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terça-feira, 29 de junho de 2021

SERMÕES 127 - O CRISTÃO E A ECOLOGIA

 O CRISTÃO E A ECOLOGIA

Série: Juntos Podemos Mais

 

Atualmente nos encontramos diante um clamor mundial que emerge da realidade desafiante enfrentada pela humanidade: nossa casa, o planeta Terra, está gravemente doente. Enfrentamos um problema ecológico muito sério.

Diante a realidade assustadora em que se encontra nosso planeta os líderes das maiores economias mundiais têm se encontrado com o fim de encontrarem soluções para conterem a destruição que temos provocado ano após ano.

O aquecimento global já tem produzido efeitos maléficos sobre a natureza. Poderá trazer, a curto prazo, consequências ainda mais catastróficas do que as que o mundo hoje já experimenta: degradação do meio ambiente, diminuição acelerada das fontes de água potável, desertificação, degelo das calotas polares com a decorrente elevação do nível do mar cobrindo as áreas litorâneas, grande incidência de furacões e de queimadas, extinção de milhares de espécies de animais, escassez de alimento, proliferação de doenças, migrações forçadas de espécies de animais e homens… Enfim, o desequilíbrio dos ecossistemas pode comprometer, de forma irreversível, todas as formas de vida sobre a terra, isto inclui nós seres humanos.

Embora a Bíblia não trate diretamente da relação do homem com o ecossistema, nem se encontra nela a palavra ecologia, ela nos ensina que devemos cuidar não somente dos nossos interesses, mas também dos interesses das demais pessoas, como vimos no último domingo.

A Bíblia desperta em nós a consciência da responsabilidade comum, nos apresenta a vida sendo experienciada de forma comunitária. Ela nos oferece princípios orientadores para a defesa e a promoção da vida. Encontramos estes princípios na relação entre Deus, seres humanos e criação. Vejamos como isso acontece ao longo da história da revelação de Deus aos homens. Tudo começa com uma mordomia responsável.

 

1 – UMA MORDOMIA RESPONSÁVEL

Mordomia diz respeito a todo serviço que nós seres humanos realizamos para Deus. É a administração dos bens espirituais e materiais, tanto no aspecto individual quanto no coletivo. Este princípio foi estabelecido no Éden, conforme podemos ler em Gênesis 1.26.

26 Então disse Deus: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão". (Gênesis 1.26)

Após ter criado todas as espécies de peixes, aves e animais Deus fez o homem para que este tivesse domínio sobre todas as espécies. Este domínio é mostrado ao longo das Escrituras que deveria ser exercido com responsabilidade. Em Gênesis 2.15 lemos:

15 O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo. (Gênesis 2.15)

O homem recebeu no Éden uma responsabilidade de cuidado e cultivo antes mesmo da queda. Tudo nos indica neste texto que o primeiro casal precisava plantar, regar, colher, mexer a terra e tudo quanto envolve o cuidado com a natureza, porém este trabalho ainda não era manchado pelo pecado; não haviam "espinhos e cardos" conforme lemos em Gn 3.18.

Os judeus acreditam que no porvir não viveremos uma vida de ócio, andando pelas nuvens à toa e sentados em baixo de uma figueira gloriosa, e sim uma vida de trabalho, mas um trabalho compensador, onde desfrutaremos dos frutos de nosso trabalho, conforme lemos em Isaías 65.17-25. Em resumo, voltaremos à excelência do Éden.

17 Pois vejam! Criarei novos céus e nova terra, e as coisas passadas não serão lembradas. Jamais virão à mente! 18 Alegrem-se, porém, e regozijem-se para sempre no que vou criar, porque vou criar Jerusalém para regozijo, e seu povo para alegria. 19 Por Jerusalém me regozijarei e em meu povo terei prazer; nunca mais se ouvirão nela voz de pranto e choro de tristeza. 20 "Nunca mais haverá nela uma criança que viva poucos dias, e um idoso que não complete os seus anos de idade; quem morrer aos cem anos ainda será jovem, e quem não chegar aos cem será maldito. 21 Construirão casas e nelas habitarão; plantarão vinhas e comerão do seu fruto. 22 Já não construirão casas para outros ocuparem, nem plantarão para outros comerem. Pois o meu povo terá vida longa como as árvores; os meus escolhidos esbanjarão o fruto do seu trabalho. 23 Não labutarão inutilmente, nem gerarão filhos para a infelicidade; pois serão um povo abençoado pelo Senhor, eles e os seus descendentes. 24 Antes de clamarem, eu responderei; ainda não estarão falando, e eu os ouvirei. 25 O lobo e o cordeiro comerão juntos, e o leão comerá feno, como o boi, mas o pó será a comida da serpente. Não farão nem mal nem destruição em todo o meu santo monte", diz o Senhor. (Isaías 65.17-25)

