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By Ferramentas Blog

quinta-feira, 1 de março de 2012

APOSTILA 15 - TEOLOGIA BÍBLICA (PRIMEIRA PARTE)

APOSTILA

TEOLOGIA BÍBLICA – 1
(Primeira Parte)

Prof. Cornélio Póvoa de Oliveira



1 – DEFINIÇÕES

1.1 - O QUE É A TEOLOGIA?

O termo teologia, segundo seus aspectos etimológicos, é composto de duas palavras gregas: Theos (Deus) e logia (estudo). O termo logia se deriva da palavra logos (palavra, fala, expressão).
A teologia, é portanto uma Theologia, isto é, uma palavra, uma fala ou expressão sobre Deus; uma doutrina sobre Deus. É o estudo sobre a revelação de Deus que é a expressão dos Seus pensamentos e, logo, é, também, o estudo sobre Sua própria Pessoa.
Portanto teologia é o estudo sobre Deus, sua obra e sua revelação. Teologia é a ciência que trata do nosso conhecimento de Deus, e das coisas divinas.
Embora não encontremos nas Escrituras a palavra teologia, ela é bíblica em seu caráter. Em Rm.3:2 encontramos ta logia tou Theou (os oráculos de Deus); em 1ª Pe.4:11 encontramos logia Theou (oráculos de Deus), e em Lc.8:21 temos ton Logon tou Theou (a Palavra de Deus).


1.2 – DISTINÇÃO ENTRE TEOLOGIA E OUTROS ESTUDOS AFINS
Para melhor compreensão da natureza da Teologia, precisamos observar a distinção que há entre ela e algumas outras disciplinas semelhantes.
·         Teologia e Religião – A palavra religião, para alguns, deriva de religare (ligar de novo), e significa religar o homem a Deus. Outros, como Cícero, entendem que a palavra vem de relegere (considerar, rever, retomar o caminho).
O termo religião tem sido usado para expressar idéias cristãs e não cristãs.
Num sentido mais amplo do termo, podemos dizer que religião é a vida do homem nas suas relações com o poder soberano e sobrenatural do universo. Enquanto a religião estuda a pratica do dia a dia da relação homem e Deus, a teologia estuda as verdades que na religião o homem procura vivenciar. A teologia explica o que se crê na religião.
·         Teologia e Apologética – Apologética significa “um discurso sistemático e argumentativo na defesa da origem e da autoridade da fé cristã”. A apologética tem como propósito justificar a religião cristã diante das idéias contrárias e provar sua veracidade. O propósito da Teologia é outro: conhecer e expor o conteúdo e o significado da fé cristã, para fins práticos.
·         Teologia e Filosofia da Religião – A Filosofia da Religião investiga a natureza e os fundamentos das crenças religiosas. Trata de problemas tais como a origem, a natureza e a função da religião na vida do homem. Investiga a verdade e o valor da interpretação religiosa no mundo. Quanto à Teologia, a sua maior consideração é com os aspectos práticos da religião na vida, e busca interpretar o cristianismo mais em minúcias.
·         Teologia e Ética Cristã – A Ética Cristã investiga as obrigações morais do homem a luz da revelação bíblica. Ela expõe o significado do cristianismo para a vida moral do homem. Na Teologia muitas vezes observamos o efeito ético de uma doutrina, mas este não é o único objetivo, e nem sempre o principal interesse imediato ao considerar-se uma doutrina.

1.3 – IMPORTÂNCIA DA TEOLOGIA
Muitas vezes tem se negado a importância do estudo da doutrina cristã ou da teologia, alegando-se que o que importa é a vida com Deus, a experiência ou a fé. Algumas possíveis razões para essa negação da importância da teologia são:
1.      Uma ênfase exagerada na doutrina em contraposição ao cuidado com o caráter cristão, evangelização e serviço social, que por vezes tem-se verificado na história da igreja.
2.      O dogmatismo sobre vários aspectos da religião, resultando daí atritos, rejeição, confusão doutrinária e desinteresse pela doutrina e por questões especulativas, preferindo-se os aspectos práticos da vida cristã.
3.      A falta de conhecimento do que seja Teologia ou doutrina, seus objetivos e efeitos na vida do crente.

Destacamos aqui algumas razões da importância da Teologia.
1.      A Teologia satisfaz a mente humana – É da natureza da mente humana querer raciocinar e entender aquilo que se crê ou se faz. Não podemos separar os aspectos práticos da vida cristã dos aspectos teóricos. A vida humana requer esse lastro teórico em que repousa nossa atitude e ação.
2.      A Teologia ajuda na formação do caráter – As verdades incorporadas ao nosso conhecimento afetam o nosso caráter. O conhecimento de Deus e das relações entre Deus e todas as coisas é um fator de primeira grandeza na formação do caráter do crente. O desenvolvimento da vida do cristão depende do conhecimento da verdade de Deus (2 Pe 1.2-8).
3.      A Teologia serve para a pureza e defesa do cristianismo – Na sua caminhada histórica, a doutrina cristã está sujeita a ataques e contaminações de superstições, imoralidades, correntes de pensamentos filosóficos, científicos e religiosos. Uma teologia bem fundamentada na Bíblia é necessária para combater esses ataques e preservar a pureza da verdade cristã.
4.      A Teologia ajuda na propagação do evangelho – Para se propagar o evangelho na sua inteireza é necessário ter alguma compreensão inteligente do seu conteúdo e significado e ser capaz de dar uma explicação inteligível da verdade a outrem (Tt 1.9).
5.      A Teologia fundamenta a prática cristã – A doutrina é o conteúdo da fé e a base de toda a prática cristã. O apóstolo Paulo, em suas epístolas, via de regra, antes de apelar para a prática da vida, oferece, primeiro, uma explicação doutrinária da verdade.

Há grande necessidade de se compreender a teologia cristã, tanto para a vida pessoal do crente, como para o cristianismo em si e para o ministério cristão. O mundo está em crise de verdade fundamental. A teologia cristã pode ajudar na resposta às indagações mais profundas do ser humano. É nosso dever conhecer toda a verdade e ajudar os que estão na dúvida.

1.4 - O QUE É A TEOLOGIA BÍBLICA VISTA A PARTIR DA ETIMOLOGIA?
Nós já vimos o que é teologia. Veremos agora no que é a teologia bíblica.
A palavra “Bíblia” vem do Grego “Biblos” que significa “livros” ou “rolos”, se referindo aos rolos de pergaminhos.
Podemos afirmar que a Teologia Bíblica investiga a verdade de Deus e o Seu universo no seu desenvolvimento divinamente ordenado e no seu ambiente histórico conforme apresentados nos diversos livros da Bíblia. 
A teologia bíblica é a exposição do conteúdo doutrinário e ético da Bíblia, conforme originalmente revelada. A teologia bíblica extrai o seu material exclusivamente da Bíblia.

