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By Ferramentas Blog

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

MINISTÉRIO PASTORAL 3 - O PODER PASTORAL

O PODER PASTORAL
Uma análise do poder pastoral na igreja
(Um resumo do Livro)

Introdução
Ao tomar a decisão de escrever sobre este tema, o fiz por duas razões: primeiro por amar a Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo, representada pelas mais diversas denominações e em segundo lugar porque queria ter maior conhecimento sobre a teologia subjacente à práxis do poder pastoral.
Acredito que nós cristãos não temos compreendido muito bem o poder pastoral que nos foi outorgado por Jesus Cristo. Tal falta de entendimento tem levado muitas pessoas e denominações a compreenderem o trabalho pastoral e tudo que envolve este trabalho como atividades exclusivas dos pastores. Por outro lado encontramos pastores sobrecarregados porque não compreendem exatamente o que é ser pastor e assumem todas as dimensões da atividade pastoral. Estes impendem que os membros do Corpo de Cristo exerçam suas funções dentro da igreja. Muitos pastores têm usado este poder para realização de suas aspirações, não compreendem o poder pastoral como poder-serviço. Jesus é nosso grande exemplo do poder pastoral como poder-serviço.
O poder pastoral foi outorgado por Jesus Cristo a seus discípulos, a Sua Igreja para que esta possa cumprir sua vocação. O papel do pastor é de suma importância para que a Igreja realize a obra ordenada por seu Senhor. No entanto, nem sempre esses líderes estão abertos ao diálogo franco, às decisões coletivas, ao consenso democrático. Usam o poder pastoral de forma distorcida, manipulativa e autoritária.
Ao analisar o poder pastoral pretendo ajudar a nós pastores e membros da Igreja de Cristo a descobrirmos um caminho para uma unção pastoral que possa ser relevante para os nossos dias.

Cornélio Póvoa de Oliveira
























A TEOLOGIA BÍBLICA DO PODER PASTORAL NO NOVO TESTAMENTO
As Escrituras Sagradas estão repletas de textos referentes à figura do pastor e de conceitos sobre o poder. Entretanto nos preocuparemos em estudar somente os textos que se encontram no Novo Testamento, uma vez que estes abrangem todos os aspectos do ministério do pastor e de como o poder deve ser visto por estes.

1. O poder pastoral é um modelo de poder-serviço
O conceito de poder-serviço aparece primeiramente no N.T. nas palavras de Jesus e em sua própria vida. Jesus era um líder-servo em todos os sentidos do conceito. Jesus viveu para o cumprimento de sua missão.

Ela dará à luz um filho e lhe porão o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles (Mt 1.21).
O anjo, porém, lhes disse: Não temas: eis aqui vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor (Lc 2.10-11).
Da descendência deste, conforme a promessa, trouxe Deus a Israel o Salvador, que é Jesus (At 13.23).

Jesus começou a cumprir sua função de Pastor (poimen - poimen) messiânico pela casa de Israel. Entretanto, Ele foi enviado para a salvação do mundo e não apenas de Israel, como nos mostram os seguintes textos:

No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! (Jo 1.29).
Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16).

Sua vida foi uma dedicação completa a esta missão. A missão era estruturante da compreensão do poder pastoral de Jesus.
Da mesma forma que Jesus, seus discípulos mais próximos, os quais hoje denominamos de apóstolos, viveram em função da missão. Segundo os relatos dos próprios apóstolos foi Jesus quem os comissionou:

Jesus, aproximando-se falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.18-19).
E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, quem, porém, não crer será condenado (Mc 16.15-16).
E lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados, a todas as nações, começando em Jerusalém. Vós sois testemunhas destas cousas (Lc 24.46-48).
Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio (Jo 20.21).

Os apóstolos se dedicaram a essa missão dando assim continuidade à missão de Jesus. Enquanto Jesus se dedicou exclusivamente a Israel, os apóstolos receberam de Jesus a ordem de ir a todas as nações anunciando o Evangelho. Semelhantemente a Jesus, os apóstolos viram a missão como estruturante do poder pastoral.
Considerando a missão estruturante do poder pastoral, podemos afirmar que o poder pastoral é poder-serviço. Toda a ação do pastor como agente do Reino de Deus deve ser a serviço da missão.
A missão de Jesus e de seus discípulos era conduzir a humanidade de volta a um relacionamento pacífico com Deus. Jesus morreu para salvar todo o mundo (kosmo - kosmo), e, seus discípulos deveriam anunciar a grande salvação que Jesus conquistou através de sua morte e ressurreição para toda a humanidade.
Jesus e os apóstolos, ao se relacionarem com outros, buscavam em suas ações criar objetos concretos e simbólicos que apontassem aos homens a salvação e o que é o Reino de Deus. Por exemplo: as parábolas, a Ceia do Senhor, o batismo, etc.
Eram nas relações de trabalho e fazeres do dia-a-dia que Jesus e seus discípulos apresentavam os valores e conceitos do Reino de Deus; e aqueles que cressem (aceitassem) passavam a fazer parte da nova comunidade que foi inaugurada por Jesus Cristo.
O poder pastoral implicava exatamente na construção dessa nova comunidade, na construção de uma comunidade de santos que estavam ligados pela mesma fé, pelo mesmo espírito libertador e serviçal.
Em seus discursos, eles, sempre se colocavam na posição de servos, mesmo quando faziam uso de palavras duras. Como Jesus o fez diversas vezes, dirigindo-se aos fariseus, escribas e saduceus (Mt 16.6; Lc 13.10-17; 14.1-6; etc.), e como os apóstolos o fizeram àqueles que se opunham, de alguma forma ao evangelho (At 4.17-20; 5.1-11; 13.8-12; 1Co 5.3-7; etc.). Seus objetivos eram sempre o propósito da missão, levar a humanidade a conhecer o caminho da salvação, isto incluía os fariseus, escribas e saduceus. A missão era o centro e o alvo de seus discursos e ações.
O apóstolo Mateus nos deixa claro que Jesus conhecia toda extensão de sua missão ao escrever as seguintes palavras: “Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas cousas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto, e ressuscitado no terceiro dia” (Mt 16.21).
Em seu comentário sobre estas palavras, Tasker diz o seguinte:

