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By Ferramentas Blog

quarta-feira, 22 de junho de 2016

HISTÓRIA DA IGREJA 9 - A LIBERDADE NOS PAÍSES BAIXOS

A LIBERDADE NOS PAÍSES BAIXOS

Nos Países Baixos a tirania papal já muito cedo suscitou resoluto protesto. Setecentos anos antes do tempo de Lutero, dois bispos, enviados em embaixada a Roma, ao se tornarem conhecedores do verdadeiro caráter da "Santa Sé", dirigiram corajosamente ao pontífice romano as seguintes acusações: Deus "fez rainha e esposa Sua a Igreja, e proveu-a de abundantes bens para seus filhos, com dote que se não consome nem se corrompe, e deu-lhe uma coroa e cetro eternos; … tudo o que vos beneficia, e como um ladrão interceptais. Sentais-vos no templo como Deus; em vez de pastor vos fizestes lobo para as ovelhas; … quereis fazer-nos crer que sois o bispo supremo, quando nada mais sois que tirano. … Conquanto devais ser servo dos servos, como chamais a vós mesmos, esforçais-vos por vos tornar senhor dos senhores. … Trazeis o desdém aos mandamentos de Deus. … O Espírito Santo é o edificador de todas as igrejas até onde se estender a Terra. … A cidade de nosso Deus, da qual somos cidadãos, atinge todas as regiões dos céus; e é maior do que a cidade chamada Babilônia pelos santos profetas, a qual pretende ser divina, elevando-se ao céu e se jacta de que sua sabedoria é imortal; e finalmente afirma, ainda que sem razão, que nunca errou, nem jamais poderá errar." – História da Reforma nos Países Baixos e em Redor Deles, Brandt.