1.4.1 – Por Que o Nome Teologia Bíblica?
Possivelmente você esteja pensando “é obvio que a teologia tem que ser bíblica”. Contudo será que toda teologia é bíblica? Na estrutura dos estudos acadêmicos, não.
Na chamada Enciclopédia Teológica encontramos "diferentes" teologias, algumas bíblicas e outras, nem tanto. A teologia pode ter no seu processo de construção diversos métodos e pressupostos. A teologia pode ter um caráter puramente filosófico e até mesmo esquecer-se da Bíblia. Em outros casos, a teologia pode, e de fato muitos o fizeram, negar a própria Bíblia como fonte para a teologia.
Exemplos de teologia não bíblica: Teologia Espírita, Teologia Islamica, etc.
Mas nosso propósito maior nesse curso é entendermos a teologia bíblica como disciplina acadêmica, estudar a respeito de sua origem e depois aplicarmo-nos ao estudo de uma proposta específica de teologia bíblica.

1.4.2 – A Teologia Bíblica (TB) é a Teologia Cconstruída a Partir da Palavra de Deus
Quando usamos o termo BÍBLICA no título da disciplina, o que isso significa? Um simples texto que manifesta uma série de verdades universais? Um livro que reflete um grande número de crenças de um povo antigo chamado Israel e uma comunidade chamada cristã? Ou a Bíblia é mais do que isto?
O cristianismo histórico tem definido a Bíblia como a Palavra de Deus e acrescido à essa definição qualificadores que nos permitem identificar exatamente o que queremos dizer. Os cristãos afirmaram através dos tempos que esse livro chamado Bíblia é a Palavra de Deus inspirada, infalível, inerrante, autoritativa e a sua única regra de fé e prática (esses conceitos estão explicados nas aulas de bibliologia). Nela Deus revelou tudo o que Lhe aprouve revelar para o bem dos seus filhos.
Portanto, em nossa definição, estamos tomando o conceito acima como ponto de partida. Isso é fundamental, porque no universo acadêmico vamos encontrar muitos estudiosos lidando com  a teologia bíblica sem, no entanto, considerar qualquer dessas definições verdadeiras. Isso pode tornar as coisas um tanto confusas. O conceito acima é conhecido como um conceito ORTODOXO. Em contrapartida encontramos os NÃO-ORTODOXOS.

Ortodoxia - Os ortodoxos são os estudiosos que aceitam plenamente a definição acima sobre a Bíblia. Neste grupo podemos encontrar um grande número de representantes em diferentes denominações históricas. Em alguns casos são chamados de conservadores, fundamentalistas ou até mesmo evangélicos somente (principalmente no contexto norte americano).

Não ortodoxia - Os não-ortodoxos não aceitam as teorias da inspiração das Escrituras, infalibilidade e inerrância. Também estão representados em várias denominações históricas. Usam nos seus estudos um linguajar extremamente semelhante ao que os ortodoxos usam, podendo confundir quem ouve a respeito de sua posição. Em alguns casos são chamados de liberais ou neo-ortodoxos. A maioria dos livros de teologia bíblica traduzidos para a língua portuguesa é de origem não-ortodoxa. São publicados principalmente pelas edições Paulinas, Paulus, Vozes, Sinodal, e ASTE, entre outros. Algumas vezes esses textos serão citados e comentados, para termos uma ideia clara das diferenças que os pressupostos fazem em nossa teologia.

Buscando uma definição ortodoxa
1. George Ladd (Teologia do Novo Testamento - Rio de Janeiro: JUERP, 1984, p. 25) trás a seguinte definição:

“A teologia bíblica é a disciplina que estrutura a mensagem dos livros da bíblia em seu ambiente formativo histórico. A teologia bíblica é primariamente uma disciplina descritiva. Ela não está inicialmente preocupada com o significado último  dos ensinos da Bíblia ou com a sua relevância para os dias atuais. Esta é a tarefa da teologia sistemática. A tarefa da teologia bíblica é de expor a teologia encontrada na Bíblia em seu próprio contexto histórico, com seus principais termos, categorias e formas de pensamentos. O propósito da Bíblia é contar uma estória sobre Deus e seus atos na história.”

2. Wilson C. Ferreira (Esboço de Teologia Bíblica do Novo e Velho Testamentos - Campinas: LPC, 1985, p. 20-21) responde à pergunta tema de nossa aula da seguinte forma:

“Teologia Bíblica é o ramo da Teologia Exegética que busca descobrir, conhecer e explicar a revelação de Deus ao homem, conforme se entende das Escrituras Sagradas do Velho e Novo Testamento – A Bíblia Sagrada.”

3. Grant Osborne (Hermeneutical Spiral (Doners Grove: Intervarsity Press, 1991), p. 263) define a Teologia Bíblica como “o braço da pesquisa teológica que se preocupa em encontrar temas através das diversas seções da Bíblia e então procurar os temas unificadores da Bíblia.”

Pontos em comum entre as três definições: A Bíblia é fonte última para a sua tarefa.

Pontos discordantes:
·         Observe que a primeira definição diz que a Teologia Bíblica (TB) é uma disciplina primariamente descritiva;
·         já a segunda definição abre um pouco mais o campo da TB quando fala em "conhecer e explicar" a revelação;
·         a terceira definição tem uma ênfase temática.

Em suma a Teologia Bíblica é a parte da Teologia que se ocupa com a exposição do conteúdo ou conteúdos dos ensinos dos autores bíblicos. Pode ser subdividida em Teologia do A.T., Teologia do N.T., ou ainda Teologia de Paulo, de Pedro, de João, dos Evangelhos, etc. O material exclusivo da Teologia Bíblica é a Bíblia, e serve-se da exegese bíblica.










2 – TEOLOGIA BÍBLICA (TB) E AS OUTRAS DISCIPLINAS TEOLÓGICAS
                                                                                                       
            2.1 – CONHECENDO OUTRAS DISCIPLINAS TEOLÓGICAS
            A Teologia Bíblica se relaciona com diversas disciplinas da área teológica, pois é a partir da Bíblia que toda teologia é fundamentada. Vejamos como ela se relaciona com outras disciplinas teológicas.

A) Teologia Natural: Estuda fatos que se referem a Deus e Seu universo que se encontra revelado na natureza. A TB confirma a revelação de Deus através da natureza. No cristianismo não se estuda essa Teologia porque as Escrituras fornecem maior conhecimento de Deus.

B) Teologia Exegética: Estuda o Texto Sagrado e assuntos relacionados, através do estudo das línguas originais, da arqueologia bíblica, da hermenêutica bíblica e da teologia bíblica.