Ele tem discernimento profético de tudo que Lhe está sobrevindo. Sabe que, embora todas as estradas que levam para longe de Jerusalém estejam abertas diante dele, é a estrada para Jerusalém que ele tem de palmilhar, e é nessa cidade “santa” que terá de sofrer indignidades e injustiças nas mãos das autoridades religiosas, ser morto, e ressuscitar no terceiro dia.

O conhecimento que possuía de sua missão o levava a exercer um poder-serviço; e este conhecimento era motivador para exercer este poder-serviço.
Tasker diz o seguinte: “A marca do reino de Cristo é a cruz do criminoso, em que Ele coroou um ministério de serviço amoroso submetendo a sua vida a uma morte penal, pagando com isto o elevado preço que tinha de ser pago...”.
As palavras de Jesus: “tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir...” (Mt 20.28); demonstram bem o pensamento de Jesus com relação ao poder pastoral como poder-serviço.
Os apóstolos, após a festa de pentecostes (At 2), quando ocorreu a descida do Espírito Santo, demonstraram ter compreendido sua missão, embora a princípio não em sua totalidade. Fez-se necessário um evento sobrenatural para que Pedro pudesse compreender que o Evangelho deveria ser pregado a toda criatura, como fora ordenado na grande comissão. Entretanto a compreensão que os apóstolos tiveram de sua missão os levaram a pregar o Evangelho, mesmo debaixo de ameaças do Sinédrio para que não mais falassem a respeito de Jesus.
Lucas descreve a perseguição que a Igreja começara a sofrer em seu início e a coragem de Pedro e João diante do Sinédrio que os ameaçava, e proibia-lhes de mencionar o nome de Jesus. A resposta de Pedro e João, descritas nas linhas abaixo, são uma manifestação de que nesse momento de suas vidas, a missão, já era estruturadora de suas ações. O poder pastoral que haviam recebido de Jesus na comissão já estava sendo manifesto como poder-serviço. Eles foram capazes de colocar suas vidas a serviço do Reino de Deus, como podemos perceber nas palavras dos apóstolos: “Mas Pedro e João lhes responderam: Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; pois nós não podemos deixar de falar das cousas que vimos e ouvimos” (At 4.19-20).
Marshall diz que neste acontecimento “o aspecto principal, porém, é que a obediência superior, devida a Deus, está em jogo, e esta obediência está em posição mais alta do que os mandamentos de qualquer sistema religioso ou político (para os judeus, tratava-se de um sistema único e exclusivo)”.
Assim como Jesus, os apóstolos estavam prontos para sacrificar-se em prol da missão, da implantação do Reino de Deus.
O apóstolo Paulo também tinha conhecimento de sua missão: “Porém, em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus” (At 21.24). Por isso, também manifestava um poder pastoral serviçal. Chamamos aqui poder pastoral serviçal, aquele que é exercido como poder-serviço.
O poder pastoral pelo que vimos só pode ser considerado um poder-serviço quando suas ações são estruturadas com o fim único do cumprimento da missão, diante disso, suas ações estão voltadas para o bem do outro, para a salvação do outro, ainda que para isso o pastor tenha que doar sua própria vida.

Poder-serviço à estruturado na missão à salvifico à sacrificial

2. O poder pastoral convoca a comunidade para a responsabilidade da missão
Quando Jesus convocou seus discípulos para a responsabilidade da missão, Ele não estava convocando apenas seus discípulos mais próximos (os apóstolos), mas a todos seus discípulos, de todas as épocas, a todos que creram e aos que virão a crer em Suas palavras.

O apóstolo Pedro compreendeu que esse poder pastoral serviçal não era algo exclusivo a eles apóstolos, mas era um poder que deveria ser exercido por toda a Igreja de Cristo. Esse conceito pode ser percebido através de suas palavras, ao escrever aos eleitos que eram forasteiros da dispersão:


Também vós mesmos como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo (1 Pe 2.5).
Vós porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pe 2.9)

Pedro compreendeu que havia sido chamado para proclamar o amor de Deus a todas as nações, povos, raças, e muito mais que isso, compreendeu que a Igreja havia sido chamada para ser um povo de sacerdotes, isto implica dizer, que ela possui um poder pastoral a serviço do mundo.
Ênio R. Mueller reafirma as palavras de Pedro que todos são sacerdotes e não alguns poucos ordenados pela instituição.

Os crentes são as pedras que gradativamente vão compondo a estrutura da construção. Enquanto esta construção não está acabada, há uma missão a ser cumprida; a imagem usada sofre uma pequena transformação, tornando-se a construção um templo, e as pedras, vivas que são, os sacerdotes que nele oficiam. Os crentes são assim constituídos sacerdócio santo. A palavra hierateuma designa o sacerdócio como coletividade, o corpo de sacerdotes (Taylor). É significativo o fato de que todos fazem parte dele, e não somente um grupo de clérigos institucionalmente ordenados ou alguma casta sacerdotal.

