JUSTIFICAÇÃO PELA GRAÇA MEDIANTE A FÉ
Muitas
de nossas doutrinas bíblicas têm sido distorcidas ao longo dos anos, entre
elas, a doutrina da “Justificação Pela Graça Mediante a Fé” – tema de nossa
mensagem de hoje.
Esta
doutrina tem sido atacada pelos católicos ao longo da historia e hoje ela tem
perdido força até mesmo no meio protestante e ignorada completamente pelas
igrejas ditas evangélicas de nossos dias.
Procurarei
nesta reflexão resgatar a força desta doutrina tão defendida pelos reformadores
e que sem dúvida foi a grande causadora da Reforma Protestante do séc. XVI,
para isso eu os convida a leitura do texto de Romanos 3.21-31.
21 Mas agora se manifestou uma justiça que
provém de Deus, independente da lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, 22 justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para
todos os que crêem. Não há distinção, 23 pois todos pecaram e estão
destituídos da glória de Deus, 24
sendo justificados
gratuitamente por sua graça, por meio da
redenção que há em Cristo Jesus. 25
Deus o ofereceu como sacrifício para
propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua
tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; 26 mas,
no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e justificador
daquele que tem fé em Jesus. 27
Onde está, então, o motivo de vanglória?
É excluído. Baseado em que princípio? No da obediência à lei? Não, mas no
princípio da fé. 28 Pois sustentamos que o
homem é justificado pela fé, independente da obediência à lei. 29 Deus
é Deus apenas dos judeus? Ele não é também o Deus dos gentios? Sim, dos gentios
também, 30 visto que existe um só Deus, que pela fé justificará os circuncisos e os incircuncisos.
31 Anulamos então a lei pela fé? De maneira nenhuma! Pelo contrário,
confirmamos a lei. (Romanos 3.21-31)
O apóstolo Paulo
escreveu esta carta a Igreja de Roma aproximadamente no ano 57 d.C.
Roma
era a capital do Império Romano. A riqueza de Roma saltava aos olhos. O seu comércio
era algo extraordinário. A cidade de Roma era uma grande consumidora de
mercadorias e especiarias de forma geral. Por isso Roma atraia todo tipo de
pessoas.
Com o passar dos anos, Roma se tornou uma cidade superpovoada e o medo
foi tomando conta de Roma. Sua população escrava e de pobres crescia assustadoramente.
Logo, os problemas sociais começaram a surgir na capital do Império. Para
diminuir o excesso de população muitos pobres e escravos eram lançados nas
arenas onde morriam nas mãos de gladiadores ou se tornavam alimentos para
ferozes leões.
Esta
carta é o manifesto mais completo e coerente do evangelho que se encontra no
Novo Testamento. Através da carta de Paulo aos Romanos podemos concluir que a
Igreja de Roma era frequentada por ricos e pobres, escravos e livres, judeus e
gentios.
O texto que lemos trata do discurso que Paulo faz em sua carta sobre o tema da justificação pela graça mediante a fé. Primeiro ponto que iremos destacar é que a justificação é um ato da justiça de Deus.
1o - É UM ATO DA JUSTIÇA DE DEUS
21 Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus, independente da
lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, 22 justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para
todos os que crêem. Não há distinção, (Romanos 3.21,22)
O
apóstolo Paulo afirma que Deus proveu aos homens uma justiça que independe da
lei, isto é, ela atua sem a lei. Ele está se referindo a justificação pela fé
em Jesus Cristo. Este novo caminho não é um caminho desconhecido, pelo
contrário, este caminho já era testemunhado pela Lei e pelos profetas.
Paulo
começa sua carta aos Romanos condenando toda a humanidade, desde os tempos da
criação do mundo, por sua ingratidão, visto que não há quem reconheça a Deus na
excelência de suas obras, pois estas revelam o seu poder e a sua glória.
18 Portanto, a
ira de Deus é revelada do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens
que suprimem a verdade pela injustiça, 19 pois
o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes
manifestou. (Romanos 1.18,19)
Paulo
estava falando a homens que não receberam a revelação da Lei e que estavam
adorando a criação, em vez de adorarem ao criador. Segundo ele estes cometeram
uma injustiça ao adorarem a criação ao invés do criador.
O
apóstolo também condena os judeus que confiavam na lei, mas não conseguiam
cumpri-la e por ela eram condenados.
17 Ora, você que
leva o nome de judeu, apóia-se na lei e orgulha-se em Deus; [...] 23 Você, que se orgulha na lei, desonra a Deus,
desobedecendo à lei? 24 Como está escrito: "O nome de Deus é blasfemado
entre os gentios por causa de vocês". (Romanos
2.17,23,24)
Tantos os gentios como os judeus
são colocados pelo apóstolo na mesma situação de condenação diante de Deus. Paulo
conclui que todos os homens pecaram e carecem da glória de Deus, conforme
podemos ler em Romanos 3.23.