C) Teologia Histórica: Considera o desenvolvimento histórico da doutrina, mas também investiga as variações sectárias e heréticas da verdade. Ela abrange história bíblica, história da igreja, história das missões, história da doutrina e história dos credos e confissões.
Pode ser subdividida em Teologia Patristica, Teologia Medieval, Teologia Reformada, Teologia Contemporânea, Teologia da Libertação, da Prosperidade, etc.

D) Teologia Dogmática e Sistemática: É a sistematização e defesa das doutrinas expressas nos símbolos da igreja. A Teologia Sistemática tenta dar uma exposição coerente, ordeira e inclusiva da fé cristã.
Quando o sistema doutrinário é baseado num credo ou credos adotados por alguns grupos cristãos, então essa Teologia é normalmente denominada Dogmática. Assim temos "Dogmática Cristã", por H. Martensen, com uma exposição e defesa da doutrina luterana; "Teologia Dogmática", por Wm. G. T. Shedd, como uma exposição da Confissão De Westminster e de outros símbolos presbiterianos; e "Teologia Sistemática", Por Louis Berkhof, como uma exposição da teologia reformada.

E) Teologia Prática: Trata da aplicação da verdade aos corações dos homens. Ela Busca aplicar à vida prática os ensinamentos das outras teologias, para edificação, educação, e aprimoramento do serviço dos homens.
Ela Abrange os cursos de homilética, administração da igreja, liturgia, educação cristã, ética e missões.


AULA 2
2.2 - A RELAÇÃO DA TB COM AS OUTRAS DISCIPLINAS
Entender a relação da TB com outras disciplinas da enciclopédia teológica nos ajuda a compreende melhor para que estudamos a matéria. Perguntas imediatas nos surgem quando citamos a TB, tais como, em que ela é diferente da Teologia Sistemática ou Dogmática?
Normalmente entendemos que as disciplinas bíblicas se relacionam da seguinte forma:





a. A hermenêutica nos fornece as regras pelas quais devemos abordar o texto bíblico.
b. A exegese nos fornece os instrumentos de precisão, incluindo as línguas originais, para obter o sentido exato de um texto.
c. A TB trás a exegese ao contexto do todo e fornece o material base para a sistematização, que por sua vez é usada para a boa pregação da Palavra de Deus.






Teologia Bíblica e Exegese
Ainda que a ordem lógica no gráfico acima seja a TB precedida da exegese, existe uma tensão continua entre as duas disciplinas. O significado último de um texto não é determinado de maneira isolada. De certa forma a TB é reguladora da exegese. Por exemplo, uma interpretação textual isolada da teologia de Paulo e Tiago levaria o exegeta a conclusões contraditórias sobre o tema “fé e obras”:

Ef 2.8-9 - Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.
Tg 2.14-17 - Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.

É a TB que nos auxilia na compreensão do todo e nos leva a concluir que ninguém pode ser salvo pelas obras, mas, no entanto, as obras são um resultado da fé verdadeira. Lendo passagens isoladas podemos chegar a conclusões contraditórias. Porém, no nível mais profundo, além da superfície, os dois temas são harmônicos. É desta forma que a TB exerce o seu papel

Teologia Bíblica e Teologia Sistemática
Esse é outro aspecto muito importante de ser observado em nossa disciplina. Segundo o gráfico apresentado anteriormente a TB precede a teologia sistemática. Como está implícito no nome da disciplina, a teologia sistemática encarrega-se de sistematizar as verdades bíblicas ensinadas pela TB. Enquanto a TB se limita a trabalhar com essas verdades procurando observar estritamente o caráter progressivo da revelação de Deus, limitando-se às Escrituras, a teologia sistemática busca outros recursos para completar sua tarefa. A filosofia, história e a própria revelação natural são parte do campo de trabalho da teologia sistemática.

Teologia Bíblica
Teologia Sistemática
Origem Histórica
Origem didática

É importante notar que as duas disciplinas não são e não devem ser ensinadas como excludentes (o que já aconteceu por vezes no passado). Ainda que a teologia sistemática, como disciplina acadêmica, tenha nascido anteriormente à TB, ela, na verdade, deve sempre ser primeiramente bíblica. Assim, por exemplo, podemos ver a teologia de João Calvino conforme expressa nas Institutas da Religião Cristã. Ainda que a teologia ali encontrada seja exposta de maneira sistemática, ela parte de uma compreensão contextualizada do texto bíblico.
Um dos grandes problemas da história da teologia sistemática é que houve tempos em que os teólogos ignoravam o caráter progressivo da revelação a ponto de usarem o texto bíblico como um “texto prova” para os dogmas já estabelecidos, sem levar em consideração o contexto e as regras hermenêuticas necessárias para uma correta interpretação.
Por fim, a metodologia das duas disciplinas é diferente, ainda que ambas tenham um mesmo alvo, esclarecer a revelação de Deus. Para muitos estudiosos a tarefa da TB é puramente descritiva (como vimos na citação de Ladd, acima) enquanto o papel da sistemática seria o de “conversão” das verdades descritas em verdades aplicáveis. Como se pudéssemos dizer que a TB nos diz o que o texto significou, e a sistemática o que ele significa.

Teologia Bíblica e Teologia Histórica
Precisamos primeiro definir o que é teologia histórica. Isso porque normalmente não encontramos uma disciplina específica com esse nome em nossos currículos de seminários. A teologia histórica trabalha com a história do dogma ou a história da própria teologia. Entendendo a história da igreja podemos perceber como uma determinada doutrina se desenvolveu em diferentes períodos da história e traçar a origem e as estruturas que estão por trás da nossa própria tradição confessional.
A teologia histórica, infelizmente, é muitas vezes relegada a um segundo plano nos estudos acadêmicos. Isso nos trás grande prejuízo. A teologia histórica nos ajuda a entender a nossa origem, as raízes do nosso procedimento hermenêutico e nos serve como um ponto de referência a fim de analisarmos nossos próprios pressupostos. Todos nós temos um “pré-entendimento” do texto e esse dever ser claro a nós mesmos. À luz da teologia histórica podemos reavaliar e alterar o nosso “pré-entendimento.” Só assim poderemos seguir conscientemente na busca do significado verdadeiro de um texto e sua teologia.
Com esse gráfico queremos demonstrar o aspecto de interdependência da TB e teologia sistemática e como elas interagem com os dados bíblicos e nosso pré-entendimento a respeito do texto. Em última instância, é muito difícil separar com precisão a área de abrangência de cada uma das duas disciplinas. A interação do teólogo com os dados e o pré-entendimento de cada um no seu campo de conhecimento cria o que Osborne chamou de “círculo hermenêutico.”