Uma vez que todos são sacerdotes; todos são responsáveis pela construção da nova comunidade. Todos são chamados para ajudar na edificação dessa casa espiritual e dessa forma todos acabam manifestando o poder pastoral na busca de cumprirem a missão.
O cuidar das almas (pregar, discipular, ensinar, servir) é um mandamento dado para todos os crentes (Mt 28.19-10; Mc 10.45; 16.15). O poder pastoral não exclui ninguém, pelo contrário, ele inclui a todos na responsabilidade da missão.
Precisamos nos despertar para a noção de que toda a igreja é missionária, e que portanto, todos foram comissionados e não apenas aqueles que são ordenados para o ministério ou os que recebem um chamado missionário especifico. Diante da realidade que toda igreja é missionária, todos recebem autoridade e poder para realizarem a missão. Com isso não se desprestigia o lugar daqueles que são ordenados. Veja o que Charles Van Engen diz a respeito:

Ainda assim, a ordenação é muito importante. Sua importância reside no fato de que as pessoas ordenadas, por meio da consagração pessoal, da fé, do amor, da esperança e do discipulado sacrificial, são chamadas por Deus para dedicar-se à preparação do povo missionário para ministrar no mundo. A pessoa ordenada, nessa perspectiva, não é mais chamada para o ministério que qualquer outra pessoa; ao contrário, é designada para capacitar cada membro no ministério. Precisamos compreender que esses líderes não podem capacitar se não tiverem autoridade sobre os discípulos dispostos a trabalhar. Essa autoridade é lhes outorgada com o fim de fazer deles discípulos dedicados e servos obedientes nas tarefas que desempenham.

Toda Igreja é chamada para construir símbolos que dêem aos seres humanos um acervo de saber (dimensão da cultura) que formem sua identidade (dimensão da personalidade) e criem novas normas de ética e conduta que estruturem a sociedade (dimensão da sociedade). Dessa forma todo crente é um missionário, um agente influenciador na sociedade.
Embora todos sejam considerados sacerdotes, o próprio apóstolo Pedro, demonstra que algumas pessoas foram separadas para o exercício do pastorado.
“Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada: Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós...” (1 Pe 5.1-2).
O apóstolo diz que esses presbíteros ou pastores[1] deveriam ser modelos para o rebanho (v. 3). O termo modelo designa que os presbíteros seriam, nesse caso, objetos para serem reproduzidos por imitação, pelo rebanho. O que Pedro estava querendo dizer com isso é que o poder pastoral, vivido pelos presbíteros, seria reproduzido pelo rebanho em seu serviço, como embaixadores de Cristo. Toda a comunidade exerceria o modelo de poder pastoral vivido pelos pastores da comunidade.
O poder pastoral deve ser exercido por toda a comunidade, pois todos são chamados a serem pregadores do Evangelho (Mc 16.15), cooperadores do Reino de Deus (1 Co 3.9), ministros da Reconciliação (2 Co 5.18), todos são chamados a sujeitarem-se uns aos outros (Ef 5.21), a amarem uns aos outros (Jo 13.34), a admoestarem uns aos outros em amor (Rm 15.14), a chorarem com os que choram, a consolarem uns aos outros (1 Ts 5.11), a interceder em favor dos outros (1 Ts 5.16). O chamado para o serviço pastoral é para toda a comunidade, diante disso o poder pastoral pertence à toda a comunidade. Entretanto, alguns são levantados por Deus, para conduzirem seus membros ao perfeito exercício desse poder-serviço.

A pastoral é a mediação da salvação na Igreja e através dela. Se, se compreende a Igreja como povo de Deus e – MISTÉRIO de Cristo no sentido pleno do seu caráter humano-divino, então toda a Igreja resulta responsável pela pastoral dentro do ordenamento estruturado hierarquicamente, determinado pela universal convocação cristã, pelo oficio e pelo carisma, e de acordo com a diversidade das tarefas.

Toda a comunidade exerce um poder-serviço para com as pessoas, porém, todos devem sujeitar-se ao pastor da comunidade, que, por sua vez é chamado para ser modelo do rebanho, devendo então ser um modelo do poder serviço (1 Pe 5.3).
A afirmação de que o poder pastoral deve ser vivido por toda a comunidade nos traz, um certo, desconforto proveniente da incompreensão do conceito “pastor”. No entanto, não encontramos nenhum desconforto quando afirmamos que todos na igreja são missionários. Talvez devêssemos pensar melhor no que significa ser missionário. A separação que a igreja fez durante anos do que é Igreja e do que é Missões, levou-nos a construir um conceito e um lugar concreto para a palavra “pastor” e para a palavra “missionário”.
Entendo que “Igreja” e “missões” passaram a ser vistos isoladamente, a partir do momento em que a Igreja Católica usou o poder pastoral para tornar os membros refém da própria Igreja. O ensino da igreja era que somente nela o povo poderia obter salvação, somente o sacerdote (padre) poderia exercer o poder pastoral para impetrar benção, ministrar os sacramentos, etc., se tornando assim os únicos mediadores da graça de Deus aos laicatos.
Vimos até o momento que a Palavra de Deus nos mostra que o poder pastoral é um poder-serviço porque está estruturado na missão e está presente em toda a comunidade, embora alguns recebam um chamado especial para ser pastor.
A carta do apóstolo Paulo à Igreja de Éfeso é a base desse pressuposto. Vejamos:

Ler – Efésios 4.11-13
Paulo ao escrever sua carta a igreja de Éfeso (4.11) fornece uma lista contendo cinco ministérios: apóstolo, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Paulo não está preocupado em apresentar uma lista completa de ministérios aos irmãos de Éfeso, como podemos verificar, por meio de uma comparação com sua primeira epístola aos irmãos de Corinto (1 Co 12.28).