23 pois todos
pecaram e estão destituídos da glória de Deus, (Romanos
3.23)
Ao
homem não resta nada a fazer, em face de sua culpa; ele esta impossibilitado de
se salvar ou de se auto-justificar; só lhe resta aguardar o julgamento, que é a
consequência inevitável do pecado no mundo de Deus. Diante esta incapacidade de
se auto-justificar, é que se manifesta a graça de Deus em Cristo.
Portanto
é Deus quem nos justifica, conforme lemos em Romanos 8:33.
33 Quem fará alguma acusação contra os
escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.
(Romanos 8.33)
Somente
Ele pode nos justificar. Deus o faz livremente não por causa de nossas obras,
mas por causa da sua graça manifestada em Cristo Jesus. A justificação pela fé
é um ato da justiça de Deus aos homens.
O verbo justificar no grego é δικαιόω
(dikaioō) construído sobre a mesma raiz de justo (δικαιος – dikaios) que significa ‘absolver’, ‘declarar
justo’. A justificação é um ato próprio do juiz – que tem o poder de tornar
alguém justo.
A ideia
principal, em justificação, é a declaração de Deus, o juiz justo, de que o
homem que crê em Cristo, embora possa ser pecador, é justo – é visto como sendo
justo, porque, em Cristo, ele chegou a um relacionamento justo com Deus.
Para
Paul Tillich a justificação é o ato eterno de Deus mediante o qual ele aceita
como não alienados aqueles que na verdade se acham alienados dele pela culpa.
O
teólogo alemão Paul Tillich, falecido no ano de 1965, apelava para que os
irmãos ensinassem sobre a “justificação pela graça mediante a fé”, sem abreviarem
este termo como tem sido frequentemente feito para “justificação pela fé”. Ele
acreditava que ao fazermos isto acabávamos retirando a causa de nossa aceitação
perante Deus. Segundo ele não somos aceitos por Deus causa da nossa fé, mas
somos aceitos por causa da Sua graça manifestada em Jesus Cristo. A fé é a
nossa resposta de que aceitamos a graça que nos foi oferecido em Cristo.
Segundo
ponto que quero destacar é que a justificação é um ato da justiça de Deus que só
pode ser encontrada em Cristo.
2o - SÓ PODE SER ENCONTRADA EM
CRISTO
22 justiça de Deus mediante
a fé em Jesus Cristo para todos os que crêem. Não há distinção, 23 pois todos pecaram e estão destituídos da glória de
Deus, 24 sendo justificados
gratuitamente por sua graça, por meio da
redenção que há em Cristo Jesus. (Romanos
3.22-24)
Visto que todos os homens são
pecadores, todas as suas obras são maculadas, e a isso, segue-se que todos os
homens se acham destituídos de justiça inerente. Nenhum homem consegue se auto-justificar
perante o tribunal de Deus, estão todos condenados a morte, pois este é o
salário do pecado.
Deus
sendo rico em misericórdia desejava salvar o homem, mas Ele precisava
satisfazer a lei. A lei não podia ser quebrada sem que o infrator sofresse a
sua pena. Os pecadores estão presos à penalidade da lei. Não podem simplesmente
sair ilesos, pois isso seria passar por cima da lei e seria contra o próprio
caráter de Deus. A lei deve ser cumprida, suas exigências pagas e sua dignidade
respeitada. Deus não pode abolir, ignorar ou deliberadamente passar por cima da
constituição moral das coisas que estabeleceu.
Paulo
tentou de todos os modos mostrar que o homem nada podia fazer de absoluto para
ajudar alcançar sua salvação.
De tal
forma que é indispensável que Cristo venha em nosso auxílio, pois Ele é o único
inerentemente justo e capaz de fazer-nos justos, transferindo para nós sua
própria justiça. Jesus Cristo é a manifestação da justiça de Deus aos homens.
Louis
Berkhof define a justificação como um ato
judicial de Deus, no qual Ele declara, com base na justiça de Jesus Cristo, que
todas as reivindicações da lei são satisfeitas com vistas ao pecador; isto
significa, que o caminho para que o homem seja aceito por Deus, só pode ser
encontrado em Cristo.
O
apóstolo Paulo também demonstra sucintamente que esta justificação só pode ser
encontrada em Cristo. Jesus é o centro da ‘justificação pela graça mediante a
fé’. Ele é o substituto que tomou o nosso lugar, levou o nosso pecado, morreu a
nossa morte, sofreu a nossa penalidade.
