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By Ferramentas Blog

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

TEOLOGIA REFORMADA 2 - A DOUTRINA DA ELEIÇÃO (PREDESTINAÇÃO) - 1


A DOUTRINA DA ELEIÇÃO (PREDESTINAÇÃO)

Eleição, conhecida também como predestinação e eleição incondicional, é um ato da livre graça de Deus. Com isto em mente procuraremos responder, com a colaboração de vários autores, algumas das perguntas mais comuns sobre a doutrina da eleição e tentar esclarecer as principais dúvidas de crentes sinceros, desejosos de aprenderem um pouco mais desta doutrina bíblica tão enriquecedora.
Minha oração é que o estudo desta doutrina seja uma benção para você como tem sido para mim.
Obs: As notas adicionais e a tradução de alguns textos são de minha autoria.

I. A VERACIDADE BÍBLICA DA DOUTRINA DA ELEIÇÃO POR W. J. SEATON
Esta não é uma filosofia cega, mas é retirada da Palavra de Deus, é construída, sustentada e revelada por ela. O assunto é tão vasto quanto o oceano; mas não podemos fazer mais do que citar alguns versículos chaves das Escrituras que agem como mapa e compasso através desses mares imensos.
A história da Bíblia é a história da eleição incondicional. É estranho que aqueles que se opõem a essa doutrina não reconheçam isso. Alguns crentes têm dificuldade em crer que Deus poderia preterir certas pessoas e escolher outras e, no entanto, aparentemente não têm dificuldade em crer que Deus chamou a Abraão dentre os pagãos de Ur dos Caldeus deixando os outros no paganismo. Por que razão Deus escolheu a nação de Israel como Seu "povo peculiar"? Não há necessidade de especular, pois Deuteronômio 7.7 nos dá a resposta: "O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos: Mas porque o Senhor vos amava...". Por que razão Deus, desrespeitando completamente as leis de família de Israel, escolheu o filho mais novo, Jacó, em lugar do primogênito Esaú? Mais uma vez, "à lei e ao testemunho". Romanos 9.11-13: "... Para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme... Amei Jacó, e aborreci Esaú".
Qual era a doutrina pregada por Jesus na sinagoga em Nazaré, se não a doutrina da eleição incondicional? "Em verdade vos digo que muitas viúvas existiam em Israel nos dias de Elias... E a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a Serepta de Sidom, a uma mulher viúva... E muitos leprosos havia em Israel no tempo do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o siro" (Lc 4.25-27). Sabemos o resultado da pregação dessa mensagem por nosso Senhor: "o levaram até o cume do monte para dali o precipitarem".
Concedemos que há um "tipo de eleição" que é mantida por muitos crentes hoje. De modo geral baseiam-se em Romanos 8.29: "Porque os que dantes conheceu também os predestinou...". A causa se desenvolve aproximadamente da seguinte maneira: Deus previu aqueles que aceitariam a Cristo, "elegendo-os" portanto para a vida eterna. Contra esse ponto de vista salientamos que:
1. A presciência de Deus refere-se a um povo e não a qualquer ação desenvolvida pelo povo. A Bíblia diz: "... os que dantes conheceu...", etc. De novo Deus fala através de Amós: "De todas as famílias da terra a vós somente conheci". Isto é, independente de qualquer ação, boa ou má, Deus os "conheceu" no sentido que os amou e escolheu para serem dEle. É assim que predestinou a Seus eleitos.
2. Não adianta dizer que Deus nos elegeu por ver algo que faríamos – isto é, "aceitar" a Cristo, mas somos escolhidos para que possamos "aceitá-lO". "Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas" (Ef 2.10).
3. Também não resolverá dizer que Deus previu aqueles que acreditariam. Atos 13.48 torna esse ponto completamente claro: "... e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna". Eleição não resulta de acreditarmos, mas nossa crença resulta de sermos eleitos – "ordenados para a vida eterna".
4. Além disso, dizer que exercitamos fé ao aceitar a Cristo e que Deus previu essa fé e, portanto, nos elegeu, somente nos leva mais um passo para traz; pois onde encontramos a fé para exercitar? As Escrituras fornecem a resposta: "É dádiva de Deus, não de nós mesmos". (1).
Certamente, em vez de argumentarmos contra essas coisas, deveríamos estar praticando aquilo que o Espírito Santo, através do apóstolo Pedro, recomenda: "Procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição " (2 Pe 1.10).


II. A EXPOSIÇÃO DA DOUTRINA DA ELEIÇÃO POR R. B. KUIPER
OS ESCOLHIDOS DE DEUS
A igreja consiste dos escolhidos de Deus. Certamente nem todos que estão na lista de membros da igreja visível foram escolhidos por Deus para a vida eterna. Há alguns dentro da igreja que são cristãos nominais e que nunca serão crentes. Estes não estão entre o número dos escolhidos. Porém todos os verdadeiros membros da igreja de Cristo pertencem aos escolhidos.
É possível que não haja outro ensinamento da Palavra de Deus tão impopular como a eleição. Inclusive alguns crentes bíblicos e amantes da Palavra de Deus estão mui próximo de detestá-la. Isto é difícil de entender. Não só se ensina inequivocamente a eleição na Escritura senão que esta doutrina declara enfática e belamente o amor infinito e eterno de Deus pelos seus.
Assim, pois, o fato de que a igreja consiste dos escolhidos de Deus torna mais refulgente sua glória.