Que texto lindo! Nele vemos a reconciliação da criação realizada por Jesus na cruz. Mas voltemos à ordem dada por Deus ao ser humano de cuidar e cultivar o jardim. Este cuidado responsável é reforçado através da tarefa que recebeu de Deus em dar aos animais nomes, conforme lemos em Gênesis 2.19.

19 Depois que formou da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, o Senhor Deus os trouxe ao homem para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome. (Gênesis 2.19)

O ato de darmos nome a algo ou a uma pessoa não só tem a ver com a necessidade de identificação, mas também promove em nós uma relação mais pessoal e afetiva. É muito comum pessoas que se apegam a algo, como um carro, darem nome ao seu carro. Costumamos dar nome aos nossos filhos antes mesmo deles nascerem para que possamos nos relacionar com eles de forma mais pessoal e amorosa.

Portanto quando o homem começa a dar nome às espécies viventes na terra, ele está se aproximando mais destas espécies e dessa forma sua relação afetiva se torna maior e colabora para que este se sinta mais responsável por elas.

O fato do homem ter uma responsabilidade para com as espécies não significa que ele não possa comer carne. Mas que ele deve fazê-lo de forma responsável e sem crueldade para com os animais. No Éden o homem não comia carne, o que nos leva a pensar que na nova terra e no novo céu não comeremos carne. Contudo Deus liberou o homem após sua queda a comer carne, conforme podemos ler em Gênesis 9.3.

3 Tudo o que vive e se move lhes servirá de alimento. Assim como lhes dei os vegetais, agora lhes dou todas as coisas. (Gênesis 9.3)

Aprendemos logo no inicio de nossa existência que somos responsáveis pela natureza criada e ao recebermos de Deus a ordem de darmos nome às criaturas aprendemos que devemos desenvolver com elas uma relação mais próxima. Cuidar da natureza de forma responsável é preservar a criação de Deus, de modo que sirva aos interesses atuais, mas que seja preservada para as futuras gerações, criando um sistema sustentável e que louve ao Senhor.

Outro aspecto da relação Deus, ser humano e criação é que a natureza é solidária a nossa história humana.

 

2 – A NATUREZA É SOLIDÁRIA A NOSSA HISTÓRIA HUMANA

O pecado de Adão afetou a todos nós seres humanos, pois todos somos sementes de Adão, geradas depois de sua ruptura com Deus. Entretanto o pecado de Adão também afetou toda a criação de Deus, conforme lemos em Romanos 8.21.

19 A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. 20 Pois ela foi submetida à futilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança 21 de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. 22 Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. (Romanos 8.19-22)

Essas palavras de Paulo estão alinhadas com o ensino de Gênesis 3.17 onde Deus afirma para Adão que por causa de seu pecado a terra, toda a natureza criada, se tornou maldita.

Portanto o texto está no ensinando que a natureza é solidária a nós seres humanos. Ela participa dos efeitos da queda conosco, assim também como ela participa na construção de nossa história ao longo dos anos.

Deus se revela a nós seres humanos por meio dela e faz uso da natureza para nos abençoar ou amaldiçoar, também para nos ensinar e nos orientar. A natureza foi usada por Deus como instrumento de juízo. Por meio dela, através de um grande dilúvio, Deus condenou a humanidade, salvando somente a Noé e sua família. Também fez uso da natureza quando condenou Sodoma e Gomorra fazendo chover fogo e enxofre do céu.