Através deste novo caminho tanto
judeus, como gentios podem ser postos em correta relação com Deus, podem ter a
certeza de serem aceitos por Ele e de receberem Seu perdão gratuito.
É Cristo que Deus expôs diante de nossos olhos como
Aquele cuja morte sacrificial fez expiação de nossa culpa e retirou a iminente
retribuição merecida por nossa rebelião contra Ele. O que Cristo obteve para
nós, podemos tornar efetivamente nosso pela fé.
Terceiro ponto que desejo destacar é que a
justificação pela graça mediante a fé em Jesus Cristo nos proporciona bênçãos
eternas.
3o – PROPORCIONA BÊNÇÃOS ETERNAS
Vou enumerar algumas bênçãos que
recebemos por meio da justificação pela graça mediante a fé. Esta ordem citada
não representa graus das bênçãos.
A
primeira bênção é a reconciliação com Deus – 10 Se quando éramos inimigos de Deus fomos reconciliados com ele mediante a morte de
seu Filho, quanto mais agora, tendo sido reconciliados, seremos salvos por sua
vida! (Romanos 5.10). A
reconciliação (Katalasso, katallage) é uma doutrina estreitamente aliada à da
justificação. A justificação é a absolvição do pecador, de todo pecado; a
reconciliação é a restauração do homem justificado ao relacionamento com Deus. Deixamos
de ser inimigos de Deus e nos tornamos filhos de Deus por meio de Jesus Cristo.
A segunda bênção é o perdão – 1 Portanto,
agora já não há condenação para os que estão
em Cristo Jesus, (Romanos 8.1). Através
da justificação deixamos de ser inimigos de Deus e passamos a ter livre acesso
a Ele. A justificação nos absolveu de nossos pecados e nos deu o perdão de
Deus. Isto significa que estamos perdoados, não precisamos mais pagar a
penalidade imposta por nossos pecados. Não há condenação para nós que estamos
em Cristo Jesus. Estamos perdoados.
A terceira bênção é a paz – 1 Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo,
(Romanos 5.1). A ira
de Deus, que transformava o homem em seu inimigo foi retirada por meio da
justificação. O homem foi absolvido, seu relacionamento foi restaurado e agora
temos paz com Deus. A paz esta ligada com o estado que o homem se encontra
diante Deus. A justificação restabeleceu a paz do homem com Deus e de Deus com
o homem.
A quarta bênção é a
regeneração de nosso ser – 25 Aspergirei água pura
sobre vocês, e vocês ficarão puros; eu os purificarei de todas as suas
impurezas e de todos os seus ídolos. 26 Darei
a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração
de pedra e lhes darei um coração de carne. 27 Porei o meu Espírito
em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e a obedecerem
fielmente às minhas leis. (Ezequiel 36.25-27). A justificação abriu a porta para o cumprimento da promessa
de Deus anunciada pelo profeta Ezequiel.
Esta promessa esta relacionada
com o novo nascimento. A regeneração do nosso ser significa uma transformação
radical do nosso ser, operada pelo Espírito Santo de Deus. Antes da cruz o
homem se encontrava ‘morto’ espiritualmente por causa da lei do pecado que
operava sobre todos os homens. O homem vivia para o pecado, escravo de sua
própria carne e morto para Deus. A cruz mudou esta história. Nela o homem foi
justificado tornando possível que o homem antes pecador e inimigo de Deus, se
tornasse a morada de Deus.
Todo o interior do homem, todas
as suas faculdades e até os alicerces de sua personalidade são transformados
pela regeneração. A regeneração é um nascer de novo, nascemos no espírito e
agora somos guiados pelo Espírito de Deus.
Por meio deste novo nascimento somos recebidos no Reino de Deus como
filhos adotados por meio de Cristo.
CONCLUSÃO
Quero encerrar lembrando aos
irmãos que a justificação pela graça mediante a fé, é um ato da justiça de Deus, pois Deus para poder salvar o pecador
precisava satisfazer sua justiça, (somente Deus poderia salvar o homem de sua
ganância, cobiça, de sua desumanização, que o leva cada vez mais a morte, pois
todos pecaram e todos carecem da glória de Deus); esta justificação só pode ser encontrada em Cristo, pois
somente Jesus Cristo sendo Deus e homem pôde satisfazer a justiça de Deus (e
somente em Jesus, o homem, pode olhar um para o outro sem distinção de classe
social, cor e sexo, todos se tornam iguais perante Deus, não existe mais
escravos e livres, pobres e ricos, judeus e gentios. Em Cristo somos todos um),
e esta justificação nos proporciona
bênçãos eternas, bênçãos essas que começamos a viver hoje, aqui e agora por
meio de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Pr.
Cornélio Póvoa de Oliveira
15/01/2023
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