Especificados por Deus Pai
 Suponhamos que uma congregação vá construir um templo, uma casa de adoração. O primeiro passo para a realização de tal projeto é contratar um arquiteto, que desenhará um plano para o edifício proposto e especificará que material se usará em dita construção. Como o arquiteto de sua igreja, o Deus Pai a planejou desde a eternidade e especificou precisamente quais pessoas seriam as que a comporiam. Ele a escolheu dentre toda raça humana para esse fim.
Deus falou acerca da igreja do Antigo Testamento como "meu servo Jacó" e "Israel meu escolhido" (Is 45.4). Na saudação de sua carta aos efésios Paulo se regozijou dizendo: "Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade..." (Ef 1.3-5). E Pedro se dirigiu àqueles a quem escreveu sua carta como "eleitos, segundo a presciência de Deus Pai..." (1 Pe 1.2).
Há quem diga que Deus elegeu a todos os homens para que sejam membros do corpo de Cristo. Nada poderia ser mais absurdo. A própria palavra eleição significa a escolha de alguns dentre um número maior, e escolher a todos de um certo número simplesmente não é escolher. Citemos um exemplo: três homens lançam sua candidatura para o cargo de governador de uma província. Certo eleitor, que não pode decidir qual é o melhor candidato para o cargo, decide votar nos três. É claro que o que fez foi perder seu voto! E não é menos lógico que se todos os outros eleitores fizessem o mesmo, não haveria eleição. Disso concluímos que se Deus elegesse todos os homens para que sejam membros de sua igreja não teria elegido nenhum. É iniludível esta conclusão.
É interessante que alguns que sustentam que Deus elegeu todos os homens chegam exatamente a essa conclusão: dizem que a única razão por que uma pessoa chega a ser membro da igreja de Cristo é porque por sua própria vontade escolhe unir-se à igreja. Em outras palavras, alguém chega a ser membro da igreja, não porque Deus o escolhe, mas porque a própria pessoa decide fazê-lo. Assim a eleição é do homem, não de Deus. É difícil imaginar uma contradição mais flagrante da Escritura.
Karl Barth ensina que todos os homens são escolhidos por e em Cristo para a vida eterna. Havendo tomado esta posição, que está abertamente em desacordo com a Escritura, enfrenta um sério dilema. Ele deve, de acordo com o universalismo, concluir que no final todos os homens serão salvos, ou, de acordo com o arminianismo, fazer com que a salvação dependa, no final, da vontade do homem. Não obstante, ele recusa em reconhecer estas alternativas. Deste modo sua doutrina da eleição chega a ser em extremo confusa.
Apresenta-se, então, a importante pergunta: Por que Deus designou certas pessoas dentre as demais para que sejam membros de sua igreja? Têm-se dado duas respostas contraditórias. O arminianismo ensina que Deus escolheu certos indivíduos porque sabia de antemão que eles creriam em Cristo. A teologia reformada insiste que a única razão da eleição de Deus era o divino amor soberano. Isto é, desde a eternidade Deus viu os objetos de sua eleição em Cristo, seu Escolhido. Segundo o arminianismo, a base para a eleição de Deus reside no homem; segundo o calvinismo, reside em Deus. Dito de outro modo, o arminianismo sustenta que a fé é a base para a eleição, enquanto que a fé reformada sustenta que a fé é o fruto da eleição e também sua prova.

Comprados por Deus Filho
Suponhamos de novo que uma congregação planeja construir um templo. Os planos e as outras especificações já foram adotados; o segundo passo é a compra de materiais de construção. Isso é o que também Deus fez para construir sua igreja. Deus, o Filho, comprou os escolhidos, aqueles a quem o Pai havia designado como membros de sua igreja. Paulo relembrou os anciãos da igreja de Éfeso de seu dever de pastorear a igreja de Deus, a qual, disse, "ele comprou com o seu próprio sangue" (At 20.28).
Alguns dos primeiros pais da igreja sustentaram a opinião que Cristo pagou a Satanás o preço com o qual ele comprou os escolhidos. É uma interpretação de todo errônea. Se Cristo tivesse feito isso, teria constituído um reconhecimento de que Satanás havia sido antes o dono legítimo dos pecadores escolhidos. É evidente que Satanás nunca teve tal coisa. As coisas são bem assim: quando o homem pecou, Deus como Juiz sentenciou a raça humana à prisão. Satanás foi, por assim dizer, carcereiro da prisão. Cristo veio para dar sua vida em resgate por certos prisioneiros. Dito em uma maneira mais clara, Ele apresentou o resgate não ao carcereiro, mas ao Juiz. O Juiz aceitou o resgate e ordenou a liberdade daqueles prisioneiros. Assim os prisioneiros são libertados do poder das trevas e transportados para o reino de seu amado Filho (Cl 1.13).
Em nossos dias é muito comum outra falsa interpretação dessa transação. Diz-se que Cristo comprou não só aos escolhidos, mas a todos os homens com seu sangue e que, havendo feito isso, Ele deixou que cada indivíduo escolhesse aceitar ou não o benefício salvífico de sua morte. Essa interpretação fracassa completamente em compreender o amor do Salvador moribundo para com os seus. Sem dúvida, a morte de Cristo é suficiente para a salvação de todos os homens. Contudo, há de se afirmar enfaticamente que nenhum dos que Cristo comprou com seu sangue permanecerá sob o domínio do diabo. Seu amor assegura que todos aqueles que Ele comprou chegarão a ser crentes nEle e membros de sua igreja. Ele fará que tal coisa suceda, não por uma compulsão externa, porém pela influência graciosa de seu Espírito Santo. "O bom pastor dá a vida pelas ovelhas" (Jo 10.11). E Ele verá que até a última ovelha pela qual deu sua vida será trazida ao rebanho.
A Escritura com freqüência fala em termos superlativos acerca do amor de Deus por sua igreja. Diz por exemplo: "Acaso pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti. Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei; os teus muros estão continuamente perante mim" (Is 49.15,16). Esta linguagem é ao mesmo tempo forte em extremo e supremamente terna. Todavia, a revelação do amor de Deus por sua igreja alcança seu cume na compra dessa igreja pelo Filho de Deus com seu próprio sangue. Olhando para o Cristo crucificado, todo membro de sua igreja sussurra: "O qual me amou e se entregou a si mesmo por mim" (Gl 2.20). Em uníssono a igreja lê: "Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rm 5.8-10). E canta:
De sua cabeça, mãos, pés,Precioso sangue ali verteu;Coroa vil de espinhos foi A que Jesus por mim levou.


