HUMANOS COMO CRISTO (quinta parte):
AS DUAS GENEALOGIAS DE JESUS
Durante este mês
refletimos na vida de Jesus olhando para seu lado humano. Aprendemos que Jesus
foi e é o humano perfeito porque viveu submisso ao Espírito Santo de Deus.
Aprendemos também que Jesus reconheceu sua humanidade, respeitando seus limites
e sujeitando-se as autoridades constituídas, ao mesmo tempo, que experimentou o
cuidado sobrenatural do Pai.
A Bíblia nos
ensina que Jesus possuía duas genealogias distintas, essas duas genealogias
estão ligadas as duas naturezas de Jesus, a natureza humana e a natureza
divina. A teologia chama a doutrina das duas naturezas de Jesus de União
Hipostática ou Mística.
Vejamos essas duas genealogias:
1 – AS DUAS GENEALOGIAS DE JESUS
·
A primeira genealogia provém de Melquisedeque[1] - 20 onde Jesus, que nos precedeu, entrou em nosso lugar, tornando-se sumo sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque. (Hebreus 6.20)
Essa primeira linhagem
trata da legitimidade do ministério sacerdotal de Jesus. Ele é sumo sacerdote
segundo a ordem de Melquisedeque.
Jesus não é sumo
sacerdote da ordem de Arão, ele não nasceu da linhagem de Levi. Seu serviço
sacerdotal é legitimado pela ordem sacerdotal de Melquisedeque.
·
A segunda genealogia provém de Abraão - 1 Registro da genealogia
de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.
(Mateus 1.1)
Dizer que Jesus
é filho de Abraão, filho de Davi, é afirmar que ele é descendente da tribo de
Judá, um legítimo judeu, um legítimo descendente do trono de Davi.
Qual o
significado dessas duas genealogias de Jesus para a história humana?
2 – O SIGNIFICADO DA GENEALOGIA DE
MELQUISEDEQUE
1 Esse Melquisedeque, rei de
Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, encontrou-se com Abraão quando este
voltava, depois de derrotar os reis, e o abençoou; 2 e Abraão lhe deu o dízimo de tudo. Em primeiro lugar,
seu nome significa "rei de justiça";
depois, "rei de Salém" quer dizer "rei
de paz". 3 Sem pai, sem mãe, sem
genealogia, sem princípio de dias nem fim de vida, feito semelhante ao Filho de Deus, ele permanece
sacerdote para sempre. (Hebreus 7.1-3)
A ausência da
genealogia de Melquisedeque quer tipificar a ausência da genealogia de Jesus,
como Filho de Deus, pois este é eterno, sem princípios de dias nem fim de vida.
A menção do
significado do nome Melquisedeque e Salém, também tipifica o Messias, pois este
é o rei que irá estabelecer a justiça e a paz.
O escritor de
Hebreus não afirma que Melquisedeque era Jesus, o Filho de Deus. Pelo contrário
ele apenas reconhece as semelhanças existentes em seus ministérios. Com isso
ele reconhece que Melquisedeque tipifica Jesus e não era Jesus pré-encarnado.
4 Considerem a grandeza desse
homem: até mesmo o patriarca Abraão lhe deu o dízimo dos despojos! 5 A lei requer dos sacerdotes dentre os descendentes de
Levi que recebam o dízimo do povo, isto é, dos seus irmãos, embora estes sejam
descendentes de Abraão. 6 Este homem, porém, que não pertencia à linhagem de
Levi, recebeu os dízimos de Abraão e abençoou aquele que tinha as promessas.
7 Sem
dúvida alguma, o inferior é abençoado pelo superior. 8 No
primeiro caso, quem recebe o dízimo são homens mortais; no outro caso é aquele
de quem se declara que vive. 9 Pode-se até dizer que Levi, que recebe os dízimos,
entregou-os por meio de Abraão, 10
pois, quando Melquisedeque se encontrou
com Abraão, Levi ainda estava no corpo do seu antepassado. (Hebreus 7.4-10)
A genealogia de Melquisedeque aponta para o Jesus divino,
eterno. Ela representa o ministério sacerdotal de Jesus, que é superior e tem
uma abrangência muito maior que o ministério sacerdotal de Arão. Seu
significado na história é libertador e revolucionário, pois apresenta a
existência de um caminho divino, livre da interferência humana. Sua abrangência
é ilimitada, pois não está presa a nenhuma lei, regra ou conduta. A ordem de
Melquisedeque não pertence a nenhuma ordem religiosa ou humana.