Segundo Francis Foulkes, “o apóstolo não está pensando nos ministros de Cristo em seus ofícios, mas sim em seus dons espirituais específicos e suas tarefas...”.
Temos visto que essa lista de ministérios, descrita na carta de Éfeso, tem definido na história da igreja os ofícios de liderança da mesma. Contudo, precisamos compreender que Paulo não estava tão preocupado em definir a lista de ministérios da igreja, mas sim em dizer que esses ministérios são dons de Cristo para a igreja. Tal compreensão é importante, pois, a partir dela poderemos reconhecer que esses ministérios não são dados a qualquer membro do corpo, mas para àqueles que receberam de Cristo o dom para exercê-los, isso é, que foram separados por Cristo para tal tarefa.
A expressão a uns registra o fato de que nem todos podem exercer tais ministérios, além do mais, essa expressão indica também o fato de que, nessa passagem Paulo não trata esses ministérios como cargos ou departamentos da igreja. Esses ofícios não devem ser tratados apenas como uma função dentro de uma estrutura eclesiástica inorgânica. A expressão a uns está totalmente ligada a pessoas, significa que dentro do Corpo de Cristo uns receberam autoridade e poder-divino para exercerem oficialmente determinadas funções e outros não.

“A Igreja pode indicar homens para diferentes trabalhos e funções, mas a menos que tenham os dons do Espírito e sejam, portanto, eles mesmos os dons de Cristo à Sua Igreja, sua indicação será sem valor”.

Para Paulo os ministérios citados em sua epístola aos Efésios não possuem poder porque a instituição lhes conferiu poder, nem porque declararam a si mesmos possuidores desse poder. O poder que esses ministros possuem provém de Cristo, provém de fonte divina e não humana.
No Novo Testamento a palavra “igreja” não aparece com o sentido de prédio ou uma instituição, mas como “corpo”, como algo que possui vida. Paulo escreve sua lista de ministros com essa visão de igreja orgânica, igreja o Corpo de Cristo.
Podemos concluir diante das palavras do próprio apóstolo Paulo que para ele o (Paulo) o pastor não é apenas uma pessoa que possui um cargo numa instituição. Paulo compreende o pastor como uma pessoa separada por Cristo, de quem recebeu o dom para exercer o pastorado.
O pastor possui um poder legitimado por Deus para exercer sua função dentro do Corpo de Cristo, embora os demais membros sejam vistos como detentores do mesmo poder pastoral para o serviço do reino, na comunidade estes devem sujeitar-se ao pastor.
Podemos dizer que o poder pastoral é um poder comum a todos, não é exclusivo daquele que é levantado por Deus para o ministério pastoral.
Uma vez que Paulo demonstrou que o pastor foi concedido à Igreja por Cristo, ele preocupou-se em justificar a razão pela qual Cristo instituiu essa figura na nova comunidade que se formava. “Com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.12).
No entendimento de Paulo, o pastor é uma pessoa separada por Deus, no meio de tantos que fazem parte do corpo, para aperfeiçoar os santos (os demais membros do corpo).
A palavra aperfeiçoar (katartismos) tem que ser destacada nesse texto, pois muitos pastores têm trabalhado apenas para manter os santos como estão, não buscando aperfeiçoá-los na graça que lhes foi concedida por Deus. Não trabalham para levá-los a um aperfeiçoamento, isto é, a um desenvolvimento de sua salvação (Fp 2.12). Paulo está dizendo que o pastor não recebeu poder (autoridade) de Cristo para apenas manter o rebanho como está nem para usufruir da gordura e da lã de suas ovelhas. Para Paulo é indiscutível que o poder pastoral tenha que levar os santos ao aperfeiçoamento, ao desenvolvimento de sua salvação.
Os santos precisam aprender como viver sua nova vida em Cristo, como desfrutar da liberdade que Cristo lhes deu, em meio a um mundo tenebroso, envolto pelos poderes malignos, repleto de falsas religiões e ciladas que levam a destruição àqueles que se deixarem ser envolvidos por ele. Os santos precisam aprender a lidar com um sistema que os cerca que é, por tantas vezes, injusto, opressor e alienador. Cabe a esses homens, que receberam de Deus o poder pastoral, aperfeiçoar os santos para viverem livres no mundo que constantemente os busca aprisionar.
Esse aperfeiçoamento busca levar os santos a desempenharem seu serviço. “Com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço” (Ef 4.12). O poder pastoral visa desenvolver ou aperfeiçoar os santos em sua fé com a finalidade de que eles desempenhem o serviço que lhes foi outorgado por Cristo. Os santos são aperfeiçoados para, com o pastor, pastorear o mundo.
Jesus viveu para libertar as pessoas do pecado e de suas conseqüências; sua práxis pastoral visa libertar o individuo de si mesmo e deste mundo opressor. Não nos esqueçamos de que essa libertação visa todas as dimensões da vida.
Diante disso, temos que Jesus liberta as pessoas de si mesmas e do mundo que as oprime – entre as pessoas que Jesus liberta, ele escolhe algumas para pastores - Esses pastores trabalham na Igreja ou no Corpo de Cristo como administradores ou gerenciadores do corpo, levando os demais membros a um aperfeiçoamento do seu serviço.
O resultado desse aperfeiçoamento é que a Igreja deve se transformar numa agente libertadora do mundo como Cristo o foi. As pessoas libertas pelo poder de Jesus manifestado agora através da Igreja, a ela se unem e dão continuidade à existência da Igreja. Esse é um círculo que terá seu fim somente com a parousia (segunda vinda de Cristo).
Nesse contexto o pastor tem a função de aperfeiçoar, treinar, administrar os dons da Igreja para que toda a Igreja (todos os membros) desempenhe sua missão libertadora.
No funcionamento pleno desse círculo é que se concretiza “a edificação do corpo de Cristo”. Para que essa edificação venha a acontecer, para que a Igreja alcance sua maturidade (Ef 4.13), ela precisa do pastor treinando-a para ser agente transformadora (libertadora) do mundo.
Paulo, por meio desse texto, dá uma importância fundamental aos pastores, a esses homens que receberam do Senhor Jesus poder para pastorear.
O poder pastoral, conforme o texto, serve para aperfeiçoar a Igreja para sua missão e em conseqüência para edificá-la.
“Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13). A palavra todos inclui nestes versos o pastor também.
 O poder pastoral exercido sobre a igreja a conduz à maturidade, incluindo o próprio pastor. Não há na igreja de Cristo, quem não precise aprender, quem não precise se submeter em amor ao outro. É precisamente na unidade promovida quando todos estão na busca do aperfeiçoamento, do desenvolvimento que todos chegamos a unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus.
Para Paulo, o poder do pastor é um poder dado por Cristo para o aperfeiçoamento dos santos, que por sua vez devem servir como Cristo serviu e dessa forma edificar a Igreja. Cristo pastoreou todo o povo de Israel, não apenas seus discípulos. Isso se faz presente em seus discursos aos fariseus, em seu diálogo com a mulher samaritana, na purificação dos leprosos, no contato com os doentes que vinham até ele. Assim a Igreja é chamada para pastorear o mundo.