Outros surgiram de século em século para fazer soar este protesto. E aqueles primitivos ensinadores que, atravessando diferentes países, eram conhecidos por vários nomes e tinham as características dos missionários valdenses, espalhando por toda parte o conhecimento do evangelho, penetraram nos Países Baixos. Suas doutrinas se difundiram rapidamente. A Bíblia valdense foi traduzida em verso para a língua holandesa. Declararam "que havia nela grande vantagem. Nada de motejos, fábulas, futilidade, enganos, mas palavras de verdade. Com efeito, havia aqui e acolá uma dura crosta, mas a medula e doçura do que é bom e santo podiam ser nela facilmente descobertas". – Brandt. Assim escreveram no século XII os amigos da antiga fé.
Começaram então as perseguições romanas; mas em meio das fogueiras e torturas os crentes continuaram a multiplicar-se, declarando firmemente que a Bíblia é a única autoridade infalível em matéria de religião, e que "nenhum homem deveria ser coagido a crer, mas sim ser ganho pela pregação". – Martyn.
Os ensinos de Lutero encontraram terreno propício nos Países Baixos, e homens ardorosos e fiéis surgiram para pregar o evangelho. De uma das províncias da Holanda veio Meno Simons. Educado como católico romano, e ordenado ao sacerdócio, era completamente ignorante em relação à Escritura, e não a queria ler de medo de cair no engano da heresia. Quando o impressionou uma dúvida a respeito da doutrina da transubstanciação, considerou isso como tentação de Satanás, e pela prece e confissão procurou dela libertar-se, mas em vão. Entregando-se ao desregramento, esforçou-se por fazer silenciar a voz da consciência; sem resultado, porém. Depois de algum tempo foi levado ao estudo do Novo Testamento, o qual, juntamente com os escritos de Lutero, o fez aceitar a fé reformada. Logo depois, testemunhou numa aldeia vizinha a decapitação de um homem, morto por ter sido rebatizado. Isto o levou a estudar na Bíblia a questão do batismo infantil. Não pôde encontrar prova para ele nas Escrituras, mas viu que o arrependimento e a fé eram tudo que se exigia como condição para receber o batismo.
Meno retirou-se da igreja romana e dedicou a vida a ensinar as verdades que recebera. Tanto na Alemanha como nos Países Baixos surgira uma classe de fanáticos, defendendo doutrinas absurdas e sediciosas, ultrajando a ordem e a decência, e levando a efeito a violência e a insurreição. Meno viu os terríveis resultados a que tal movimento conduziria inevitavelmente, e com tenacidade se opôs aos ensinos errôneos e ferozes planos dos fanáticos. Muitos havia, entretanto, que tinham sido transviados por esses fanáticos, renunciando, porém, posteriormente a suas perniciosas doutrinas; e restavam ainda muitos descendentes dos antigos cristãos, fruto dos ensinos valdenses. Entre essa classe Meno trabalhou com grande zelo e êxito.
Durante vinte e cinco anos viajou, com a esposa e filhos, suportando grandes agruras e privações, e freqüentemente em perigo de vida. Atravessou os Países Baixos e a Alemanha do norte, trabalhando principalmente entre as classes mais humildes, mas exercendo vasta influência. Eloqüente por natureza, posto que possuísse limitada educação, era homem de integridade inabalável, espírito humilde e maneiras gentis, e de uma piedade sincera e fervorosa, exemplificando na própria vida os preceitos que ensinava, e recomendando-se à confiança do povo. Seus seguidores estavam esparsos e eram oprimidos. Sofriam grandemente por serem confundidos com os fanáticos adeptos de Münster. Não obstante, grande número se converteu pelos seus labores.
Em parte alguma foram as doutrinas reformadas mais geralmente recebidas do que nos Países Baixos. Em poucos países suportaram seus adeptos mais terríveis perseguições. Na Alemanha, Carlos V havia condenado a Reforma, e com prazer teria levado à tortura todos os seus partidários; mas os príncipes mantiveram-se como uma barreira contra sua tirania. Nos Países Baixos seu poder foi maior, e editos perseguidores seguiam-se uns aos outros em rápida sucessão. Ler a Bíblia, ouvi-la ou pregá-la, ou mesmo falar a respeito dela, era incorrer na pena de morte pela tortura. Orar a Deus em secreto, deixar de curvar-se perante as imagens, ou cantar um salmo, eram também puníveis de morte. Mesmo os que renunciassem seus erros, eram condenados, sendo homens, a morrer pela espada; e sendo mulheres, a ser enterradas vivas. Milhares pereceram sob o reinado de Carlos e de Filipe II.
