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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

SERMÕES 97 - TERCEIRO ESQUELETO: DESCARACTERIZAÇÃO DO SAGRADO


TERCEIRO ESQUELETO: DESCARACTERIZAÇÃO DO SAGRADO

Hoje iremos tirar mais um esqueleto do nosso armário, trata-se da descaracterização do sagrado. Não é fácil olharmos para nós mesmos com o fim de vermos nossos erros, mas é preciso que façamos isso para que possamos ser curados.
Assisto constantemente expoentes de nossa liderança cristã afirmando que vivemos um período de banalização do sagrado. Estes afirmam que a cultura pós-moderna, tem produzido muitos crentes banalizados, isto é, cristãos que não valorizam o que Jesus Cristo fez na cruz.
Eu compreendo o que eles querem dizer e acredito que a preocupação deles tem fundamento, mas creio que nosso problema não é a banalização do sagrado, mas a descaracterização do sagrado.
Banalizar é tornar algo comum, corriqueiro, é fazer com que algo perca o seu valor por se tornar comum. Neste caso é tornar o sagrado em algo comum, retirar o sagrado do inalcançável.
Descaracterizar é retirar o caráter daquilo que define algo; é fazer com que algo perca suas características distintivas. Neste caso é retirar as características que definem o que é sagrado. Por que o nosso problema não é a banalização do sagrado?


1 – DEUS BANALIZOU O SAGRADO
Porque foi Deus quem banalizou o sagrado e não o homem. Foi Deus que na cruz tornou o sagrado comum a todos. Foi Deus que na cruz tornou a salvação gratuita. Foi Deus que na cruz abriu o Santo dos Santos para todos os que quiserem entrar por meio do novo caminho, Jesus Cristo. Desta forma Deus promoveu a...

·      Banalização do “espaço” sagrado - Na Antiga Aliança Deus havia estabelecido um lugar para ouvir a oração de seu povo. Este era um lugar “sagrado”, um lugar separado para se encontrar com Deus. Primeiro foi o Tabernáculo, depois o Templo construído por Salomão. Quando Salomão terminou de construir o templo Deus disse as seguintes palavras para ele:
15 De hoje em diante os meus olhos estarão abertos e os meus ouvidos atentos às orações feitas neste lugar. 16 Escolhi e consagrei este templo para que o meu nome esteja nele para sempre. Meus olhos e meu coração nele sempre estarão. (2 Crônicas 7.15,16)
Contudo, Jesus estabeleceu uma nova aliança, rasgando o véu que nos separava de Deus. Sem o véu todo lugar, todo espaço se tornou sagrado. Conforme disse a mulher samaritana:
21 Jesus declarou: "Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. 23 No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. (João 4.21,23)
Jesus está dizendo que nossa adoração não está presa num espaço físico, não existe mais um lugar sagrado. Nossa adoração é livre para ser feita em qualquer lugar, pois os verdadeiros adoradores adoram em espírito e em verdade.
Portanto o espaço físico em si não tem valor algum. O templo, como estrutura física se tornou sem importância na adoração. Jesus tornou banal, sem valor o lugar onde se adora, pois todo lugar é lugar de adoração. O que torna o espaço físico sagrado é nossa presença nele e o que fazemos nele. Deus promoveu a...

·      Banalização do “tempo” sagrado - Da mesma forma o tempo, como cronos, foi banalizado por Jesus. Qual o dia sagrado para adorar Deus? Sábado? Domingo? Na realidade espiritual, todos os dias são sábados. Todos os dias se tornaram comuns, iguais, pois todos são dias para se adorar ao Senhor.
16 Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. 17 Estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo. (Colossenses 2.16,17)
As festas religiosas de Israel tinham suas datas específicas no calendário para serem celebradas, assim também o sábado. Estas festas, assim como o dia do sábado, possuíam valores históricos e espirituais para o povo de Israel, por isso eram sagradas. Entretanto, Paulo afirma que todas elas eram sombras, isto é, tinham um valor temporário, pois quando o sol da justiça, Jesus Cristo se mostrou na história estas coisas deixaram de ter valor e importância, porque Deus nos transportou para vivermos o sábado eterno com Ele.
9 Assim, ainda resta um descanso sabático para o povo de Deus; 10 pois todo aquele que entra no descanso de Deus, também descansa das suas obras, como Deus descansou das suas. (Hebreus 4.9,10)
O texto aponta para uma realidade escatológica. O autor está escrevendo para os judeus e diz que Josué não pôde lhes dar o descanso esperado. Mas nós, diz o autor, os que cremos é que entramos nesse descanso prometido por Deus (v.3). Ele está se referindo ao ministério de Jesus Cristo. Ele é o nosso descanso eterno. Nele descansamos de todas as obras, por isso, em Jesus entramos no sábado eterno com o Pai. Este sábado se inicia na redenção pela fé, na salvação operada por Deus.
Na cruz Jesus banalizou, tirou o valor sagrado existente no sábado ou no domingo ao tornar todos os dias sagrados. Também, pois, fim ao valor existente nas festas religiosas, pois os significados destes dias apontavam para a obra de Jesus na cruz. Por isso, Paulo diz que eram sombras do que haveriam de vir. Deus promoveu a...

