QUEM É VOCÊ DIANTE DO CONFLITO CRISTÃO DO “JÁ” E “AINDA NÃO”?
Série: A Plenitude do Reino de Deus
Eu vou procurar através dessa mensagem esclarecer a realidade
do que os teólogos chamam do “já” e “ainda não”. Enquanto eu me esforço para
esclarecer, pela graça de Deus, este conflito do “já” e “ainda não”, quero
desafiá-lo a ir refletindo sobre quem é você hoje como cristão neste mundo?
Como você vive sua fé hoje enquanto aguarda a manifestação plena do Reino de Deus?
O Reino de Deus no mundo dos homens foi inaugurado na
encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo, mas o Reino ainda não é uma realidade
plena em nosso mundo presente. Existem aspectos do Reino que já estão presentes
em nossos dias, mas existem aspectos escatológicos do Reino que se cumprirão no
futuro. Essa realidade do Reino presente e ao mesmo tempo não pleno tem levado
muitos cristãos a viverem de forma conflitante com o Evangelho pregado por
Jesus. Esse é o conflito entre o “já manifesto” e o “ainda não manifesto”.
A Bíblia afirma veementemente que somos mais que vencedores
em Cristo Jesus. Em Cristo vencemos:
·
Sobre
a carne – 24 Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos. (Gálatas 5:24)
·
Sobre o mundo – 4 O que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. (1 João 5:4)
·
Sobre o diabo – 8 Estejam alertas e
vigiem. O Diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão, rugindo e
procurando a quem possa devorar. 9 Resistam-lhe, permanecendo firmes na fé, sabendo que os
irmãos que vocês têm em todo o mundo estão passando pelos mesmos sofrimentos. (1
Pedro 5:9)
·
Sobre a morte – 21 Visto que a morte veio por meio de um só homem, também a
ressurreição dos mortos veio por meio de um só homem. 22 Pois da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados. (1
Coríntios 15:21,22)
Embora eu seja mais que vencedor; não
vivo como vencedor plenamente nesta era presente! Muitas vezes sou vencido. Embora
a Bíblia declare que eu sou justo e santo o pecado continua muitas vezes me levando
a derrotas avassaladoras, o mundo continua me aprisionando em sua rede e
Satanás ainda me induz com suas mentiras prazerosas, inflando minha carne e me
levando dessa forma a errar o alvo de minha existência. Afinal somos ou não vencedores?
Somos justo ou não? Santos ou não? Quem é você de fato como cristão?
A verdade é que “já” somos vencedores por causa da vitória de Cristo na cruz. O sacrifício de Cristo Jesus nos tornou justos e santos. Quando olhamos para a eternidade vemos nossa vitória certa. Entretanto a nossa vitória “ainda não” está completa, neste tempo presente, porque continuamos vivendo num corpo e num mundo corrupto, sujeito ao pecado.
A falta de compreensão de alguns líderes religiosos
a respeito do “já” e “ainda não” tem produzido uma teologia triunfalista
distorcida, e esta tem levado muitos a pensarem de si, além do que convém,
causando um estrago na vida de muitas pessoas e contribuindo para que estas se
afastem de Deus, em vez de se aproximarem Dele. Veja o que Paulo diz (Romanos
12.3):
3 Pois pela graça que me
foi dada digo a todos vocês: ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas, pelo contrário, tenha um conceito
equilibrado, de acordo com a medida da fé que Deus lhe concedeu. (Romanos
12:3)
Se eu tenho um conceito “elevado” de mim, tenho uma distorção do que “sou”. Essa distorção do meu ser me leva a me olhar de forma errada. O mesmo acontece com você.
1 – PASSAMOS
A ACREDITAR QUE SOMOS MELHORES DO QUE DE FATO SOMOS
O próprio ambiente religioso produz em nós uma sensação que somos
melhores do que realmente somos. Perdemos de vista que somos pecadores
contumazes (obstinados, insistentes).
