O CRISTÃO E A ECOLOGIA
Série: Juntos Podemos Mais
Atualmente nos
encontramos diante um clamor mundial que emerge da realidade desafiante
enfrentada pela humanidade: nossa casa, o planeta Terra, está gravemente
doente. Enfrentamos um problema ecológico muito sério.
Diante a
realidade assustadora em que se encontra nosso planeta os líderes das maiores
economias mundiais têm se encontrado com o fim de encontrarem soluções para
conterem a destruição que temos provocado ano após ano.
O aquecimento
global já tem produzido efeitos maléficos sobre a natureza. Poderá trazer, a
curto prazo, consequências ainda mais catastróficas do que as que o mundo hoje
já experimenta: degradação do meio ambiente, diminuição acelerada das fontes de
água potável, desertificação, degelo das calotas polares com a decorrente
elevação do nível do mar cobrindo as áreas litorâneas, grande incidência de
furacões e de queimadas, extinção de milhares de espécies de animais, escassez
de alimento, proliferação de doenças, migrações forçadas de espécies de animais
e homens… Enfim, o desequilíbrio dos ecossistemas pode comprometer, de forma
irreversível, todas as formas de vida sobre a terra, isto inclui nós seres
humanos.
Embora a Bíblia
não trate diretamente da relação do homem com o ecossistema, nem se encontra
nela a palavra ecologia, ela nos ensina que devemos cuidar não somente dos
nossos interesses, mas também dos interesses das demais pessoas, como vimos no
último domingo.
A Bíblia desperta em nós a consciência da responsabilidade comum, nos apresenta a vida sendo experienciada de forma comunitária. Ela nos oferece princípios orientadores para a defesa e a promoção da vida. Encontramos estes princípios na relação entre Deus, seres humanos e criação. Vejamos como isso acontece ao longo da história da revelação de Deus aos homens. Tudo começa com uma mordomia responsável.
1 – UMA MORDOMIA RESPONSÁVEL
Mordomia diz respeito a todo serviço que nós seres humanos realizamos
para Deus. É a administração dos bens espirituais e materiais, tanto no aspecto
individual quanto no coletivo. Este princípio foi estabelecido no Éden,
conforme podemos ler em Gênesis 1.26.
26 Então disse Deus: "Façamos
o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine
ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais
grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao
chão". (Gênesis 1.26)
Após ter criado
todas as espécies de peixes, aves e animais Deus fez o homem para que este
tivesse domínio sobre todas as espécies. Este domínio é mostrado ao longo das
Escrituras que deveria ser exercido com responsabilidade. Em Gênesis 2.15
lemos:
15 O Senhor Deus colocou o homem
no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo. (Gênesis 2.15)
O homem recebeu no
Éden uma responsabilidade de cuidado e cultivo antes mesmo da queda. Tudo nos
indica neste texto que o primeiro casal precisava plantar, regar, colher, mexer a terra e tudo
quanto envolve o cuidado com a natureza, porém este trabalho ainda não era
manchado pelo pecado; não haviam "espinhos e cardos" conforme lemos
em Gn 3.18.
Os judeus acreditam
que no porvir não viveremos uma
vida de ócio, andando pelas nuvens à toa e sentados em baixo de uma figueira
gloriosa, e sim uma vida de trabalho, mas um trabalho compensador, onde
desfrutaremos dos frutos de nosso trabalho, conforme lemos em Isaías 65.17-25. Em
resumo, voltaremos à excelência do Éden.
17 Pois vejam! Criarei novos céus
e nova terra, e as coisas passadas não serão lembradas. Jamais virão à mente! 18 Alegrem-se, porém, e regozijem-se para sempre no que
vou criar, porque vou criar Jerusalém para regozijo, e seu povo para alegria.
19 Por Jerusalém me regozijarei e em meu povo terei prazer; nunca mais se
ouvirão nela voz de pranto e choro de tristeza. 20 "Nunca mais
haverá nela uma criança que viva poucos dias, e um idoso que não complete os
seus anos de idade; quem morrer aos cem anos ainda será jovem, e quem não
chegar aos cem será maldito. 21
Construirão casas e nelas habitarão;
plantarão vinhas e comerão do seu fruto. 22 Já não construirão
casas para outros ocuparem, nem plantarão para outros comerem. Pois o meu povo
terá vida longa como as árvores; os meus escolhidos esbanjarão o fruto do seu
trabalho. 23 Não labutarão inutilmente, nem gerarão filhos para a
infelicidade; pois serão um povo abençoado pelo Senhor, eles e os seus
descendentes. 24 Antes de clamarem, eu responderei; ainda não estarão
falando, e eu os ouvirei. 25 O lobo e o cordeiro comerão juntos, e o leão comerá
feno, como o boi, mas o pó será a comida da serpente. Não farão nem mal nem
destruição em todo o meu santo monte", diz o Senhor. (Isaías 65.17-25)
Que texto lindo!