Reunidos por Deus Espírito Santo
Suponhamos uma vez mais que uma congregação está no processo de levantar um templo. Os planos e as especificações foram aprovados e o material comprado. É obvio que fica mais uma coisa para fazer – construir, ou seja, o processo de colocar o material. Uma vez feito isso, a construção ficará completa. Isso também Deus faz ao edificar sua igreja. Os escolhidos, aqueles que foram designados desde a eternidade pelo Deus Pai e comprados pelo Deus Filho quando morreu na cruz do Calvário, são no curso da história reunidos como igreja cristã pelo Deus Espírito Santo.
O Espírito realiza isso quando concede aos escolhidos a graça da regeneração. Por natureza eles estão mortos em seus delitos e pecados, mas o Espírito de Deus lhes dá vida (Ef 2.1). É uma conclusão segura que em conseqüência crerão no Senhor Jesus Cristo. Alguns dos escolhidos estão predestinados a morrer na infância. Todos estes, certamente, são regenerados antes que partam desta vida, e desde o próprio momento da regeneração possuem o que os teólogos chamam de habitus, a disposição da fé salvadora. Isso os torna membros do corpo de Cristo. E quanto aos escolhidos a quem são concedidos chegar à idade do juízo, seguramente nascerão de novo, embora nenhum ser humano pode dizer a que idade pudesse o Espírito querer conceder-lhe o nascer de novo; e em seu caso a regeneração resultará em uma consciente recepção do Salvador como Ele está apresentado no evangelho. Isso é outra forma de afirmar que cedo ou tarde, pela graça do Espírito Santo, serão membros viventes da igreja de Cristo.
A noção ampliada difundida nos círculos cristãos é que todos os seres humanos, incluindo os não-regenerados, são capazes por sua própria vontade de aceitar a Cristo como Salvador e ao fazer isso unir-se à igreja de Cristo. Com efeito, diz-se que Deus tem deixado essa parte da salvação para o homem. E declara-se que o novo nascimento é uma conseqüência, não um requisito, do ato de fé do homem. Este é um dos erros mais correntes, para não dizer um dos mais sérios do fundamentalismo atual. Por fazer do homem, em última instância, seu próprio salvador, esta heresia comete a maior violência à doutrina cardial da Palavra de Deus, a saber: a salvação pela graça de Deus. A Escritura ensina inequivocamente que ninguém pode vir a Cristo em fé se o Pai não lhe trouxer (Jo 6.44); que antes que a fé chegue a ser um ato do homem, é um dom de Deus (Fp 1.29); e que "ninguém pode dizer: Senhor Jesus! senão pelo Espírito Santo" (1 Co 12.3). A Escritura ensina com a mesma clareza que é Deus quem reúne seus escolhidos na igreja. Foi Deus o Espírito Santo quem, ao aplicar o sermão de Pedro nos corações, reuniu três mil homens e mulheres na igreja no dia de Pentecostes. E foi "o Senhor" quem posteriormente "acrescentava diariamente à igreja os que haviam de ser salvos" (At 2.47).
Que gloriosa manifestação do amor divino é a reunião dos escolhidos na igreja! Se Deus tivesse escolhido certos indivíduos para constituir o corpo de seu Filho, mas tivesse feito com que a realização dessa seleção dependesse do consentimento deles, nenhum deles seria salvo. Se, além de escolhê-los, Deus os comprasse com seu sangue para que fossem membros de sua igreja, mas tivesse feito com que o cumprimento dessa transação dependesse da aceitação de suas condições, todos estariam perdidos. Tão grande é o amor de Deus pelos seus que Ele realiza sua salvação exclusivamente. Não só os escolheu desde a fundação do mundo e os comprou no Calvário, como também é Ele quem torna válidas essa eleição e essa compra por meio da operação de seu Espírito dentro deles. O Espírito Santo os traz da morte para a vida, concedendo-lhes a fé salvadora e assim os torna membros de Cristo. Desde o princípio até o fim, sua salvação depende exclusivamente da graça soberana e do amor infinito de Deus.
A igreja consiste daqueles que Deus ama imensamente.