Todos nós que já experimentamos a conversão e que caminhamos
algum tempo na vida religiosa, somos tendenciosos a nos considerarmos melhores
do que os outros homens. Seja sincero com você mesmo: Você não se acha melhor
que um ladrão? Não se acha melhor que os políticos corruptos de nosso país, que
um assassino, que uma pessoa de outra religião? Só que não! Na essência somos
todos pecadores.
Nos achamos melhores, porque jejuamos, dizimamos ou
simplesmente porque frequentamos uma igreja; ou talvez porque nos consideramos
os portadores da verdade, e de fato o somos. Contudo isto não deveria gerar em
nós o sentimento de sermos melhores, mas um sentimento de responsabilidade para
com aqueles que ainda não conhecem a verdade, que é Jesus.
Se o ambiente religioso já produz soberba em nós, imagine
somado com uma teologia triunfalista?
Essa sensação de que somos bons se torna evidente em nosso
sentimento de que Deus deve nos poupar dos sofrimentos experimentados pelos
demais humanos. Nós como bons cristãos, bons religiosos vivemos na expectativa
de uma vida vitoriosa “já”. Se somos melhores, merecemos o melhor de Deus, não
é verdade?
Tal sensação nos leva a vivermos a síndrome de Asafe descrita
no Salmo 73 – “Como posso eu sofrer e o ímpio prosperar?” Em nosso olhar, isso
não é justo, afinal somos melhores.
Por nos considerarmos melhores que os outros, nos
distanciamos dos outros e não percebemos que nos distanciamos do próprio Deus. O
orgulho religioso faz com que nossas orações sejam rejeitadas por Deus,
conforme lemos em Lucas 18.10-14.
10
"Dois homens subiram ao templo para orar; um
era fariseu e o outro, publicano. 11 O fariseu, em pé, orava no íntimo: ‘Deus, eu te
agradeço porque não sou como os outros homens:
ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano. 12 Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de
tudo quanto ganho’. 13 "Mas o publicano ficou à distância. Ele nem ousava
olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: ‘Deus, tem misericórdia de mim,
que sou pecador’. 14
"Eu lhes digo que este homem, e não o outro, foi para casa
justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se
humilha será exaltado". (Lucas 18:10-14)
Quando o orgulho toma nossos corações, dia após dia nos
esquecemos de quem somos e nos distanciamos do que deveríamos ser. Pergunte para
si mesmo: “Trato as outras pessoas como superiores a mim ou as trato com
desprezo?”
Quando passamos a nos considerar além do que realmente somos...
2 – PASSAMOS
A EXIGIR DE DEUS E DO PRÓXIMO O QUE NÃO TEMOS O DIREITO DE EXIGIR
Nós somos ordenados a amar a Deus e nosso próximo, Jesus
resumiu a lei nestes dois mandamentos (Mateus 22.35-39).
35 Um deles, perito na
lei, o pôs à prova com esta pergunta: 36 "Mestre, qual é
o maior mandamento da Lei?" 37 Respondeu Jesus:
"‘Ame o Senhor, o seu
Deus de todo o seu coração,
de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. 38 Este é o primeiro e maior mandamento. 39 E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’". (Mateus
22:35-39)
Amar na Bíblia implica em servir. Amar é agir em prol do
outro, seja o outro Deus ou ser humano. Se nós somos ordenados a servir, por
que alguns oram reivindicando de Deus bênçãos? Porque pensam de si além do que
convém. Estas pessoas acreditam que por já estarem espiritualmente no céu, pela
fé em Cristo Jesus, são dignas do direito de todas as bênçãos apocalípticas,
referentes à nova terra e o novo céu. Elas acreditam que podem viver plenamente
nesta ordem presente a nova ordem que ainda será instalada por Jesus.