·      Banalização da “Ação do Espírito Santo” - No Antigo Testamento ou Antiga Aliança, Deus derramava seu Espírito sobre alguns homens. Estes recebiam desta forma poder e capacitação para exercer algumas funções sobre o povo de Israel, como: sacerdócio, profetizar e reinar. Neste tempo o Espírito de Deus era restringido a poucos homens.
Entretanto Deus prometeu através do profeta Joel que derramaria seu Espírito sobre toda carne. Porventura, isso não é banalizar? Não é tornar o Espírito Santo comum a todos?
28 E, depois disso, derramarei do meu Espírito sobre todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão visões.
29 Até sobre os servos e as servas derramarei do meu Espírito naqueles dias. (Joel 2.28,29)
Uma vez que Cristo morreu por nós na cruz, e nos justificou, essa promessa pôde ser cumprida, como de fato a foi segundo o apóstolo Pedro (Atos 2.14-18).
O Espírito Santo deixa de ser uma exclusividade de alguns homens e se torna acessível a todos que creem em Jesus Cristo como seu Salvador. Neste sentido mais uma vez Deus banalizou seu “Espírito” aos homens. Tornou o Espírito Santo comum a todos e gratuito a todos. Basta crer em Cristo Jesus. Deus promoveu a...

·      Banalização da Salvação
4 Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, 5 deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos. 6 Deus nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus, 7 para mostrar, nas eras que hão de vir, a incomparável riqueza de sua graça, demonstrada em sua bondade para conosco em Cristo Jesus. 8 Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; 9 não por obras, para que ninguém se glorie. (Efésios 2.4-9)
Quanto custa para você a salvação? Nada! Deus não cobra nada de você para que você possa fazer parte de sua família. O céu não tem valor. O céu é de graça. É para todos que creem que Jesus Cristo é o Filho de Deus que morreu numa cruz e pagou o preço dos nossos pecados. Custou muito a Deus a sua salvação, custou à vida de seu Filho Jesus Cristo. Mas ele tirou todo o valor que existia sobre você para que você pudesse ser salvo.
Jesus banalizou a salvação, torno-a sem valor, gratuita. Está à disposição de todos pela fé. 
Eu poderia dizer ainda que a música, a ética, o nome de Jesus, tudo foi em Cristo entregue aos homens para que sejam usados para a glória de Deus. De alguma forma Deus simplificou tudo, fez com que tudo convergisse em Cristo, e por meio de Cristo tudo se tornou comum a nós, neste sentido, banalizado para nós. O problema é que...

2 – NÓS CRISTÃOS TEMOS DESCARACTERIZADO O SAGRADO
Quando digo que Deus banalizou o sagrado, estou me referindo ao fato de Deus ter tornado o sagrado comum, acessível a todos mediante a fé em Cristo Jesus. O sagrado não está mais inacessível, não está mais preso a um lugar, há um dia especifico ou a algumas pessoas especificas, porque nós nos tornamos o sagrado, nós nos unimos a Deus a partir do pentecostes.
Nosso grande problema atual é que nós cristãos temos descaracterizado o sagrado que Deus banalizou em Cristo a favor de nós.
A segunda aliança é maior que a primeira porque ele banalizou o mundo espiritual. Isso é loucura, não é mesmo? Mas foi o que Deus fez.  
Por isso quando eu me comporto mal em qualquer lugar e em qualquer dia ou hora não estou banalizando o espaço ou o tempo sagrado, estou DESCARACTERIZANDO a presença do próprio Deus neste espaço e tempo, estou DESFIGURANDO a imagem e o valor de Jesus Cristo em minha própria vida, por isso digo que é na verdade uma descaracterização do sagrado e não uma banalização. É uma descaracterização de minha fé e da pessoa de Deus.
Todas às vezes que eu desobedeço de alguma forma a Deus, estou descaracterizando minha fé e a Deus. De uma forma mais prática, sempre que eu tomo decisões visando a minha glória ou a minha vontade em detrimento da vontade de Deus, estou desfigurando minha fé e distorcendo o significado de Deus para mim e para aqueles que me vêem. Como distorço o significado de Deus? Quando eu valorizo a mim mesmo, o meu reino, e não a Deus e o Seu reino, eu apresento Deus de forma errada as pessoas. Dessa forma nós cristãos temos...