Salvos para servir
 Agora é necessário chamar a atenção para um aspecto da eleição que às vezes é descuidado por aqueles que confessam esta doutrina. Indubitavelmente a eleição é para a salvação (2), mas a Escritura ensina em uma forma não menos enfática que é também para serviço. A salvação e o serviço são inseparáveis. A salvação é para servir.
Os membros da igreja de Cristo são feitura de Deus, "criados em Cristo Jesus para as boas obras" (Ef 2.10). Porque foram comprados, estão sob a solene obrigação de glorificar a Deus em seus corpos e em seus espíritos, que são de Deus (1 Co 6.20). Cristo se entregou por eles para redimi-los de toda iniqüidade e purificar para Si mesmo um povo peculiar, zeloso de boas obras (Tt 2.14). E digamos com toda a ênfase de que somos capazes – Deus Pai escolheu a sua igreja em seu amor soberano, o Filho a comprou com seu precioso sangue, e o Espírito Santo veio para morar nela com o fim de que testificasse. É raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus para que anuncie as virtudes daquele que a chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pe 2.9).
A igreja consiste daqueles que amam e servem ao Deus trino, porque Ele os amou primeiro.

A ELEIÇÃO E A EVANGELIZAÇÃO
 Vez por outra se ouve a idéia de que a eleição torna supérflua a ação evangelizadora. Pergunta-se "Se o decreto da eleição é imutável e, portanto, torna absolutamente certa a salvação dos eleitos, que necessidade têm eles do Evangelho? Os eleitos não vão ser salvos mesmo, ouçam ou não o Evangelho?".
A premissa desse argumento é inteiramente verdadeira. A eleição divina torna a salvação dos eleitos inalteravelmente certa. Mas a conclusão derivada dessa premissa revela grave incompreensão da soberania divina como expressa no decreto da eleição.
Enquanto que a eleição é feita na eternidade, não se pode perder de vista a verdade de que sua concretização é um processo que se dá no tempo, ou seja, dentro da história. Muitos fatores tomam parte nesse processo. Um deles é o Evangelho. E por sinal é um fator da maior significação (3).
Não se confunda a soberania de Deus com a Sua onipotência. Certamente Deus é todo-poderoso. Significativamente, o conciso Credo Apostólico se refere a este atributo de Deus, não uma, porém duas vezes. Se Deus quisesse, poderia pelo emprego da simples força levar para o céu os eleitos, e igualmente pelo emprego da simples força lançar ao inferno os não eleitos. Mas Ele não faz nada disso. Preordenação não é compulsão e a certeza não exclui a liberdade. Ninguém jamais foi convertido ao cristianismo à força. Todo verdadeiro convertido volta-se para Cristo porque quer – embora seja certo que este querer é dom de Deus, transmitido a ele por ocasião do seu novo nascimento. Deus trata os seres humanos como criaturas racionais, capazes de agir livremente. Por isso, Ele arrazoa e dialoga com os não salvos por meio do Evangelho. Quer "persuadir" os homens (2 Co 5.11). E no caso dos eleitos, Ele aplica o Evangelho aos corações deles de maneira salvadora, mediante o Espírito Santo.
Não se vá supor que o soberano decreto de Deus só se refere aos fins, com a exclusão dos meios. Por mais ênfase que se dê, não será suficiente para expressar que Deus preordenou tudo que sucede. Tudo abrange os meios, como os fins. Para ilustrar, Deus não somente predeterminou que dado fazendeiro colhesse este ano dez mil arrobas de trigo; predeterminou também que colhesse aquela quantidade como resultado de muito trabalho duro. Do mesmo modo, Deus não decretou apenas que certo pecador herde a vida eterna, mas decretou que esse pecador receba a vida eterna por meio da fé em Cristo, e que obtenha a fé em Cristo por meio do Evangelho.
Não se pode imaginar a soberania de Deus como se ela eliminasse a responsabilidade do homem. Como os mais cultos e competentes teólogos e filósofos se mostraram incapazes de conciliar a soberania divina com a responsabilidade humana perante o tribunal da razão, sempre se corre o risco de dar ênfase a uma delas em detrimento – ou mesmo com a exclusão – da outra. Mas a Bíblia ensina as duas verdades com grande ênfase. Aquele que aceita com humilde fé a Bíblia como a infalível Palavra de Deus, dará vigoroso destaque tanto a uma como à outra. Portanto, o pregador do Evangelho tem de dizer ao pecador, não apenas que a salvação é só pela graça soberana, mas também que, para ser salvo, ele precisa crer em Jesus como Salvador e Senhor. Por um lado, deve pregar que os eleitos de Deus serão salvos com toda a segurança; por outro lado, deve proclamar a advertência de que aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele (João 3.36). Mesmo os eleitos precisam desta admoestação, pois faz parte integrante do método que Deus adotou para levá-los à salvação.
Agora fica assegurada uma conclusão das mais significativas. Em vez de tornar supérflua a evangelização, a eleição requer a evangelização. Todos os eleitos de Deus têm que ser salvos. Nenhum deles pode perecer. E o Evangelho é o meio pelo qual Deus lhes comunica a fé salvadora. De fato, é o único meio que Deus emprega para esse fim. "A fé vem pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus" (Romanos 10.17).
Observe-se que, por paradoxal que pareça, a eleição é universal. Certamente, a eleição é a escolha de certas pessoas, dentre um maior número, para a vida eterna. Assim a eleição reflete particularismo. Contudo, num sentido real, a eleição é universal. Deus tem os Seus eleitos em todas as nações e em todas as épocas. A igreja é composta de "eleitos de toda nação", e em nenhum período da história os eleitos pereceram na terra, e jamais acontecerá isto no futuro. Deus quer que o Evangelho seja proclamado no mundo todo e em todo o tempo para que seja congregada a soma total dos eleitos. É bom repetir, pois: a eleição exige a evangelização.
A mesma verdade pode-se ver de outro ângulo. A Escritura ensina que a eleição foi feita com vistas às boas obras. Disse Paulo: "Somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas" (Efésios 2.10). E a Escritura ensina especificamente que a eleição foi feita com vistas ao testemunho. Disse Pedro: "Vós sois raça eleita ... a fim de proclamardes as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" (1 Pedro 2.9). Deus escolheu determinadas pessoas, não só para irem para o Céu quando morrerem, mas também para serem Suas testemunhas enquanto estiverem na terra. Digamos outra vez: a eleição exige a evangelização.
Eis outra conclusão igualmente significativa: a eleição assegura que a evangelização resulte em conversões genuínas. O pregador do Evangelho não tem como dizer quem em seu auditório pertence aos eleitos e quem não pertence. Mas Deus sabe. E Deus está pronto para aplicar e abençoar Sua Palavra nos corações dos Seus eleitos para a salvação. O momento preciso em que apraz a Deus fazer isso no caso de um eleito individual, não sabemos, mas é certo e seguro que o fará antes da morte da pessoa. Exatamente tão certo como todos os eleitos de Deus serão salvos, é certo que a palavra do Evangelho não tornará a Deus vazia (Isaías 55.11).

