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By Ferramentas Blog

terça-feira, 30 de setembro de 2014

HISTÓRIA DA IGREJA NO BRASIL 2 - A HISTÓRIA DA EVANGELIZAÇÃO DO BRASIL

A História da Evangelização do Brasil: Os Calvinistas Franceses no Século XVI

É impossível estudar a história da evangelização do Brasil sem reconhecer a importância do primeiro esforço missionário realizado em nossa Pátria pelos calvinistas franceses entre 1557 e 1556. Para o catolicismo, o Brasil começa a ser evangelizado com a chegada de Pedro Álvares Cabral. Em suas caravelas ele trouxe: sete frades franciscanos, oito capelães e um vigário. Em 1549 chegaram os jesuítas. No entanto, foi através dos calvinistas franceses que a jovem nação brasileira teve a oportunidade de ouvir e conhecer o Evangelho da Graça de Deus pela primeira vez.

1. A Invasão Francesa (1555-1567). Os franceses partiram para o Brasil em 15 de julho de 1555. Em 10 de novembro do mesmo ano, sob o comando de Nicolau Durand de Villegaignon, invadiram o Rio de Janeiro. Villegaignon era católico convicto mas, ainda na França, aproximou-se dos protestantes, revelando alguma simpatia por eles, que parecia sincera. A França queria dominar uma faixa territorial do Brasil para fundar a chamada França Antártica. Diante do sucesso inicial dos franceses, Villegaignon escreveu ao Almirante Gaspard de Coligny (França) e a João Calvino (Genebra) pedindo missionários. Calvino e o Conselho de Genebra viram com alegria a oportunidade de alcançar as terras brasileiras com a pregação do evangelho. Em resposta, os missionários foram enviados. Villegaignon não conseguiu levar adiante a sua missão de conquistador do Brasil, e mais tarde, voltou para a França, ficando em seu lugar Bois-le-Conte. Depois de muitas batalhas, os franceses foram expulsos do Brasil em 20 de janeiro de 1567.


2. Os Calvinistas Franceses. Assim, a primeira tentativa de implantação do Protestantismo no Brasil se deu através dos calvinistas franceses que pregavam princípios do presbiterianismo reformado. Em resposta ao pedido de Villegaignon, Calvino enviou 14 missionários. Chegaram no Rio de Janeiro em 07 de março de 1557(desembarcaram em 10 de março do mesmo ano). O objetivo deles era organizar uma Igreja Reformada em nosso país, e criar um ambiente que servisse de refúgio aos protestantes perseguidos na França e em toda a Europa, pela inquisição Católica. Eles saíram de Genebra em 10 de setembro de 1556. Todos traziam credenciais assinadas por João Calvino. Villegaignon precisava de gente fiel, educada e temente a Deus para ocupar o Brasil. Neste propósito, os calvinistas vieram a calhar muito bem. Em 10 de março de 1557, numa quarta-feira, foi realizado o primeiro culto evangélico no Brasil. O culto foi dirigido pelo pastor Pierre Richier, o mais experiente dos ministros, com idade de 50 anos. O culto constou de um cântico do Salmo 5, e o sermão baseado em Salmo 27:4. Em todas as noites eram realizados cultos, e aos domingos havia pregação do Evangelho duas vezes e a ministração dos Sacramentos (Santa Ceia e Batismo) uma vez por mês. Neste mesmo ano (1557), em 21 de março, a Santa Ceia foi celebrada pela primeira vez no Brasil, ministrada pelo pastor Jean Jacques le Balleur (chamado pelos portuguesses de João Bollés).
Durante o ano de 1557, uma importante Igreja Reformada foi organizada na região do Rio de Janeiro. Havia cultos regulares; ministração dos Sacramentos; e até um Conselho foi oficialmente constituído, segundo o modelo presbiteriano. Esta Igreja contava já com muitos membros e simpatizantes da pregação evangélica.

