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By Ferramentas Blog

terça-feira, 14 de maio de 2013

REFLEXÃO 94 - A BEM-AVENTURANÇA QUE AINDA NÃO ALCANCEI


A bem-aventurança que ainda não alcancei.

Ricardo Gondim

A bem-aventurança que ainda não alcancei.

Ricardo Gondim.

Meu pai faleceu no dia seis de dezembro de 2005. Em seu funeral, agradeci a Deus por seu maior legado em minha vida: dignidade. Na época do golpe militar de 1964, papai não tergiversou e foi preso. Conduzido para a Base Aérea do Galeão, permaneceu incomunicável durante muitos meses. Sofreu tortura, passou humilhação e mesmo depois de julgado e inocentado, foi expulso das Forças Armadas. Implacavelmente patrulhado pelo regime, meu pai foi um exemplo de firmeza.

Diante dele, percebi que existem algumas virtudes que ainda não alcancei. Reconheço que não me encaixo na bem-aventurança de Mateus 5.10: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus”.


Não posso me incluir nessa promessa porque nunca fiz nenhuma vigília solitária nas calçadas dos hospitais públicos que desprezam o direito do pobre, nunca marchei pelos idosos e nunca corri risco algum por crianças abandonadas; ainda não me amarrei a uma árvore para não permitir que ela seja cortada pela gula da especulação imobiliária; ainda não fiz greve de fome por nenhuma causa.

Não posso reivindicar ser incluído neste versículo do Sermão da Montanha se para mim o tráfico internacional de prostitutas não passa de apenas uma notícia bizarra do noticiário das oito. Ainda não articulei nenhuma passeata contra o avanço da pedofilia. Como posso me considerar bem-aventurado, se analiso o Movimento dos Sem Terra com lentes ideológicas e não percebo em cada um daqueles marchantes maltrapilhos um ser humano carente de dignidade?

Depois que enterrei meu pai, meditei sobre minha vocação e agora atino sobre os porquês de nunca terem me algemado ou perseguido.

Fui institucionalizado. O sistema me engoliu. Por toda minha vida aceitei passivamente que as bandeiras ideológicas fossem arriadas pelo poder do capital. Ingenuamente não escutei quando um pastor chinês me advertiu há mais de vinte anos que nenhuma ideologia, partido político ou sistema religioso consegue resistir ao poder do capital. Assim, de braços cruzados, deixei minha geração capitular diante do consumismo materialista. De uma arquibancada, assisti muitas igrejas se transformarem em balcões de serviços religiosos e muitos pastores virarem mercadejadores da Palavra de Deus. .

Jesus prometeu aos perseguidos por causa da justiça uma grande recompensa nos céus. Mas não posso esperar tal galardão. Minha vocação profética é simbólica, com pouca densidade. Sempre achei mais fácil criticar do que me envolver. Esqueço que o movimento desencadeado por Rosa Parks contra as leis racistas do sul dos Estados Unidos só progrediu porque Martin Luther King não temeu marchar pelas ruas do Alabama. O aparthaid da África do Sul só foi desmantelado porque o bispo anglicano Desmond Tutu resolveu transformar seus sermões em ação política e o metodista Nelson Mandela passou 30 anos na cadeia.

Confesso. Ainda não me vejo digno da felicidade de receber o mesmo galardão dos profetas. Enquanto eles defenderam os órfãos e as viúvas, eu me contentei em pregar uma mensagem desencarnada. Por anos, falei do céu para fugir das injustiças que me rodeavam. Errei, ao prometer salvação como forma de mitigar o sofrimento imposto aos pobres por governos sem prioridades. Falhei, quando não atinei para a advertência de Tiago (1.27): “A religião que Deus, nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo”.

No sermão do Monte só uma virtude é mencionada duas vezes: justiça. Ela é tão prioritária para Jesus que, só entenderei completamente seu valor quando seguir seus passos rumo ao Calvário.

Vale lembrar do Frei Betto, que também sofreu na ditadura. Enclausurado e sem perspectiva de ser livre, ele notou que seus algozes procuravam humilhá-lo ainda mais. Usando artifícios legais, procuravam mudar sua condição de preso político para um condenado comum. Assim, esse frei católico fez uma greve de fome como forma de resistência. Depois de vários dias sem alimentação, debilitado e perigosamente próximo da morte, seus familiares tentaram dissuadi-lo, pedindo-lhe que voltasse atrás: “Betto pare, nossa maior dádiva é a vida”, disseram. “Não jogue ela fora por um detalhe jurídico”, insistiram. Resoluto, ele respondeu: “Não, a maior dádiva que recebi de Deus não foi a vida, e sim minha dignidade”. A bem-aventurança que gera dignidade nasce do compromisso com a justiça, da disposição de transformar valores em ação, e da inconformação com a covardia.
 

Sei que ainda tenho muito que aprender e crescer, mas antes de fazer minha última travessia, espero ser incluído nessa felicidade que pertence somente àqueles que podem repetir com Paulo (Atos 20.24): “Todavia, não me importo, nem considero minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou”.


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