Jesus sendo da
ordem de Melquisedeque está livre de toda lei, está livre das obrigações
pertencente a todos da linhagem de Abraão e do sacerdócio de Arão. Na ordem de
Melquisedeque Jesus se move na história sem ter que prestar contas aos homens.
É Abraão que presta contas a ele, é Arão em Abraão que serve ao ministério Dele
e não o contrário.
3 – O SIGNIFICADO DA GENEALOGIA DE ABRAÃO
Quando olhamos
para a linhagem de Jesus através de Abraão estamos olhando para sua linhagem
histórica, para sua linhagem humana. Em Abraão Jesus tem pai, tem mãe, tem data
de nascimento e certidão de óbito. Jesus nasce dos judeus e está sujeito a lei
de Moisés.
17 "Não pensem que vim abolir
a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. 18 Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra,
de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra. (Mateus
5.17,18)
O Jesus
encarnado, descendente de Abraão, o Filho do Homem tem um ministério sujeito e limitado
a Lei de Moisés. Jesus se faz homem e judeu para cumprir toda a lei de Moisés.
E Jesus a cumpriu rigorosamente para dessa forma poder justificar e resgatar a
todos que estavam debaixo da lei. Mas de qual lei Jesus veio nos libertar? A
lei cerimonial? A lei moral? A lei Civil?
21 Ela dará à luz um filho, e você
deverá dar-lhe o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus
pecados". (Mateus 1.21)
Jesus veio nos
libertar da lei do pecado e libertos da lei do pecado, por meio do Espírito
Santo de Deus podemos cumprir as leis morais e civis, que se resumem no
mandamento “amai-vos uns aos outros”. As leis cerimoniais essas deixaram de
existir, pois Jesus, o Cordeiro de Deus, foi sacrificado definitivamente,
pagando o preço de todo pecado, de todos os tempos. Portanto não existem mais
sacrifícios a serem oferecidos a Deus. Não existem mais rituais necessários
para entrar na presença de Deus. Por meio de Cristo as portas do céu estão
abertas para todos nós.
Todos nós
estávamos debaixo da lei do pecado e não só os judeus. A lei foi entregue aos
judeus, mas suas exigências morais são universais, são para todos os povos. Não
matar, não roubar, não adorar outros deuses, não cobiçar, etc., são exigências
de Deus para todos os seres humanos.
A genealogia de Abraão aponta para o Jesus histórico, o
ser humano que veio morrer pelos pecados da humanidade. O significado da
genealogia de Abraão é apresentar a nós a existência de um caminho para se
chegar a Deus. Em Abraão o ministério de Jesus é limitado pela cruz. Jesus veio
ao mundo para ser o Cordeiro de Deus.
4 – AS IMPLICAÇÕES DAS DUAS GENEALOGIAS
Abraão
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Melquisedeque
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A
revelação é visível a nós – Ela apresenta nomes, uma linha genealógica que
pode ser vista. Ela apresenta o Jesus histórico, o ser humano Jesus. (Mt 1.1)
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A
revelação é invisível a nós – Ela não tem nomes, não tem linha
genealógica que pode ser vista. Ela apresenta o Jesus divino, eterno.
(Hebreus 6.20)
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A
ação de Deus na história está limitada – Deus está limitado a sua própria revelação. Ele caminha
de acordo com suas promessas feitas a Abraão.
São reconhecidos como servos somente
os descendentes de Abraão, de Isaque e Jacó.
Este sentimento foi transferido para
os cristãos, pois estes provem da genealogia de Abraão.
Os discípulos de Jesus (Mc 9.38-40) ao
encontrarem com um homem expulsando demônios em nome de Jesus quiseram
repreendê-lo, pois julgaram que ele não fazia parte do seu grupo. Eles
acreditaram que poderiam dizer quem é cristão ou não. Quem pode entrar no
grupo deles ou não. Essa é uma ação muito recorrente dos descendentes de
Abraão, pois limitam Jesus e toda ação de Deus ao seu gueto religioso.
|
A
ação de Deus na história não está limitada – Deus é livre
para agir na história segundo os seus desígnios e sua vontade.
Deus chama Nabucodonosor de servo, o
torna servo, ainda que ele não sabia que estava servindo aos propósitos de
Deus. Ele usa quem quer, quando e como quer.