3. A Traição. No entanto, em menos de um ano, Villegaignon traiu a causa dos missionários, e voltou-se para o catolicismo. Depois daí, as perseguições começaram. Villegaignon começou a questionar as doutrinas e práticas dos missionários (a abolição de vestimentas e adornos sacerdotais; a negação da transubstanciação; a abolição de sal, saliva e óleo no batismo; a rejeição da autoridade papal; ajuntamentos sem casamento etc). Diante das adversidades, os missionários decidiram voltar para a França. Embarcaram num velho navio chamado Jacques,em 04 de janeiro de 1558. Mas, depois de sete ou oito dias de viagem, o navio começou a "fazer água", correndo risco de afundar. Para diminuir peso, cinco missionários resolveram voltar para a Baía da Guanabara; eram eles: Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André la Fon e Jean Jacques le Balleur.Em terra tiveram que enfrentar a crueldade de Villegaignon que procurava motivos para condená-los à morte. No propósito de condená-los, Villegaignon elaborou um questionário com perguntas controvertidas e pediu respostas dos missionários. O pedido foi feito em 08 de fevereiro de 1558, com prazo de 12 horas para a resposta. A resposta foi uma Confissão de Fé que tounou-se a primeira elaborada no Continente Americano. Esta Confissão foi tomada como prova de acusação. Tendo em mãos a Confissão de Fé que solicitou, Villegaignon, a 09 de fevereiro de 1558,mandou prender e martirizar os quatro missionários que a subscreveram. Apenas Jean Jacques le Balleur não subscreveu a Confissão tendo fugido para São Vicente (São Paulo), escapando da morte naquele momento. Estiveram presos de 04 de janeiro a 09 de fevereiro do ano de 1558.

4. Os Primeiros Mártires. Dos quatro missionários, três foram mortos (sofreram estrangulamento e, ainda vivos, tendo as mãos e pés atados, foram lançados ao mar, na Baía da Guanabara). Eram os pastores Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon. Todos foram mortos numa sexta-feira, em 09 de fevereiro de 1558. O quarto missionário, André la Fon, era alfaiate, negou a fé, e foi poupado. Jean du Bourdel, o mais velho, foi quem escreveu a Confissão de Fé, em resposta aos questionamentos de Villegaignon. Confirmando o que escrevera na Confissão, levou uma bofetada de Villegaignon. Sangue jorrou da sua boca e nariz, e como deixou escorrer uma lágrima de dor, fo objeto de zombaria do agressor que o tratou de efeminado. Em seguida, foi levado a um rochedo, estrangulado e jogado ao mar. Matthieu Verneuil também foi levado para o alto de um rochedo, orou e entregou-se ao carrasco, dizendo: "Senhor Jesus, tem piedade de mim". Foi estrangulado e também jogado ao mar. Pierre Bourdon, que estava muito doente, foi conduzido ao sacrifício. Antes de ser morto, elevou os olhos aos céus e orou: "Senhor Deus, sou também como aqueles meus companheiros que com honra e glória pelejaram o bom combate pelo teu Santo Nome e, por isso, peço-te me concedas a graça de não sucumbir aos assaltos de Satanás, do mundo e da carne. E perdoa, Senhor, todos os pecados por mim cometidos contra a tua magestade, e isto eu te peço em nome do teu filho amado, Jesus Cristo". André la Fon não permaneceu firme. Foi poupado. Enquanto aprisionados, esperando a morte, repetiam a mesma atitude de Paulo e Sila (Atos 16:25): cantavam, louvavam e trocavam palavras de ânimo. Villegaignon ficou conhecido como o "Caim da América".