Certa ocasião uma família inteira foi levada perante os inquisidores, acusada de não assistir à missa, e de fazer culto em casa. Ao serem examinados quanto às suas práticas particulares, respondeu o filho mais moço: "Pomo-nos de joelhos, e oramos para que Deus nos ilumine a mente e perdoe os pecados; oramos pelo nosso soberano, para que seu reino seja próspero e sua vida feliz; oramos pelos nossos magistrados, para que Deus os guarde." – Wylie. Alguns dos juízes ficaram profundamente comovidos; no entanto, o pai e um dos filhos foram condenados à fogueira.
A cólera dos perseguidores igualava-se à fé que tinham os mártires. Não somente homens, mas delicadas senhoras e moças ostentavam coragem inflexível. "Esposas tomavam lugar junto aos suplícios de seus maridos e, enquanto estes suportavam o fogo, elas balbuciavam palavras de consolação, ou cantavam salmos para animá-los." Jovens se deitavam vivas nas sepulturas, como se estivessem a entrar em seu quarto para o sono noturno; ou saíam para o cadafalso e para a fogueira, trajando seus melhores vestidos, como se fossem para o casamento." – Wylie.
Como nos dias em que o paganismo procurou destruir o evangelho, o sangue dos cristãos era semente. (Ver a Apologia, de Tertuliano.) A perseguição servia para aumentar o número das testemunhas da verdade. Ano após ano o monarca, despeitado até à loucura pela resolução invencível do povo, persistia na obra cruel, mas em vão. Sob o nobre Guilherme de Orange, a Revolução trouxe finalmente à Holanda liberdade de culto a Deus.
Nas montanhas de Piemonte, nas planícies da França e praias da Holanda, o progresso do evangelho foi assinalado com o sangue de seus discípulos. Mas nos países do norte encontrou pacífica entrada. Estudantes em Wittenberg, voltando para casa, levaram a fé reformada para a Escandinávia. A publicação dos escritos de Lutero também propagou a luz. O povo simples e robusto do norte, deixou a corrupção, a pompa e as superstições de Roma, para acolher a pureza, a simplicidade e as verdades vitais da Bíblia.
Tausen, o "Reformador da Dinamarca", era filho de camponês. Desde a infância deu mostras de vigoroso intelecto; tinha sede de saber; mas este desejo lhe foi negado pelas circunstâncias em que seus pais se achavam, e entrou para o claustro. Ali, sua pureza de vida bem como diligência e fidelidade, conquistaram a benevolência de seu superior. O exame demonstrou possuir talento que prometia em algum futuro bons serviços à igreja. Foi decidido dar-lhe educação em uma das universidades da Alemanha ou dos Países Baixos. Concedeu-se ao jovem estudante permissão para escolher por si mesmo uma escola, com a condição de que não fosse a de Wittenberg. Não convinha expor o educando ao veneno da heresia. Assim pensaram os frades.
Tausen foi para Colônia, que era então, como hoje, um dos baluartes do romanismo. Ali logo se desgostou com o misticismo dos escolásticos. Aproximadamente por esse mesmo tempo obteve os escritos de Lutero. Leu-os com admiração e deleite, desejando grandemente o privilégio de receber instrução pessoal do reformador. Mas para fazer isso, deveria arriscar ofender a seu superior e privar-se de seu arrimo. Decidiu-se logo, e pouco tempo depois se matriculou na Universidade de Wittenberg.
Voltando à Dinamarca, de novo se dirigiu a seu mosteiro. Ninguém, por enquanto, o suspeitava de luteranismo; não revelou seu segredo, mas sem despertar preconceitos dos companheiros, esforçava-se por levá-los a uma fé mais pura e vida mais santa. Expôs-lhes a Bíblia e explicou seu verdadeiro sentido, pregando-lhes finalmente a Cristo como a justiça do pecador e sua única esperança de salvação. Grande foi a ira do prior, que nele havia depositado extraordinárias esperanças como valoroso defensor de Roma. Foi logo removido de seu mosteiro para outro, e confinado à cela sob estrita fiscalização.
Para o terror de seus novos guardiães, vários dos monges logo se declararam conversos ao protestantismo. Através das barras da cela, Tausen comunicara aos companheiros o conhecimento da verdade. Fossem aqueles padres dinamarqueses peritos no plano da igreja de como tratar a heresia, e a voz de Tausen jamais teria sido de novo ouvida; mas, em vez de o confiar ao túmulo nalguma masmorra subterrânea, expulsaram-no do mosteiro. Estavam, então, reduzidos à impotência. Um edito real, apenas promulgado, oferecia proteção aos ensinadores da nova doutrina. Tausen começou a pregar. As igrejas lhe foram abertas, e o povo reunia-se em multidão para ouvi-lo. Outros também estavam a pregar a Palavra de Deus. O Novo Testamento, traduzido para a língua dinamarquesa, circulou amplamente. Os esforços feitos pelos romanistas a fim de destruir a obra, tiveram como resultado estendê-la e, não muito depois, a Dinamarca declarava aceitar a fé reformada.