3. O líder e sua relação com o poder
Podemos dizer que o poder pastoral está sujeito à missão e que esta está sujeita à Deus (Missio Dei), uma vez que é Ele quem convoca e quem capacita os indivíduos. Baseados nisso, podemos afirmar que o poder pastoral está a serviço do Reino de Deus. Essa afirmação, por si só, já designa que o poder pastoral não pode ser usado para interesses próprios ou de terceiros.
O poder é algo que nos fascina e que nos corrompe. Lidar com o poder é extremamente perigoso, por isso, é sempre bom ter em mente que o poder pastoral é um poder-serviço e que está a serviço do Reino de Deus. A partir dessa afirmação analisaremos alguns aspectos do poder pastoral.
Também gostaria de enfatizar que o líder deve ser sempre servo.

3.1 – O exercício do poder pastoral não deve ser imposto a ninguém
Nesta seção nos ateremos mais à pessoa do pastor e as suas atribuições.
Pedro, o apóstolo, após entender o poder pastoral como um poder a serviço do Reino de Deus escreve em sua carta as seguintes palavras: “Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer;...” (1 Pe 5.2).
Ele escreve, aos presbíteros, exortando-os que deveriam pastorear o rebanho. Segundo o relato de sua carta, o rebanho estava espalhado em diversas regiões por causa da grande perseguição aos cristãos, no primeiro século (1 Pe 1.1).
Cumpre lembrar que a idéia de pastorear está ligada ao trabalho do pastor de ovelhas. Isso significa que o apóstolo Pedro está dizendo aos presbíteros, que eles deveriam alimentar o rebanho de Deus e protege-lo dos inimigos que querem destruir sua fé.
Mas isso não deveria ser feito por constrangimento. Os presbíteros deveriam pastorear por livre desejo, voluntariamente. Isto implica dizer que as pessoas que possuíam tal ofício dentro da igreja deveriam pastorear o rebanho pelo amor que tinham a Jesus. Uma pessoa que fosse pressionada a aceitar o cargo, possivelmente não assumiria de coração o rebanho e não se dedicaria como deveria.

Alguns podem ser constrangidos, pressionados aceita-lo, o que não é bom quando tem como conseqüência que eles não o assumem de coração e a ele não se entregam voluntariamente. Devem faze-lo sempre espontaneamente (gr. ekusios, de livre vontade, de boa vontade). Assim é como Deus quer (gr. Katatheon, que poderia significar também “da forma que Deus o faz”; mas o mais provável é que o sentido seja mesmo “de um modo que agrade a Deus”, “que seja como Ele acha que deve ser”).

