TERCEIRO ESQUELETO: DESCARACTERIZAÇÃO
DO SAGRADO
Hoje iremos
tirar mais um esqueleto do nosso armário, trata-se da descaracterização do
sagrado. Não é fácil olharmos para nós mesmos com o fim de vermos nossos erros,
mas é preciso que façamos isso para que possamos ser curados.
Assisto
constantemente expoentes de nossa liderança cristã afirmando que vivemos um
período de banalização do sagrado. Estes afirmam que a cultura pós-moderna, tem
produzido muitos crentes banalizados, isto é, cristãos que não valorizam o que
Jesus Cristo fez na cruz.
Eu compreendo o
que eles querem dizer e acredito que a preocupação deles tem fundamento, mas creio
que nosso problema não é a banalização do sagrado, mas a descaracterização do
sagrado.
Banalizar é tornar algo comum, corriqueiro, é fazer com
que algo perca o seu valor por se tornar comum. Neste caso é tornar o sagrado
em algo comum, retirar o sagrado do inalcançável.
Descaracterizar
é retirar o caráter daquilo que define algo; é fazer com que algo perca suas
características distintivas. Neste caso é retirar as características que
definem o que é sagrado. Por que o nosso problema não é a banalização do
sagrado?
1 – DEUS BANALIZOU O SAGRADO
Porque foi Deus
quem banalizou o sagrado e não o homem. Foi Deus que na cruz tornou o sagrado
comum a todos. Foi Deus que na cruz tornou a salvação gratuita. Foi Deus que na
cruz abriu o Santo dos Santos para todos os que quiserem entrar por meio do
novo caminho, Jesus Cristo. Desta forma Deus promoveu a...
·
Banalização do “espaço” sagrado - Na Antiga Aliança Deus havia
estabelecido um lugar para ouvir a oração de seu povo. Este era um lugar
“sagrado”, um lugar separado para se encontrar com Deus. Primeiro foi o
Tabernáculo, depois o Templo construído por Salomão. Quando Salomão terminou de
construir o templo Deus disse as seguintes palavras para ele:
15 De hoje em diante os meus olhos estarão abertos e os meus
ouvidos atentos às orações feitas neste
lugar. 16 Escolhi e consagrei este
templo para que o meu nome esteja nele para sempre. Meus
olhos e meu coração nele sempre estarão. (2 Crônicas
7.15,16)
Contudo, Jesus estabeleceu
uma nova aliança, rasgando o véu que nos separava de Deus. Sem o véu todo lugar,
todo espaço se tornou sagrado. Conforme disse a mulher samaritana:
21 Jesus declarou: "Creia em mim, mulher: está próxima a
hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. 23 No entanto, está chegando a hora, e de fato já
chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão
o Pai em espírito e em verdade. São estes os
adoradores que o Pai procura. (João 4.21,23)
Jesus está
dizendo que nossa adoração não está presa num espaço físico, não existe mais um
lugar sagrado. Nossa adoração é livre para ser feita em qualquer lugar, pois os
verdadeiros adoradores adoram em espírito e em verdade.
Portanto o
espaço físico em si não tem valor algum. O templo, como estrutura física se
tornou sem importância na adoração. Jesus tornou banal, sem valor o lugar onde
se adora, pois todo lugar é lugar de adoração. O que torna o espaço físico
sagrado é nossa presença nele e o que fazemos nele. Deus promoveu a...
·
Banalização do “tempo” sagrado - Da mesma forma o tempo, como cronos, foi
banalizado por Jesus. Qual o dia sagrado para adorar Deus? Sábado? Domingo? Na
realidade espiritual, todos os dias são sábados. Todos os dias se tornaram
comuns, iguais, pois todos são dias para se adorar ao Senhor.
