COMO CRISTO: SOLIDÁRIOS DIANTE A MORTE
O relato de João
conta que Lázaro, irmão de Marta e Maria, amigo de Jesus, ficou muito doente e
que sua vida estava por um fio. Maria e Marta mandaram buscar Jesus, na
expectativa que ele viesse curar seu irmão.
Entretanto Lázaro morreu antes que Jesus chegasse.
Quando Jesus
enfim chegou à casa dos amigos, encontrou todos de luto e o corpo de Lázaro já
estava sepultado há quatro dias. O que Ele fez ao chegar se tornou uma das
histórias mais lidas e contadas da Bíblia a respeito de Jesus. Esta história
mostra de fato quem Jesus é e o que veio fazer, mas Ela também nos mostra um
Cristo humano e solidário com a dor humana diante a morte.
1 – SOLIDÁRIO: APONTANDO PARA O QUE NOS DÁ
ESPERANÇA
20 Quando Marta ouviu que Jesus estava chegando, foi
encontrá-lo, mas Maria ficou em casa. 21 Disse Marta a Jesus: "Senhor, se estivesses
aqui meu irmão não teria morrido. 22 Mas sei que, mesmo agora, Deus te dará tudo o que
pedires". 23 Disse-lhe Jesus:
"O seu irmão vai ressuscitar". 24 Marta respondeu: "Eu sei que ele vai
ressuscitar na ressurreição, no último dia". 25 Disse-lhe Jesus: "Eu sou a ressurreição e a
vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; 26 e quem vive e crê em mim, não morrerá
eternamente. Você crê nisso?" 27 Ela lhe respondeu: "Sim, Senhor, eu tenho
crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo". (João
11.20-27)
Quando
Jesus chega à cidade de Betânia, Marta é a primeira a ir ao seu encontro. As
palavras de Marta apontam um desapontamento “se estivesses aqui meu irmão não teria morrido”;
mas também apresentam uma fagulha de esperança “mas sei que, mesmo agora, Deus te dará tudo o que pedires”. Ela
sabe quem é Jesus, sabe o que Ele pode realizar, mas está abatida diante a
realidade de que seu irmão está morto e já sepultado.
Os
sentimentos de Marta estão confusos, não é para menos, seu irmão havia morrido.
Lázaro provavelmente era o sustentador de sua casa, uma vez que as mulheres não
podiam negociar entre os homens nos tempos de Jesus.
Jesus
se mostra solidário, em vez de olhar para o desapontamento de Marta, em vez de
ficar ressentido com ela por jogar sobre ele a culpa da morte de seu irmão, ele
reforça a fagulha de esperança que havia em seu coração. Jesus não permite que
o coração de Marta pendesse para o desespero e se enchesse de amargura. Jesus
promove cura para à alma de Marta ao dizer “o seu irmão vai ressuscitar”.
As
palavras de Jesus são fortes, elas apontam para a vitória final prometida por
Deus. Jesus traz a memória de Marta essa realidade.
Quando
o inusitado, a tempestade e o inesperado chegam a nossa casa, precisamos de
amigos que nos lembrem das verdades de Deus, que nos ajudem em nossa fé para
que não venhamos ser tragados pela angústia e incredulidade.
Embora
possamos conhecer a Palavra de Deus e declará-la todos os dias, na hora da dor
e da angustia, corremos o risco de sermos dominados pela dor e escuridão do
momento, a ponto de nos esquecermos da bondade e fidelidade do nosso Deus.
Imagino que Marta deu um suspiro, enxugou
as lágrimas, puxou o ar e com certo alivio disse: "Eu sei que ele
vai ressuscitar na ressurreição, no último dia". É claro que Marta desejava que seu irmão
estivesse vivo ao seu lado, mas as palavras de Jesus trouxeram um pouco de
alivio para sua alma. Entretanto Jesus diz algo que Marta não esperava: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim,
ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não
morrerá eternamente. Você crê nisso?".
Jesus afirma ser a ressurreição e a vida. Jesus está
afirmando para Marta: “Eu sou Deus, sou o autor da vida, sou o poder que dá
vida a tudo e que mantém tudo vivo”. E
então pergunta para ela: “Você crê nisso?”.
Marta responde, agora
com um pequeno sorriso na face, certa de que a vida afinal tem um sentido,
certa de que seu irmão estava vivo, ainda que não no mundo presente. Sim, Marta recobrou a esperança e lançou fora o desespero,
através das palavras de Jesus. Percebeu que nem mesmo a morte poderia deter o
projeto de Deus e o estabelecimento do Seu Reino.
Jesus foi solidário na morte apontando para o que podia
trazer esperança - FÉ NO QUE ESPERAMOS, FÉ NA PROMESSA DO REINO DE DEUS - como
meio de vencermos temporariamente nosso último inimigo, até que chegue o dia da
ressurreição.