Quando os discípulos de Jesus (Mc
9.38-40) proibiram um homem de expulsar demônios em nome de Jesus, pois
consideravam que este não fazia parte de seu gueto evangélico; Jesus os
repreendeu e disse: “Quem não é contra nós está a nosso favor”.
O que Jesus estava dizendo para eles
era: “Este homem trabalha a meu favor. Quem deu a vocês a prerrogativa de
dizer quem é do meu grupo ou não?”. A ação de Deus não está limitada a ação
da sua Igreja, embora seja por ela que Deus revele seu Reino.
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O
caminho da salvação é da graça mediante a lei – O caminho têm
ritos, dogmas, leis que precisam ser seguidos para se alcançar à salvação. É
baseada em uma fé que depende das obras e que facilmente se transforma em
religiosidade. É uma fé que tem necessidade do concreto, do palpável. A
salvação se torna fruto do mérito próprio. Nesse caminho a graça se mostra
através dos sacrifícios de expiação dos pecados.
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O
caminho da salvação é da graça mediante a fé em Jesus Cristo – Essa é uma
fé que não se vê, pois não é sustentada pelos ritos, mas por um
relacionamento que não se vê, que não se pode tocar, mas que se experimenta
pela fé. A salvação não é baseada nas obras, não tem nada haver com o que se
faz ou deixa de fazer, mas leva o indivíduo a prática das boas obras, pois o
fruto do Espírito é o amor.
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A
fé normalmente se torna produto da comunidade – ela é
manipulada pela comunidade e vendida com embrulhos atraentes. A fé passa a
pertencer a um povo, a uma instituição. Se você deseja alcançar a salvação ou
cura precisa se sujeitar àqueles que a manipulam. Estes acreditam que possuem
o poder de Deus sobre o controle deles e o usa quando querem. Deus se torna
refém daqueles que se dizem seus seguidores.
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A
fé é individual, não pertence a nenhum grupo – Ela é
vivenciada e experimentada na relação pessoal com Cristo. Essa fé pessoal na
pessoa de Jesus Cristo conduz o indivíduo a se ver como parte de uma
comunidade, como membro do Corpo de Cristo. Mas a fé não é um produto que se
compra, que se negocia ou se adquire através de ritos, sacrifícios, etc. O
poder de Deus não está sob o controle daquele que crê. Deus é sempre livre
para agir segundo Sua vontade.
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No
caminho de Abraão Deus é adorado e estudado dentro de estruturas físicas – Deus se torna
refém destas estruturas, dos tabernáculos, templos, igrejas, comunidades. Eu
visito Deus quando visito uma destas estruturas, eu sirvo a Deus quando sirvo
nestas estruturas. Eu ouço Deus quando vou até uma destas estruturas. Para
muitos, Deus existe somente nas estruturas. Por isso, fora delas vivem a vida
de forma imoral, abraçados com o pecado.
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No
caminho de Melquisedeque Deus não é encontrado nas estruturas físicas – Deus é
adorado em Espírito e em Verdade. Deus não habita em tendas humanas. Eu não
consigo ir a Igreja de Cristo, pois ela é espiritual. Só Deus sabe a quem ele
se revelou e quem aceitou sua revelação. Deus é presente com seu povo em todo
tempo, presente na igreja quando se reúnem como comunidade, mas também no
trabalho, na escola, em casa. Servem a Deus em qualquer lugar e hora.
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No
caminho de Abraão tem estruturas organizacionais – Temos
pastores, diáconos, púlpitos, ministérios, etc. para nos ensinar a Palavra de
Deus. Existem hierarquia para serem respeitadas.
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No
caminho de Melquisedeque não tem estruturas organizacionais – Somos todos
membros do mesmo corpo, assistidos pelo mesmo Espírito e ensinados pelo mesmo
Espírito. Todos são filhos e filhas de Deus.
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O
caminho de Abraão é o caminho de homens chamados para ser povo de Deus – O caminho de
Abraão nos leva até Jesus, o cordeiro de Deus, o único caminho para entrarmos
no Reino de Deus.
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O
caminho de Melquisedeque é o caminho de Deus – É o caminho
percorrido por Deus e que deve ser compreendido por nós e aplicado por nós enquanto caminhamos no
caminho de Abraão.
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Nós andamos no
caminho de Abraão e Deus anda no caminho de Melquisedeque. Através do caminho
de Abraão, Deus vai se revelando para mim, de forma que eu passo a andar no
caminho de Abraão com as marcas do caminho de Melquisedeque.
