A RELAÇÃO ENTRE O PERDÃO E A JUSTIÇA DE DEUS
Série: A Justiça do Reino de Deus
Neste ano
estamos refletindo sobre o Reino de Deus e neste mês de Setembro o tema de
nossa série é “A Justiça do Reino de Deus”. Hoje pela manhã refletimos no tema
“Nas Mãos de um Deus Justo” e agora à noite iremos refletir no tema “A Relação
Entre o Perdão e a Justiça de Deus”.
Muitos
consideram o perdão e a justiça contraditórios, incoerentes entre si. Para
muitos o perdão é injusto visto que retira do ofensor o seu pecado, enquanto o
ofendido tem que carregar a sua dor em silêncio, uma vez que perdoou.
Seria realmente
o perdão um ato de injustiça? Se o perdão fosse um ato de injustiça, Deus seria
injusto e estaria nos pedindo para sermos injustos também. Sabemos que Deus é
justo e não comete injustiça alguma, então o perdão é um ato de justiça, embora
tenhamos dificuldade com isso.
Para compreendermos melhor essa relação de justiça no perdão, vamos começar nossa reflexão buscando compreender o perdão.
1 – O QUE É O PERDÃO?
O perdão é o ato
onde o ofendido libera o ofensor de pagar por sua culpa. Entretanto é
necessário reconhecermos que o ofendido ao liberar o ofensor assume o prejuízo
da culpa cometida pelo ofensor. Vemos isso na cruz.
Jesus para apaziguar
a ira de Deus contra nós pecadores morreu por nossos pecados. Ira essa
proveniente do desejo profundo de Deus por justiça. O perdão não anulou a
necessidade da justiça, por isso Jesus morreu na cruz, conforme lemos em
Romanos 3.21-26.
21 Mas agora se manifestou uma justiça que provém de
Deus, independente da lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, 22 justiça de Deus mediante a fé
em Jesus Cristo para todos os que crêem. Não há distinção, 23 pois todos pecaram e estão
destituídos da glória de Deus, 24 sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da
redenção que há em Cristo Jesus. 25 Deus o ofereceu como sacrifício para
propiciação mediante a fé, pelo seu sangue,
demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados
anteriormente cometidos; 26 mas,
no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e justificador
daquele que tem fé em Jesus. (Romanos
3.21-26)
Nós os ofensores
tivemos a culpa retirada. Nós fomos perdoados, mas Jesus assumiu o prejuízo de
nossos pecados. Ele satisfez a justiça requerida pelo Pai. Nele fomos
justificados. O ofendido pagou o preço exigido pela justiça na pessoa do Filho.
O mesmo se dá em
nossas vidas quando perdoamos nossos ofensores. Assumimos os prejuízos de seus
danos contra nós. A extensão desse prejuízo varia de acordo com a dimensão da
vida que foi afetada pelo ofensor. Se o prejuízo é somente financeiro, o
ofendido irá assumir esse prejuízo financeiro, liberando o ofensor de
restituí-lo. Assim a justiça é satisfeita aos olhos de Deus. O ofendido pagará em
vida o preço dos danos financeiro.
Quando o ofensor
restitui o que roubou, ou restitui de alguma forma o prejuízo que causou, ele
tem sua culpa retirada, ele foi desculpado. O perdão é para os casos em que o
ofensor não tem como retirar a sua culpa, não tem como restituir o prejuízo
causado.
Às vezes o
prejuízo vai além do financeiro, afeta a dimensão moral daquele que foi
ofendido. Isso pode acontecer quando fofocamos da vida alheia, quando lançamos
palavras a respeito de alguém que não são verdadeiras, que não temos como
prová-las.
Neste caso não
tendo como o ofensor restituir a moral do ofendido, cabe ao cristão ofendido perdoar
o ofensor, declarando através do perdão que o ofensor não lhe deve mais nada. Dessa
forma ele assume o prejuízo moral causado a sua pessoa pelo ofensor. Assim a
justiça é satisfeita aos olhos de Deus. Novamente o ofendido pagará em vida o
preço dos danos morais causado pelo ofensor.
Atualmente nossa
legislação prevê casos de restituição financeira quando a moral de alguém é
denegrida sem que haja provas concretas contra ela. Entretanto o ensino bíblico
é que nós cristãos não levemos ao tribunal comum os problemas entre nós, mas
que possamos resolver entre nós mesmos, seja por meio da restituição ou do
perdão.
Algumas vezes o
prejuízo pode ser irreparável, isto ocorre em casos de assassinatos, violência
física, sexual, psicológica; mesmo nestes casos somos ordenados por Deus a
perdoar. Precisamos liberar o ofensor de sua culpa e deixar Deus fazer justiça
por nós. Assim a justiça é satisfeita aos olhos de Deus. Mais uma vez o
ofendido pagará o preço dos danos irreparáveis causados pelo ofensor.
Olhando dessa
forma parece que o perdão não é justo, pois o ofensor, aquele que fere, não
responde por seus atos de injustiça, enquanto o ofendido precisa assumir os prejuízos
causados por seus ofensores.
Devo lembrar que
se o perdão não fosse justo, Deus não nos ordenaria perdoarmos uns aos outros.
O perdão não é uma opção para nós cristãos, é uma ordem de Deus. Se o perdão
não fosse justo Deus não nos perdoaria através de Seu Filho Jesus Cristo.
Em nosso próximo
ponto buscaremos responder a pergunta: “Como o perdão pode ser justo”?
2 – COMO O PERDÃO PODE SER JUSTO?
Precisamos
responder a esta pergunta olhando para o ofensor e para o ofendido
separadamente, mas precisamos responder a esta pergunta a partir da cruz, pois
ela amplia a graça de Deus para todos os seres humanos. A cruz redime todos os
homens de todos os seus pecados. Com essa perspectiva vamos começar olhando
para o ofensor.