16 Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês
comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração
das luas novas ou dos dias de sábado. 17 Estas coisas são
sombras do que haveria de vir; a realidade, porém,
encontra-se em Cristo. (Colossenses 2.16,17)
As festas
religiosas de Israel tinham suas datas específicas no calendário para serem
celebradas, assim também o sábado. Estas festas, assim como o dia do sábado,
possuíam valores históricos e espirituais para o povo de Israel, por isso eram
sagradas. Entretanto, Paulo afirma que todas elas eram sombras, isto é, tinham
um valor temporário, pois quando o sol da justiça, Jesus Cristo se mostrou na
história estas coisas deixaram de ter valor e importância, porque Deus nos
transportou para vivermos o sábado eterno com Ele.
9 Assim, ainda resta um descanso sabático para o povo de Deus; 10 pois todo aquele que entra no descanso de Deus,
também descansa das suas obras, como Deus descansou das suas. (Hebreus 4.9,10)
O texto aponta
para uma realidade escatológica. O autor está escrevendo para os judeus e diz
que Josué não pôde lhes dar o descanso esperado. Mas nós, diz o autor, os que
cremos é que entramos nesse descanso prometido por Deus (v.3). Ele está se
referindo ao ministério de Jesus Cristo. Ele é o nosso descanso eterno. Nele
descansamos de todas as obras, por isso, em Jesus entramos no sábado eterno com
o Pai. Este sábado se inicia na redenção pela fé,
na salvação operada por Deus.
Na cruz Jesus
banalizou, tirou o valor sagrado existente no sábado ou no domingo ao tornar
todos os dias sagrados. Também, pois, fim ao valor existente nas festas
religiosas, pois os significados destes dias apontavam para a obra de Jesus na
cruz. Por isso, Paulo diz que eram sombras do que haveriam de vir. Deus
promoveu a...
·
Banalização da “Ação do Espírito Santo” - No Antigo Testamento ou Antiga Aliança,
Deus derramava seu Espírito sobre alguns homens. Estes recebiam desta forma
poder e capacitação para exercer algumas funções sobre o povo de Israel, como:
sacerdócio, profetizar e reinar. Neste tempo o Espírito de Deus era restringido
a poucos homens.
Entretanto Deus
prometeu através do profeta Joel que derramaria seu Espírito sobre toda carne. Porventura,
isso não é banalizar? Não é tornar o Espírito Santo comum a todos?
28 E, depois disso, derramarei do meu Espírito sobre todos os povos. Os seus
filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão
visões.
29 Até sobre os servos e as servas derramarei do meu Espírito naqueles dias. (Joel 2.28,29)
29 Até sobre os servos e as servas derramarei do meu Espírito naqueles dias. (Joel 2.28,29)
Uma vez que Cristo morreu por nós na cruz, e nos justificou,
essa promessa pôde ser cumprida, como de fato a foi segundo o apóstolo Pedro (Atos 2.14-18).
O Espírito Santo deixa de ser uma exclusividade de alguns
homens e se torna acessível a todos que creem em Jesus Cristo como seu
Salvador. Neste sentido mais uma vez Deus banalizou seu “Espírito” aos homens.
Tornou o Espírito Santo comum a todos e gratuito a todos. Basta crer em Cristo
Jesus. Deus
promoveu a...
· Banalização da
Salvação
4 Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor
com que nos amou, 5 deu-nos vida
juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela
graça vocês são salvos. 6 Deus nos ressuscitou
com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus, 7 para mostrar, nas eras que hão de vir, a
incomparável riqueza de sua graça, demonstrada em sua bondade para conosco em
Cristo Jesus. 8 Pois vocês são salvos pela graça, por meio
da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; 9 não por obras, para que ninguém se glorie. (Efésios 2.4-9)
Quanto custa para você a salvação? Nada! Deus não cobra nada de você
para que você possa fazer parte de sua família. O céu não tem valor. O céu é de
graça. É para todos que creem que Jesus Cristo é o Filho de Deus que morreu
numa cruz e pagou o preço dos nossos pecados. Custou muito a Deus a sua
salvação, custou à vida de seu Filho Jesus Cristo. Mas ele tirou todo o valor
que existia sobre você para que você pudesse ser salvo.