5. Jean Jacques le Balleur. Diante do sacrifício dos companheiros, Jean Jacques le Balleur fugiu para São Vicente (São Paulo), onde realizou intensa atividade evangelística. Aprisionado em 1559, foi conduzido para a Bahia onde permaneceu encarcerado por oito anos, até 1567. Foi condenado a morrer queimado, recorreu da sentença ao cardeal Henrique de Lisboa. Mas, antes de ser julgado o recurso, Mem de Sá, Governador Geral, instigado pelos jesuítas, fez com que fosse transferido para o Rio de Janeiro, pois deveria morrer onde principiara o seu ministéiro aqui no Brasil. Foi condenado a morrer por enforcamento. O padre José de Anchieta acompanhou o missionário calvinista, tentando demovê-lo da fé, para que escapasse da morte. No enforcamento, o carrasco, que tinha sido evangelizado pelo missionário agora condenado, hesitou em executar a pena. Neste ponto, José de Anchieta, fiel seguidor da Inquisição, toma a frente do carrasco e enforca o indefeso missionário Jean Jacques le Balleur, e diz ao carrasco hesitante: "Eis aí como se mata um homem." (HEULHARD, Artur. Roy Del'Amerique.1897, pp. 170-1). Jean Jacques le Balleur era teólogo versado na língua espanhola, no latim, no grego e no hebraico. Foi enforcado pelo padre José de Anchieta, no Rio de Janeiro, no dia 20 de março de 1567.

6. José de Anchieta. Nasceu em Tenerife, Ilhas Canárias (Espanha), no dia 19 de março de 1534. Em 1548 foi estudar na Universidade de Coimbra (Portugal), onde permaneceu até os 18 anos. Em 1551, tornou-se jesuíta. Em 08 de maio de 1553, com vinte anos, embarca para o Brasil, aqui chegando em 13 de julho deste mesmo ano. Em 1965, na Bahia, recebeu a ordenação sacerdotal. Atuou na Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. Morreu em 09 de junho de 1597, aos sessenta e três anos de idade. No dia 22 de junho de 1980, João Paulo II decretou em Roma "a beatificação do Padre José de Anchieta, da Companhia de Jesus".

