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By Ferramentas Blog

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

JUSTIFICAÇÃO 2 - JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ

A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ
(Pr. Cornélio Póvoa de Oliveira)


INTRODUÇÃO
1 – FUNDAMENTOS BÍBLICO-TEOLÓGICOS DA JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ

    1. – É o ato da justiça de Deus aos homens
"Para o AT a ‘justiça’ (tsedeq) não era apenas ações que se conformam a um determinado conjunto de padrões legais absolutos, mas está relacionado com o comportamento, que por sua vez esta ligado com o relacionamento entre Deus e o homem. A justiça de Deus aparece no Seu modo divino de tratar com seu povo."
‘Justiça’ é um conceito de relacionamento. É justo quem cumpriu as exigências colocadas sobre si pelo relacionamento em que se encontra. Não é uma palavra que designa o caráter ético pessoal, mas a fidelidade a um relacionamento.
De todos os escritores do NT Paulo é quem estabelece a conexão mais estreita com AT, ao falar da justiça de Deus, e da justificação dos pecadores, da parte de Deus.
A justiça de Deus que é seu modo de tratar com seu povo Israel, se amplia agora para um novo Israel composto de judeus e gentios, é uma nova humanidade que se forma.
O verbo justificar é dikaioõo" construído sobre a mesma raiz de justo $dikaioj% que significa ‘absolver’, ‘declarar justo’. A justificação é um ato próprio do juiz. O substantivo dikaiosune pode ser traduzido pela palavra ‘justificação’ (Gl 2:21), mas geralmente é traduzido como ‘justiça’.
A idéia principal, em justificação, é a declaração de Deus, o juiz justo, de que o homem que crê em Cristo, embora possa ser pecador, é justo – é visto como sendo justo, porque, em Cristo, ele chegou a um relacionamento justo com Deus.
Para continuarmos nosso estudo vamos invadir um pouco o campo da hamartiologia, isto é, vamos compreender um pouco a doutrina do pecado.


A – Definição de pecado
Vários são os termos usados para designar o pecado. No hebraico os mais comuns são hatta’th, ‘awôn, pesha`, e no grego temos hamartia, hamartema, parabasis, paraptõma, poneria, anomia e adikia. As diferentes formas de expressão mostram os diferentes aspectos que o pecado pode ser contemplado. O pecado pode ser fracasso, erro, transgressão, iniquidade, falta de lei, injustiça, etc. Contudo a definição de pecado não se fecha nos termos bíblicos.
O pecado deve sempre ser visto como ‘orientado contra Deus’. A expressão de Paulo em sua acusação: "o pendor da carne é inimizade contra Deus" (Rm 8:7), expressa bem essa verdade.
Segundo Murray, professor de Teologia Sistemática (Westminster Theological Seminary, Filadélfia), ‘qualquer concepção sobre o pecado que não coloca em primeiro plano a contradição que oferece contra Deus, é um desvio do ensinamento bíblico a respeito.’
John Stott em seu livro ‘A Cruz de Cristo’ diz que cada pecado é uma quebra do que Jesus chamou de o primeiro grande mandamento, não apenas o fracasso de amar a Deus com todo o nosso ser, mas também a recusa ativa de reconhecê-lo e obedecer-lhe como o nosso criador e Senhor.

B – Origem do pecado
O AT não tem muito a dizer a respeito da origem do pecado. Essa opinião é compartilhada pelos teólogos modernos. Para o apóstolo Paulo através da transgressão de um homem, da ofensa de um homem, da desobediência de um homem, deu-se a origem do pecado (Rm 5:12-21).
Para J. Murray o pecado já estava no universo antes mesmo da queda de Adão. Isso é evidente pela presença e pelas alegações do tentador, no jardim do Éden. Murray afirma que Satanás ao seduzir a mulher e o homem dizendo que eles seriam como Deus, conhecedores do bem e do mal fez com que se manifestasse a concupiscência existente dentro do homem. Portanto, a narrativa bíblica lança nossa atenção para esse tipo de concupiscência, como sendo a origem do pecado. O pecado não se origina em ação ao acaso, mas procede do coração e da mente.

C – Suas conseqüências
O pecado de Adão e Eva trouxeram conseqüências a toda a humanidade, não foi um acontecimento isolado.
O pecado trouxe uma mudança da atitude do homem para com Deus. O homem que tinha comunhão com Deus passou a se esconder de Deus. A vergonha e o medo dominaram suas emoções (Gn 2:25; 3:7,10).
Houve também uma alteração na atitude de Deus para com os nossos primeiros pais. Deus reprovou, condenou, amaldiçoou e os expulsou do jardim. Através do pecado surgiu a ira e o desprazer de Deus. É impossível para Deus ser complacente para com o pecado. Deus não pode negar a si próprio.
O pecado trouxe uma catástrofe para toda a raça humana, pois todos os seus descendentes se tornaram solidário no pecado e na iniquidade. Esta catástrofe se estendeu a todo o cosmo (Gn 3:17; Rm 8:20).
A queda do homem faz surgir a morte como penalidade do pecado. A morte atinge o homem no aspecto físico e também no espiritual.