Essas palavras de Pedro também nos servem como alerta para escolha de futuros presbíteros e pastores. Jesus não constrangeu a nenhum de seus discípulos a seguirem-no, Ele tão somente os chamava (Lc 6.12; Jo 1.35-51), e em uma certa ocasião chegou a perguntar a eles se não queriam deixa-lo (Jo 6.65-67). Pedro diz que o poder pastoral não pode ser imposto a ninguém. Aquele que pastoreia deve fazê-lo por espontaneidade, não por constrangimento.
Somente uma pessoa que tenha convicção de seu chamado, que tenha paz sobre este chamado deve aceitar esse ofício.
Na prática eclesial “não por constrangimento” significa que a pessoa que exercerá o poder pastoral, o fará por ter convicção de que Deus a escolheu para esse ofício, não por alguma outra razão.
No entanto, muitas vezes, isto não acontece na igreja. Pessoas são obrigadas, por diferentes circunstancias, a exercerem cargos que não sentem o menor desejo de fazê-lo. Dentro desse modelo inadequado de edificação do corpo, encontramos pessoas infelizes, fazendo o que não queriam fazer, lutando por bandeiras as quais não queriam carregar. Esta realidade tem contribuído ainda mais para que encontremos dentro das igrejas pastores e obreiros cansados porque sentem um peso terrível sobre si, um peso que na verdade não deveriam carregar. Pastores que assumiram este oficio por constrangimento. Pessoas que se sentiram coagidas a se tornarem pastores porque não havia quem assumisse a igreja. Em fim, pessoas que foram colocadas nesse cargo por outras sem levarem em conta a palavra do apóstolo Pedro.
Muitos pastores continuam a perpetuar esse modelo constrangedor sobre suas igrejas impondo a seus membros cargos que estes não desejam ou não possuam o dom para exercer.
A igreja, como instituição, deve assegurar a todos essa liberdade, não forçando ninguém assumir tarefas indesejáveis. Pelo contrário, deve sim lutar pela liberdade de todos os seus membros, ensinando-os e motivando-os a aprimorarem suas habilidades e competências.
O pastor surge da espontaneidade e da voluntariedade de servir aos demais membros da igreja respondendo dessa forma ao chamado divino que lhe foi feito.

3.2 – O poder pastoral não busca glória para si mesmo
“Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, e, sim, aquele a quem o Senhor louva”.
O apóstolo Paulo repreende aqui aqueles que buscam glória para si; aqueles que buscam serem louvados entre os homens. Nem mesmo os discípulos de Jesus escaparam do desejo pelo poder.
“Então chegou a ele a mulher de Zebedeu, com seus filhos; e, adorando-o, pediu-lhe um favor. Perguntou-lhe ele: Que queres? Ela respondeu: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda. Mas Jesus respondeu: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos.
Então lhes disse: Beberei o meu cálice; mas assentar-se à minha direita e à minha esquerda não me compete concede-lo, é, porém, para aqueles a quem está preparado por meu Pai” (Mt 20.20-23).
Podemos encontrar referências a este mesmo tema nos Evangelhos de Marcos (Mc 10.42-45) e Lucas (22.24-27).
Tasker entende que nesse incidente, Tiago e João revelaram a força e a fraqueza do seu discipulado. A fraqueza se faz presente pela falta de compreensão do Reino de Deus, e a força pela resposta firme em participar do cálice que Jesus estava para beber.
Não podemos nos esquecer que para os judeus o Messias iria reinar para sempre e colocaria todas as nações debaixo do domínio de Israel.
Morris diz que diante do acontecimento “evidentemente, os discípulos, pensavam que estava perto o reino de Deus, e discutiam sobre o melhor lugar nele”.
Poder, neste caso, está ligado também com o termo prestígio. Sentar-se ao lado de Jesus implicava estar nos lugares de honra, o que daria a eles prestígio, consequentemente poder, diante dos demais pela posição de honra que ocupariam diante do rei.
Como descreve Tasker, “toda esta preocupação ligada ao orgulho de posição do reino era evidência de profunda incompreensão da parte de Tiago e João do sentido em que o termo “grandeza” devia ser aplicado ao “glorioso colégio apostólico”.
Tal acontecimento levou Jesus a repreendê-los e a contrastar os dois modos pelos quais se pode exercer autoridade e manifestar poder. Jesus lhes disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo” (Mt 20.25-27).
Segundo Tasker, quase invariavelmente o poder corrompe homens e mulheres.

Nas sociedades compostas de homens e mulheres pecadores, quase invariavelmente a posse do poder corrompe, e os governantes facilmente se tornam tiranos e opressores; no entanto, todos os potentados desse tipo sai intitulados “grandes”. No reino de Deus, dado que o próprio Rei é servo, o titulo “grande” se reserva para os que, inspirados por seu exemplo, gastam-se livres e alegremente a serviço dos outros”.

O que Tasker está dizendo é que no Reino de Deus são considerados grandes aqueles que vivem a serviço do Reino. Viver a serviço de outros é viver a serviço do Reino. Esse ensinamento aparece claramente na parábola do julgamento dos gentios (Mt 25.31-46), no mandamento que determina que nos amemos uns aos outros (Jo 13.34-35).
Morris descreve o ensinamento de Jesus, baseado no Evangelho de Lucas, da seguinte forma:

Entre os homens de Cristo o maior deve ser como o menor, i.é, deve aceitar o lugar mais humilde. No mundo antigo, aceitava-se que a idade dava privilégios. O mais jovem era, por definição, o menor. No mesmo espírito, o que dirige deve ser como o que serve. O lavapés que João registra foi uma ilustração notável da disposição de Jesus de tomar o lugar daquele que serve. Fez assim embora tivesse o direito ao lugar supremo e os homens naturalmente estimam o que janta como sendo superior ao garçom”.

Morris diz que o grande ensinamento desse texto é que “Jesus não está dizendo que se Seus seguidores desejarem subir a posições muito elevadas na igreja, devem primeiramente ser testados numa posição humilde. Está dizendo que o serviço fiel num lugar humilde é em si mesmo a verdadeira grandeza”.
O poder pastoral é um poder a serviço do Reino, portanto não pode ser um poder usado para trazer prestígio nem honra a ninguém. O poder pastoral deve ser voltado totalmente para à vontade de Deus.
Quando o poder pastoral é usado para auto-promoção ele se torna um poder estratégico e não mais poder-serviço.