Quando
compreendo o caminho de Melquisedeque, não ando arrogantemente pensando que
Deus está limitado ao caminho de Abraão. Não me vejo como o detentor da pessoa
e do poder de Deus, mas apenas como um servo de Deus. Não tomo para mim a
prerrogativa de dizer quem pode sentar-se à mesa do Senhor ou quem pode
expulsar demônios no seu nome.
O caminho de
Abraão foi construído por Deus para que possamos chegar ao caminho de
Melquisedeque, para que possamos viver libertos de todas as estruturas, ritos,
leis, sendo apenas conduzidos pelo Espírito Santo, como uma folha que é
carregada pelo vento.
O caminho de
Abraão é importante para que eu e você possamos andar com o povo de Deus e
possamos nos ver como povo de Deus. O caminho de Melquisedeque é importante
para que eu ande humildemente sabendo que Deus não está limitado ao caminho de
Abraão. Deus pode salvar vidas, curar enfermos, realizar milagres
extraordinários sem usar os que pertencem ao caminho de Abraão, sem usar os que
proclamam a fé em Jesus Cristo.
Cornélio, o
centurião romano, é um exemplo disso. Ele foi alcançado pelo ministério de
Melquisedeque. Cornélio servia a Deus, suas orações chegavam a Deus (Atos 10) e
alegravam o coração de Deus, mesmo sem conhecer o nome de Deus e o caminho de
Abraão. Uma vez alcançado pelo ministério de Melquisedeque, Deus o levou para
ser abraçado pelos que caminhavam no caminho de Abraão, para que este fosse
apresentado ao Jesus histórico, o cordeiro de Deus e abraçado por Deus através
da comunidade do caminho de Abraão.
Não sei por qual
caminho Jesus se revelou a você, mas sei que Ele sempre trará os homens para o
caminho de Abraão, a fim que possam conhecê-lo melhor. Ao conhecê-lo melhor
aprenderão que Ele é soberano e age além dos caminhos dos homens, dos caminhos
de Abraão, porque seu sacerdócio é superior. Com isso não quero dizer que a
igreja não é responsável pela pregação do evangelho. Somos responsáveis sim,
mas não devemos pensar que Deus está sob nosso controle, preso ao nosso agir na
história. Deus é Deus, isso significa que Ele é livre para chamar os que o
conhecem pelo nome, mas também é livre para chamar os que não o conhecem pelo
nome.
Deus te faça
conhecer o caminho de Melquisedeque para que você possa andar no caminho de
Abraão com humildade e total dependência do Espírito Santo de Deus. Deus te
abençoe.
Pr. Cornélio
Póvoa de Oliveira
27/10/2019
[1] Existem diversos
pensamentos a respeito de quem foi Melquisedeque. Não quero me deter nestas
teorias a respeito da pessoa de Melquisedeque, mas vou citar algumas delas para
que vocês tenham conhecimento de sua existência e vocês possam decidir qual
delas acham mais plausível. Vejamos três teorias:
1. Melquisedeque não era uma pessoa e sim um titulo – A expressão a “Ordem de Melquisedeque” se refere ao título
dado para a descendência de Sete, que representavam “o rei de justiça” – Meleq
(rei) e Tsedeq (justo). Segundo esta teoria o Melquisedeque que abençoou Sete
foi Sem, filho de Noé, que viveu 600 anos.
2. Melquisedeque foi uma tipologia de Jesus – Melquisedeque
reinou na cidade de Salém, que significa paz, veio mais tarde a se tornar
Jerusalém. Entretanto não existe nada que comprove que existiu um rei chamado
Melquisedeque da cidade de Salém. Contudo muitos teólogos acreditam que este
rei tendo existido ou não era uma tipologia de Cristo e de seu ministério
sacerdotal.
3. Melquisedeque
era Jesus pré-encarnado – Para muitos teólogos Melquisedeque era na verdade
Jesus. Alguns teólogos cristãos acreditam que Melquisedeque teria sido uma
aparição do Messias antes de
seu nascimento carnal, humano. No Antigo Testamento há várias
menções ao Anjo do SENHOR que muitos acreditam terem sido aparições
de Cristo antes de
encarnar.
Particularmente
acredito na segunda teoria, que Melquisedeque foi rei em Salém, embora não
tenhamos registro algum deste período, e que representa uma tipologia de Jesus
e de seu ministério sacerdotal. Acredito que foi dessa forma que também
compreendeu o autor da carta aos Hebreus.
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