Jesus banalizou a salvação, torno-a sem valor, gratuita. Está à
disposição de todos pela fé.
Eu poderia dizer ainda que a música, a ética, o nome de Jesus, tudo foi
em Cristo entregue aos homens para que sejam usados para a glória de Deus. De
alguma forma Deus simplificou tudo, fez com que tudo convergisse em Cristo, e
por meio de Cristo tudo se tornou comum a nós, neste sentido, banalizado para
nós. O problema é que...
2 – NÓS CRISTÃOS
TEMOS DESCARACTERIZADO O SAGRADO
Quando
digo que Deus banalizou o sagrado, estou me referindo ao fato de Deus ter
tornado o sagrado comum, acessível a todos mediante a fé em Cristo Jesus. O
sagrado não está mais inacessível, não está mais preso a um lugar, há um dia
especifico ou a algumas pessoas especificas, porque nós nos tornamos o sagrado,
nós nos unimos a Deus a partir do pentecostes.
Nosso grande problema atual é que nós
cristãos temos descaracterizado o sagrado que Deus banalizou em Cristo a favor
de nós.
A
segunda aliança é maior que a primeira porque ele banalizou o mundo espiritual.
Isso é loucura, não é mesmo? Mas foi o que Deus fez.
Por
isso quando eu me comporto mal em qualquer lugar e em qualquer dia ou hora não
estou banalizando o espaço ou o tempo sagrado, estou DESCARACTERIZANDO a
presença do próprio Deus neste espaço e tempo, estou DESFIGURANDO a imagem e o
valor de Jesus Cristo em minha própria vida, por isso digo que é na verdade uma
descaracterização do sagrado e não uma banalização. É uma descaracterização de
minha fé e da pessoa de Deus.
Todas
às vezes que eu desobedeço de alguma forma a Deus, estou descaracterizando
minha fé e a Deus. De uma forma mais prática, sempre que eu tomo decisões
visando a minha glória ou a minha vontade em detrimento da vontade de Deus,
estou desfigurando minha fé e distorcendo o significado de Deus para mim e para
aqueles que me vêem. Como distorço o significado de Deus? Quando eu valorizo a
mim mesmo, o meu reino, e não a Deus e o Seu reino, eu apresento Deus de forma
errada as pessoas. Dessa forma nós cristãos temos...
1 – Descaracterizado
o culto a Deus: O
culto deve ser oferecido somente a Deus, e só pode ser oferecido por meio de
Jesus Cristo. Entretanto nossos cultos têm sido como a oferta de Caim. Uma
oferta sem sacrifício, sem entrega de tudo o que somos e temos. Entregamos não
as primícias, não o melhor do nosso ser e do nosso trabalho, mas o secundário
de nosso ser.
Temos apresentado ofertas que são
fogo estranho como fizeram Nadabe e Abiú. Não é fogo vindo do céu, mas criado
por homens. Usamos clichês para produzir avivamentos e dependemos cada vez mais
da tecnologia para produzirmos avivamentos. Não precisamos orar é o que dizem
os líderes para seus fiéis, uma vez que eles não comparecem nas reuniões de
orações, só precisamos aprender a usar as técnicas de marketing e gerenciamento.
A ênfase da mensagem, em nossos
cultos, não está na cruz e sim no homem. A questão não é o sagrado ter se
tornado comum; é a descaracterização do que Deus tornou comum a nós. Estamos
retirando aquilo que caracteriza nosso culto a Deus e que autentica nosso
culto.
Nós
cristãos temos...
2 – Descaracterizado
o dia do Senhor: Sabemos
que todos os dias são sábados. Todos os dias são do Senhor e para o Senhor.
Entretanto desde a ressurreição de Jesus Cristo escolhemos nos reunirmos como
“igreja”, como “comunidade de Cristo”, no domingo, para nesse dia celebrarmos e
adorarmos juntos o nome do nosso Senhor Jesus.