D – Sua imputação
O primeiro pecado de Adão teve uma significação sem igual para a raça humana inteira. Rm 5:12, 14-19; 1 Co 15:22, nestes textos encontramos uma ênfase a única transgressão, daquele único homem mediante o que o pecado, a condenação e a morte vieram reinar sobre a humanidade.
Em sua epistola aos romanos no cap. 5:12 o apóstolo Paulo explica que todos pecaram em Adão. A morte é o salário do pecado (Rm 6:23). Se todos estão condenados pela morte, se todos morrem em Adão (1 Co 15:22), é porque todos pecaram em Adão.
Acredito que agora podemos continuar nosso estudo. Se os seres humanos pecaram, são responsáveis por seus pecados, então são culpados perante Deus.
O apóstolo Paulo em sua epistola aos romanos divide a raça humana em três grupos maiores, e mostra como cada uma conhece algo do seu dever moral, mas decide omitir seu conhecimento a fim de seguir o seu próprio caminho pecaminoso.
No primeiro grupo Paulo nos mostra uma sociedade decadente, depravada, por ter recusado a dar ouvido a sua consciência. Preferiram viver na idolatria do que reconhecer a Deus por meio da sua criação, pois esta revelava o seu poder e a sua gloria. Diante disso Deus os entregou à imoralidade e a comportamento anti-sociais.
O Segundo grupo que Paulo faz menção é a do mundo auto justificado. Estes se justificavam por conhecer a lei de Deus ,no caso dos judeus, ou os gentios que se justificavam pelos seus próprios corações.
O terceiro grupo pertence exclusivamente ao mundo judaico, cujos membros tem orgulho do conhecimento que possuem e da instrução moral que dão a outros. Contudo a mesma lei que ensinam, também desobedecem. Dessa forma a mesma lei que ensinam também os condena, e sua posição privilegiada de povo da aliança não os protegerá do juízo divino (Rm 2:17-3:20).
Paulo ao dividir humanidade nestes três grupos, ele fecha qualquer possibilidade do homem tentar se encontrar inocente diante de Deus. No inicio de sua carta aos romanos aparece ainda que obscuro o tema da solidariedade do pecado de Adão. No cap. 3:20 da carta aos romanos o apóstolo afirma que ‘ninguém será justificado diante Dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado’.
Seja a lei mosaica ou a lei da consciência por elas todos serão condenados.
A partir do cap. 3:21 Paulo muda o seu discurso e passa a falar da presente justificação de pecadores crentes.
Deus imputa a retidão aos injustos e justifica aos ímpios (Rm 3:23-31).
Para o judeu os ímpios merecem a condenação. O juiz nos tempos do VT que absolvesse o mal ou que o justificasse era um mau juiz, seria considerado injusto. Paulo afirma que no próprio ato de justificar o ímpio, Deus se mostrou justo (Rm 3:26). Para os judeus isto era incompreensível. Paulo defende a justificação divina através da expressão "justificado por sua graça" (Rm 3:24), isto é, por seu favor totalmente imerecido.
Visto que não há nenhum justo, nenhum sequer (Rm 3:10), é igualmente certo que ninguém pode declarar-se justo à vista de Deus. Portanto é Deus quem justifica (Rm 8:33). Somente Ele pode faze-lo. Deus o faz livremente, não por causa de nossas obras, mas por causa da sua graça.
A pergunta que se levanta é sobre qual base Deus pode justificar os ímpios, sem comprometer sua própria justiça como juiz?
Pecado é transgressão da lei segundo o apóstolo João ‘todo aquele que pratica pecado também transgride a lei: porque o pecado é a transgressão da lei’ ( 1 Jo 3:4). Deus precisava satisfazer a lei. A lei não podia ser quebrada sem que o infrator sofresse a sua pena. Os pecadores estão presos a penalidade da lei. Não podem simplesmente sair ilesos, pois isso seria passar por cima da lei e seria contra o próprio caráter de Deus. A lei deve ser cumprida, suas exigências pagas e sua dignidade respeitada.
Deus não pode abolir, ignorar ou deliberadamente passar por cima da constituição moral das coisas que estabeleceu.
Embora Deus no seu grande amor deseja redimir os homens, Ele tem que cumprir seu propósito em perfeita fidelidade com sua própria natureza, sem negar sua justiça, em condições totalmente éticas. Deus não age em determinados momentos por apenas um de seus atributos ou de sua personalidade. Deus age sempre em conformidade com todas elas.
Não existe escapatória em termos de Deus simplesmente transigir em sua lei e ignorar a quebra da mesma por parte do homem.
Ao homem não resta nada a fazer, em face de sua culpa ele esta impossibilitado de se salvar ou de se auto justificar, só lhe resta aguardar o julgamento, que é a consequência inevitável do pecado no mundo de Deus.
Diante esta incapacidade de se auto justificar que se manifesta a graça de Deus em Cristo.
    1. – É manifestada em Jesus Cristo
Jesus Cristo é a manifestação da justiça de Deus aos homens.
Louis Berkhof define a justificação como ‘um ato judicial de Deus, no qual Ele declara, com base na justiça de Jesus Cristo, que todas as reivindicações da lei são satisfeitas com vistas ao pecador.’
Cristo nasceu sob a lei (Gl 4:4). Jesus Cristo veio ao mundo para cumprir todas as exigências da lei de Deus, tanto a sua lei moral como a judicial.
Daí a necessidade da cruz, sobre a qual a penalidade da lei foi paga e a sua santidade vindicada, isto é, exigida.
Mediante o seu sangue Ele pagou os pecados da humanidade (Rm 3:25). O NT diz que Deus ‘enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados’ (1 Jo 4:9-10).
Jesus Cristo foi obediente até a morte. Sua vida reta o levou a morte e deu a Jesus Cristo o direito de sofrer a pena das nossas transgressões. Foi a morte de um justo, levando sobre si a maldição da lei (Gl 3:13; Is 53:4-12). Sobre a cruz foram julgados e expiados os pecados do homem.
‘Pois, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação que dá vida’ (Rm 5:18). Dessa maneira os crentes se tornam ‘justiça’ de Deus. Embora Paulo não fale diretamente encontramos neste texto a idéia defendida pela teologia protestante da imputação da justiça de Cristo. Aquele que não conheceu pecado, de uma forma representativa foi feito pecado, para que através Dele os homens fossem feitos justos. Deus para salvar o mundo, a humanidade, se ofereceu a si mesmo como sacrifício.
A carta aos Hebreus (9:15-10:18) retrata o sacrifício de Jesus Cristo como tendo cumprido perfeitamente as "sombras" do Antigo Testamento. Pois Ele se sacrificou a si mesmo (não a animais), de uma vez por todas (não repetidamente), e assim assegurou a purificação de nossa consciência e a restauração da comunhão com o Deus vivo.
Os pensamentos acerca da morte de Cristo levaram o autor sagrado a pensar no "sangue que dá vida". E esse pensamento levou-o a relembrar que até mesmo o primeiro pacto estava associado a sacrifícios cruentos. Essa linha de pensamento, finalmente, leva-o à ampla declaração do vigésimo segundo versículo, o qual diz que, sem remissão de sangue não há perdão de pecados. Por conseguinte, o autor sagrado passa de conceitos sobre o "Novo Testamento" para conceitos sobre o "Antigo Testamento".
É através do Antigo pacto que poderemos compreender o ato sacrificial de Jesus. Sua obra expiatória.
Jesus é o centro da "justificação pela fé". Ele é o substituto que tomou o nosso lugar, levou o nosso pecado, morreu a nossa morte, sofreu a nossa penalidade.
O sacrifício como caminho da salvação foi instituído por Deus e era preciso que o ofertante se identificasse com a oferta. Este caminho tem seu fim em Cristo.
Para compreendermos melhor este caminho vamos analisar cada um destes passos:

A – Instituído por Deus
Quando pensamos em sacrifício na visão do AT, nos lembramos dos carneiros, novilho, ovelhas, dos animais que eram imolados e oferecido a Deus.
O propósito dos sacrifícios, freqüentemente declarado no livro de Levítico, é fazer "expiação". No hebraico "kipper", esse verbo vem do substantivo kopher que significa "resgatar por um substituto".
Os sacrifícios estavam divididos em várias classes.
De particular significado para a Expiação eram as ofertas pelo pecado e pela culpa (Lv 4-5). As mais importantes eram feitas todos os anos, no dia da Expiação. Somente neste dia do ano o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos, ultrapassando o véu e durante sua adoração oferecia um sacrifício de sangue como expiação de todos os pecados cometidos pelo povo de Israel (Lv 16). O aspecto principal de todo o sistema era o derramamento de sangue pela morte de uma vítima vicária.
Deus foi o primeiro a sacrificar (Gn 3:21 – Fez o Senhor Deus vestimentas de peles para Adão e sua mulher, e os vestiu). Embora o texto não nos de maiores informações podemos concluir que estas peles eram de algum animal, que foram sacrificados para servirem de vestimentas para Adão e sua mulher.
Em Gn 22:13 diz que Tendo Abraão erguido os olhos, viu atrás de si um carneiro preso pelos chifres entre os arbustos; tomou Abraão o carneiro e o ofereceu em holocausto, em lugar de seu filho. Nesta passagem Abraão estava prestes a sacrificar Isaque seu filho, quando Deus o interrompe e lhe diz para oferecer o carneiro em lugar de seu filho. O carneiro havia sido providenciado por Deus.
No livro de Dt 21:1-9, Moisés determinou que no caso de um assassinato sem solução os anciãos da cidade deveriam declarar sua inocência e oferecer um sacrifício em lugar do assassino.
Podemos ver por meio destas passagens que tal substituição sacrificial foi criada pelo próprio Deus.
Em Lv 17:11 está escrito Porque a vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas: porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida.
Veja bem Deus disse: "Eu vo-lo tenho dado". Foi Deus quem deu o sangue com esse propósito expiador. Assim, devemos pensar no sistema sacrificial como dado por Deus, instituído por Deus e não dado por homens.
E o NT reconhece essa verdade. O próprio Deus ofereceu seu Filho para que, através de Seu sangue, nós pudéssemos ser purificados. Não que nós tenhamos amado a Deus, mas que Ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados (Jo 4:10).