Teologia Bíblica e Teologia Homilética
Ainda que a TB tenha a sua tarefa descritiva específica, é impossível separá-la da pregação. Qualquer um que leia o texto bíblico está interessado em saber o que ele significou e o que ele significa. Nesse ponto a TB e a pregação andam próximas, ainda que vários estágios estejam envolvidos no processo. No próprio ato da pregação bíblica, especialmente da exposição de um texto, é fundamental que se passe pela contextualização da passagem individual ao seu ambiente teológico, ao lugar em que esse texto específico ocupa no todo da Escritura.
O Expositor bíblico é aquele que faz a mistura das duas disciplinas. De acordo com Osborne, ao mesmo tempo em que existe a proximidade, existe a distância. Ele diz “Os dados bíblicos foram traduzidos e intrepretados pela exegese, combinados pela TB, transformados em teses dogmáticas pela teologia sistemática, desenvolvidos em padrões de pensamento de várias situações e tradições pela teologia histórica e agora é aplicado à situação corrente pela teologia homilética.” (p. 270) No entanto, no ato de expor o pensamento do texto bíblico a TB é uma ferramenta essencial.

Implicações práticas
Diante da definição e relação da TB com outras disciplinas da enciclopédia teológica podemos observar a sua importância como:
·         A disciplina que colhe diretamente e organiza os primeiros frutos da exegese propriamente dita. 
·         Dá o primeiro passo na direção da contextualização maior dos textos individuais, assim como de livros e seções da Bíblia.
·         Como fonte primária para o trabalho da teologia sistemática evita que o dogma se torne imutável diante da própria Escritura (o que acontece na Igreja Católica Romana).
·         Facilita a leitura das Escrituras mostrando a unidade e progresso da revelação de Deus a seu povo.
·         Serve como uma ferramenta indispensável na exposição das Escrituras.
·         De certa forma pode se dizer que a TB é a disciplina onde várias outras matérias da enciclopédia teológica se encontram.




































3 – PROBLEMAS ESPECÍFICOS DA TEOLOGIA BÍBLICA
Vários estudiosos da teologia bíblica crêem que existe um tema central unificador da teologia do Antigo Testamento (um Mitte) que “costura” as diversas partes do texto, apresentando, pelo menos, uma idéia teológica geral. Outros entendem que esse Mitte estende-se do AT para o NT.
Certamente, devido aos muitos pressupostos envolvidos, esse conceito é muito discutido entre os teólogos. Entre os teólogos não ortodoxos esse conceito se torna ainda mais complexo, dependendo principalmente da escola crítica à qual está associado. Os teólogos ortodoxos também encontram dificuldades para definir qual seria esse centro unificador.
Quais são os principais problemas encontrados pelos estudiosos para a formulação de uma metodologia para a disciplina?

3.1 - Unidade e diversidade
Esse é possivelmente o cerne de todo o debate no que diz respeito ao chamado método histórico-crítico[1] de interpretação. Os teólogos críticos, em sua maioria, duvidam que seja possível encontrar um centro teológico capaz de amalgamar temas teológicos ou doutrinas. Isto se dá, principalmente, porque partem do pressuposto de que os escritos bíblicos são originários de diferentes fontes da tradição da religião de Israel e do antigo Oriente Próximo, tradições essas que são circunstanciais. A descrença em um “processo” de auto-revelação torna impossível pensar que entre os diferentes escritos, cada um com uma tradição independente, exista algum tipo de unidade. 

Principais dificuldades dos não ortodoxos para encontrar em tema central unificador:
1. Método de interpretação histórico-crítico[i]
2. Pressuposto de que os escritos bíblicos são originários de diferentes fontes[2]
3. Pressuposto de que os escritos bíblicos são originários de diferentes tradições
4. Desacreditam do processo de "auto-revelação" de Deus
5. Não crêem no processo de inspiração verbal da Escrituras

Sem dúvida existe grande diversidade entre os escritos da Bíblia. Não só em relação à extensão de tempo em que foram produzidos como também com relação aos motivos particulares que formam o ambiente em que cada um deles foi composto.  Tanto Israel quanto a igreja primitiva, onde cada um dos escritos do AT e NT nasceram, tinham questões e problemas a serem resolvidos. 
Mas será que essa diversidade faz com que a possibilidade de uma unidade desapareça?
É isso que postulam muitos estudiosos críticos. No entanto, esse ceticismo é parte dos pressupostos histórico-críticos. Até mesmo alguns estudiosos críticos encontram temas que expressam a unidade mais profunda entre os escritos bíblicos. Aliás, o primeiro teólogo-bíblico da era moderna a propor o “pacto” como tema unificador foi Eichrodt (W. Eichrodt, Theology of the Old Testament (Londres: SCM Press, 1961). Já outros postulam que não exista qualquer unidade entre os escritos vétero-testamentários (von Rad, G., Teologia do Antigo Testamento(São Paulo: ASTE, 1974).
A diversidade não implica em desunidade, antes, nos dá a oportunidade de encontrar a unidade em um nível mais profundo do que o superficial. É interessante observar que toda a formulação da Confissão de Fé de Westminster quanto ao seu sistema teológico é fundamentada sobre o entendimento pactual (CFW, cap. VII).
Portanto, a diversidade não é um fator que impossibilite a unidade.

3.2 - História da Tradição
A história da tradição é um fator complicador da teologia bíblica entre os estudiosos críticos. Esse método de abordagem do texto bíblico tenta fazer uma reconstrução radical da história do texto, considerando as muitas tradições que estão por trás do mesmo, sem contemplar o produto final, o texto propriamente dito. 
Um famoso proponente dessa escola é Martin Noth, que afirma ser o texto bíblico derivado de um grande número de tradições orais que em determinado tempo foram reunidas por um editor que lhas deu um caráter nacional (ver Augustus Nicodemus Gomes Lopes, “Lendo Josué como Escritura”, Fides Reformata 4/2 (1999) 5-24, 7). 
Outra linha dentro do método da história da tradição, ao contrário de Noth, afirma que as tradições são o resultado final de um longo processo de interpretação e re-interpretação das tradições para que as mesmas pudessem ser relevantes em novas situações. Um exemplo seria a tradição dos Dez Mandamentos que foi re-interpretada diante de diferentes situações:


Êxodo 20
Deuteronômio 5
8 Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. 9 Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. 10 Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; 11 porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou.
12 Guarda o dia de sábado, para o santificar, como te ordenou o SENHOR, teu Deus. 13 Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. 14 Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro das tuas portas para dentro, para que o teu servo e a tua serva descansem como tu; 15 porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito e que o SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que o SENHOR, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado.