7. O empenho evangelístico de le Balleur. Observe o que Anchieta e outros jesuítas escreveram sobre o empenho evangelístico de "le Balleur": "Um dos moradores desta terra (França Antártica, como era conhecido o Rio de Janeiro) era um João Bollés, homem douto nas letras latinas, gregas e hebraicas e mui lido na Escritura Sagrada, mas grande herege. [...] com os seus chegou e ficou em São Vicente. Ali começou a vomitar a peçonha das suas herezias, ao qual resistiu o padre Luis da Grã e o fez mandar preso à Bahia." (ANCHIETA, José de. Informações e Fragmentos Históricos, p. 11).
Em carta de 01 de junho de 1560, Anchieta escreveu sobre os crentes: "Todos eles são hereges, aos quais mandou Calvino dois que lhe chamam Ministros para lhes ensinar o que haviam de crer. [...] Neste mesmo tempo um deles (João Bollés) ensinava artes liberais, grego e hebraico e era mui versado na Sagrada Escritura, e ou por medo de seu Capitão (Villegaignon) que tinha opinião diferente dele, ou por querer semear os seus erros entre os portugueses, uniu-se aqui com outros três companheiros idiotas. Este que sabe bem a língua espanhola começou logo a espalhar que era fidalgo letrado e com esta sua opinião, e uma fácil e alegre conversação que muito fazia admirar os homens para o estimarem. [...] Passaram-se muitos dias quando começou a vomitar de seu estômago cheio de fedor dos seus erros, dizendo muitas coisas sobre as imagens dos santos e o que aprovava a Santa Igreja do Santíssimo Corpo de Cristo, do Romano Pontífice, das Indulgências e outras muitas coisas que adubava com certo sal de graça, de maneira que as suas palavras ao povo ignorante não só não pareciam amargas, mas mesmo doces. [...] O padre Luis da Grã foi ao vigário 'requerendo que não deixasse ir adiante esta peçonha luterana e com sermões públicos admoestasse ao povo que se acautelasse daqueles homens e dos livros que trouxeram, cheios de heresias.' E, além do mais, já a pestilência pouco a pouco grassava nos corações incautos da imperita multidão que sem dúvida muitos se infeccionaram da peçonha mortal sem haver a menor resistência. [...] Depois disto, o mandaram para a Bahia para lá se conhecer mais amplamente da sua causa e o que lá e aqui se fez acerca dele". (ANCHIETA, José de. Carta de 1º de junho de 1560).
Em 1559, o jesuíta Manoel da Nóbrega, escreve sobre os missionários calvinistas: "E porque não existe pecado que nesta terra não haja, também topei com opiniões luteranas e com quem as defendesse". (Cartas de Manoel da Nóbrega, p. 152).
Leonardo Valle, outro jesuíta, em carta de 26 de junho de 1562, escreve: "E não é tanto de espantar isto em gente rústica do mar, como neste que está preso como já saberão, passa de um ano, vai em dois, em uma aldeia e, contudo, tão pertinaz como se outro letrado não houvera no mundo. E ali onde está não deixa de falar o que lhe convém à vontade. E é ele tão gabado de sutil e delicado engenho que se Nosso Senhor por sua bondade não ajudasse nesta parte tanto a nação portuguesa, como sempre ajudou, não poderia deixar de se apegar alguns dos que ali vão. [...] mas nesses poucos dias que aqui andou se aproveitaram bem de sua doutrina. [...] o ouvidor geral, achando que o herege pudesse figir, como estava sem ferros, lhe mandou deitar, o que ele não quis consentir, e foi nisso tão remisso que duas ou três vezes mandou a justiça apontar nele com uma seta para o matar. (Revista do Instituto Histórico, Vol XLII, pp. 188-90).
O padre Pero Rodrigues, em 1607, escreveu: "Posto eu este capitão (Nicolau de Vilelgaignon) era católico e comendador de Malta, contudo muitos dos seus eram hereges calvinistas, e entre eles um João de Bollés [...]. Era ele bom humanista latino, grego e tocava de hebraico; muito visto na Sagrada Escritura, mas entendida conforme a perversa interpretação dos hereges, começou logo meio em segredo e meio em público, a falar com pessoas ignorantes, desfazendo na santidade e uso dos sacramentos e nas imagens e na autoridade das bulas e indulgências do mesmo pontífice e como falava bem espanhol, e entremetia as suas graças, com gosto da conversão ia também lavrando o veneno de sua péssima doutrina, de modo que tinha já ganhado com o vulgo ignorante e teve nome de grande sábio." (Anais da Biblioteca Nacional. Vol. XIX, p. 49).
Cinqüenta e quatro anos depois da expulsão dos franceses e da morte do missionário Jean Jacques le Balleur, uma nova tentativa visando estabelecer a mensagem protestante no Brasil aconteceu, agora, através do esforço da Igreja Reformada Holandesa. Era uma Igreja calvinista, estatal, e que adotava os princípios característicos do presbiterianismo. As esquadras holandesas conduziam naturalmente os pastores da Igreja Reformada Holandesa. No entanto, isto não significa que estes pastores e missionários não tivessem uma firme convicção da necessidade de expansão da mensagem do evangelho no Brasil, independente dos propósitos políticos e econômicos da Holanda com a ocupação do Nordeste. 

1. Ocupação Holandesa em Salvador – 1624/25. Com esta ocupação holandesa começa a segunda tentativa de trazer para o Brasil a pregação do evangelho conforme o modelo bíblico reformado. O Nordeste do Brasil é que está em foco agora. Em maio de 1624, os holandeses aportaram em Salvador (capital do Brasil na época), onde permaneceram até maio de 1625, quando foram expulsos. Com os exércitos holandeses vieram os pastores e missionários da Igreja Reformada Holandesa. O primeiro culto na cidade de Salvador realizou-se no dia 11 de maio de 1624, um dia após a captura da cidade, sendo dirigente e pregador o Rev. Enoch Sterthenius.  Durante este período, são citados sete pastores que atuaram na capital baiana, dentre eles os pastores Enoch Sterthenius e Johannes Neander. Uma importante igreja reformada foi organizada ali nesta época. Com a expulsão, em 1625, a igreja reformada nascente não pôde avançar em seu trabalho, mas muitas famílias permaneceram, por muito tempo, fazendo o Culto Doméstico.