Elas vivem no mundo negando a realidade presente e exigindo de Deus o cumprimento de Suas promessas “já”. Elas perderam a noção de quem são e da realidade presente e espiritual que vivem.
A supervalorização de que já vivemos assentados com Cristo
nas regiões celestiais, de que já vencemos a morte e suas consequências, de que
já somos herdeiros de Deus, tem nos induzido a reivindicarmos as vitórias de
Cristo “já”, desconsiderando o “ainda não” da teologia.
Quando nos vemos assim, como vencedores neste tempo presente
(kronos), desconsiderando o aspecto escatológico da vitória de Cristo, somos
tendenciosos a transformarmos Deus e o nosso próximo em nossos servos e temos
pouca disposição em servi-los.
Passamos a acreditar que a vitória de Cristo na cruz, nos
colocou como “príncipes deste mundo” e nos esquecemos de que “ainda não” somos
governantes neste mundo. Ainda oramos “venha o Teu Reino”. Somos cordeiros
neste mundo, mas achamos que já somos leões.
Essa visão triunfalista distorcida recusa a reconhecer que
pecamos todos os dias, que sentimos dores devido à natureza de nosso corpo, que
somos passíveis dos mais terríveis sentimentos, sujeitos a foice da morte e que
este mundo está nas mãos do maligno.
Também nos leva a tratarmos a vida e a nossa missão de
maneira irresponsável. Nos tornamos vassalos (servos)
da vaidade. Passamos a amar o mundo e suas
concupiscências e a exigir que Deus nos ajude a conquista-las.
Essa visão triunfalista ainda nos leva a acreditarmos que
podemos desafiar o diabo e o inferno e exigirmos de Deus proteção, mesmo
vivendo em pecado. Vivemos dominados pela mentira criada por Satanás e
defendida pelo mundo, que foi por ele domesticado.
O mundo pluralista, hedonista, materialista e utilitarista
nos domina dia após dia. Acreditamos na mentira que fomos criados para sermos
felizes “já” e desconsideramos a felicidade prometida no “ainda não”. Essa
cosmovisão nos leva a olharmos para o próximo e para Deus como meio para
alcançarmos nossos desejos.
Sem percebermos o mundo cresce em nós; e nos tornamos reféns
de suas ilusões. Nossos desejos e sonhos estão presos a essa era temporal, que
deixará de existir. Diante disto eu te pergunto: “O que você está fazendo hoje que
ecoará na eternidade?”
A teologia triunfalista nos leva a esquecermos de quem somos!
Pergunte para si mesmo: “Você vive para servir ou vive esperando ser servido?”
Quando pensamos de nós mesmo além do que somos...
3 – PASSAMOS
A VIVER COMO SE JÁ TIVESSEMOS ALCANÇADO O ALVO PARA O QUAL FOMOS CRIADO
Paulo afirma não ter alcançado o alvo para o qual foi criado,
conforme lemos em Filipenses 3.13-16.
10 Quero
conhecer a Cristo, ao poder da sua ressurreição e à
participação em seus sofrimentos, tornando-me
como ele em sua morte 11 para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos. 12 Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido
aperfeiçoado (Paulo está dizendo que ainda não alcançou tudo o que a
ressurreição de Cristo lhe oferece – não alcançou o estado de glorificação), mas
prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus. 13 Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das
coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante,14 prossigo para o alvo
(para a vida ressurreta em Cristo), a fim de ganhar o prêmio do chamado
celestial de Deus em Cristo Jesus. 15 Todos nós que
alcançamos a maturidade devemos ver as coisas dessa forma (De que forma? De que ainda não alcançamos tudo que a
ressurreição em Cristo nos oferece), e se em algum aspecto vocês pensam de modo diferente, isso
também Deus lhes esclarecerá. 16 Tão somente vivamos de acordo com o que já alcançamos (para eles caminharem
de acordo com o que já aprenderam). (Filipenses
3:10-16)
Muitos pensam
que ao terem encontrado a cruz e se rendido ao amor de Cristo chegaram ao fim
da jornada. Isso é mentira do diabo. Na verdade sua jornada começou na cruz, a
não ser que você tenha deixado este mundo material e não saiba.