Para o intérprete histórico-crítico isso é uma "evidência" para sua postura, uma demonstração clara de que o texto passa por revisões diante de cada geração. E devemos concordar com isto. No entanto, nossos pressupostos são diferentes. Na visão ortodoxa uma tradição re-interpreta a anterior em plena harmonia e por iniciativa divina. Portanto, não há entre elas contradição. O mesmo caso se dá com os livros de Reis e Crônicas que contam a mesma história de perspectivas diferentes ou ainda, com o quatro evangelhos. 
O fato é que a história da tradição depende de um grande volume de especulação em torno da reconstrução do texto, especulações estas que mudam de acordo os “ventos”  das opiniões históricas e que tornam impossível o desenvolvimento de uma TB.
Portanto, ainda que seja importante estarmos conscientes da história da tradição, ela não é uma ferramenta que tenha grande utilidade ou que seja tão essencial para o desenvolvimento da TB.

3.3 - Teologia e Cânon
As discussões em torno do cânon certamente são determinantes com relação à nossa forma de abordar a TB. Há muitos séculos a igreja percebeu e reconheceu o cânon das Escrituras (aqui é importante lembrar as aulas de Bibliologia). Foi sobre o cânon que a igreja desenvolveu sua percepção teológica, submetendo-se à revelação de Deus. Os estudos críticos vieram se contrapor a essa percepção, negando a autoridade do cânon em virtude do ceticismo quanto a revelação de Deus. Por várias décadas deixou-se de falar em TB entre os estudiosos críticos, vindo a ênfase a recair sobre a história de Israel e das tradições e fontes por trás do texto. Isso mudou a partir da década de 30 do século XX, quando houve um retorno ao estudo da TB. As propostas histórico-críticas mais recentes contemplam uma análise canônica das Escrituras.
No entanto, há um aspecto importante de ser observado que é a tendência de muitos teólogos, principalmente na área dogmática, de operar com um “cânon dentro do cânon.” Que quer dizer isto? É que muitas vezes nos deixamos envolver por determinados pressupostos que nos fazem “escolher” dentro do cânon aquilo que mais nos agrada. Acabamos dando uma ênfase não natural em determinadas linhas, fazendo-as mais centrais. Observe bem que com isso não queremos afirmar que não existam linhas mais centrais. O problema é a subjetividade na determinação destes temas, principalmente quando usamos “textos prova”, sem a observação contextual necessária. Isso acaba formando um cânon dentro do cânon. Devemos sempre levar em consideração a unidade das Escrituras e o cânon como um todo. Só assim o dogma, a comunidade ou o especialista deixarão de predominar sobre o contexto canônico.


3.4 - A Analogia da Fé (Fidei) e a Revelação Progressiva
A analogia da fé é outro assunto muito importante para o estudioso da TB. A analogia da fé é o princípio reformado de que a Escritura interpreta a Escritura (lembre-se da aula 5 no curso de História da Interpretação Cristã das Escrituras). Osborne propõe que talvez o melhor termo para ser usado fosse analogia scriptura (Hermeneutical Spiral, 273). Esse princípio, quando mal aplicado, gera uma distorção na TB. Isso acontece quando a analogia em passagens paralelas é usada para determinar o sentido do texto, sem deixar que a passagem fale por si mesma. Isto pode gerar uma “conformidade artificial.” Isso acontece, sobretudo, quando a TB não é trabalhada como precedente da teologia sistemática. Acaba-se por inserir no texto um significado que não é o pretendido originalmente. É o que alguns cristãos fazem ao estudar apenas com uma chave bíblica, explorando um tema. Não que seja errado, mas deve-se tomar o cuidado de considerar os termos em seus contextos.
É realmente perigoso quando permite-se que a fé determine o sentido do texto. Deve acontecer exatamente o contrário. No entanto, não podemos nunca esquecer que a interpretação sempre envolve pressupostos. Assim, devemos trabalhar na TB sempre em diálogo consciente com a teologia sistemática, perguntando se o sistema teológico não ultrapassou os limites do texto ou torceu o texto em função de seus pressupostos.
Outro perigo fundamental é a “paralelomania.” Isso acontece quando o intérprete, sem uma análise bíblico-teológica aprofundada, considera dois textos (seja por semelhança de palavras, temas ou situações) como paralelos. É muito importante que o teólogo bíblico tenha plena consciência do caráter progressivo da revelação de Deus que está registrado nas Escrituras. Veja o exemplo na leitura obrigatória sobre o Salmo 133.

3.5 - Autoridade
Autoridade é o direito ou o poder de exigir obediência. Existe uma crise de autoridade amplamente difundida na sociedade contemporânea, onde a única autoridade aceita por muitos é aquela auto-imposta conscientemente.
Em nossa sociedade pluralista toda autoridade tem sido questionada quanto a sua legitimidade. Vivemos no tempo “da praça da alimentação” dos shoppings das grandes cidades. Pluralismo é liberdade de se dizer, falar, pensar o que quiser sem que ninguém tenha o direito de afirmar possuir “o” caminho certo ou “a” verdade sobre qualquer assunto.
Na perspectiva da fé cristã, Deus tem o supremo direito e poder de exigir obediência porque Ele é o Criador e Senhor de todos os homens.
Uma vez que o cristão compreenda este principio fundamental a questão de autoridade torna-se praticamente a de descobrir a vontade e a mente de Deus em qualquer assunto. Mas como encontrar Deus e descobrir sua mente e sua vontade? Mais especificamente, Deus providenciou uma fonte pela qual cheguemos à sua verdade e assim nos submetamos à sua autoridade?