2. A Presença Holandesa no Nordeste de 1630 a 1654.
Expulsos da Bahia, os holandeses se reorganizaram e invadiram Pernambuco em 1630. A partir daí, o tempo da ocupação holandesa pode ser dividida em três períodos: o período da resistência (1630-1636); o período da resignação (1637-1644); e o período da insurreição (1645-1654). Com a chegada dos holandeses, igrejas reformadas começaram a ser organizadas ao longo de Sergipe ao Maranhão (depois da experiência inicial em Salvador). Foi também realizada intensa obra educacional e filantrópica em toda a região nordestina, cooperando os pastores e missionários com Maurício de Nassau na criação de escolas, hospitais e orfanatos. Em conseqüência destes avanços sociais, já em 1635 as quatro capitanias nordestinas estavam sob o domínio holandês.
Maurício de Nassau, destacado governante e crente reformado, chegou ao Brasil (Recife) em 23 de janeiro de 1637, e logo mandou celebrar culto em ação de graças pela sua chegada. Nassau passou para a história como um governador sábio, virtuoso e temente a Deus. Era seu capelão o Rev. Franciscus Plante. Seu primo, Carlos Nassau, foi morto em Porto Calvo (Alagoas) em 1637. Seu irmão, João Maurício, foi morto em 1639 na Baía de Todos os Santos. Nesta época, a população “holandesa” era de cerca de 12 mil no Nordeste.

