, aparentemente pela condição dos mártires, os quais não deviam ficar privados do privilégio de ocupar um lugar de honra no novo reino, ele diz com confiança: E muitos que dormem no pó da terra acordarão, alguns para a vida eterna, e outros para a vergonha e desprezo eterno. Então os sábios resplandecerão como o fulgor do firmamento, e os que levaram a muitos para a justiça refulgirão como as estrelas para todo sempre.
Daniel fala de duas classes de ressurreição. Uma classe que se levantará para a vida eterna e outra para o desprezo eterno.
É claro que Daniel está falando apenas de israelitas, e não tem nada a dizer sobre a ressurreição de gentios.
Os justos voltarão à vida para renovarem a comunhão com Deus e com a comunidade religiosa. Certamente os mártires merecem um lugar no novo reino. O conceito positivo da justiça divina é o fundamento do novo ensino da ressurreição do corpo. Os mártires e os homens fiéis ao Senhor nesta vida, apesar das injustiças que sofreram, serão ressuscitados para receberem a sua recompensa no reino de Deus.
Mas os ensinos de que os ímpios ou os apóstatas, bem como os justos se levantarão introduz um novo motivo na doutrina. Acrescenta a idéia da justiça da retribuição do Senhor. Serão ressuscitados os injustos a fim de que sejam punidos.
Assim se apresentam no Antigo Testamento três passos nos desenvolvimento da idéia de imortalidade:
·         A imortalidade do homem piedoso na época messiânica;
·         A convicção de que a rica comunhão pessoal com Deus não pode ser terminada pela morte;
·         A ressurreição do corpo e a completa renovação da vida pela nova união do espírito com o corpo.




Obs.: Basicamente este material é uma compilação do Livro Teologia do Velho Testamento de A. R. Crabtree, a partir da página 171.




BIBLIOGRAFIA SUGERIDA
1.      BITTENCOURT, Marcos A. M. Apostila de Teologia Bíblica do Antigo Testamento. Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil.
2.      CRABTREE, Asa R. Teologia do Velho Testamento. Rio de Janeiro: Juerp, 1980.
3.      FOHRER, Georg. Estruturas teológicas fundamentais do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982.
4.      HAZEL, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento: questões fundamentais no debate atual. Rio de Janeiro: Juerp, 1987.
5.      MACKENZIE, John. Grandes temas do Antigo Testamento. Porto Alegre: Vozes, 1971.
6.      ROWLEY, Harold Henry. A fé em Israel: aspectos do pensamento do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1977.
7.      SICRE, J. Luis. Introdução ao Antigo Testamento. Petrópolis: Vozes, 1984.
8.      SMITH, Ralph L. Teologia do Antigo Testamento: história, método e mensagem. São Paulo:Vida Nova, 2001.
9.       VON RAD, Gehrard. Teologia do Antigo Testamento. V.I / II. São Paulo: Aste, 1973.


[1] Deus prometeu fazer para Davi uma "casa" (bayit). O que, poderia isto significar? Bayit se referia mais do que a uma residência; era também uma família: pais, filhos e parentes. Noé, por exemplo, entrou na arca com "toda a sua casa" (Gn 7:1), e obviamente não com o edifícío no qual moravam; e Jacó ordenou que sua "família" (lit. "casa") lançasse fora seus deuses estranhos (35:2). Mais tarde, todas as tribos podiam ser divididas em "casas" (agrupamentos familiares grandes, Js 7:14), e a posteridade de uma família, rei ou dinastia seria chamada sua "casa" (Êx 2:1; 1 Rs 11 :38; 12:16; 13:2). Para 2 Samuel 7, o significado de "dinastia" era o mais apropriado, mormente considerando-se que a expressão "a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti " (v. 16) somente poderia significar que a "dinastia"
de Davi reinaria para sempre. Este foi o novo acréscimo ao plano da promessa: tudo quanto tinha sido oferecido aos patriarcas e a Moisés agora estava sendo oferecido à dinastia de Davi, E isto não era tudo; perduraria para o futuro distante (v. 19). Oito vezes, em 2 Samuel 7, Javé prometeu que faria de Davi uma casa (vv. 11, 13, 16, 19, 25, 26, 27, 29), sem contar a ocorrência de idéias paralelas como emprego de outros termos. Explicou-se que a "casa" de Davi era uma linhagem de descendentes (vv. 12, 16, 19, 26, 29), que o Senhor lhe daria de modo perpétuo. Usualmente os monarcas se preocupavam, uma vez que tinham conseguido impor um período de paz após um longo período de conquistas militares, com a durabilidade do seu reino (cf, Nabuoodonosor em Dn 2). Davi, porém, foi aliviado desta preocupação. Sua "dinastia", trono e reino seriam seguros para sempre; foram estabelecidos pelo Senhor.

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