A preterição e o oferecimento do Evangelho
 A eleição tem seu reverso. Se Deus escolheu da raça humana decaída certo número para a vida eterna, é óbvio que passou outros por alto, deixando-os em seu estado de perdição e decretando sua condenação por seus pecados. Teologicamente, este aspecto da predestinação é conhecido como preterição, rejeição ou reprovação. Tem-se alegado que esta doutrina elimina o sincero e universal oferecimento do Evangelho. Se Deus decretou desde a eternidade que certos homens pereçam eternamente, dizem os oponentes, é inconcebível que Ele, dentro da história, convide sinceramente a todos, sem distinção, para a vida eterna.
Numa tentativa para refutar esse argumento, às vezes se faz a observação de que o pregador humano não tem meios para saber quem é eleito e quem não é, e que, portanto, ele não tem outro recurso senão proclamar o Evangelho a todos, indiscriminadamente. Embora válida, essa observação não atinge o ponto. A questão é se Deus, que sabe infalivelmente quais são os Seus eleitos e quais não são, faz sincero oferecimento da salvação a todos os que são alcançados pelo Evangelho.
Fato da maior importância é que a Palavra de Deus ensina inequivocamente, tanto a reprovação divina, como a universalidade e a sinceridade do oferecimento do Evangelho. É inegável que Romanos 9.21,22 ensina a doutrina da reprovação: "Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para desonra? Que diremos, pois, se Deus querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira, preparados para a perdição...?". Também a ensina 1 Pedro 2.8, onde se faz menção dos "que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram destinados". (...) o universal e sincero oferecimento do Evangelho é firme e certamente ensinado em Ezequiel 33.11, 2 Pedro 3.9 e em outras partes mais.
Também podemos admitir – ou melhor, tem que ser admitido – que estes ensinos não podem ser conciliados entre si pela razão humana. Tanto quanto possa interessar à lógica humana, um exclui o outro. Todavia, a aceitação de um deles com a exclusão do outro é condenada como racionalismo. A norma da verdade não é ditada pela razão humana, e sim pela infalível Palavra de Deus.
É digno de nota que, na história da igreja cristã, os teólogos que têm insistido mais na verdade da rejeição divina, são os que têm defendido também, e da maneira mais enfática, o universal e sincero oferecimento do Evangelho. Seguem alguns exemplos.
É do conhecimento geral que João Calvino ensinava a doutrina da reprovação divina. Às vezes ele até assumia a posição supralapsária, assim chamada. Quer dizer, defendia a idéia de que o decreto da predestinação precedeu logicamente os decretos da criação e da queda. No entanto, ao comentar Ezequiel 18.23, passagem paralela a Ezequiel 33.11, disse ele: "Não há nada que Deus deseja mais ardentemente do que, que aqueles que estejam perecendo e correndo para a destruição retomem o caminho da segurança". E continuou: "Se alguém objetar – bem, neste caso não há nenhuma eleição de Deus pela qual Ele tenha predestinado um número fixo para a salvação – a resposta está à mão: o profeta não fala aqui do secreto conselho de Deus, mas somente evoca aos homens em desgraça o seu desespero, para que aprendam a esperança de perdão, arrependam-se e abracem a salvação oferecida. Se alguém mais contestar – isso é fazer Deus agir com duplicidade – a resposta está preparada, que Deus sempre quer a mesma coisa, embora por diferentes meios e de modo inescrutável para nós. Portanto, embora a vontade de Deus seja simples, grande variedade a envolve, no que diz respeito aos nossos sentidos. Além disso, não é surpreendente que nossos olhos sejam cegados por luz intensa, de modo que, certamente, não podemos julgar como é que Deus quer que todos se salvem e, contudo, destinou todos os reprovados à destruição eterna, e quer que eles pereçam. Enquanto olhamos através de um vidro, obscuramente, devemos satisfazer-nos com a medida do nosso entendimento".
Os Cânones de Dort ensinam inconfundivelmente a doutrina da reprovação. Dizem eles: "O que peculiarmente tende a ilustrar e a recomendar-nos a eterna e imerecida graça da eleição é o expresso testemunho da Sagrada Escritura de que não todos, mas somente alguns são eleitos, enquanto que outros são deixados de lado no decreto eterno. A estes Deus, por seu soberano, justíssimo, irrepreensível e imutável beneplácito, decidiu deixar caídos em sua miséria comum à qual se tinham lançado voluntariamente, e não lhes dar a fé salvadora e a graça da conversão. Mas, permitindo em seu justo julgamento que sigam os seus próprios caminhos, decidiu afinal, para a manifestação da sua justiça, condená-los e puni-los para sempre, não somente por causa da incredulidade deles, mas também por todos os seus outros pecados" (I, 15). Todavia, os Cânones insistem: "Todos quantos são chamados pelo Evangelho, são chamados com sinceridade. Pois Deus declarou ardorosa e verdadeiramente em Sua Palavra o que é aceitável a Ele, a saber, que aqueles que são chamados, venham a Ele" (III, IV, 8).
Em apoio do ensino de Dort que transcrevemos acima, Herman Bavinck negou tanto que a fé seja a causa da eleição como que o pecado seja a causa da rejeição, e insistiu em que a eleição e a rejeição têm suas raízes no soberano beneplácito de Deus. Para ser exato, ele ensinou que Deus decretou soberanamente, desde a eternidade, que alguns homens escapariam da punição dos seus pecados, e outros não (Gereformeerde Dogmatick, II, 399). Mas na mesma obra clássica, aquele calvinista bem equilibrado afirmou também: "Embora através do chamamento a salvação se torne a porção de apenas uns poucos... ele /o chamamento/, não obstante, é de grande valor e significação também para aqueles que o rejeitam. Para todos, sem exceção, é prova do infinito amor de Deus, e sela a declaração de que Ele não tem prazer na morte do pecador, mas que ele se volte e viva" (IV, 7).