Nele vemos a reconciliação da criação realizada por Jesus na cruz. Mas voltemos
à ordem dada por Deus ao ser humano de cuidar e cultivar o jardim. Este cuidado
responsável é reforçado através da tarefa que recebeu de Deus em dar aos
animais nomes, conforme lemos em Gênesis 2.19.
19 Depois que formou da terra
todos os animais do campo e todas as aves do céu, o Senhor Deus os trouxe ao
homem para ver como este lhes chamaria; e o
nome que o homem desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome. (Gênesis 2.19)
O ato de darmos
nome a algo ou a uma pessoa não só tem a ver com a necessidade de identificação,
mas também promove em nós uma relação mais pessoal e afetiva. É muito comum pessoas
que se apegam a algo, como um carro, darem nome ao seu carro. Costumamos dar
nome aos nossos filhos antes mesmo deles nascerem para que possamos nos
relacionar com eles de forma mais pessoal e amorosa.
Portanto quando
o homem começa a dar nome às espécies viventes na terra, ele está se
aproximando mais destas espécies e dessa forma sua relação afetiva se torna
maior e colabora para que este se sinta mais responsável por elas.
O fato do homem
ter uma responsabilidade para com as espécies não significa que ele não possa
comer carne. Mas que ele deve fazê-lo de forma responsável e sem crueldade para
com os animais. No Éden o homem não comia carne, o que nos leva a pensar que na
nova terra e no novo céu não comeremos carne. Contudo Deus liberou o homem após
sua queda a comer carne, conforme podemos ler em Gênesis 9.3.
3 Tudo o que vive e se move lhes servirá de alimento. Assim
como lhes dei os vegetais, agora lhes dou todas as coisas. (Gênesis 9.3)
Aprendemos logo
no inicio de nossa existência que somos responsáveis pela natureza criada e ao recebermos
de Deus a ordem de darmos nome às criaturas aprendemos que devemos desenvolver
com elas uma relação mais próxima. Cuidar da natureza de forma responsável é preservar
a criação de Deus, de modo que sirva aos interesses atuais, mas que seja
preservada para as futuras gerações, criando um sistema sustentável e que louve
ao Senhor.
Outro aspecto da
relação Deus, ser humano e criação é que a natureza é solidária a nossa
história humana.
2 – A NATUREZA É SOLIDÁRIA A NOSSA HISTÓRIA
HUMANA
O pecado de Adão
afetou a todos nós seres humanos, pois todos somos sementes de Adão, geradas
depois de sua ruptura com Deus. Entretanto o pecado de Adão também afetou toda
a criação de Deus, conforme lemos em Romanos 8.21.
19 A natureza
criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam
revelados. 20 Pois ela foi
submetida à futilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade
daquele que a sujeitou, na esperança 21 de que a própria natureza
criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra para a
gloriosa liberdade dos filhos de Deus. 22 Sabemos
que toda a natureza criada geme até agora,
como em dores de parto. (Romanos 8.19-22)
Essas palavras
de Paulo estão alinhadas com o ensino de Gênesis 3.17 onde Deus afirma para
Adão que por causa de seu pecado a terra, toda a natureza criada, se tornou
maldita.
Portanto o texto
está no ensinando que a natureza é solidária a nós seres humanos. Ela participa
dos efeitos da queda conosco, assim também como ela participa na construção de
nossa história ao longo dos anos.
Deus se revela a
nós seres humanos por meio dela e faz uso da natureza para nos abençoar ou
amaldiçoar, também para nos ensinar e nos orientar. A natureza foi usada por
Deus como instrumento de juízo. Por meio dela, através de um grande dilúvio,
Deus condenou a humanidade, salvando somente a Noé e sua família. Também fez
uso da natureza quando condenou Sodoma e Gomorra fazendo chover fogo e enxofre
do céu.