B – O ofertante se identifica com a oferta
Lv 4:3-4 Se o sacerdote pecar ele colocará a mão sobre a cabeça do novilho.
Lv 4:13-15 Se toda a congregação pecar os anciãos da congregação colocaram a mão sobre a cabeça do novilho.
Lv 4:27-29 Se qualquer pessoa pecar virá e colocará a mão sobre a cabeça da oferta pelo pecado.
Ao colocar as mãos sobre o animal, o ofertante certamente se estava identificando com ele e "solenemente" designando "a vitima como estando em seu lugar".
Voltamos novamente para Lv 17:11 Porque a vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas: porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida".
Este versículo alem de nos mostrar que foi o próprio Deus quem instituiu o sacrifício, também nos ensina que era o sangue que fazia a expiação, por ser ele o símbolo da vida. Então uma vida era sacrificada em favor de outra. De tal forma que a vida sacrificada levava o pecado, assumia a condenação do pecado do outro. Assim o pecador se tornava santo diante de Deus.
Como Deus poderia justificar o homem de uma vez por toda? Quem substituiria o pecado de Adão? Se Jesus foi o nosso substituto como se identificou com o homem?
Segundo a palavra de Deus nós todos estamos em estado de pecado. O apóstolo Paulo em sua epístola aos Romanos diz que "todos pecaram e carecem da glória de Deus".
O que podemos fazer então? Na verdade não podemos fazer nada, pois somos culpados e não podemos senão aguardar o julgamento. Continuamos a sacrificar? O próprio AT reconhece com clareza que os sacrifícios por si mesmos não podiam expiar pecados (Os 6:6; Mq 6:6-8). O Salmo 5l é particularmente expressivo neste sentido: a culpa moral não pode ser apagada mediante sacrifícios (v.16), mas apenas pela graça espontânea de Deus (v.1). E o autor da carta aos Hebreus também esclarece este fato (Hb 9:9ss).
Justamente neste ponto, diante de nossa incapacidade, a Escritura nos orienta em direção á maravilha da graça de Deus em Cristo.
Deus se torna o ofertante, pois oferece o seu Filho para morrer em lugar do homem. E o Filho se identifica com o homem, para poder morrer sua morte. Como homem ele havia "nascido sob a lei" (Gl 4:4) e obedeceu plenamente a todos os mandamentos de Deus (Jo 4:34), até a morte (Fp 2:8). Jesus se identificou com o homem. Esta identificação é expressa por Paulo em Fp 2:7 – antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e reconhecido em figura humana. A idéia da teoria da Kenosis segundo R. Martin (Ph.D., Preletor em Teologia. London Bible College) é que quando Jesus tomou a nossa natureza e apareceu a nossa semelhança sua glória ficou escondida. Ele também assumiu o seu destino como Servo do Senhor, que se humilhou a si mesmo até o ponto de deixar-se sacrificar no calvário. E Em sua morte Ele levou sobre si "a maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar" (Gl 3:13).