1 – Descaracterizado o culto a Deus: O culto deve ser oferecido somente a Deus, e só pode ser oferecido por meio de Jesus Cristo. Entretanto nossos cultos têm sido como a oferta de Caim. Uma oferta sem sacrifício, sem entrega de tudo o que somos e temos. Entregamos não as primícias, não o melhor do nosso ser e do nosso trabalho, mas o secundário de nosso ser.
Temos apresentado ofertas que são fogo estranho como fizeram Nadabe e Abiú. Não é fogo vindo do céu, mas criado por homens. Usamos clichês para produzir avivamentos e dependemos cada vez mais da tecnologia para produzirmos avivamentos. Não precisamos orar é o que dizem os líderes para seus fiéis, uma vez que eles não comparecem nas reuniões de orações, só precisamos aprender a usar as técnicas de marketing e gerenciamento.
A ênfase da mensagem, em nossos cultos, não está na cruz e sim no homem. A questão não é o sagrado ter se tornado comum; é a descaracterização do que Deus tornou comum a nós. Estamos retirando aquilo que caracteriza nosso culto a Deus e que autentica nosso culto.
Nós cristãos temos...

2 – Descaracterizado o dia do Senhor: Sabemos que todos os dias são sábados. Todos os dias são do Senhor e para o Senhor. Entretanto desde a ressurreição de Jesus Cristo escolhemos nos reunirmos como “igreja”, como “comunidade de Cristo”, no domingo, para nesse dia celebrarmos e adorarmos juntos o nome do nosso Senhor Jesus.
De segunda a sábado cultuamos a Deus servindo em nosso trabalho, honrando nossos chefes e empregados, e cuidando de nossa família. Neste tempo servimos a Deus orando por eles e demonstrando o amor e a vida de Cristo que opera em nós, através de uma ética pautada pela bíblia. No domingo nos unimos com nossos irmãos para juntos adorarmos a Deus e aprendermos mais de Deus. 
Contudo temos descaracterizado o domingo do Senhor, na medida, que transformamos nossos encontros em oportunidades de negócios, que promovemos nossa própria imagem, ou ainda quando o dia do Senhor se torna dia para negociamos bênçãos com Deus ao invés de ser dia de gratidão e contemplação a Deus pelas provisões da semana.
Nós cristãos temos...

3 – Descaracterizado a arte (música, teatro, dança, etc.): Toda forma de arte deveria falar e expressar coisas belas. Se todo cristão, se deixasse ser enchido do Espírito de Deus, iria produzir músicas que engrandeceriam Deus e exaltaria a beleza da vida, ainda que o nome de Deus não fosse citado, como ocorre com o Livro de Ester.
Deus banalizou, tornou comum, seu Espírito a todo ser humano, por meio de Jesus Cristo.  Portanto tudo que um ser humano nascido de novo produz deveria ser santo, deveria ter como fim a glória de Deus.
Contudo, novamente o ser humano tem descaracterizado sua fé e Deus através de sua arte. No Brasil a música gospel tem apresentado algumas composições com teologia sadia e uma musicalidade rica. Mas me parece que essas são muito poucas diante as diversas músicas com distorções teológicas e uma rima cansativa, mas agradável ao mercado gospel.
Nós cristãos temos...

4 – Descaracterizado à ética: Faço uso das palavras do Pr. Hernandes Dias Lopes: “A igreja evangélica brasileira tem extensão, mas não profundidade. Tem número, mas não piedade. Cresce em poder de barganha, mas perde sua influência espiritual. Estamos vivendo uma aguda crise ética no meio evangélico. Multiplicam-se os escândalos entre a liderança. Enxurrada de gente entra para a igreja, mas não dão provas de conversão. Multidões correm ávidas atrás de milagres, mas não demonstram na conduta, o milagre do novo nascimento. [...]
O lucro tem sido o vetor do ministério de muitos pastores. O comércio do sagrado no meio evangélico bota no bolso as indulgências da Idade Média. Precisamos de um choque ético no meio evangélico. Precisamos de uma nova Reforma”.
Diante a realidade pronunciada pelo Pr. Hernandes, eu concordo que precisamos de uma nova Reforma, não dá mais para tolerar essa descaracterização do sagrado de nossos dias.

Reflexão Final:
Portanto deixa Jesus tirar este esqueleto da descaracterização do sagrado, da fé e de Deus de sua vida. Como cristãos precisamos orar pela igreja brasileira. Precisamos orar para que aqueles que têm descaracterizado o sagrado, que Deus tornou comum para nós, venham se arrepender de seus maus caminhos. Precisamos orar por nós que compreendemos que Deus banalizou o sagrado, isto é, que Ele abriu as portas do céu para que nós pudéssemos entrar em contato direto com Ele em qualquer lugar, em qualquer horário e dia,... orarmos para que nós não venhamos cair na tentação de desfigurarmos nossa fé e nosso Deus, para não cedermos a tentação de destruirmos o sagrado, só porque Deus o tornou comum a nós, só porque Deus o tornou acessível a nós pela fé na obra operado por Seu Filho Jesus Cristo.
O sagrado continua sendo sagrado, mesmo sendo banalizado por Deus. Portanto veja como você procede em sua vida, pois Deus espera que você ande em santidade, pois Ele é santo.


Pr. Cornélio Póvoa de Oliveira
18/08/2019

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