Ela
também participa da história humana de forma positiva. No Antigo Testamento,
mais especificamente na história de Israel, como instrumento de Deus para a
libertação de seu povo no Egito. Vemos isso nas diversas pragas, bem como a
passagem pelo mar Vermelho que pôs fim definitivamente ao domínio dos Egípcios
sobre o povo de Israel. No deserto Deus colocou a prova o coração dos
israelitas. O deserto também serviu como espaço de aprendizagem para a
construção de um novo projeto social que resultaria em uma nova nação.
No Novo
Testamento, Jesus utiliza da tempestade para ensinar seus discípulos a respeito
de si e também a confiarem mais em Deus (Marcos 4.36-41). Jesus ensina seus
discípulos a confiarem na provisão do Pai mostrando o cuidado que o Pai tem com
a natureza (Mateus 6.25-34) Paulo é libertado da prisão através de um grande
terremoto (Atos 16.25,26).
Creio que é
inegável que a natureza é instrumento de Deus presente em nossas vidas como
seres humanos. Neste sentido ela é solidária a nós por participar de nossa
história. Ela participa de nosso sofrimento – a natureza criada geme até hoje -
e aguarda a nossa completa redenção como disse o apóstolo Paulo, pois assim
também ela será redimida. Ela é nas mãos de Deus instrumento para nos ensinar,
corrigir, punir, orientar ou para nos abençoar.
Ela é de tal
forma solidária a nós seres humanos que os profetas denunciavam a corrupção dos
governos, a ambição dos homens apresentando a falência da própria natureza.
1 Israelitas, ouçam a palavra do
Senhor, porque o Senhor tem uma acusação contra vocês que vivem nesta terra:
"A fidelidade e o amor desapareceram desta terra, como também o
conhecimento de Deus. 2 Só se vêem maldição,
mentira e assassinatos, roubo e mais roubo, adultério mais adultério;
ultrapassam todos os limites! E o derramamento de sangue é constante. 3 Por causa disso a terra
pranteia, e todos os seus habitantes desfalecem; os animais do campo, as aves
do céu e os peixes do mar estão morrendo. (Oséias 4.1-3)
Na medida que a
maldade do homem cresce, a natureza geme ainda mais. A natureza é solidária com
nossa morte, assim como será com nossa ressurreição. A ganância do homem está
diretamente ligada a destruição da natureza.
Outro aspecto da
relação Deus, ser humano e criação é que Deus nos ensina a termos uma
consciência ecológica.
3 – DEUS NOS ENSINA A TERMOS UMA
CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA
Certamente nos
tempos bíblicos não existia uma preocupação ecológica como a temos hoje, uma
vez que a abundância de recursos naturais eram fartas e a sociedade ainda não
conhecia a eletricidade. As cidades não giravam em torno das grandes
indústrias, mas da agricultura, do pastoreio, da pesca e do comércio de roupas
e especiarias em geral. Nos tempos bíblicos nem mesmo motores a vapor existiam.
O dia se encerrava com o pôr-do-sol. Era uma realidade totalmente distante da
que vivemos hoje.
Contudo Deus
cultivou uma cultura ecológica no povo de Israel. Ele promoveu uma consciência
ecológica, conforme podemos ler em Êxodo 16.12,13.
12 "Ouvi as queixas dos
israelitas. Responda-lhes que ao pôr-do-sol vocês comerão carne, e ao amanhecer
se fartarão de pão. Assim saberão que eu sou o Senhor seu Deus". 13 No final da tarde, apareceram
codornizes que cobriram o lugar onde estavam acampados; ao amanhecer havia uma camada de orvalho ao redor do
acampamento. (Êxodo 16.12,13)
O povo estava no
deserto e a fome os levou a se queixarem a Moisés. Deus ouve essa queixa e
providência o alimento para seu povo através da natureza, ensinando dessa forma
que a natureza é a fonte de seu sustento.
A falta de
alimentos não é proveniente da escassez de produção. A natureza é pródiga e
reveladora da providência divina. A falta de alimento é fruto de uso
irresponsável dos recursos oferecidos pela natureza a nós.
Vários são os textos bíblicos no Antigo Testamento
ensinando o povo a verem a natureza como fonte da providência divina para o
sustento da vida humana. Vamos ler somente mais um texto, Deuteronômio
20.19,20.