C – Finalizada em Cristo
É um erro total supor que Deus age em certa época de acordo com um de seus atributos e em outra de acordo com outro. Ele age em conformidade com todos eles em todos os tempos.
Como poderia Deus salvar a humanidade sendo Ele um Deus de amor, um Deus santo e justo. Era preciso que Deus satisfizesse todo o seu ser.
Segundo o que está escrito em Romanos 5:12 ...Por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte...
Deus não poderia amar o homem em toda sua plenitude, pois sendo Deus Santo e Justo, não se misturaria com o pecado. Era preciso que o homem pagasse pelo seu pecado, pois o salário do pecado é a morte (Rm 6:23).
Assim como o pecado entrou pela desobediência de um só homem a salvação viria pela obediência de só homem.
Era preciso que uma vida fosse sacrificada para levar o pecado da humanidade e assim livrando o homem da lei do pecado.
Em Jo 3:16 esta escrito Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
Devemos entender que o Pai e o Filho fizeram tal obra de reconciliação juntos.
Esta escrito no livro de II Co 5:18-19 Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação.
Também devemos entender que ao dar seu Filho, Ele estava dando a si mesmo, de tal maneira que era o próprio Juiz que em Santo amor assumiu o papel da vitima inocente, pois na pessoa do seu Filho e por meio Dela, Ele mesmo levou a penalidade que ele próprio infligiu.
Somente Deus, nosso Senhor e criador, poderia colocar-se como nossa segurança, poderia tomar o nosso lugar, poderia sofrer a morte eterna em nosso lugar como conseqüência de nossos pecados de tal modo que ela fosse finalmente sofrida e vencida.
Nos E.U.A. uma certa jovem dirigia seu carro em alta velocidade, então um policial a parou e vendo que ela havia bebido um pouco a levou para o juiz da cidade.
O juiz ficou surpreso ao ver que a jovem era sua filha, mas sendo ele um homem justo, apesar do amor pela filha, teve que penaliza-la.
Ela ficou obrigada a pagar ao governo uma quantia "x" que não me lembro exatamente.
Este juiz ao terminar de ler a sentença, tirou a sua veste de juiz desceu até onde estava a réu, sua filha, tirou sua carteira de bolso e fez um cheque pagando a divida que ele mesmo havia infligido. Na posição de pai, dela ele pagou sua divida. Sendo assim fiel a lei, justo e demonstrando o amor que sentia por sua filha.
Exatamente assim Deus agiu conosco.
Fl 2:7-8 Antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.
Sim Jesus o homem que também é Deus sacrificou-se por nós, morreu a nossa morte, fez-se pecado para que nós nos tornássemos justos (II Co 5:21).
Karl Barth diz "que essa foi a expressão não somente da santidade da justiça divina, mas também do santo amor divino".
O sacrifício tem seu fim na pessoa de Jesus Cristo, ele é consumado na pessoa de Jesus Cristo.
Todo lei sacrificial do Antigo Testamento era sombra do sacrifício superior que Cristo faria por nós.
John Stott diz que "o amor divino triunfou sobre a ira divina mediante o divino auto-sacrifïcio".
Porque o amor divino triunfou não precisamos mais sacrificar, basta-nos crer na obra salvadora de Jesus Cristo.
    1. – É para os que crêem
"Fé $peîi’qw% peitho – ‘convencer’, ‘persuadir’. A raiz peith ( pith, poith) tem o significado básico de ‘confiança’.
$p~stis) pistis - crer (pisteuw% pisteuo, na literatura clássica, pistis significa ‘confiança’ que um homem pode Ter nas pessoas ou nos deuses."
Em sua carta aos romanos o apóstolo Paulo inicia fazendo uma analise da condição dos judeus e dos gentios diante Deus, e chega a seguinte conclusão ‘todos pecaram e carecem da glória de Deus’ (Rm 3: 23). Nos cap. 3 e 4 Paulo faz uma antítese obras versus fé (pisteuw%,, onde se discute o tema do caminho para a justiça.
A aliança que Deus fez com Abraão (Gn 17:10-14) se tornou para os judeus uma prerrogativa, um privilégio. Os judeus acreditavam que a circuncisão ordenada por Deus nesta aliança lhe garantiam a salvação.
Os judaizantes insistiam que não era suficiente que os gentios-cristãos fossem apenas batizados, mas que era necessário serem circuncidados. Os judaizantes tinham a lei de Moisés como uma pré-condição necessária para a salvação.
Visto que os judeus-cristãos tentavam convencer os gentios convertidos ao cristianismo a se circuncidarem e a obedecer a lei de Moisés, pois acreditavam que de outro modo não poderiam ser salvos. Por esta razão Paulo faz a antítese entre a obra e a fé. Este também é um dos motivos que o levou a escrever a epistola a igreja de Gálatas.
Paulo responde a isto dizendo que Abraão não foi justificado pela circuncisão e nem por obra alguma, mas que Abraão ‘recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para ser pai de todos os que crêem, embora não circuncidados, a fim de que lhes fosse imputada a justiça’ (Rm 4:11). Paulo trata a circuncisão como selo subsequente e externo ao estado de justo que Abraão já possuía como dom de Deus.
Paulo estava dizendo que Abraão foi aceito por Deus por causa de sua fé Nele e não por causa da circuncisão ou de obra alguma. De tal forma os filhos de Abraão não são os que cumprem a lei, mas os que como Abraão tem fé em Deus e consequentemente são justificados por sua graça (Rm 4:24).
‘Essa é a razão por que provém da fé, para que seja segundo a graça...’
Paulo demonstra novamente que a justificação só pode ser alcançada mediante a fé. Não se pode alcança-la por meio de obras, pois já não seria pela graça, mas por mérito.
Paulo tentou de todos os modos mostrar que o homem nada podia fazer de absoluto para ajudar alcançar sua salvação. O apóstolo repudiou toda insinuação de que as obras tinha uma contribuição na salvação.
‘Justificados, pois, mediante a fé,...’ (Rm 5:1). A justificação pela fé é o âmago da mensagem paulina.
Para Paulo a fé tinha o sentido de abandonar toda tentativa de alcançar a salvação por méritos. Era aceitar confiante o dom de Deus em Cristo.
Alfredo Borges Teixeira define ‘Justificação é o ato pelo qual Deus imputa ao crente o sacrifício vicário e a justiça vicária de Cristo’. Esta definição não é incorreta, mas não permite uma completa compreensão da justificação no ponto de vista bíblico e por que não dizer paulina. Pois este é um termo especificamente paulino. A definição de Teixeira deixou de fora o perdão e a fé. Embora a palavra imputada pode ser entendida que não a necessidade do homem fazer nada para receber a justificação, ela acaba cometendo o erro de excluir a fé também.
Joaquim Jeremias aproxima-se mais quando diz ‘...Para nos resumir, continua verdade que a justificação é o perdão, nada mais do que o perdão. Mas a justificação equivale ao perdão no sentido mais pleno do termo. Não é um mero esquecimento do passado, mas como penhor, um dom antecipado da salvação total; é uma nova criação pelo Espírito de Deus; é o Cristo tomando posse da vida desde aqui e já aqui.’ Contudo prefiro ficar com a definição que J. Packer da a respeito da justificação no ponto de vista de Paulo.
Para J. Packer a justificação para Paulo significa ‘o ato de Deus que redime os pecados de homens culpados e que os reputa retos, gratuitamente, por Sua graça, mediante a fé em Cristo, à base, não de sua próprias obras, mas do representante obediente à lei, que derramou seu sangue a favor dos mesmos, o Senhor Jesus Cristo.