Muitas pessoas são como “Marta” tudo de que precisam são de
palavras que apontem para aquilo que lhes traz esperança, de palavras onde
possam depositar sua fé e continuar a caminhar em meio às adversidades da vida.
Só precisam de uma sacudida para se levantar.
Marta não sabia, mas Jesus tinha um plano maior do que ela
esperava para aquele dia. Mas já aliviada com as palavras de esperança lançadas
por Jesus, Marta corre em direção a sua irmã Maria e lhe diz que Jesus havia
chegado e que desejava falar com ela.
2 – SOLIDÁRIO: CHORANDO COM OS QUE CHORAM
32 Chegando ao lugar onde Jesus estava e vendo-o, Maria
prostrou-se aos seus pés e disse: "Senhor, se estivesses aqui meu irmão
não teria morrido". (João 11.32)
É
interessante este encontro. Maria demonstra a mesma decepção de Marta com
relação a Jesus. Assim como Marta, ela culpava Jesus pela morte de seu irmão.
Ela assim como Marta reconhecia Jesus, como Messias e Salvador, e cria que ele
poderia tê-lo curado antes que viesse a morrer. Diferentemente de Marta, Maria
não apresenta nenhuma palavra de esperança. Acredito que Maria não conseguia
lidar com a dor assim como sua irmã lidava.
Maria
não conseguia expressar em palavras a falta que o irmão fazia e a alegria de
ter Jesus presente naquele momento de tristeza. Tudo que Maria conseguiu fazer
foi chorar.
33 Ao ver chorando Maria e os judeus que a acompanhavam, Jesus
agitou-se no espírito e perturbou-se. 34 "Onde o colocaram?", perguntou ele.
"Vem e vê, Senhor", responderam eles. 35 Jesus chorou. (João
11.33-35)
Jesus
ao ver Maria chorando e também os judeus que a acompanhavam, chorou também.
Jesus não tentou trazer para Maria nenhuma palavra que lhe trouxesse esperança
e alivio. Jesus simplesmente chorou com ela.
Jesus
sabia que iria fazer algo extraordinário na vida daquela família. Jesus sabia
que iria ressuscitar Lázaro. Ninguém sabia, mas ele sabia, ele já tinha
anunciado aos seus discípulos, embora nos parece que eles não entenderam o que
Jesus havia dito a eles. Mas mesmo sabendo disso, ele foi humano e solidário
com a dor de Marta e Maria. Seu choro é sincero e profundo, pois é o choro daquele
que se coloca no lugar do outro, que solidarizasse com a dor do seu próximo.
Jesus como homem experimentava a dor causada pela morte ao levar os que amamos.
Até mesmo os judeus que lá estavam perceberam o quanto ele amava a Lázaro.
36 Então os judeus disseram: "Vejam como ele o amava!" (João 11.36)
Timothy Keller diz o seguinte sobre a
realidade de Jesus ter chorado: “Portanto, vemos aqui a divindade unida à
vulnerabilidade humana. Seu amor lhe deprime o espírito e o faz chorar. Apesar
de afirmar que é a ressurreição e a vida – que é Deus –, Jesus reage a Maria
dessa maneira por ser plenamente humano também. Ele é um conosco. Sente o poder
terrível da morte e a dor do amor perdido”.
Muitas
pessoas são como “Maria”, o que mais precisam não são de palavras, não são de
uma sacudida, mas de um ombro amigo para chorar, de pessoas que chorem com
elas, que apenas chorem e nada mais. E quando menos se espera, lá estão elas
novamente aos pés do Mestre Jesus buscando palavras que lhe apontem para o que
lhes dão esperança.
Honestamente,
todos nós de vez em quando precisamos de amigos que apontem para o que nos dá
esperança, que tragam a nossa memória a verdade de Deus para que possamos nela
nos agarrar nos momentos de desespero e dor. Às vezes tudo que precisamos é
sermos sacudidos com força, como Jesus fez com Marta. Entretanto outras vezes
só precisamos de alguém que chore conosco, que nos ouça, sem dizer nada. Que
nos faça sentir abraçados por Deus, como Jesus fez com Maria.
Às
vezes impor a verdade a alguém em aflição é um erro absurdo, mas há ocasiões em
que apenas orar com essa pessoa e não lhe dizer a verdade é igualmente errado.
Por isso precisamos viver em oração e sermos muito sensíveis a voz de Deus,
pois só Jesus sabe o que realmente cada pessoa precisa em determinados momentos
de sua vida.
A
experiência vivida por Jesus com a morte de Lázaro, seu amigo, o fez sentir a
dor que a morte trouxe a Marta e Maria, e através delas acredito que Jesus pode
mensurar a dor de cada ser humano ao enterrar alguém muito amado. Acredito que
a morte não fere tanto o que morre, mas produz uma dor maior nos que ficam. Falo isso a partir de minha própria
experiência, muitas vezes chorei e desejei um abraço de meus pais que morreram
sem que eu pudesse conhecê-los.