3.5.1 – A Bíblia Única Fonte de Regra e Fé
No decorrer dos séculos os cristãos apelaram para uma variedade de vozes como fonte da autoridade final.
Os credos – resumo das verdades cristãs que foram produzidos nos primeiros séculos para declarar a essência da fé em uma época de confusão teológica. O Credo Apostólico é o mais antigo e mais conhecido. Este credo fornece uma série de pontos básicos para apresentar exposições da fé cristã, mas não serve como padrão e fonte final da verdade cristã.
As confissões históricas – essas declarações da fé cristã pertencem ao período da Reforma e pós-reforma. Ex.: Os 39 Artigos (1571) e a Confissão de Westminster (1647), são mais completas do que o credo, contudo são declarações partidárias refletindo as opiniões de um braço da igreja universal, e, portanto, contendo elementos que não poderiam obter o apoio de outros. Por isso não servem como autoridade final.
A opinião da Igreja – A quem damos ouvidos: teólogos, pastores, comissões, a média da opinião do povo, ou o que? Da mesma forma, se essa "mente", a opinião da Igreja, é nossa autoridade final, qualquer conflito de opinião nos leva a um impasse, desde que não há autoridade superior. O que pensar quando nem sempre a opinião da Igreja foi fiel à "fé entregue aos santos", conforme nos mostra a história da Igreja.
A experiência cristã – Esta abordagem começa com a experiência humana atual de Deus e tenta identificar as doutrinas expressas mediante essa experiência. Limita a verdade cristã, excluindo qualquer verdade que estiver além de nossa experiência imediata, como, por exemplo a doutrina da Trindade.
A "voz interior" – este ponto de vista é comum hoje, a "voz" sendo freqüentemente interpretada como a inspiração do Espírito Santo. Ele inclui, é claro, um elemento de verdade; o Espírito Santo cumpre realmente um papel vital na doutrina cristã da autoridade, mas ele opera essencialmente nas Escrituras e através das Escrituras.
Nenhuma das fontes mencionadas acima podem nos levar a conhecer a mente de Deus. Nenhuma delas tem a autoridade plena como fonte da verdade cristã, mas cada uma delas tem algo a contribuir.
A Bíblia – A fonte final da autoridade. O próprio Deus trino revelou-se a nós através das palavras da Bíblia. Isto combina três verdades:
1º - Deus tomou a iniciativa: Aprendemos Dele e nos submetemos à sua autoridade direta por causa de sua decisão de revelar-nos a sua pessoa e a sua vontade. Este processo é chamado de "Revelação" – o próprio Deus veio até nós em Jesus Cristo, o Deus-Homem. Jesus Cristo é o mediador de todo o nosso conhecimento de Deus (Jo 1:1; Jo 14:6-9; 1 Co 1:30; Cl 2:3; Ap 19:13).
2º - Nosso conhecimento de Deus vem através da Bíblia. Ele fez com que ela fosse escrita e nos fala hoje como falou ao povo quando essas palavras foram dadas pela primeira vez.
3º - A Bíblia deve ser recebida como a palavra de Deus para nós, reverenciada e obedecida como tal. Quando nos submetemos à sua autoridade, nos colocamos sob a autoridade do Deus vivo que se revela a nós em Jesus Cristo.
Toda pessoa tem uma base de autoridade sobre a qual pensa e age. Para o crente, essa base é a Bíblia.

3.5.2 - Evidências da autoridade da Bíblia
·         Confirmada por Paulo: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2 Tm 3:16-17).
Paulo afirma que os seus escritos são mandamentos do Senhor: 1 Coríntios 14:37 “Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor”.
·         Confirmada por Pedro: “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pe 1:20-21).
·         Confirmada por Jesus: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).
“Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele. Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” (Jo 5:46-47)

3.5.3 – Outras evidências da Autoridade e Credibilidade das Escrituras
Outras evidências da autoridade da Bíblia são:
·         Aprovada no teste de canonicidade – Todos os livros bíblicos contidos na Bíblia de versão protestante foram aprovados pelo “cânon”. O que dá a esta Bíblia credibilidade.
·         Inspiração – Todos os livros são considerados inspirados, isto é, supervisionados por Deus em sua escrita. Isso dá maior autoridade para as Escrituras.
·         Provas Arqueológicas e Históricas
§  a) Integridade Topográfica e Geográfica: As descobertas arqueológicas provam que os povos, línguas, os lugares e os eventos mencionados nas Escrituras são encontrados justamente onde as Escrituras os localizam, no local exato e sob as circunstâncias geográficas exatas descritas na Bíblia.
§  b) Integridade Etnológica ou Racial: Todas as afirmações bíblicas sobre raças têm sido demonstrada como corretas com os fatos etnológicos revelados pela arqueologia.
§  c) Integridade Cronológica: A identificação bíblica de povos, lugares e acontecimentos com o período de sua ocorrência é corroborada pela cronologia Síria e pelos fatos revelados pela arqueologia.
§  d) Integridade Histórica: O registro dos nomes e títulos dos reis está em harmonia perfeita com os registros seculares, conforme demonstrados por descobertas arqueológicas.

Além de tudo o que foi dito, podemos ainda comprovar a Autoridade e a Credibilidade das Escrituras pelo simples fato dela conter “vida”, tanto nos benefícios que conquista para os que dela tem acesso como “vida em si mesma” pela imortalidade de sua existência.

3.6 - Antigo e Novo Testamento
Talvez essa seja a área mais difícil de se chegar a um consenso entre os teólogos bíblicos e uma área  central no debate sobre a TB. Esse aspecto está intimamente ligado a “unidade e diversidade.” Qual é a autonomia dos testamentos dentro da unidade bíblica? Fala-se constantemente sobre TB do AT e TB do NT. Seria essa uma terminologia apropriada? Muitos teólogos  têm advogado uma total descontinuidade, considerando o NT o início de uma nova religião. O famoso teólogo Bultmann pergunta em seu artigo sobre profecia e cumprimento: “Quanto, então, a história judaica do Antigo Testamento representa a profecia cumprida na história da comunidade do Novo Testamento? Ela é cumprida na sua contradição interna, é um aborto.”
Para esse crítico não existe continuidade... somente um aborto. (Rudolf Bultmann, “Prophecy and Fulfillment” em Claus Westermann, Essays in Old Testament Hermeneutics (Richmond: John Knox Press, 1963), 50-75, 72). No entanto, essa separação absoluta é fruto do negativismo próprio de alguns teólogos críticos.
O simples fato do AT ser citado algumas centenas de vezes no NT, e de existirem, segundo alguns autores, mais de 1100 alusões do AT no NT, é suficiente para que se reconheça o quanto o NT depende , na sua formação, do AT. Não só nisto, mas também com relação aos temas, vocabulário, relações tipológicas e demonstração do progresso da revelação, fica clara a interdependência dos testamentos.
Só nisto temos suficiente evidência de continuidade entre os testamentos. 
É muito importante que o teólogo bíblico tenha uma noção muito clara da continuidade e unidade das Escrituras, o seu material básico na construção da TB.

Implicações práticas
Ainda que existam questões a serem discutidas quanto a um tema teológico central, elas não são insuperáveis. Como vimos, as dificuldades não nos impedem de buscar um “centro unificador” ou um Mitte para a teologia. No nosso curso vamos adotar um Mitte com três temas, a saber – Reino / Pacto / Mediador. Essa é a proposta de Van Groningen em seus livros Revelação Messiânica do Velho Testamento(Campinas: LPC, 1995), 942 páginas e From Creation to Consumation (Siux Center: Dort Press College, 1996), 604 páginas - Em tradução pela Editora Cultura Cristã).

O reino o pacto e o mediador são os temas que interligam os Testamentos e os livros de cada um, mostrando a unidade essencial da revelação progressiva de Deus ao seu povo.

Em uma aula posterior estudaremos cada um desses temas detalhadamente.






