– Analise teológica sócio-econômica da justificação no Império Romano
Parece que Paulo ao dividir a raça humana em três grupos entendia que todos eram culpados pelas condições de miséria que vivia a grande maioria do povo do império romano.
O primeiro grupo era formado pelos pagãos, idólatras. Estes eram considerados culpados pois Deus se revelava por meio da sua criação, contudo eles não lhe deram a glória devida. Deste modo veio a ira de Deus sobre o império romano. ‘A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça’ (Rm 1:18).
O segundo grupo era formado por aqueles que se auto justificavam. Pessoas que julgavam e que não se viam na condição de serem julgados. Usavam até mesmo da lei fosse ela romana ou judaica para se justificarem. ‘Portanto és indesculpável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque , no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas, pois praticas as próprias cousas que condenas’ (Rm 2:1).
O terceiro grupo pertencia exclusivamente aos judeus que receberam a lei de Deus, mas a perverteram com suas tradições. A lei que havia sido criada para dar ao homem condições de vida social ,se não iguais, ao menos justas, havia se tornado nas mãos dos judeus uma arma para tratar com diferença o pobre e o estrangeiro. A lei judaica transformou o pobre e o estrangeiro em injustos, ímpios e o rico em justo. ‘Se, porém, tu que tens por sobre nome judeu, repousas na lei e te glorias em Deus;...Pois como está escrito o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa’ (Rm 2:17,24).
Parece que tal situação não podia ser mudada pois os três grupos eram culpados pela miséria, imoralidade, injustiça vivida pelo império romano. Era o pecado dominando o homem e levando-o a morte.
Sem que o homem merecesse, Deus movido pelo seu amor entrega seu Filho Jesus Cristo para morrer em lugar de todos os homens, remindo o pecador e o tornando justo, mediante a fé em Cristo.
Para Elsa Tamez a justificação de Cristo abriu portas para uma nova vida não só no sentido espiritual, mas dentro da realidade sócio-econômica do homem, pois significava uma mudança em todo o ser do homem. Elsa Tamez diz que ‘Paulo percebeu este dom na ação redentora do próprio Filho de Deus, Jesus Cristo (Rm 3:24).
Deus, por amor aos pobres, solidarizou-se com eles por meio de seu Filho que resgatou as vítimas tornando-se vítima, até assumir o martírio heróico da cruz. A garantia da eficácia deste Dom estava em crer que Deus levantou Jesus dos mortos. Ao receber este Dom pela fé, as tendências e ações dos seres humanos eram motivadas e guiadas pelo Espírito de Cristo que, junto com o espírito humano, chamava e reconhecia Deus como Pai (Rm 8:15,16). Os seres humanos enquanto Filhos de um só Pai, projetavam-se para uma nova irmandade. (...) Portanto, na revelação da justiça de Deus encontramos um único ato de Deus: Deus, em Jesus Cristo, propõe que aceitemos pela fé o Dom de sermos transformados em sujeitos que fazem justiça.’
  1. – A Justificação pela fé na tradição reformada
    1. 1.1 – Martinho Lutero
    2. 1.2 – João Calvino
    3. 1.3 – Paul Tillick
    4. 1.4 – Moltmann
  2. – Os resultados da justificação pela fé
    1. 2.1 – Reconciliação / Perdão
‘Reconciliação (Katalasso, katallage) é uma doutrina estreitamente aliada à da justificação.
A justificação é a absolvição, do pecador, de todo pecado; a reconciliação é a restauração do homem justificado ao relacionamento com Deus.’
‘Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida;’ (Rm 5:10).
Como já vimos todos pecaram, diante deste fatos todos se encontravam em estado de rebelião contra Deus.
Através deste versículo podemos perceber que estamos diante de um Deus que é amor, pois fomos reconciliados quando nos encontrávamos no estado de seus inimigos. A reconciliação partiu de Deus e não do homem. Não foi Deus quem se rebelou, mas foi Ele quem tomou a iniciativa da reconciliação.
Deus é santo, embora amasse ao pecador não conseguia se relacionar com o homem neste estado ‘decaído’. A santidade de Deus expõe o pecado, e a sua ira se opõe ao pecado.
A ira de Deus não é como a ira do homem contaminada pelo pecado. A ira do homem é explosiva, sem controle algum. A ira de Deus é absolutamente pura, integra e controlada. Sua ira é voltada somente contra o mal, contra o pecado.
A morte de Cristo efetuou a justificação do pecador, isto é, em Cristo "fomos feitos justo."
Como definiu Ladd a justificação e a reconciliação estão estreitamente ligadas. Quando Jesus promoveu a justificação por meio de sua morte, também efetuou a reconciliação.
John Stott entende que a justificação é um termo forense usado em tribunais, é o juiz absolvendo o condenado, e a reconciliação é um termo familiar, é o pai restaurando os laços com o filho.
O mundo que anteriormente estava em estado de rebelião contra Deus, agora está reconciliado com Ele pela morte de Cristo.
Juntamente com a reconciliação vem o perdão. Se deixamos de ser inimigos de Deus e se temos agora livre acesso a Ele, é porque a justificação nos absolveu de nossos pecados e nos deu o perdão de Deus.
‘Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus’ Rm 8:1). Isto significa que estamos perdoados, não precisamos mais pagar a penalidade imposta por nossos pecados.
Entretanto este texto juntamente com Rm 5:21; 8:32-34 e Hb 10:14 tem trazido algumas dificuldades para se entender a justificação.
Segundo estes textos Deus removeu toda a culpa do pecador, isto significa que o homem é perdoado de todos os seus pecados passados e presentes. Os textos nos levam a pensar mais longe, se já não existe nenhuma condenação sobre os homens é sinal de que Deus em Cristo os justificou dos pecados futuros também.
A dificuldade se encontra no fato de que a justificação não admite repetição, ela garante que o homem esta isento da condenação, e que é constituído herdeiro da vida eterna. Contudo o homem continua a pecar depois de justificado, como podemos observar em Tg 3:2 e 1 Jo 1:8.
Louis Berkhof considera esta dificuldade como um aspecto negativo da justificação, ele diz o seguinte: "consequentemente, não é surpreendente que alguns se sintam constrangidos a falar de uma justificação repetida. Dos dados para os quais chamamos a atenção, a igreja de Roma infere que os crentes precisam, de algum modo, expiar os pecados cometidos depois do batismo, e, daí, crê também numa justificação crescente. Por outro lado, os antinomianos, desejando honrar a ilimitada graça perdoadora de Deus, afirmam que os pecados dos crentes não são atribuídos como tais ao novo homem, mas unicamente ao velho homem, e que lhes é completamente desnecessário orar pelo perdão dos pecados. Por temor desta posição até alguns teólogos reformados sentiam escrúpulos quanto a ensinar que os futuros pecados dos crentes também são perdoados na justificação, e falavam de uma justificação repetida, e mesmo de uma justificação diária. Contudo, a posição usual da teologia reformada (Calvinista) é que, na justificação, Deus deveras remove a culpa, mas não a culpabilidade do pecado, isto é, Ele remove a justa sujeição do pecador à punição, mas não a culpabilidade inerente de quaisquer pecados que ele continue praticando."
Isto significa que toda vez que o crente pecar ele se sentirá triste, culpado, distante de Deus. Este sentimento de tristeza o levará ao arrependimento e ao reconhecimento da necessidade de confessar os seus pecados.
A consciência do perdão e da reconciliação é por muitas vezes pertubada e obscurecida pelo pecado, mas é sempre despertada e fortalecida pela confissão e oração.
    1. 2.2 – Paz / Alegria
‘Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo’ (Rm 5:1).
O vocábulo grego ‘eirene’ é usado para traduzir a palavra hebraica ‘Shalom’. Este termo é usado para expressar todas as variedade de bênçãos favoráveis, que gera no indivíduo a sensação ou o estado de bem-estar. Também aponta para a idéia de harmonia e unidade.
A paz mencionada neste texto não tem um caráter subjetivo, isto é, que se passa exclusivamente no espírito de uma pessoa. A justificação neste texto não indica que a pessoa encontrará paz consigo mesma, mas a paz a que Paulo esta se referindo é a paz conquistada através da reconciliação.
A ira de Deus, que transformava o homem em seu inimigo foi retirada por meio da justificação. O homem foi absolvido, seu relacionamento foi restaurado e agora ele tem paz com Deus.
A paz esta ligada com o estado que o homem se encontra diante Deus.
A justificação restabeleceu a paz do homem com Deus e de Deus com o homem.
Uma vez que o homem foi justificado ele tem agora acesso livre com Deus, por meio de Jesus Cristo. Não há necessidade de ter medo da ira de Deus.