3.3 O poder pastoral não busca riquezas
“Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6.24).
“Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns nessa cobiça, se desviaram da fé, e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu porém, ó homem de Deus, foge destas cousas; antes segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão” (1 Tm 6.10-11).
Pedro diz “nem por sórdida ganância, mas de boa vontade” (1 Pe 5.2). Esta preocupação de Pedro, reflete a mesma preocupação de Jesus e do apóstolo Paulo, e também revela o fato de que os presbíteros ou pastores eram remunerados para o exercício do cargo. Tais pessoas não poderiam sentir-se motivadas por causa do lucro que poderiam obter através da fé, ou por causa de bons salários. Pedro aqui não faz objeção à remuneração dos ministros ou aos salários dos obreiros. Adverte, sim, contra o pecado da cobiça, a caça ansiosa de rendimentos. A tradução da BLH descreve bem as palavras de Pedro: “não façam seu trabalho para ganhar dinheiro, mas com o verdadeiro desejo de servir”.
Em segundo lugar Pedro diz que o pastor não deveria servir por sórdida ganância. O amor ao dinheiro ou ao lucro que se poderia obter por meio da fé não deveria ser de forma alguma um mecanismo de incentivo àqueles que exercem o pastorado. Ninguém deve ser investido do poder pastoral tendo como fim o dinheiro e não o cuidado com o rebanho.
A humanidade criou a moeda (dinheiro) para que, por meio dela os homens pudessem realizar trocas de matérias primas, alimento, etc. A moeda que foi criada para facilitar a vida das pessoas, com o passar dos anos, tornou-se motivo de conflitos entre os seres humanos. A moeda passou a tornar-se tão importante, que o mundo dos homens começou a girar em torno dela. A moeda colonizou o mundo dos homens.
Diante disso devemos nos perguntar: Será que também em nossas igrejas tudo passou a girar em torno do dinheiro (moeda)? O fim dos eventos promovidos pela igreja é a salvação ou o dinheiro? Quando a moeda colonizou o mundo dos homens, ela colonizou a igreja também?
Infelizmente hoje temos assistido muitos líderes de igrejas trabalhando para ganhar dinheiro. Alguns são tão baixo que usam dos dízimos e ofertas para manipular o povo e desta forma levantar quantidades absurdas para o enriquecimento ilícito. Existem aqueles que chegam a pedir R$ 50.000,00, depois R$ 10.000,00, R$ 5.000,00, e vão abaixando o valor para que desta forma consigam tirar o máximo que puderem de todos. Exigem sacrifícios financeiros como prova de fé. Desta forma transformam a fé em um meio para comprar o favor de Deus e não mais em um veículo para servir a Deus.
Deus não quer nosso dinheiro, Deus quer nosso amor!