3 – SOLIDÁRIO: VENCENDO A MORTE
38 Jesus, outra vez profundamente comovido (ἐμβριμώμενος - embrimōmenos), foi até o sepulcro. Era uma gruta com uma pedra
colocada à entrada. (João 11.38)
No verso trinta
e oito encontramos a palavra grega “ἐμβριμώμενος
- embrimōmenos”, significa “bufando”. Pense no touro que olha para o
toureiro bufando. Jesus ficou furioso, não fora de controle, mas furioso diante
o que seus olhos viam.
Mas o que Jesus
via que o deixou profundamente comovido, bufando? Certamente sua indignação não
se voltava contra Marta e Maria e nem contra os judeus que lá se encontravam. A
única resposta plausível é que Jesus se indignou com a dor que a morte trazia
sobre seus amigos e sobre toda humanidade.
Jesus bufou, isto
é, ele se irou por ver a morte vencendo sobre sua criação. Ele não criou um
mundo e seres feitos a sua própria imagem e semelhança para sofrerem, para
morrerem, para chorarem pela dor e separação dos que amam. Ele criou um mundo
perfeito, mas o pecado tornou o homem mau e trouxe a morte sobre toda criação.
Jesus não aceita
a decretação da morte sobre os homens e desafia a morte a uma batalha.
39 "Tirem a pedra", disse ele. Disse Marta, irmã do
morto: "Senhor, ele já cheira mal, pois já faz quatro dias". 40 Disse-lhe Jesus: "Não lhe falei que, se você
cresse, veria a glória de Deus?" 41 Então tiraram a pedra. Jesus olhou para cima e
disse: "Pai, eu te agradeço porque me ouviste. 42 Eu sabia que sempre me ouves, mas disse isso por
causa do povo que está aqui, para que creia que tu me enviaste". 43 Depois de dizer isso, Jesus bradou em alta voz:
"Lázaro, venha para fora!" 44 O morto saiu, com as mãos e os pés envolvidos em
faixas de linho, e o rosto envolto num pano. Disse-lhes Jesus: "Tirem as
faixas dele e deixem-no ir". 45 Muitos dos judeus que tinham vindo visitar Maria,
vendo o que Jesus fizera, creram nele. (João 11.39-45)
Lázaro, aquele
que esteve morto e ressuscitou, se tornou um anúncio, um outdoor, para que a
morte e todos os homens soubessem que Ele, Jesus, o Deus-homem, não deixaria a
morte vencer sobre sua criação. Através da ressurreição de Lázaro, Jesus estava
dizendo a todos quem de fato Ele era: EU SOU O QUE SOU. EU SOU A RESSURREIÇÃO E
A VIDA.
Jesus morre na
cruz, mesmo não tendo Ele pecado, morre a nossa morte, morre levando sobre ele
nossos pecados, e por meio de sua morte fomos justificados, perdoados e
santificados. Assim também como Cristo levantou da morte ressurreto, assim
também os que Nele crerem receberam de sua vida, de Seu Espírito Vivificador e
se levantaram da morte ressurretos, em um novo corpo para a vida eterna.
Cristo
restaurará toda sua criação, todo universo, todo cosmo para que todo aquele que
Nele crer desfrute deste cosmo, deste universo, de toda criação conforme era a
vontade do Pai antes da criação do mundo.
Reflexão Final:
Todos nós
enfrentaremos a dor da perda de alguém especial em algum momento de nossas
vidas. Talvez em nosso meio tenham pessoas que estejam enfrentando esta dor
neste momento da vida. Por outro lado também sabemos que muitas pessoas vivem
na morte espiritual e buscam encontrar sentido para suas vidas. Creio que assim
COMO CRISTO:
1. Precisamos estar prontos para apontar para estas
pessoas aquilo que lhe pode trazer esperança. Precisamos fazer isso com amor e
com a verdade da Palavra de Deus. Precisamos mostrar que do outro lado da cruz
há vida em abundância.
2. Precisamos estar prontos para às vezes apenas
chorar. Algumas
pessoas só querem ser ouvidas e abraçadas. Suas emoções ainda estão muito
afloradas e a cura começa no encontro de um simples abraço.
3. Precisamos viver “bufando” contra a morte. A morte não deve
ser temida e nem desejada. Ela é intrusa em nossa história – deseje a vida. A
morte promove tristeza na alma daqueles que se encontram com ela. Não podemos
aceitar a morte como algo normal da vida. A morte é nosso último inimigo.
Cristo venceu por nós a morte. Nele vencemos a morte. Que vivamos a vida com
furor, lutando contra tudo que promove morte, porque Cristo é vida.
Pr. Cornélio
Póvoa de Oliveira
24/03/2019
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