Quando você foi
transportado das trevas para a luz... Você apenas começou a ver! Há muito ainda
para você ver. Quando você encontrou o caminho, porque estava perdido... Você
apenas começou a caminhada com Cristo, pelo caminho estreito. Há muito ainda
para caminhar.
Você não chegou
no ponto final. Você precisa andar no caminho, que é Jesus. Você precisa viver
o Reino de Deus (colocar os valores e princípios do Reino como padrão do seu
viver).
A obra consumada
na cruz é o ponto inicial de sua jornada para a nova vida, de sua descoberta de
quem realmente você é aqui e agora, e de quem você é em Cristo.
De fato, eu
Cornélio, ainda não sou o que “sou em Cristo Jesus”, mas vivo lutando
intensamente para ser. Sou injusto e pecador de fato, mas, ao mesmo tempo, sou
justo e santo em Cristo. Porém chegará o dia que serei apenas justo e santo,
quando receber um novo corpo e o Reino de Deus se manifestar por completo.
Se acreditarmos que já alcançamos o alvo corremos o risco de nos
esquecermos de quem somos! Pergunte para si mesmo: “vivo caminhando em busca do
SER para qual fui criado por Deus ou já estou satisfeito com o que SOU hoje?”
REFLEXÃO
FINAL
Vimos que a realidade dos aspectos presentes do Reino e dos
aspectos escatológicos do Reino tem levado muitos cristãos a viverem em
conflito com os ensinos de Jesus. A pergunta que eu deixo como reflexão é:
“Quem é você?”
Através dessa pergunta simples eu gostaria que você
refletisse sobre quem de fato você é? O que crê? Que cristão você é? Um
vencedor que reconhece que ainda está sujeito aos infortúnios desta vida? Um
vencedor em Cristo que ainda luta contra a carne aguardando o dia do Senhor? Ou
você é alguém que tem de si mesmo um conceito mais elevado do que deveria ter? Quem
é você?
Você se julga melhor que os outros? Você trata todas as
pessoas considerando-as superior a você ou não? Você vive para servir ou para
ser servido? Você se esforça para viver em santidade todos os dias, negando a
si mesmo ou já considera que alcançou o alvo? Como você se apresenta diante de
Deus? Como você acha que Deus te vê?
Não deixe que o ambiente religioso te conduza a pensar de si
mais do que de fato você é. Eu e você nada somos. Não somos autossuficientes!
Não somos auto-existentes! Não somos auto-determinantes! Não temos capacidade
alguma de sustentarmos nossas vidas e nosso mundo. Somos totalmente dependentes
daquele que verdadeiramente é. Sem Jesus nada somos. Sem Jesus não existimos
como ser. Sem Jesus nossa existência eterna se dará num vazio profundo, numa
solidão avassaladora onde seremos consumidos pelo desejo de querermos existir,
de queremos ser vistos e ouvidos.
Jesus é o “Eu Sou”. Ele é a ressurreição. Ele é a vida. Ele é
a verdade. Ele é o pão que desceu do céu. Ele é a fonte de água viva. Ele é o
Emanuel. Ele é o Verbo que se fez carne. Ele é a raiz de Davi. Ele é Deus
forte. Ele é o príncipe da paz. Ele é e somente Nele eu e você podemos ser.
Somente Nele podemos existir, pois fora Dele nada existe. Nele existimos. Nele
nos movemos. Nele vivemos. A Ele toda glória, toda honra e todo poder para
sempre. Amém.
Na cruz Jesus te convidou para morrer com Ele, na
ressurreição Jesus te convidou para existir eternamente Nele. Deus te abençoe!
Pr. Cornélio Póvoa de Oliveira
01/10/2023
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