·
Com relação ao
ofensor
– Primeiramente a justiça de Deus se faz presente para o ofensor no sentido de
que ao ser perdoado, ele experimenta da graça de Deus através do ofendido. O perdão
torna visível para o ofensor o ato da justificação realizado por Deus em Cristo
Jesus na cruz.
Em segundo lugar
a justiça divina se faz porque a retribuição do mal que lhe foi causado, com
obras de justiça e perdão irá amontoar brasas vivas sobre a cabeça do ofensor,
conforme lemos em Romanos 12.19-21.
19 Amados,
nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito:
"Minha é a vingança; eu retribuirei", diz o Senhor. 20 Pelo contrário: "Se o seu
inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo
isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça
dele". 21 Não se deixem vencer pelo mal, mas
vençam o mal com o bem. (Romanos 12.19-21)
Em terceiro
lugar a justiça divina se faz porque o perdão libera o ofensor arrependido do
sentimento de culpa, liberando-o para experimentar a nova vida em Cristo Jesus.
·
Com relação ao
ofendido – A
justiça de Deus se faz primeiramente porque o perdão protege o coração do
ofendido. A bíblia diz em Provérbios 4.23:
23 Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida. (Provérbios 4.23)
Se você permitir
que o seu coração seja dominado pelo sentimento de amargura, logo você irá
morrer emocionalmente e espiritualmente. O perdão é uma proteção contra a morte
emocional e espiritual daquele que foi ofendido. É injusto que o justo morra
espiritualmente por causa de uma injustiça causada pelo injusto.
Em segundo lugar
a justiça de Deus se revela através do perdão, pois a raiz de amargura não só
irá destruir sua espiritualidade e sua vida emocional como também sua saúde física.
Muitas pessoas se encontram doentes fisicamente porque guardam em seus corações
sentimentos de amargura. Portanto o perdão protege seu corpo também.
Em terceiro
lugar a justiça de Deus se manifesta por meio do perdão porque impede que
muitos na igreja sejam contaminados pela amargura. Um indivíduo que carrega
amargura produz muitas perturbações na igreja e gera novos corações amargos. Em
Hebreus 12.15b lemos:
15b [...]
Que nenhuma raiz de amargura brote e cause
perturbação, contaminando a muitos. (Hebreus 12.15b)
A ausência de
perdão torna a pessoa amarga, levando-a a morte espiritual e emocional,
causando doenças físicas e ainda afeta a vida das pessoas com as quais ela tem
contato.
Em quarto lugar
a justiça de Deus se manifesta por meio do perdão, pois aquele que não perdoa,
estanca a graça de Deus sobre sua própria vida. Na oração do Pai nosso Jesus
nos ensinou a orarmos a Deus para que Ele nos perdoe como nós perdoamos aos
nossos defensores. Se você não perdoa, como pode esperar que Deus te perdoe?
Por todas estas
razões que citamos o perdão na perspectiva de Deus é justo. É justo pelo que
fazemos pelo ofendido, pelo que fazemos por nós e pelo que fazemos pelos
outros. Por isso o perdão é ordenado por Deus; não é uma opção, pois a ausência
do perdão causa muitas injustiças. Precisamos olhar para o perdão a partir da
cruz e não de nosso próprio senso de justiça.
Uma vez que
ficou claro que o perdão não é injusto aos olhos de Deus, eu gostaria de
refletir em nosso terceiro ponto sobre a realidade de que o perdão não exclui a
justiça de Deus sobre nós.
3 – O PERDÃO NÃO EXCLUI A JUSTIÇA DE DEUS
O ensino
uniforme em toda a Escritura é de que o homem será julgado de acordo com aquilo
que fez neste mundo presente. Todos serão recompensados ou condenados de
acordo com as decisões e atitudes tomadas durante sua vida terrena.
Paulo escreveu a
igreja de Corinto afirmando aos irmãos da fé que estes iriam comparecer diante
o tribunal de Cristo para prestar contas de todas as obras praticadas.
10 Pois todos nós devemos comparecer perante o
tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do
corpo, quer sejam boas quer sejam más. (2 Coríntios 5.10)
Precisamos
compreender que o perdão não exclui a justiça de Deus sobre nossas vidas. Todos
nós crentes e incrédulos responderemos diante de Deus por nossos atos e palavras.
Os incrédulos
serão lançados no lago de fogo preparado para o diabo e seus anjos. Toda
justiça será feita quando estes forem condenados à morte eterna. Quanto a nós
crentes, seremos julgados e salvos pela graça, mas de alguma forma pagaremos
por nossas injustiças, assim como receberemos galardões por nossas boas obras.
REFLEXÃO FINAL
12 Portanto, como povo escolhido de Deus, santo e amado,
revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. 13 Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou. (Colossenses 3.12,13)
Quando alguém
comete um ato de injustiça e não se arrepende, ele responderá a Deus por seu
ato de injustiça. Você ao perdoar esta pessoa está protegendo seu coração para
que você não se torne amarga e digna do juízo de Deus. Mas acima de tudo você
está fazendo o que Deus lhe pediu para fazer conforme lemos em Colossenses
3.12,13.
Ao perdoarmos
obedecemos o ensino de Jesus e de seus apóstolos. Ao perdoarmos alegramos o
coração de Deus, pois demonstramos misericórdia como Ele demonstrou por nós por
meio de Seu Filho, Jesus Cristo. Ao perdoarmos assumimos o prejuízo neste tempo
presente para recebermos a recompensa quando o Reino de Deus se manifestar por
completo aos homens.
Pr. Cornélio
Póvoa de Oliveira
10/09/2023
(noite)
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