3. Obra da Igreja Reformada Holandesa no Nordeste. Traçando o perfil dos pastores que aqui estiveram, prefaciando a obra do Rev. Francisco Leonardo, “Igreja e Estado no Brasil Holandês, Richard J. Sturz diz: “Puritanos em seu comportamento e exemplares em suas atividades, aqueles calvinistas deixaram sua marca no nordeste, a qual permaneceu muito depois de terem sido expulsos dali. Conforme designação da época, a principal tarefa dos pastores era ser “Verbi Divini Minister (“Servo da Palavra de Deus”). Expunham incessantemente o ensino bíblico, inclusive no que se referia aos temas sociais e econômicos. Como registra o Rev. Francisco Leonardo, em livro já citado, falando sobre aqueles pastores: “Em sua maioria eram alunos do reformador João Calvino e seu sucessor, o francês Theodorus Beza. Conheciam o pensamento econômico e social de Calvino, exposto nos seus inúmeros comentários sobre os livros bíblicos, em sermões e outras publicações.1
A tarefa de educar o povo segundo os princípios reformados era árdua, mas a linha mestra do ensino era clara, porque a Reforma havia trazido uma revolução na avaliação do trabalho e da educação. O trabalho deve dignificar e não escravizar o homem. Matinho Lutero e João Calvino haviam enfatizado que todo cristão era um sacerdote, cada um na sua profissão honesta. Trabalhar era bom, e poder trabalhar uma bênção de Deus. Para mendigos profissionais não havia mais lugar. Por outro lado, fazia-se um alerta constante contra o trabalho excessivo. Era roubar a si próprio o querer enriquecer privando-se do repouso (para descanso pessoal e serviço ao Senhor) e dos divertimentos permitidos e dignos (para a satisfação pessoal e a boa comunhão familiar). Portanto, eles eram contra a secularização do trabalho, e igualmente contra o seu endeusamento. A educação, por sua vez, era direito de todos. O conhecimento enobrece o homem e impede a proliferação de heresias.
Da Bahia ao Maranhão, a Igreja Reformada Holandesa espalhou a mensagem do evangelho o quanto pôde. Como já vimos, uma importante comunidade cristã chegou a ser constituída em Salvador. Seguindo para o Norte, em Sergipe, foi instituída uma igreja reformada, ainda que fosse um pequeno grupo naquela região. 
Em Alagoas, a cidade de Porto Calvo teve igreja com pastor residente, o Rev. Nicolaus Vogel (1639-1643). Era a terra de Calabar (homem importante na região que abraçou o evangelho). De passagem por ela, Matias de Albuquerque dominou uma pequena guarnição holandesa comandada por Alexander Picardt, e prendeu Calabar, levando-o imediatamente à condenação. Calabar foi considerado traidor pelos portugueses, foi estrangulado, esquartejado e colocado em estacas o que sobrou do seu corpo. Cremos que o alagoano Domingos Fernandes Calabar pode ser considerado o primeiro mártir brasileiro da pregação reformada em nosso País. Ainda em Alagoas, foi edificado um forte em Penedo (AL) chamado Forte Maurício, onde foi organizada uma igreja com pastores residentes, bem como em Alagoas do Sul (localidade incerta ao sul da atual cidade de Maceió).
Em Pernambuco, os holandeses chegaram em 15 de fevereiro de 1630. Era capelão da esquadra de ocupação o Rev. Johannes Baers. Em 1631 a ilha de Itamaracá foi ocupada construindo-se ali o Forte de Orange, sob a direção do capitão protestante Chrestofie Arciszewski. Neste mesmo ano, Olinda foi incendiada e ocupada. A conversão de Domingos Fernandes Calabar facilitou grandemente esta ocupação.2 Os moradores de Pernambuco chegaram a prestar o mesmo juramento de lealdade assim como os paraibanos. Aproximadamente, um quarto da população recifense se reunia nos templos da Igreja Reformada (uma freqüência de cerca de 2 mil pessoas). Apesar da presença holandesa ser da ordem de 12 mil pessoas, apenas 400 eram membros da Igreja Reformada Holandesa. Isto significa que os crentes calvinistas não podem ser acusados de culpa por desmandos que certamente foram cometidos pelos holandeses (não cristãos) durante este período.
Depois da experiência de Salvador, é certo que as primeiras Igrejas foram organizadas em Recife e Olinda, sendo assistidas, nos primeiros anos, por seis pastores, dentre eles, o Rev. Johannes Baers. O primeiro culto em Pernambuco aconteceu em 14 de fevereiro de 1630, dirigido pelo mesmo Rev. Johannes Baers.