Ela também participa da história humana de forma positiva. No Antigo Testamento, mais especificamente na história de Israel, como instrumento de Deus para a libertação de seu povo no Egito. Vemos isso nas diversas pragas, bem como a passagem pelo mar Vermelho que pôs fim definitivamente ao domínio dos Egípcios sobre o povo de Israel. No deserto Deus colocou a prova o coração dos israelitas. O deserto também serviu como espaço de aprendizagem para a construção de um novo projeto social que resultaria em uma nova nação.

No Novo Testamento, Jesus utiliza da tempestade para ensinar seus discípulos a respeito de si e também a confiarem mais em Deus (Marcos 4.36-41). Jesus ensina seus discípulos a confiarem na provisão do Pai mostrando o cuidado que o Pai tem com a natureza (Mateus 6.25-34) Paulo é libertado da prisão através de um grande terremoto (Atos 16.25,26).

Creio que é inegável que a natureza é instrumento de Deus presente em nossas vidas como seres humanos. Neste sentido ela é solidária a nós por participar de nossa história. Ela participa de nosso sofrimento – a natureza criada geme até hoje - e aguarda a nossa completa redenção como disse o apóstolo Paulo, pois assim também ela será redimida. Ela é nas mãos de Deus instrumento para nos ensinar, corrigir, punir, orientar ou para nos abençoar.

Ela é de tal forma solidária a nós seres humanos que os profetas denunciavam a corrupção dos governos, a ambição dos homens apresentando a falência da própria natureza.

1 Israelitas, ouçam a palavra do Senhor, porque o Senhor tem uma acusação contra vocês que vivem nesta terra: "A fidelidade e o amor desapareceram desta terra, como também o conhecimento de Deus. 2 Só se vêem maldição, mentira e assassinatos, roubo e mais roubo, adultério mais adultério; ultrapassam todos os limites! E o derramamento de sangue é constante. 3 Por causa disso a terra pranteia, e todos os seus habitantes desfalecem; os animais do campo, as aves do céu e os peixes do mar estão morrendo. (Oséias 4.1-3)

Na medida que a maldade do homem cresce, a natureza geme ainda mais. A natureza é solidária com nossa morte, assim como será com nossa ressurreição. A ganância do homem está diretamente ligada a destruição da natureza.

Outro aspecto da relação Deus, ser humano e criação é que Deus nos ensina a termos uma consciência ecológica.

 

3 – DEUS NOS ENSINA A TERMOS UMA CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA

Certamente nos tempos bíblicos não existia uma preocupação ecológica como a temos hoje, uma vez que a abundância de recursos naturais eram fartas e a sociedade ainda não conhecia a eletricidade. As cidades não giravam em torno das grandes indústrias, mas da agricultura, do pastoreio, da pesca e do comércio de roupas e especiarias em geral. Nos tempos bíblicos nem mesmo motores a vapor existiam. O dia se encerrava com o pôr-do-sol. Era uma realidade totalmente distante da que vivemos hoje.

Contudo Deus cultivou uma cultura ecológica no povo de Israel. Ele promoveu uma consciência ecológica, conforme podemos ler em Êxodo 16.12,13. 

12 "Ouvi as queixas dos israelitas. Responda-lhes que ao pôr-do-sol vocês comerão carne, e ao amanhecer se fartarão de pão. Assim saberão que eu sou o Senhor seu Deus". 13 No final da tarde, apareceram codornizes que cobriram o lugar onde estavam acampados; ao amanhecer havia uma camada de orvalho ao redor do acampamento. (Êxodo 16.12,13)

O povo estava no deserto e a fome os levou a se queixarem a Moisés. Deus ouve essa queixa e providência o alimento para seu povo através da natureza, ensinando dessa forma que a natureza é a fonte de seu sustento.

A falta de alimentos não é proveniente da escassez de produção. A natureza é pródiga e reveladora da providência divina. A falta de alimento é fruto de uso irresponsável dos recursos oferecidos pela natureza a nós.

Vários são os textos bíblicos no Antigo Testamento ensinando o povo a verem a natureza como fonte da providência divina para o sustento da vida humana. Vamos ler somente mais um texto, Deuteronômio 20.19,20.