Na Suécia, também, jovens que haviam bebido da fonte de Wittenberg, levaram a água da vida a seus patrícios. Dois dos dirigentes da Reforma sueca, Olavo e Lourenço Petri, filhos de um ferreiro de Orebro, estudaram com Lutero e Melâncton, e foram diligentes em ensinar as verdades que assim aprenderam. Semelhante ao grande reformador, Olavo despertava o povo pelo seu zelo e eloqüência, enquanto Lourenço, à semelhança de Melâncton, era ilustrado, refletido e calmo. Ambos eram homens de fervorosa piedade, profundos conhecimentos teológicos e inflexível coragem para promover o avançamento da verdade. A oposição romanista não faltava. Os padres católicos instigavam o povo ignorante e supersticioso. Olavo Petri foi muitas vezes assaltado pela populaça, e em várias ocasiões mal pôde escapar com vida. Estes reformadores eram, entretanto, favorecidos e protegidos pelo rei.
Sob o domínio da Igreja de Roma, o povo estava submerso na pobreza e atormentado pela opressão. Destituídos das Escrituras, e tendo uma religião de meras formas e cerimônias, que não transmitia luz ao espírito, estavam a voltar às crenças supersticiosas e práticas pagãs de seus antepassados gentios. A nação achava-se dividida em facções contendoras, cuja perpétua luta aumentava a miséria de todos. Resolveu o rei fazer uma reforma no Estado e na igreja, e recebeu com agrado aqueles hábeis auxiliares na batalha contra Roma.
Na presença do monarca e dos principais homens da Suécia, Olavo Petri, com grande habilidade, defendeu contra os campeões romanos as doutrinas da fé reformada. Declarou que os ensinos dos pais da igreja deviam ser recebidos apenas quando estivessem de acordo com as Escrituras; que as doutrinas essenciais da fé são apresentadas na Bíblia de maneira clara e simples, de modo que todos os homens as possam compreender. Disse Cristo: "A Minha doutrina não é Minha, mas dAquele que Me enviou" (João 7:16); e Paulo declarou que se pregasse outro evangelho a não ser aquele que recebera, seria anátema (Gál. 1:8). "Como, pois", disse o reformador, "pretenderão outros de acordo com sua vontade decretar dogmas, impondo-os como coisa necessária à salvação?" – Wylie. Demonstrou que os decretos da igreja não têm autoridade quando em oposição aos mandamentos de Deus, e insistiu no grande princípio protestante de que "a Bíblia e a Bíblia só" é a regra de fé e prática.
Esta contenda, posto que travada em cenário relativamente obscuro, serve para mostrar-nos "a qualidade de homens que formavam a maior parte do exército dos reformadores. Longe de serem analfabetos, sectaristas, controversistas ruidosos – eram homens que haviam estudado a Palavra de Deus, e bem sabiam como manejar as armas com que os supria o arsenal da Escritura. Com respeito à erudição, antecipavam-se a seu tempo. Quando fixamos a atenção em centros brilhantes como Wittenberg e Zurique, e em ilustres nomes tais como os de Lutero e Melâncton, de Zwínglio e Oecolampadius, dir-se-nos-á talvez que foram esses os dirigentes do movimento, e naturalmente deveríamos esperar neles prodigioso poder e vastas aquisições; os subordinados, porém, não eram como eles. Mas, volvamos ao obscuro teatro da Suécia, e aos humildes nomes de Olavo e Lourenço Petri – desde os mestres até aos discípulos – que encontramos? … Eruditos e teólogos; homens que perfeitamente se assenhorearam de todo o sistema das verdades evangélicas, e que ganharam vitória fácil sobre os sofismas das escolas e dos dignitários de Roma". – Wylie.
Como resultado desta disputa, o rei da Suécia aceitou a fé protestante, e não muito tempo depois a assembléia nacional declarou-se a seu favor. O Novo Testamento fora traduzido por Olavo Petri para a língua sueca e, atendendo ao desejo do rei, os dois irmãos empreenderam a tradução da Bíblia inteira. Assim, pela primeira vez o povo da Suécia recebeu a Palavra de Deus em sua língua materna. Foi ordenado pela Dieta que por todo o reino os pastores explicassem as Escrituras e que às crianças nas escolas se ensinasse a ler a Bíblia.

Ininterrupta e seguramente as trevas da ignorância e superstição foram dissipadas pela bem-aventurada luz do evangelho. Liberta da opressão romana, a nação atingiu força e grandeza que nunca dantes havia alcançado. A Suécia tornou-se um dos baluartes do protestantismo. Um século mais tarde, em tempo de grave perigo, esta pequena e até ali fraca nação – a única na Europa que ousou prestar auxílio – foi em livramento da Alemanha nas terríveis lutas da Guerra dos Trinta Anos. Toda a Europa do norte parecia a ponto de novamente cair sob a tirania de Roma. Foram os exércitos da Suécia que habilitaram a Alemanha a desviar a onda do êxito papal, a conquistar tolerância aos protestantes – calvinistas bem como luteranos – e a restabelecer a liberdade de consciência nos países que haviam abraçado a Reforma.

AUTOR DESCONHECIDO

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