4 – EM BUSCA DE UMA METODOLOGIA
Terminamos a aula passada afirmando que o reino, o pacto e o mediador são os temas que interligam os Testamentos e os livros de cada um, mostrando a unidade essencial da revelação progressiva de Deus ao seu povo.
Veremos na próxima aula as características de cada um desses temas integrados. Porém, antes dessa análise ainda se faz necessário determinar que metodologia seguiremos. Como abordar as Escrituras com esses temas? Seria suficiente verificar tudo o que Bíblia fala sobre cada um deles e condensar esse ensino em três grandes capítulos? Ou seria melhor abordar cada livro da Bíblia para ver o que fala sobre esses temas? Ou ainda, analisar o desenvolvimento desses temas numa linha histórica?
Veja na tabela abaixo os métodos mais comuns de se trabalhar a Teologia Bíblica (Extraído da Enciclopédia Histórica-Teológica da Igreja Cristã. Tópico “Teologia do Novo Testamento” – Volume III, págs. 500 - 507 )

Método
Conceito
Valor
Perigo
a) Sintético
Segue os temas teológicos básicos por todas as partes das Escrituras a fim de notar seu desenvolvimento através do período bíblico
Ênfase que dá à unidade das Escrituras
Tendência para a subjetividade: é possível enquadrar a matéria do NT dentro de um padrão artificial
b) Analítico
Estuda a teologia distintiva de seções individuais e nota a mensagem específica de cada uma delas
Ênfase no significado do autor individual
Diversidade radical, que resulta numa colagem de quadros, sem coesão
c) Histórico
Estuda o desenvolvimento de idéias religiosas na vida do povo de Deus
Tentativa de entender a comunidade dos crentes por trás da Bíblia
Subjetividade da maioria das reconstruções, nas quais o texto bíblico está à mercê do pesquisador.
d) Cristológico
Faz de Cristo a chave hermenêutica dos dois Testamentos
Reconhecimento do verdadeiro centro da Bíblia
Tendência de espiritualizar passagens e forçar interpretações que lhes são estranhas, especialmente em termos da experiência veterotestamentária de Israel. Não se deve considerar que tudo no AT ou no NT seja um "tipo de Cristo”.
e) Confessional
Considera a Bíblia como uma série de declarações de fé que estão além do alcance da história
Reconhecimento dos credos e da adoração no NT
Separação radical entre a fé e a história
f) Corte Transversal
Segue um só tema unificador (ex. a aliança ou as promessas) e o estuda historicamente por meio de cortes transversais ou amostragens do registro canônico
Compreensão dos temas principais que ele oferece
Seleção arbitrária. Se alguém selecionar o tema central errado, outros temas podem ser forçados a se harmonizarem com ele.




Método Multiplexado ou Canônica Multipla
É um resumo da concepção de teologia do Antigo Testamento adotada por Hasel[1]. Primeiro, ele entende que a teologia do Antigo Testamento deve estar ligada à forma canônica final do Antigo Testamento. Isso exclui abordagens da história da religião e da história das tradições. Segundo, uma teologia do A.T. deve ser temática, em vez de lidar com um conceito central ou chave. Terceiro, a estrutura deve ser múltipla, o que evita as armadilhas dos métodos transversal, genético e tópico. Quarto, o objetivo final de uma teologia do A.T. é penetrar nas várias teologias de cada livro e grupos de escritos chegando à unidade dinâmica que liga todas as teologias e temas.
Por fim, de acordo com Hasel, a teologia cristã entende que a teologia do A.T. faz parte de um todo maior.

Método Misto
Como vimos acima, cada um dos métodos possui algum ponto positivo. A combinação dos pontos positivos e o uso do texto bíblico como guia, com pressupostos claros, pode eliminar várias de suas dificuldades. É por ai que vamos trabalhar o nosso esboço bíblico teológico. Osborne propõe alguns critérios para se chegar a uma proposta integradora que devemos ter em mente.  Acrescento alguns pontos à proposta de Osborne e modifico outros abaixo:
1. Os dados na construção teológica devem refletir o pensamento individual de um autor assim como o gênero literário que é utilizado (sabedoria, o pensamento de Marcos, ou Mateus, ou Rute).
2. Devemos trabalhar com a forma canônica final dos documentos (para evitar a reconstrução especulativa) e buscar o inter-relacionamento dos temas teológicos entre autores e livros da Bíblia.
3. Começar com o pensamento das obras e autores individualmente e depois traçar os temas, à medida, em que eles emergem naturalmente desses escritos e depois verificar os aspectos de unidade.
4. Descobrir os temas individuais e depois a sua unidade dinâmica e os aspectos múltiplos que os unem.
5. Trabalhar com o pressuposto de que os autores individuais conheciam, em certa medida, o pensamento de autores anteriores a eles, assim como aspectos do pensamento de seus contemporâneos.
6. Trabalhar com ambos os testamentos, enfatizando tanto a sua unidade como a diversidade.

Dessa forma estaremos aplicando os pontos positivos dos métodos acima. Aceitando como verdadeiras as perspectivas dos autores bíblicos (método confessional), procurando porém, não deixar de lado a abordagem descritiva, que considera de maneira relevante o aspecto histórico e o desenvolvimento da revelação na história.
Existem outros métodos que apenas citaremos para conhecimento, mas não os consideraremos em nosso estudo, com a exceção do método indutivo.

1.      Método Dedutivo – Este método deduz o sistema de princípios filosóficos aceitos a priori. Isto é, leva-se o sistema teológico a se acomodar a princípios filosóficos previamente aceitos. Por exemplo, se o teólogo aceita o deísmo, o panteísmo, o evolucionismo, como princípios filosóficos, certamente os temas teológicos estudados, por ele, sofreram influências perigosíssimas. Esta é a razão de termos na história da Teologia teologias diversas que se afastaram da ortodoxia cristã.
2.      Método Místico – Alguns têm afirmado ter recebido revelações especiais de Deus, independentes das Escrituras, e com base nessas revelações têm elaborado suas teologias. Ex. Ellen G. White (Adventistas), etc.
3.      Método Indutivo – Este é o método da ciência natural, a saber, a coleção de fatos, a sua classificação e o estuda das leis que os regem. Este é o principal método da Teologia, como o é em toda a ciência. As doutrinas devem ser fundamentadas na Bíblia, mediante o estudo natural e objetivo dos fatos narrados nos textos bíblicos. É possível entender as verdades divinas através do estudo da bíblia com critérios de método científico, empregando raciocínio e recebendo ajuda do Espírito Santo.

Quando aplicarmos o método misto, já mencionado acima, estaremos aplicando o método indutivo também.