19 Quando sitiarem uma cidade por um longo período, lutando contra ela para conquistá-la, não destruam as árvores dessa cidade a golpes de machado, pois vocês poderão comer as suas frutas. Não as derrubem. Por acaso as árvores são gente, para que vocês as sitiem? 20 Entretanto, poderão derrubar as árvores que vocês sabem que não são frutíferas, para utilizá-las em obras que ajudem o cerco, até que caia a cidade que está em guerra contra vocês. (Deuteronômio 20.19,20)

Deus está ensinando o povo a fazer uso de forma responsável dos recursos oferecidos pela natureza. Ele afirma que destas árvores frutíferas eles teriam o alimento necessário. Eles poderiam derrubar outras árvores que não fossem frutíferas para utilizá-las em obras que o ajudassem no cerco. Isso nos ensina que podemos derrubar árvores, mas precisamos fazê-lo com responsabilidade e considerando os nossos dias.

Outro ensino que Deus dá ao povo de Israel é com relação à terra, conforme lemos em Levítico 25.1-7.     

1 Então disse o Senhor a Moisés no monte Sinai: 2 "Diga o seguinte aos israelitas: Quando vocês entrarem na terra que lhes dou, a própria terra guardará um sábado para o Senhor. 3 Durante seis anos semeiem as suas lavouras, aparem as suas vinhas e façam a colheita de suas plantações. 4 Mas no sétimo ano a terra terá um sábado de descanso, um sábado dedicado ao Senhor. Não semeiem as suas lavouras, nem aparem as suas vinhas. 5 Não colham o que crescer por si, nem colham as uvas das suas vinhas que não serão podadas. A terra terá um ano de descanso. 6 Vocês se sustentarão do que a terra produzir no ano de descanso, você, o seu escravo, a sua escrava, o trabalhador contratado e o residente temporário que vive entre vocês, 7 bem como os seus rebanhos e os animais selvagens de sua terra. Tudo o que a terra produzir poderá ser comido. (Levítico 25.1-7)

Mais uma vez a consciência ecológica é vista nesta ordem de Deus. Por seis anos o homem poderia trabalhar, cultivar a terra, mas no sétimo ano deveria dar descanso a terra. Era necessário deixar a terra se alimentar para poder voltar a produzir com eficácia.

Hoje sabemos que a tecnologia produz alimento através de processos de adubação para a terra e permite que o agricultor a cultive o ano inteiro. Entretanto o ensino que está aqui é o cuidado responsável para com a natureza. Mas a outro ensino aqui também e muito importante. Aprendemos também que Deus providencia o alimento para nós por meio da natureza, mesmo quando não plantamos e a cultivamos.  Deus está nos ensinando a confiar em Sua providência.

Este é o ensino de Jesus em Mateus 6.25-34, quando ele diz para buscarmos o Reino de Deus e a sua justiça em primeiro lugar. Em vez de ficarmos ansiosos pelo que havemos de vestir ou comer.

 

REFLEXÃO FINAL

A crise atual não é apenas de escassez crescente de recursos e de serviços naturais. É fundamentalmente a crise de uma cultura que colocou o ser humano como “senhor e dono” da natureza. É a crise de uma sociedade humana incapaz de perceber que a natureza é solidária a nossa dor e que reflete nossa própria ganância e maldade.

A ganância interesseira faz crescer em muitos a vontade de explorar os outros, e de se enriquecerem através do uso irresponsável dos recursos naturais.

Como cristãos precisamos assumir a responsabilidade de cuidar e de cultivar nosso planeta mantendo as condições de sustentabilidade de todos os ecossistemas que compõem a Terra.

Cuidar da natureza é importante, porque a natureza é a providência divina para nossa sustentação, dela extraímos os recursos mais básicos para nossa sobrevivência, o ar que respiramos e o alimento para nosso corpo.

A nossa pregação deve proclamar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, que se fez carne e morreu na cruz, propiciando o perdão de nossos pecados, e por meio do seu sangue derramado na cruz, fomos reconciliados com Deus e nos tornamos filhos de Deus, povo de Deus, mas devemos também proclamar que nós cristãos somos responsáveis pelo mundo criado por nosso Pai Celestial. Não podemos ignorar o clamor mundial que emerge da realidade desafiante que nosso planeta está doente. Deus te abençoe!

 

Pr. Cornélio Póvoa de Oliveira

27/06/2021

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