3.4 – O poder pastoral não é dominador
O próprio Jesus afirmou ser o bom pastor: “Eu sou o bom pastor...” (Jo 10.11,14).
Na carta aos Hebreus encontramos as seguintes palavras afirmando que Jesus é o pastor do rebanho: “Ora, o Deus da paz, que tornou a trazer dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança” (Hb 13.20).
O apóstolo Pedro escreve o seguinte aos presbíteros: “Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, [...]. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a coroa da glória” (1 Pe 5.2,4).
Algo que deve ser notado é que o rebanho é de Deus e não dos presbíteros, nem do pastor. O pastor foi colocado pelo próprio Deus para pastorear; mas o rebanho não lhe foi dado no sentido do pastor ser o dono desse rebanho. O pastor está para servir o rebanho e deverá prestar conta a Deus do seu serviço. Deus não fica indiferente ao modo como suas ovelhas são tratadas. Diante das palavras de Pedro podemos, afirmar que ele tinha consciência de que o pastor estava a serviço do Reino de Deus.
Se o rebanho é de Deus, precisamos cuidar para não nos tornarmos dominadores sobre o rebanho que não nos pertence.
Quando o apóstolo Pedro adverte os pastores a não serem dominadores do rebanho, ele está dizendo a eles para não usarem o poder e a autoridade de forma indevida. Muitos usam seus títulos de pastor ou presbíteros para fazerem o que quiserem dentro da igreja. Muitos acham, por serem pastores ou presbíteros, donos da igreja. Mueller diz: “às vezes, os líderes cristãos têm a tendência a achar que os seus liderados são ‘ovelhinhas’ com as quais se pode fazer qualquer coisa”.
Alguns pastores usam de seu dom e ofício como meio para manipular as mentes de suas ovelhas. Não buscam ensiná-las, mas manipulá-las. Pedro vai contra essa forma de poder-domínio sobre o rebanho, pois é prejudicial tanto ao pastor como à igreja. Pelo contrário, diz o apóstolo, o pastor (presbítero) deve ser o modelo.
O termo domínio transmite a idéia de fazer uso do poder de forma maligna. Dominar é exercer um poder que não permita ao outro fazer uso da liberdade; é exercer um poder com uma dimensão estratégica.
Com o crescimento populacional e com o desenvolvimento das cidades, o homem precisou organizar-se para poder conviver em sociedade. Dessa necessidade, surgiram as diversas formas de governo. De uma forma ou de outra alguns homens, ao longo da história da humanidade, receberam poder para governar, para conduzir nações, cidades, bairros, famílias e outras instituições. O poder que foi dado a esses homens é um poder que deve ser voltado para o bem daqueles que lhe concederam o poder. O rei deve governar em favor de seu povo, assim também o presidente, governador, prefeito, etc., devem fazer uso do poder de forma a ajudar os que lhe confiaram o poder.
Contudo, temos visto que no mundo o poder se tornou um instrumento estratégico para manter o poder adquirido anteriormente. Em toda nossa sociedade, as instituições estão comprometidas com a manutenção, defesa e ampliação de seus domínios.
O poder tornou-se um instrumento tão forte, que muitos lutam para possuí-lo. Nem sempre o poder está nas mãos daqueles que elegemos em nosso país, mas nas mãos daqueles que conseguem manipular o povo. O poder hoje se encontra de grande forma na mídia. A mídia significa poder. Por isso é que os grandes políticos buscam possuir hoje veículos de comunicação como televisão, jornal, etc.
A mídia possui um poder avassalador, de forma que ela dita o que o mundo deve ser. Na verdade a mídia deveria acompanhar o pensamento da humanidade, entretanto ela tem o poder de fazer o pensamento da humanidade.
Esse poder foi descoberto nos últimos anos pela igreja. Não sou contra o uso de televisão e outros meios de comunicação para a pregação do evangelho, pelo contrário, acredito que devemos usar todos os recursos disponíveis. Contudo a igreja não pode deixar-se manipular pela mídia. A igreja tem um fim deixado por seu fundador e não deve dele afastar-se de forma alguma, ou deixará de ser igreja.
Acredito que em nossas igrejas existe um espaço histórico onde esse poder-pastoral parece se concentrar, parece que todos que ali falam ocupam por um determinado momento um lugar divino, sim, estou falando do púlpito. O homem que está no púlpito é visto como modelo, suas palavras são divinizadas e seu poder na igreja é tão forte como o poder da mídia o é no mundo secular.
O pastor pode através dos discursos transmitidos à igreja, transformar a cosmovisão das pessoas. Possivelmente conhecendo esse fato é que o apóstolo Pedro exorta para que os pastores não sejam dominadores, que por intermédio de seus discursos não produzam pessoas alienadas. Pelo contrário, espera que eles conduzam as pessoas à liberdade. O apóstolo os adverte a serem modelos, isto é, a servirem, por meio do modelo de seu pastorado, a fim de que toda a comunidade cumpra a missão.
Pedro (v.4) os anima a permanecerem fiéis no pastorado, afirmando que logo que Jesus Cristo, o Supremo Pastor se manifestar, eles receberão o galardão merecido.
É evidente que Pedro compreendia que a Igreja tinha um só pastor, que guia todos os crentes ao aprisco celeste. Contudo, durante a peregrinação, isto é, durante  período em que cremos em Cristo e o momento final de Sua revelação a Igreja procurou, sob a orientação do Espírito Santo, se organizar para melhor enfrentar as pressões da vida e para melhor testemunhar a fé que ela proclamava. Nesse processo de organização, Jesus, deu à Igreja, alguns homens para pastoreá-la, para serem guias, homens que deviam ajudar a todos, sendo eles mesmos modelos para o rebanho até a Sua volta.
Em fim, o que o apóstolo Pedro está dizendo àqueles que pastoreiam é que eles não podem deixar-se serem colonizados pelas estruturas de ações humanas que formam a sociedade. A igreja não é uma instituição como as outras; a Igreja é o Corpo de Cristo e seus pastores devem compreender que o poder que lhes foi dado deve ser usado de forma a dar continuidade à práxis pastoral de Jesus.
Pedro (1 Pe 5.2-3) está chamando a atenção dos pastores, pois estes fazem parte deste mundo, cheio de estruturas sociais corrompidas, que dão valores às pessoas segundo suas funções e objetivos. O pastor não está aos olhos de Pedro isento de cometer os mesmos erros e de transformar seu dom, sua vocação em um meio para tirar proveito daqueles que estão debaixo de suas responsabilidades. Muitos pastores caem nessa tentação quando começam a se preocupar com a aceitação e aprovação de sua congregação, quando almejam títulos, quando passam a viver em busca de status, quando correm atrás de benefícios e promoções eclesiais, quando se preocupam mais com o número de pessoas na igreja do que com as próprias pessoas. Caminhando por esse caminho que o sistema impõe aos pastores, como cidadãos deste mundo, acabam se tornando instrumentos de opressão e transformam suas igrejas em instituições alienadoras, esclerosadas e despóticas.
Para o apóstolo Pedro o pastor deve servir e não buscar ser servido, e somente desta forma se tornará modelo para o rebanho.
O poder pastoral deve ser voltado totalmente para a vontade de Deus. O poder pastoral só será verdadeiramente pastoral na medida que esse poder buscar realizar a missão outorgada por Jesus a nós, assim como Jesus viveu para realizar a vontade do Pai (Jo 4.34).


[1] Presbíteros são chamados “pastores” ou “bispos” no Novo Testamento. A palavra menos usada (pelo menos na forma substantiva) é pastor (grego – poimen). Pode surpreender-nos descobrir que essa palavra, que se tornou tão comum, só ocorra, referindo-se a um oficial da igreja, uma vez no Novo Testamento. Em Efésios 4.11, [...] Embora o substantivo pastor não seja usado para referir-se aos oficiais da igreja no Novo Testamento, o verbo relacionado que significa “agir como um pastor (de ovelhas) é aplicado aos presbíteros no discurso de Paulo aos presbíteros de Éfeso. Ele lhes diz que devem “pastorear a igreja de Deus(At 20.28)... Assim, Paulo exorta diretamente esses presbíteros de efésios a agir como pastores.

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