19 Quando sitiarem uma cidade por
um longo período, lutando contra ela para conquistá-la, não destruam as árvores dessa cidade a golpes de machado, pois vocês
poderão comer as suas frutas. Não as derrubem. Por acaso as árvores são
gente, para que vocês as sitiem? 20 Entretanto, poderão derrubar as árvores que vocês
sabem que não são frutíferas, para utilizá-las em obras que ajudem o cerco, até
que caia a cidade que está em guerra contra vocês. (Deuteronômio
20.19,20)
Deus
está ensinando o povo a fazer uso de forma responsável dos recursos oferecidos
pela natureza. Ele afirma que destas árvores frutíferas eles teriam o alimento
necessário. Eles poderiam derrubar outras árvores que não fossem frutíferas
para utilizá-las em obras que o ajudassem no cerco. Isso nos ensina que podemos
derrubar árvores, mas precisamos fazê-lo com responsabilidade e considerando os
nossos dias.
Outro
ensino que Deus dá ao povo de Israel é com relação à terra, conforme lemos em
Levítico 25.1-7.
1 Então disse o Senhor a Moisés
no monte Sinai: 2 "Diga o seguinte
aos israelitas: Quando vocês entrarem na terra que lhes dou, a própria terra
guardará um sábado para o Senhor. 3 Durante seis anos semeiem as
suas lavouras, aparem as suas vinhas e façam a colheita de suas plantações.
4 Mas
no sétimo ano a terra terá um sábado de descanso, um sábado dedicado ao Senhor.
Não semeiem as suas lavouras, nem aparem as suas vinhas. 5 Não
colham o que crescer por si, nem colham as uvas das suas vinhas que não serão
podadas. A terra terá um ano de descanso. 6 Vocês se sustentarão
do que a terra produzir no ano de descanso, você, o seu escravo, a sua escrava,
o trabalhador contratado e o residente temporário que vive entre vocês, 7 bem
como os seus rebanhos e os animais selvagens de sua terra. Tudo o que a terra
produzir poderá ser comido. (Levítico 25.1-7)
Mais uma vez a
consciência ecológica é vista nesta ordem de Deus. Por seis anos o homem
poderia trabalhar, cultivar a terra, mas no sétimo ano deveria dar descanso a
terra. Era necessário deixar a terra se alimentar para poder voltar a produzir
com eficácia.
Hoje sabemos que
a tecnologia produz alimento através de processos de adubação para a terra e
permite que o agricultor a cultive o ano inteiro. Entretanto o ensino que está
aqui é o cuidado responsável para com a natureza. Mas a outro ensino aqui
também e muito importante. Aprendemos também que Deus providencia o alimento
para nós por meio da natureza, mesmo quando não plantamos e a cultivamos. Deus está nos ensinando a confiar em Sua
providência.
Este é o ensino
de Jesus em Mateus 6.25-34, quando ele diz para buscarmos o Reino de Deus e a
sua justiça em primeiro lugar. Em vez de ficarmos ansiosos pelo que havemos de
vestir ou comer.
REFLEXÃO FINAL
A crise atual não é
apenas de escassez crescente de recursos e de serviços naturais. É
fundamentalmente a crise de uma cultura que colocou o ser humano como “senhor e
dono” da natureza. É a crise de uma sociedade humana incapaz de perceber que a
natureza é solidária a nossa dor e que reflete nossa própria ganância e
maldade.
A ganância interesseira
faz crescer em muitos a vontade de explorar os outros, e de se enriquecerem
através do uso irresponsável dos recursos naturais.
Como cristãos
precisamos assumir a responsabilidade de cuidar e de cultivar nosso planeta
mantendo as condições de sustentabilidade de todos os ecossistemas que compõem
a Terra.
Cuidar da natureza
é importante, porque a natureza é a providência divina para nossa sustentação,
dela extraímos os recursos mais básicos para nossa sobrevivência, o ar que
respiramos e o alimento para nosso corpo.
A nossa pregação
deve proclamar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, que se fez carne e morreu na
cruz, propiciando o perdão de nossos pecados, e por meio do seu sangue
derramado na cruz, fomos reconciliados com Deus e nos tornamos filhos de Deus,
povo de Deus, mas devemos também proclamar que nós cristãos somos responsáveis
pelo mundo criado por nosso Pai Celestial. Não podemos ignorar o clamor mundial
que
emerge da realidade desafiante que nosso planeta está doente. Deus te abençoe!
Pr. Cornélio Póvoa
de Oliveira
27/06/2021
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