A Divina Tríade: Irineu de Lião e a Doutrina de Deus
Irineu, o bispo
de Lião (140-200 AD, aproximadamente), ocupa um lugar de destaque tanto na
história da igreja em geral quanto na história do pensamento cristão em
particular. A sua vida e obra são especialmente significativas porque ele viveu
em um período importante da igreja primitiva, sobre o qual temos relativamente
poucas informações. O segundo século foi uma época em que os apóstolos, os
sucessores imediatos de Jesus, já não viviam, e a igreja cristã ainda não havia
alcançado a força e estabilidade que iria obter nos séculos seguintes. Foi uma
época de incertezas para o movimento cristão ainda recente, constantemente
ameaçado por perseguições e heresias; uma época em que a igreja, pressionada
pelos desafios lançados tanto por seus críticos pagãos como por seus
dissidentes cristãos e pseudo-cristãos, sentiu-se mais e mais compelida a
explicitar a sua fé em termos claros e convincentes.1
Irineu de Lião
tem sido chamado merecidamente "o pai da ortodoxia cristã", "o
pai da dogmática católica" e "o primeiro grande teólogo sistemático
da igreja."2 Ele também foi caracterizado como o mais importante
teólogo do segundo século, o teólogo que sintetizou o pensamento daquele século
e dominou a ortodoxia cristã antes de Orígenes.3 Curiosamente, Irineu não
foi primariamente um teólogo no modelo escolástico, mas um pastor e mestre da
igreja, um homem preocupado com a integridade da mensagem cristã e com a
unidade, paz e prosperidade do corpo de Cristo. Os seus escritos são uma
resposta direta, motivada por considerações pastorais e práticas, ao sério
desafio e ameaça representados pelo gnosticismo. Portanto, ele se dirige a
outros líderes cristãos para ajudá-los a protegerem os seus rebanhos de
ensinamentos que pervertiam seriamente o evangelho.
A sua luta
decisiva e eficaz contra o gnosticismo coloca Irineu entre os chamados Pais
Anti-Gnósticos. Como tal, Irineu se insere numa longa tradição de defesa
corajosa da fé cristã contra as heresias que foi iniciada pelos autores do Novo
Testamento e teve prosseguimento com os Pais Apostólicos e os
Apologistas.4 Nos seus esforços intelectuais ele foi imediatamente
seguido pelos grandes pensadores do terceiro século, mui especialmente
Tertuliano (c.155-222) e Orígenes (c.185-254).
Ainda que não
tenha sido fundamentalmente um teólogo, muito menos um teólogo sistemático,
Irineu certamente produziu uma teologia profunda, sólida e influente. No
entanto, ao contrário dos Apologistas, particularmente Justino Mártir
(c.100-165), ele nutria grandes suspeitas em relação às especulações
filosóficas, e isto por duas razões—elas não levavam a conclusões certas e
confiáveis e eram, a seu ver, uma das fontes do gnosticismo.5 O traço
peculiar dos escritos de Irineu é a sua natureza explicitamente bíblica. Ele é
acima de tudo um teólogo bíblico, no sentido de que para ele a tradição bíblica
era a única fonte da fé e o verdadeiro fundamento da teologia. Tendo rejeitado
a noção de que o conteúdo da revelação era simplesmente uma nova e melhor
filosofia, Irineu, mais do que qualquer dos seus predecessores, esforçou-se
para fornecer uma síntese de toda a Escritura, cobrindo todas as principais
áreas da teologia cristã.