Para Bruce ‘esta paz traz consigo livre acesso a Deus. Os ex-rebeldes não são apenas perdoados no sentido de que sua merecida punição recebeu indulto, mas são colocados num lugar em que desfrutam de alto favor de Deus – ‘esta graça na qual estamos firmes’. É mediante Cristo que eles entraram neste estado de graça, e é também por meio dele que se alegram ‘na esperança da glória de Deus.’ Paz e alegria são bênçãos gêmeas do evangelho. Nas palavras de um velho pregador escocês, ‘paz é alegria em repouso; alegria é paz a dançar.’
Se o homem se encontra num estado de graça, de paz, de harmonia ele deve se alegrar.
Segundo Bruce três motivos de alegria são mencionados em Rm 5:1-11.
O primeiro motivo de alegria é ‘esperança da glória de Deus’ (v.2). Esta esperança esta na consumação do reino de Deus. Contudo podemos nos alegrar já, pois contemplamos na morte e ressurreição de Cristo, a manifestação deste reino.
Segundo o pensamento paulino através da justificação pela fé em Cristo Jesus recebemos o Dom do Espírito Santo que enche os nossos corações do amor de Deus e testifica a nós que somos filhos de Deus por adoção. Este mesmo Espírito é penhor da nossa salvação. Como filhos devemos nos alegrar, pois somos co-herdeiros por meio de Cristo de todas as benção celestiais.
O segundo motivo de nos alegrarmos parece estranho, pois o apóstolo diz ‘também nos gloriemos nas próprias tribulações’ (v.3). Somos chamados a nos alegrar diante as dificuldades da vida. As aflições não são para os que estão em Cristo motivo de tristeza. As aflições devem ser vistas como algo comum na vida de todo genuíno cristão. O próprio Senhor Jesus já pronunciara este fato (Mt 5:11-12). Jesus disse que o motivo pelo qual deveríamos nos alegrar quando perseguidos por sua causa, é que receberíamos grande galardão no céu.
Paulo nos ensina que devemos nos alegrar pois o sofrimento, a tribulação gera em nós fruto. Ela gera em nós perseverança, experiência e esperança. Poderíamos dizer que a tribulação no faz crescer na vida com Deus.
O terceiro motivo da alegria consisti em saber que Deus esta presente em nossas vida. ‘Gloriamos em Deus’ (v.11), regozijamos em Deus, alegremo-nos em Deus. A razão de Paulo dizer isto é justamente porque a ira de Deus havia sido removida por meio de Jesus Cristo. O homem agora se encontra justificado por meio de Cristo e em Cristo o homem esta em estado de graça com Deus, isto é, esta em paz com Deus.
‘A justificação garantiu ao crente um estado de bem-estar não meramente intelectual, mas também espiritual que se estende ao bem-estar da alma em sua existência total, tanto nesta vida mortal como nos lugares celestiais, quando estivermos revestidos de nossa vida imortal.’
    1. 2.3– Regeneração
‘O vocábulo grego para regeneração (palingenesia) só se acha em Mt 19:28 e Tt 3:5, e somente nesta última passagem se refere ao início da nova vida do cristão individual. A idéia deste início é mais comumente expressa pelo verbo ‘gennao’(com anothen em Jo 3:3) ou seu composto anagennao. Estas palavras significam, ou gerar, gerar de novo, dar à luz, dar nascimento, Jo 1:13; 3:3, 4, 5 , 6, 7, 8; 1 Pe 1:23; 1 Jo 2:29. Numa passagem, a saber, Tg 1:18, é empregada a palavra apokyeo, dar à luz, gerar, produzir. Ademais, a idéia da produção de uma nova vida é expressa pela palavra Ktizo, criar, Ef 2:10 e o produto desta nova criação é chamada Kaine Ktisis (nova criatura) 2 Co 5:17; Gl 6:15, ou Kainos anthropos (novo homem), Ef 4:24.’
Regeneração significa na vida do homem uma transformação radical operada pelo Espírito Santo.
Antes da cruz o homem se encontrava ‘morto’ espiritualmente por causa do pecado. O homem vivia para a carne, para o mundo, vivia sob o domínio do pecado, era escravo do pecado. O homem vivia para o pecado e morto para Deus.
As palavras de Jesus a Nicodemos escritas no evangelho segundo João nos traz a idéia da necessidade da regeneração.
‘Em verdade, em verdade te digo, que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.’ (Jo 3:3)
Este nascimento não era um nascer na carne, mas no espírito.
O homem não poderia por si próprio conseguir sua regeneração, não poderia sozinho salvar-se. Só o Espírito de Deus poderia regenera-lo. A iniciativa na regeneração é atribuída a Deus (Jo 1:13), e é operação do Espírito de Deus (Jo 3:5, 6).
A justificação abriu a porta para o cumprimento da promessa de Deus anunciada pelo profeta Ezequiel ‘Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei.
Dar-vos-ei coração novo, e porei dentro em vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne.
Porei em vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos...’ (Ez 36:25-27).
No nascimento natural a pessoa se torna membro de uma família terrena e para ter acesso ao reino de Deus, para se tornar membro da família de Deus é necessário que a pessoa receba a natureza espiritual, receba um nascimento do ‘alto’.
A regeneração é uma transformação total na disposição e na natureza moral do homem. A vontade do homem e a sua consciência que antes eram controladas por seu ‘ego’ mundano, passa através da regeneração a ser controlada pelo espírito. A vontade do homem deseja fazer a vontade de Deus. O homem passa a pensar de forma diferente, a sentir de forma diferente e a querer de forma diferente.
Todo o interior do homem, todas as suas faculdades e até os alicerces de sua personalidade são transformados pela regeneração.
A regeneração é um nascer de novo, nascemos no espírito e agora somos guiados pelo Espírito de Deus. Por meio deste novo nascimento somos recebidos no Reino de Deus como filhos adotados por Deus em Cristo.
Quando o homem aceita a Jesus como Salvador, reconhece a obra de Cristo na cruz, ele é feito filho de Deus (Jo 1:12; Rm 8: 14-17).
‘A regeneração é um ato instantâneo, que se dá uma só vez na vida. (...) A regeneração não é um processo. A preparação para a regeneração pode ser um processo. Muitos anos passam-se, as vezes, para que uma pessoa se arrependa dos seus pecados; muitos anos são, às vezes, necessários a uma alma para crer e ter fé em Jesus, mas logo que isto acontece, o Espírito Santo opera, imediatamente, a sua regeneração’.
O apóstolo Paulo em sua Segunda carta aos Corintos escreve as seguintes palavras ‘E assim se alguém esta em Cristo, é nova criatura: as cousas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.’
Desta forma Paulo apresenta a idéia da regeneração o homem que esta em Cristo é uma nova criatura.
  1. – Justificação pela fé na teologia contemporânea
    1. 3.1 – Justificação e direito
Karl Barth procura desenvolver uma relação entre a realidade da justificação do pecador e o problema do direito humano. Como que a justificação do pecador se desenvolve, ou como interfere no mundo social, político do homem? Será que as bênçãos anunciadas pela justificação e que a realidade da nova criação não esta intrínseca com o direito humano. A proclamação da fé em Cristo não seria um proclamar dos direitos humanos?
Segundo Barth na confissão reformadora, justificação e direito, ou o reino de Cristo e ou outros reinos, ou a igreja e o Estado, se apresentavam lado a lado, e que sob culto no Espírito e dentro da verdade os reformadores entendiam uma vida neste tanto quanto naquele âmbito.
A imagem de Jesus diante Pilatos é o fundamento para o ensino do relacionamento entre igreja e o Estado.
Karl Barth mostra que Pilatos tinha um poder ‘EXOUSIA’ sobre Jesus. Este poder não é em si mesmo um poder mal, de inimizade contra Jesus. Pilatos tinha uma autoridade sobre Jesus dada pelo próprio Deus (Lc 23:14: Jo 19:11).
Embora Pilatos declarou que Jesus era inocente e que não achava nele crime algum (Jo 18:38), o condenou. Nesta atitude Pilatos deixou que a injustiça tomasse o seu curso, embora hoje sabemos que essa era a vontade de Deus. Quando Pilatos cometeu a injustiça contra Jesus, ele representou ali os pagãos que foram solidários com o pecado de Israel.
O interessante é que embora Pilatos tenha tentado fugir de sua responsabilidade como Estado, não conseguiu. E na posição de magistrado realizou a vontade de Deus.
Barth diz o seguinte "este é um ensinamento que a igreja no mínimo também precisa tirar do confronto entre Jesus e Pilatos. Precisamente o Estado demonizado pode querer o mal, para então, de forma eminente, Ter que fazer o bem".
A igreja deve entender que a ‘Exousia’ dado ao Estado devem ser respeitados, pois ainda que maléficos, trazem no fim a realização da vontade de Deus para a igreja.
Paulo em Rm 13:1-7 usa a palavra Exousia referindo a poderes angelicais que influenciam com seu poder na criação e no mundo do homem.
Lucas também utiliza Exousia para designar a autoridade política (12:11).
Barth trabalha a idéia que o Estado, sendo protetor do direito, instituído pela vontade de Deus, é o poder angelical e que pode se tornar num poder demoníaco.
Estes poderes angelicais foram criados por meio de Jesus Cristo e para Ele (Cl 2:10) e Nele têm seu cabeça.
A verdade é que este poderes angelicais querendo ou não prestam serviço a Cristo.