Ao sul do atual Estado de Pernambuco havia cristãos reformados em Serinhaém, Ipojuca, Cabo Santo Agostinho (atual Suape) e Santo Antônio do Cabo (atual Cabo/PE), que receberam assistência do pastor inglês Thomas Kemp. A igreja da capital da ocupação holandesa (Recife) abrangia os distritos de Recife, Maurícia na Ilha Antônio Vaz e Olinda. Também na cidade de Igaraçu, a cidade mais antiga do Nordeste. Indo para o Norte, havia a igreja na ilha de Itamaracá e na vila de Goiana.
Na Paraíba, as fortalezas e a cidade de Filipéia da Paraíba se renderam em 24 de dezembro de 1634. Logo depois foi firmado o “Pacto da Paraíba, que garantia liberdade aos moradores portugueses, inclusive de religião, exigindo-se deles que fossem leais aos holandeses. Há o registro de um ex-padre jesuíta, Manuel de Morais, que foi enviado para a Holanda e que provavelmente abraçou a fé reformada. Na capitania da Paraíba havia uma igreja na capital, outra no forte de Margarita (homenagem à mãe de Maurício de Nassau) ou Cabedelo. Um dos primeiros pastores a trabalhar na Paraíba foi o Rev. Jodocus a Stetten, que elaborou o primeiro relatório pastoral conhecido na América Latina.
Quando do enfrentamento que resultou na expulsão dos holandeses de Salvador, um reforço holandês foi enviado, sob o comando de Boudewvn Hendricksz, mas chegou tarde demais. Então seguiram para o norte, e chegaram na Paraíba, na Baía da Traição, onde permaneceram por seis semanas (1625). Fizeram amizade com os índios locais, evangelizaram, e levaram seis deles para a Holanda, onde foram educados nas Escrituras e na língua holandesa, professando também a fé reformada. Dentre eles destaca-se o índio Pedro Poti, que veio a ser fundamental no trabalho missionário da Igreja Reformada no Nordeste.3 
No Rio Grande do Norte, os holandeses consolidaram a ocupação em 1633. Uma aliança firmada com os índios tapuias, os tarairiu, comandados pelo seu chefe Nhandui, o “ema pequena”, facilitou as ações da Igreja na região. O primeiro culto reformado realizou-se no forte Ceulen (atual Reis Magos), sob a direção de um “pastor auxiliar”, no dia 12 de dezembro de 1633, e logo no domingo seguinte, em 18 de dezembro, também na pequena cidade de Natal.
No Ceará, a ocupação holandesa aconteceu em dezembro de 1637. Na fortaleza de Schoonenburch (onde morreu o Rev. Thomas Kemp) foi realizado o primeiro culto reformado naquela região.
Para o Maranhão, seguiu em 1641 com a frota holandesa invasora, o Rev. Caspar Velthusen. Foi organizada uma igreja em meio a muitas dificuldades. Foi ali que o Rev. Cornelis van der Poel escapou por pouco de ser assassinado por envenenamento, não tendo a mesma sorte seu companheiro, o comandante Van Bremen.
Ao todo, existiram durante algum tempo vinte e duas igrejas reformadas em solo brasileiro. Dentre elas há as três congregações reformadas compostas de índios situadas entre Itamaracá e Paraíba, eram Itapecerica (Rev. Johannes Eduardus), a Ilha de Maurícia (Rev. David à Doreslaer), e Massurepe (aldeia do índio convertido Pedro Poti, onde ministrou o Rev. Thomas Kemp). Finalmente, havia uma pequena congregação reformada na ilha de Fernando de Noronha. Assim, durante este período, havia uma igreja reformada nos lugares mais importantes do Nordeste daqueles dias.
Das vinte e duas igrejas existentes, doze delas chegaram a ser organizadas formalmente conforme o modelo presbiteriano (com Conselho e Junta Diaconal). Eram elas as igrejas de Salvador (BA), Rio São Francisco no Forte Maurício (Penedo/AL), Porto Calvo (AL), Sirinhaém (PE), Cabo Santo Agostinho (Suape/PE), Santo Antonio do Cabo (PE), Recife (PE), Itamaracá (PE), Goiana (PE), Paraíba (Filipéia da Paraíba), Forte Margarita em Cabedelo (PB) e Rio Grande do Norte (Natal).
Em 1636 foi organizado o primeiro Presbitério, subordinado à Igreja Reformada Holandesa, sendo denominado como Classe do Brasil da Igreja Cristã Reformada (classe ou presbitério), reunindo todas as igrejas reformadas do Brasil. Em 1642 este primeiro presbitério foi desdobrado em Classe de Pernambuco e Classe da Paraíba, que constituíram juntos o Sínodo do Brasil, igualmente subordinado à Igreja Reformada Holandesa.   

4. A Expulsão dos Holandeses e o Declínio da Obra Religiosa  1654. Em 1654 os holandeses foram expulsos do país, e as comunidades reformadas que foram fundadas no nordeste foram sendo suprimidas aos poucos até que desapareceram. Interpretendo este fato, o Rev. Francisco Leonardo registra: A igreja reformada chegou e saiu com a bandeira holandesa. Não havia nenhuma possibilidade de sobrevivência de uma Igreja Cristã Reformada sob a bandeira portuguesa naquela época (Schalkwijk, Frans Leonard. Igreja e Estado no Brasil Holandês, p. 103).





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