A apresentação da eleição aos não salvos
 Não se pode simplesmente suprimir a pergunta sobre que lugar, se há algum, a doutrina da eleição deve ocupar na pregação aos não salvos. A Escritura e as confissões calvinistas dizem-nos que a verdade da eleição visa primariamente os crentes. O propósito ao qual ela serve em benefício deles foi admiravelmente resumido nos Cânones de Dort. Dizem eles: "O senso e a certeza desta eleição comunicam aos filhos de Deus matéria adicional para a sua humilhação diária diante dele, para adorarem a profundidade das Suas misericórdias, para se purificarem e para oferecerem gratas retribuições de ardente amor a Ele, que manifestou primeiro tão grande amor para com eles" (I, 13).
Uma velha ilustração torna bem claro o uso que não deve ser feito da doutrina da eleição ao lidarmos com pessoas não salvas. Pode-se falar da casa da salvação. Seu alicerce é o decreto divino da eleição, e sua entrada é Cristo. Ele disse: "Eu sou a porta" (João 10.9). Quando os que pela graça de Deus se acham dentro convidam os de fora para entrar, indicam para eles o alicerce ou a porta? A resposta é mais que evidente. Assim, quando o carcereiro de Filipos perguntou a Paulo e a Silas o que devia fazer para salvar-se, eles não o aconselharam a que procurasse descobrir se estava na lista dos eleitos; mandaram-no crer no Senhor Jesus Cristo (Atos 16.31).
Vamos concluir que os homens devem ser mantidos na ignorância da eleição enquanto não receberem a Cristo pela fé? Naturalmente a resposta a esta pergunta deve ser negativa. Sem dúvida, a Assembléia de Westminster estava bem fundamentada ao advertir que "a doutrina deste alto mistério de predestinação deve ser tratada com especial prudência e cuidado" (Confissão de Fé de Westminster, III, 8), mas isto não pode significar que deva ser mantida oculta dos não salvos. Muito ao contrário, eles devem ser advertidos que não torçam esta verdade e exortados a fazerem uso apropriado dela.
Especificamente, deve-se dizer a eles que a eleição dá lugar à salvação pela graça divina, que os méritos humanos estão fora de cogitação, e que, portanto, há esperança para o maioral dos pecadores; que o Deus da eleição convida com sinceridade, cordialmente e mesmo com urgência, todo pecador para a salvação; que a predestinação longe de excluir a responsabilidade humana, definitivamente a inclui, de modo que todos os que ouvem a proclamação do Evangelho estão, por dever sagrado, moralmente obrigados a crer, e, não sendo Deus a causa da incredulidade como é a causa da fé, os que persistem na incredulidade perecem por inteira culpa deles mesmos; que o decreto da eleição não é secreto no sentido de que ninguém pode estar certo de pertencer aos eleitos, mas que, ao contrário, visto que a fé em Cristo é o fruto e também a prova da eleição, a pessoa pode ter tanta certeza de que está incluída no número dos eleitos como de que é crente em Cristo Jesus; que a casa para a qual eles são convidados tem alicerce imutável e eterno, de sorte que aquele que entra, ainda que o inferno todo o ataque, não terá a mínima possibilidade de perecer, mas, com absoluta certeza herdará a vida eterna.