De segunda a sábado cultuamos a
Deus servindo em nosso trabalho, honrando nossos chefes e empregados, e
cuidando de nossa família. Neste tempo servimos a Deus orando por eles e
demonstrando o amor e a vida de Cristo que opera em nós, através de uma ética
pautada pela bíblia. No domingo nos unimos com nossos irmãos para juntos
adorarmos a Deus e aprendermos mais de Deus.
Contudo temos descaracterizado o
domingo do Senhor, na medida, que transformamos nossos encontros em
oportunidades de negócios, que promovemos nossa própria imagem, ou ainda quando
o dia do Senhor se torna dia para negociamos bênçãos com Deus ao invés de ser
dia de gratidão e contemplação a Deus pelas provisões da semana.
Nós
cristãos temos...
3 – Descaracterizado
a arte (música, teatro, dança, etc.): Toda forma de arte deveria
falar e expressar coisas belas. Se todo cristão, se deixasse ser enchido do
Espírito de Deus, iria produzir músicas que engrandeceriam Deus e exaltaria a
beleza da vida, ainda que o nome de Deus não fosse citado, como ocorre com o
Livro de Ester.
Deus banalizou, tornou comum, seu
Espírito a todo ser humano, por meio de Jesus Cristo. Portanto tudo que um ser humano nascido de
novo produz deveria ser santo, deveria ter como fim a glória de Deus.
Contudo, novamente o ser humano
tem descaracterizado sua fé e Deus através de sua arte. No Brasil a música
gospel tem apresentado algumas composições com teologia sadia e uma musicalidade
rica. Mas me parece que essas são muito poucas diante as diversas músicas com
distorções teológicas e uma rima cansativa, mas agradável ao mercado gospel.
Nós
cristãos temos...
4 – Descaracterizado
à ética: Faço
uso das palavras do Pr. Hernandes Dias Lopes: “A igreja evangélica brasileira
tem extensão, mas não profundidade. Tem número, mas não piedade. Cresce em
poder de barganha, mas perde sua influência espiritual. Estamos vivendo uma
aguda crise ética no meio evangélico. Multiplicam-se os escândalos entre a
liderança. Enxurrada de gente entra para a igreja, mas não dão provas de
conversão. Multidões correm ávidas atrás de milagres, mas não demonstram na conduta,
o milagre do novo nascimento. [...]
O lucro tem sido o vetor do
ministério de muitos pastores. O comércio do sagrado no meio evangélico bota no
bolso as indulgências da Idade Média. Precisamos de um choque ético no meio
evangélico. Precisamos de uma nova Reforma”.
Diante a realidade pronunciada
pelo Pr. Hernandes, eu concordo que precisamos de uma nova Reforma, não dá mais
para tolerar essa descaracterização do sagrado de nossos dias.
Reflexão Final:
Portanto deixa Jesus tirar este esqueleto da descaracterização do
sagrado, da fé e de Deus de sua vida. Como cristãos precisamos orar pela igreja
brasileira. Precisamos orar para que aqueles que têm descaracterizado o
sagrado, que Deus tornou comum para nós, venham se arrepender de seus maus
caminhos. Precisamos orar por nós que compreendemos que Deus banalizou o
sagrado, isto é, que Ele abriu as portas do céu para que nós pudéssemos entrar
em contato direto com Ele em qualquer lugar, em qualquer horário e dia,...
orarmos para que nós não venhamos cair na tentação de desfigurarmos nossa fé e
nosso Deus, para não cedermos a tentação de destruirmos o sagrado, só porque
Deus o tornou comum a nós, só porque Deus o tornou acessível a nós pela fé na
obra operado por Seu Filho Jesus Cristo.
O sagrado continua sendo
sagrado, mesmo sendo banalizado por Deus. Portanto
veja como você procede em sua vida, pois Deus espera que você ande em
santidade, pois Ele é santo.
Pr. Cornélio Póvoa de Oliveira
18/08/2019
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