Tratando-se do poder angelical político, não é diferente. Tal poder também pertence a Jesus Cristo e também serve a sua obra. Portanto se torna um agente da justificação.
A igreja por vezes se depara com o Estado demonizado que tenta de todas as formas deter a obra de Deus, mas ainda que não querendo, acaba trabalhando para a manifestação da justiça de Deus.
Para Barth o estado poderia abrir e garantir o caminho para a mensagem da justificação se agisse em fidelidade consigo mesmo, com honra e dignidade. O Estado a partir de sua própria origem e em seu encontro concreto com Cristo e sua Igreja poderia colocar em pratica a sua existência neutra frente à verdade. Dessa forma o Estado nos garantiria uma vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito (1 Tm 2:2).
Os cristãos aguardam a POLIS (cidade) da qual já fazem parte. O que significa que no Estado presente os cristãos são forasteiros, estão apenas de passagem.
"A igreja terrena vê seu futuro e sua esperança não numa imagem celestial espelhada de sua própria existência, mas justamente no Estado celeste real.
Ao crer e proclamar aqui e agora a justificação dos pecadores pelo sangue do cordeiro, ela vê diante de si ‘a descer do céu, da parte de Deus’ a cidade do direito eterno, na qual não há transgressores, e cujos portões não precisam ser trancados, e a qual tampouco precisa de um santuário, porque aquele cordeiro será o seu santuário."
Todo o Estado terreno contribui para a glória da Jerusalém Celestial que é o Estado real.
A igreja fundamenta aqui e agora o verdadeiro Estado, o verdadeiro direito. Entretanto ela não tenta impor este Estado sobre o Estado terreno. Significa que a igreja anuncia através da justificação o verdadeiro Estado. O verdadeiro direito, contudo este Estado é exclusivamente celestial, é para o novo éon, que teve seu início na ressurreição de Cristo.
O Estado verdadeiro que a igreja anuncia não é um Estado dentro de outro e nem tão pouco esta acima do Estado terreno.
Devemos compreender que a igreja terrena esta para o Estado terreno como PAROIKIA. Essa Paroikia proclama a justificação onde apresenta sua esperança pela Polis futura, pelo Estado futuro. Sua proclamação consiste de que Jesus Cristo conquistou o direito pela cidade celeste e que sua presença como cordeiro faz dela a cidade do direito eterno.
A igreja proclama este direito eterno de Jesus Cristo que é o teor da mensagem de Justificação. Contudo a igreja continua vivendo sob o domínio do Estado terreno. Os cristãos como indivíduos e comunidade são chamados a respeitar todos os seres humanos, inclusive as autoridades representativas do Estado terreno (Rm 13:7,8; 1 Tm 2:1,2; Tt 3:2; 1 Pe 2:13-15).
Os cristãos sendo bons, obediente ao Estado terreno, receberão dele proteção para proclamarem a justificação.
Não podemos pensar que o Estado agira como igreja, e nem a igreja como Estado.
‘Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graça, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito.’
Esta passagem mostra o dever que a igreja tem para com o Estado terreno. Ela deve orar, fazer intercessões em favor das autoridades que governam este Estado. A igreja exerce sobre o Estado o papel de sacerdote. Somente através da ação da igreja é que o Estado poderá também ser benéfico a igreja e fazer exercer a Exousia dada por Deus.
A igreja deve ser submissa ao Estado e deve orar por ele, por aqueles que o representam. A igreja deve agir assim independente do Estado lhe ser favorável ou não.
Assim como a justificação acolhe ao pecador, a igreja deve acolher o Estado e respeita-lo.
Caso a igreja rejeite o Estado, ela estará se colocando debaixo do julgamento do Estado e provavelmente sofrerá a condenação imputada pelo Estado. Rejeitando o Estado a igreja estará rejeitando a autoridade colocada por Deus e consequentemente estará resistindo a Deus.
Entretanto se o Estado em vez de proteger passar a reprimir a pregação da justificação a igreja não poderá apoiar as intenções do poder público, pois deixaria de ser igreja proclamadora da justificação. Neste caso submissa ao Estado deve ao Estado somente o que lhe é devido, o que o Estado tem de direito como Estado e a Deus o que lhe é devido (Mt 22:21).
A igreja contribui para o Estado como órgão do direito humano, através da sua intercessão, da sua submissão e sendo fiel a proclamação da justificação divina.
A igreja vive na esperança do Estado eterno, e honra o Estado terreno esperando dele sempre o que há de melhor. Espera que o Estado terreno sirva a seu modo ‘a todas as pessoas com igualdade e justiça’. Espera também que o Estado faça exercer a liberdade para a pregação da justificação, como Estado que é.
A igreja continua a honrar o Estado mesmo quando este não corresponde a expectativa dela. A Igreja passa a defender o Estado de si mesmo, ou do processo de demonização.
Barth diz que "a proclamação da justificação divina é a melhor forma de contribuir para o estabelecimento e a preservação do direito humano. (...) Se for sábio o Estado, bem no fundo ele dela esperará e exigirá nada mais do que isso, porque ali está contido tudo que ela pode contribuir para ele, inclusive toda aquela obrigação política abrangente dos seus membros."
    1. 3.2 – Justificação a partir dos excluídos
Elsa Tamez em sua obra ‘Contra Toda condenação a justificação pela fé, partindo dos excluídos’ faz uma reinterpretação da justificação pela fé a partir da perspectiva latino-americana.
A autora ao estar fazendo esta reinterpretação, ela leva em conta a contribuição dessa doutrina tanto na Bíblia como na tradição reformada.
Para a autora um dos grandes erros da pregação da justificação consiste na interpretação como perdão de pecados tão somente individuais. Não que a autora não concorde com esta ênfase, mas ela chama a atenção para a necessidade de se levar em conta o contexto social quando a doutrina foi escrita.
A autora diz o seguinte: ‘o problema, repetimos, encontra-se no fato de que atualmente na América Latina o significado de justificação está sendo proposto mal ou de maneira confusa. Esta completamente ausente aquele dimensionamento histórico capaz de desafiar não somente as consciências, mas também na vida prática concreta. Que significa justificação pela fé para os pobres indígenas do Peru, da Guatemala, da Bolívia ou do México, que sofrem além da fome, uma permanente discriminação? Torna-se vergonhoso levar-lhes uma mensagem de que Deus justificou o pecador, sem nenhuma especificação do contexto em que isto se deu ou sem qualquer sinal que caracterize melhor o rosto desses pecadores. Se admitimos que o pecador está relacionado com os aspectos sociais, então também a justificação precisa ser apresentada dentro deste mesmo horizonte.’
Elsa Tamez reconhece que o pecado não se encontra somente na injustiça social, mas que é de suma importância mostrar que qualquer situação desumana é ofensa a Deus, portanto manifestação de pecado.
Outro problema que atrapalha o entendimento da doutrina da justificação segundo Elsa Tamez é que toda iniciativa e ação na salvação do homem é dada a Deus.
Elsa Tamez explica isso da seguinte forma: ‘A iniciativa totalmente reservada a Deus é uma verdade Bíblica para nós. O problema consiste em que este princípio é quase sempre interpretado a partir do seu lado supostamente oposto: o ser humano não é capaz de realizar nada por seus próprios esforços no sentido de se salvar. Esta declaração de fé pula então, com toda a naturalidade, para as dimensões históricas dentro das quais acontece a realização do ser humano. Na pior das hipóteses, ela é interpretada assim: nada importa o que se fizer ou nada valem os esforços humanos dentro deste quadro histórico, pois só se é justificado pela graça e não pelas obras.’
Para Elsa Tamez outro problema é dizer que a ‘reconciliação com Deus’ se identifica com ‘bom relacionamento com Deus’ é perigoso pois esta ultima é transformada em sinônimo de justificação. Para a autora a reconciliação conquistada por meio da justificação abrange muito mais do que um ‘bom relacionamento com Deus’, ela se estende ao relacionamento dos seres humanos e o mundo.
Paulo em sua Segunda carta aos Corintios diz que Deus nos reconciliou por Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação (2 Co 5:18).
Elsa Tamez acredita que tais problemas tem feito com que esta doutrina se torne ainda mais escravizadora e opressora. Contudo ela acredita na doutrina da justificação e acredita que esta tem uma mensagem libertadora para os nossos países da América Latina.
Muitos na América Latina estão condenados a morte por um sistema sócio-econômico exclusivista.
O sistema capitalista na qual convivemos tem excluído a grande maioria das pessoas e levadas a viver de forma subumanas.
As privatizações de centros de atendimentos e utilidades públicas como hospitais e escolas dificultam cada vez mais ao povo acesso a saúde e educação.