NA ELEIÇÃO DEUS NÃO É PARCIAL E NÃO FAZ ACEPÇÃO DE PESSOAS
Alguém que "faz acepção de pessoas", é alguém que, atuando como juiz, não trata aqueles que vêm ante ele conforme seu caráter, senão que nega a uns o que justamente lhes pertence e dá a outros o que não é justamente deles – isto é, é alguém governado pelo prejuízo e por motivos sinistros, e não pela justiça e pela lei. As Escrituras negam que Deus faça acepção de pessoas neste sentido; e se a doutrina da predestinação apresenta Deus atuando desse modo, teremos que admitir que Deus é injusto.
As Escrituras ensinam que Deus não faz acepção de pessoas, porque Ele não escolhe um e rejeita outro com base em circunstancias externas como raça, nacionalidade, riquezas, poder, nobreza, etc. Pedro diz que Deus não faz acepção já que Ele não faz distinção entre judeus e gentios. Sua conclusão após ser divinamente enviado a pregar ao centurião romano, Cornélio, foi, "Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável" (At 10.34,35). Através de toda sua história os judeus creram que como povo eram objetos exclusivos do favor de Deus. Uma leitura cuidadosa de Atos 10.1 a 11.18 revelará quão revolucionária era a idéia de que o evangelho haveria de ser pregado aos gentios também.
Paulo, igualmente, diz, "glória, porém, e honra e paz a todo aquele que pratica o bem; ao judeu primeiro, também ao grego. Porque para com Deus não há acepção de pessoas" (Rm 2.10.11). E, novamente, "Já não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há varão nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus". Logo acrescenta que não são os judeus externamente, mas aqueles que são de Cristo os que, no sentido mais profundo, pertencem a "linhagem de Abraão", e "herdeiros segunda a promessa" (Gl 3.28,29). Em Efésios 6.5-9 ordena os servos e senhores a se tratarem com justiça; por que Deus, que é Senhor de ambos, não faz acepção de pessoas; e em Colossenses 3.25 inclui igualmente as relações entre pais e filhos e entre esposas e esposos. Tiago diz que Deus não faz acepção de pessoas porque não faz distinção entre rico e pobre, nem entre aqueles que usam vestiduras finas e os que se vestem com simplicidade (Tg 2.1-9). O termo "pessoa" nestes versículos significa, não o homem interior, ou a alma, mas a aparência externa, que tão freqüentemente influi tanto em nós. Portanto, quando as Escrituras afirmam que Deus não faz acepção de pessoas, isto não significa que Deus trata a todos por igual, senão que a razão pela qual Ele salva um e rejeita outro não é porque um seja judeu e o outro gentio, ou porque um seja rico e o outro pobre, etc.
Se todas as pessoas fossem inocentes, Deus seria injusto e se deixaria levar de respeitos humanos se as tratasse de maneira desigual, salvando umas e condenando as demais. O fato, no entanto, é que todos são pecadores e nada merecem de Deus.
Deus é misericordioso para com aqueles a quem salva, sem ser injusto para com aqueles a quem condena, visto como podia ter condenado a todos sem ser injusto. Quando a Bíblia diz que Deus não faz acepção de pessoas, não quer dizer que Ele não distingue pessoas, dando a uns o que nega a outros. Que todas as pessoas não têm os mesmos dons e as mesmas oportunidades é um fato inegável. Sabemos existir muita gente que nunca teve oportunidade de ouvir o Evangelho, e nações inteiras, durante séculos, foram privadas desse privilégio. Quando a Bíblia diz que Deus não faz acepção de pessoas quer dizer que ele não faz distinção por motivo de raça, riqueza, condição social, etc., e também que Ele recompensará cada um de acordo com as suas obras. Veja-se Atos 10.34; Romanos 2.11; Tiago 2.9 e 1 Pedro 1.17. Nenhuma diferença faz entre judeus e gentios; julgará a todos de conformidade com as obras de cada um, visto como não faz acepção de pessoas. Mas nossa salvação não é algo devido aos nossos méritos; procede da graça divina. A este respeito Deus pode dizer o que o proprietário, respondendo, disse: "Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário? Toma o que é teu, e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti. Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque os meus são bons?" (Mt 20.13-15).
O decreto divino da eleição não pode ser acusado de parcialidade, porque isto só é cabível quando uma parte tem o que exigir de outra. Se Deus fosse obrigado a perdoar e salvar o mundo inteiro, seria parcial se salvasse apenas alguns e não todos. Parcialidade é injustiça. Um pai é imparcial e injusto se desconsidera direitos e exigências iguais de todos os seus filhos. Um devedor é parcial e injusto se, no ato de pagar a seus credores, favorece uns às custas dos outros. Nestes casos uma parte tem certa reivindicação a fazer sobre a outra. Mas é impossível Deus mostrar parcialidade em salvar do pecado, porque o pecador não tem qualquer direito ou reivindicação a apresentar.
A afirmativa de que Deus é obrigado, seja nesta vida, seja na outra, a oferecer perdão de pecados mediante Cristo a todo o mundo, não apenas não tem apoio na Escritura, como é contrário à razão, visto como transforma a graça em dívida, envolvendo o absurdo de que, se o juiz não oferece perdão ao criminoso, contra quem lavrou sentença condenatória, não o trata com eqüidade.