‘Segundo estatísticas da OIT de Genebra, divulgadas em Empleo, crecimiento y necesidades esenciales (1976), existem na América Latina mais de 110 milhões de pessoas em condições de acentuada pobreza, das quais 60 milhões são indigentes.’
O povo que encontra com suas necessidades elementares sem atendimento, quando tentam criar movimentos que se rebelam contra este sistema são reprimidos pelas forças armadas.
Estas pessoas são massacradas ao ponto de perderem sua dignidade como ser humano.
O sistema colonial vestido de nova roupagem continua ainda hoje condenando pessoas, sejam por sua cor, sexo ou classe social.
Atualmente muitos dos setores discriminados como mulheres, índios e negros tem se mobilizado, exigindo seus direitos de serem tratados como seres humanos.
O pecado que ameaça a vida dos indivíduos tem se tornado um poder indestrutível. O apóstolo Paulo o percebeu dentro de sua época, como um mecanismo criado pela injustiça e que escraviza todos os seres humanos, tantos os que fazem a história sem a direção de Deus como os que a fazem com a direção de Deus. Este sistema que tem destruídos muitas vidas, faz com que todos se tornem escravos dele, pois o homem conduzido pela sua avareza e ganância perde o controle de si mesmo e perde com isso sua própria humanidade.
Elsa Tamez diz que ‘o estudo da justificação como afirmação e defesa da vida precisa captar o semblante típico do pobre: não apenas sua opressão econômica, mas também sua dignidade como ser humano, que é negada por causa da sua pouca importância, da cor da sua pela ou do seu sexo. É que o tema da justificação atinge a identidade do ser como ser humano no seu passado, presente e futuro e também o poder do pecado que nega a sua natureza humana. Esta doutrina nos leva a considerar simultaneamente os desígnios de Deus e os do ser humano.’
Paulo inclui os excluídos no povo de Deus, quando proclama a justificação pela fé. Os judeus que acreditavam ser o povo escolhido de Deus, através da pregação de Paulo se via em igualdade com todos os povos, isto é, já não eram mais o povo exclusivo de Deus. Paulo mostra que não era a observância da lei que os justificavam diante de Deus, mas que era por meio da fé em Jesus Cristo que eles eram justificados diante Deus, assim também, por meio da fé em Jesus Cristo Deus por sua graça havia acolhido a todos os seres humanos como seus filhos.
Hoje segundo a teologia da libertação os pobres são os excluídos do nosso sistema sócio-econômico. O reinado do pecado é legitimado por essa lei de exclusão. A morte ronda os pobres através da fome e da desvalorização dada a sua pessoa. Esta exclusão os leva a morte de sua dignidade e os transforma em seres ‘desumanos’.
Para ser justificado diante os homens é necessário recuperar a dignidade, isto significa, melhorar de vida economicamente e através desta socialmente. A riqueza se torna justificadora de vida, por quanto é por meio dela que o ser humano recupera a dignidade de ser um ‘ser humano’. Poucos são os que conseguem serem justificados por este meio; e ainda assim continuam condenados a morte. Não são só os pobres que estão condenados neste sistema a morte, mas também os ricos e poderosos que estão se tornando cada vez mais escravos deste sistema e por conseguinte cada vez mais desumanizados. Estes perdem o sabor da vida, pois não há lugar para o amor, a afetividade, não há lugar para ser humano no sentido real que essa palavra denota.
A autora se baseando na palavra de Paulo que a graça de Deus superabunda onde abunda o pecado (Rm 5:20) e nesta mesma lógica ela conclui que a sentença de Deus resolve-se em justiça para todos os que crêem. E a justiça de Deus se revela-se para que haja ‘vida em abundância’ (Jo 10:10). Esta vida é para todos tanto para o excluído como para o rico e poderoso, ela está para o condenado como para o que condena a morte.
Elsa Tamez vê a justificação como ‘um processo de vivificação em que o promotor da vida é aquele que ressuscita os mortos e chama ao ser aquele que não é’.
A justificação torna todos os excluídos justos e todos os seres humanos são chamados em Cristo a viverem de forma digna.
A justificação torna todos os seres humanos filhos de Deus e como filhos todos tem o mesmo direito ao amor e proteção de Deus. E também os torna todos irmãos, pois são todos batizados no mesmo Espírito.
O que nos leva a dizer que a justificação coloca todos os seres humanos em igualdade e que estes foram justificados para serem reconciliados com Deus, com o próximo e consigo mesmo.
Todos da comunidade da fé podem celebrar a vida mesmo no meio da morte. Isto se deve porque a vitória sobre a morte esta garantida a todos pela ressurreição.
A comunidade dos justificados pela fé que é o corpo de Cristo, formado por vários corpos vivos, é neste mundo o defensor e proclamador do direito à vida como dom de Deus intransferível. Elsa Tamez diz que ‘por isso, nenhum justificado pela fé pode aceitar nenhum projeto de vida que exclua vidas, a exclusão mesma nega a finalidade do projeto que de per si é comunhão’.



Bibliografia
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