IV. CONCLUSÃO: POR JOSIVALDO DE FRANÇA PEREIRA
 A eleição ou predestinação é a missão resgate de Deus, pois Deus não deixou todo o gênero humano perecer no estado de pecado e miséria que merecia. A doutrina da eleição não é uma filosofia cega. É construída, sustentada e revelada pela Palavra de Deus. Veja por exemplo Deuteronômio 7.6-9; Atos 13.48; Romanos 8.29,30; Efésios 1.4,5; 2 Tessalonicenses 2.13; 2 Timóteo 2.10; Tito 1.2, etc. Esta eleição, conforme dizem corretamente os teólogos calvinistas, é "incondicional", isto é, Deus elege independente de méritos, fé ou obras do indivíduo. E isto só é possível porque a eleição é um ato gracioso de Deus (Rm 11.5). Sendo assim, devemos compreender que a eleição divina nunca é uma questão de justiça. Portanto, erram aqueles que dizem que Deus seria injusto se escolhesse alguns e não todos para a salvação. A eleição é questão de graça. A condenação sim, é questão de justiça.
Mas ninguém poderá entender a doutrina bíblica da eleição se não compreender adequadamente a doutrina bíblica do pecado. Porque "a pressuposição do eterno decreto divino da eleição é que a raça humana é caída; a eleição envolve o plano gracioso de Deus para o resgate" (Fred H. Klooster). Você acredita realmente que todos pecaram em Adão (cf. Rm 5.12) e que ninguém é merecedor da vida eterna? (cf. Rm 3.23). Se a sua resposta for afirmativa, então esteja certo de que nunca poderá entender a eleição como sendo injustiça. Deus teria sido perfeitamente justo se não elegesse ninguém (cf. Mt 20.14,15; Rm 9.14,15); no entanto, Ele quis, soberanamente, mostrar para alguns o Seu favor imerecido. Por isso, Paulo fala da "eleição da graça" (Rm 11.5). Na verdade, tudo que recebemos de bom é pura expressão da graça de Deus para conosco, como por exemplo, o arrependimento para a vida eterna (At 11.18), a salvação em Cristo (At 15.11; Ef 2.8,9) e o serviço cristão (1 Co 15.10; Ef 2.10).
Deus também não faz acepção de pessoas, porque Ele não escolhe uma pessoa e rejeita outra com base em circunstâncias externas como raça, nacionalidade, riquezas, poder, nobreza, etc. O fato de Deus não salvar todo mundo só confirma a tese de que Ele não é obrigado a salvar todo mundo. Graça não é dívida; é graça!
É importante esclarecer que a eleição divina não é a salvação; é para a salvação (2 Tm 2.13; 2 Tm 2.10). E entre ambas (eleição e salvação) está a evangelização, servindo de ponte para ligar duas partes inseparáveis (Rm 10.14-17; cf. At 18.9-11). Com isto aprendemos que não procede o falso conceito de que se uma pessoa é eleita, ela será salva independentemente de crer ou não em Cristo pelo evangelho. Pensar assim seria simplesmente um absurdo! Como também não procede a idéia de que esta doutrina da eleição "acomoda o crente para a evangelização". A eleição, conforme a Bíblia também ensina, é para serviço (cf. 1 Pe 2.9; 2 Pe 1.10). "Serviço" aqui deve ser entendido no mais amplo sentido do termo: evangelização, ação social, etc; portanto, somente os desavisados acreditariam que a eleição acomoda o crente para a obra de Deus. Lendo 2 Timóteo 2.10, aprendemos que para Paulo a eleição incentivava a evangelização ("tudo suporto por causa dos eleitos", dizia) e garantia os bons resultados da evangelização ("para que também eles [como os demais crentes] obtenham a salvação que está em Cristo Jesus com eterna glória"). Não é verdade que o apóstolo que mais defendeu a doutrina da predestinação foi um dos que mais trabalhou na obra de Deus? (1 Co 15.9,10).
Além da salvação e o serviço propriamente ditos, a eleição tem, ainda como finalidade, a santidade de vida (Ef 1.4). A eleição é "para sermos santos". Deste modo, também não tem sentido a objeção de que a certeza de salvação que a eleição produz leva à libertinagem. A vida que não se expressa em santidade é incompatível com a doutrina bíblica da eleição (cf. 2 Pe 1.3-11).

PERGUNTAS PARA RECAPITULAÇÃO
  1. Conforme R. B. Kuiper, o que é uma eleição?
  2. Por que a eleição divina é incondicional?
  3. Por que a eleição exige a evangelização?
  4. De que modo a eleição auxilia na evangelização?
  5. Por que na eleição não há injustiça?
  6. Como é possível Deus eleger sem fazer acepção de pessoas?
NOTAS
(1). Em 2 Tessalonicenses 3.2 Paulo diz que "a fé não é de todos" e em Tito 1.1 que a fé "é dos eleitos de Deus".
(2). Leia 2 Tessalonicenses 2.13.
(3). Veja Atos 13.48.



Autor Desconhecido

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