A questão do Dispensacionalismo
O dispensacionalismo é uma forma de esboço bíblico teológico que merece uma pequena descrição por ser o método mais popular de interpretação das Escrituras. Sugiro a leitura do capítulo  "Alianças ou Dispensações: Qual destas estrutura a Bíblia?" de Palmer O. Robertson, O Cristo dos Pactos (Campinas: LPC, 1997).
A interpretação dispensacionalista é oposta à interpretação pactual. A literatura que popularizou o dispensacionalismo na sua forma mais básica foi a Bíblia Anotada de Scofield (1910) e a literatura  dispensacionalista é representada hoje por autores como Ryrie e Dwight Pentecost, John McArthur, Charles Swindoll; o Seminário de Dallas é certamente o maior centro de divulgação desta teologia. É certo que a interpretação dispensacionalista moderna difere em muito da antiga interpretação de Scofield. É importante observar que dispensacionalistas, ainda que em oposição à teologia Reformada pactual, são grandes aliados contra o liberalismo, modernismo e neo-ortodoxia.
O dispensacionalismo básico divide a história da salvação em sete dispensações (períodos), começando com a dispensação da inocência. Mais recentemente já se fala em aliança edênica. Veja o quadro abaixo.
A divisão da história da redenção conforme o pensamento dispensacionalista clássico
Inocência
Consiência
Governo Humano
Promessa
 Lei
Graça
Plenitude dos Tempos

Um dos resultados mais problemáticos, e mais visível, dessa forma de interpretação é a distinção entre dois propósitos de Deus através da história. No dispensacionalismo não se vê uma unidade de propósito no plano de Deus. Não se pode afirmar simplesmente que Deus trabalha para redimir um povo para si mesmo. Segundo o dispensacionalismo Deus tem um propósito para o Israel étnico e outro para a igreja! São dois propósitos distintos. 
Robertson faz uma boa comparação do sistema dispensacionalista com o pactual.

A Questão Pactual
No sistema pactual afirmamos que a história da redenção é contínua e que a vinda do Messias é o cumprimento da promessa feita por Deus a Adão e Eva em Gênesis 3, no que chamamos de o proto-evangelho. O propósito de Deus na redenção é único: redimir um povo para si, sem a distinção entre Israel e a Igreja. A igreja é o verdadeiro Israel de Deus e Jesus Cristo, o Rei da aliança davídica, é o mesmo Rei e Senhor da Igreja. A Confissão de Fé de Westminster fala de duas dispensações, referindo-se à forma de administração do pacto da graça no período do AT e NT. Para maior esclarecimento dessa relação, faça a leitura obrigatória, "Lei e Graça" nas referências.
O esquema abaixo esboça a idéia do progresso da revelação de Deus dentro do princípio pactual. A idéia abaixo não é de nos dar um "molde" para ler as Escrituras, mas é a reflexão do que cremos ser a estrutura da revelação conforme a encontramos nas Escrituras.
Note os seguintes aspectos:
1)      O reino cósmico de Deus é o palco em que toda a criação está incluída (representado pela linha tracejada).
2)      Deus se revelou no tempo da criação, e enquanto o fez, ele pactuou com Adão e Eva (o pacto da criação é representado pelas linhas escuras dentro das quais os períodos pactuais aconteceram).
3)      Nove períodos pactuais, durante os quais foi dada cada vez mais revelação, seguiram-se um ao outro. Cada um pressupõe a presença e atuação continuada dos precedentes.
4)      A revelação dada no primeiro não é anulada; ela é expandida e explicada.
5)      O pacto é o meio administrativo que passa pelo centro.
6)      No âmago do pacto está o mediador (entre as duas linhas centrais).
7)      Quando Deus garantiu a Noé que seu pacto seria mantido, ele falou do pacto da criação, com o pacto redentor sustentando-o e desenvolvendo-o.




  

Bibliografia principal:
CRABTREE, A. R. Teologia do Velho Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1991.
GRONINGEN, G. Van. Revelação Messiânica do Velho Testamento. Campinas: LPC, 1995.
ROBERTSON, O. Palmer. O Cristo dos Pactos. Campinas: LPC, 1997.
SEVERA, Zacarias Aguiar. Manual de Teologia Sistemática. Curitiba: Editora Santos, 2008.
SMITH, Ralph L. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2001.
STRONG, Augustus H. Teologia Sistemática – volume 1. Ed. Teológica Ltda., 2002.
MEISTER, Mauro Fernando. Apostila (www...)


[1] Gerhard Hasel – Recent Critical Old Testament Theology Methods 

[1] No estágio atual de seu desenvolvimento, o método histórico-crítico percorre as seguintes etapas:
A crítica textual, praticada há muito mais tempo, abre a série das operações científicas. Baseando-se no testemunho dos mais antigos e melhores manuscritos, assim como dos papiros, das traduções antigas e da patrística, ela procura, segundo regras determinadas, estabelecer um texto bíblico que seja tão próximo quanto possível ao texto original.
O texto é em seguida submetido a uma análise lingüística (morfologia e sintaxe) e semântica, que utiliza os conhecimentos obtidos graças aos estudos de filologia histórica.
A crítica literária esforça-se então em discernir o início e o fim das unidades textuais, grandes e pequenas, e em verificar a coerência interna dos textos. A existência de repetições, de divergências inconciliáveis e de outros indícios, manifesta o caráter compósito de certos textos.
Estes então são divididos em pequenas unidades, das quais estuda-se a dependência possível a diversas fontes.
A crítica dos gêneros procura determinar os gêneros literários, ambiente de origem, traços específicos e evolução desses textos.
A crítica das tradições situa os textos em correntes de tradição, das quais ela procura determinar a evolução no decorrer da história.
Enfim, a crítica da redação estuda as modificações que os textos sofreram antes de terem um estado final fixado, esforçando-se em discernir as orientações que lhes são próprias.
Enquanto as etapas precedentes procuraram explicar o texto pela sua gênese, em uma perspectiva diacrônica, esta última etapa termina com um estudo sincrônico: explica-se aqui o texto em si, graças às relações mútuas de seus diversos elementos e considerando-o sob seu aspecto de mensagem comunicada pelo autor a seus contemporâneos. A função pragmática do texto pode então ser levada em consideração.
[2] A crítica literária identificou-se muito tempo com um esforço para discernir diversas fontes nos textos.
É assim que se desenvolveu, no século XIX, a hipótese dos “documentos”, que procura explicar a redação do Pentatêuco.
Quatro documentos, em parte paralelos entre si, mas provenientes de épocas diferentes, teriam sido incorporados: o yahvista (J), o elohista (E), o deuteronomista (D) e o sacerdotal (P: do alemão “Priester”); é deste último que o redator final teria se servido para estruturar o conjunto.
De maneira análoga, para explicar ao mesmo tempo as convergências e as divergências constatadas entre os três Evangelhos sinóticos, recorreram à hipótese das duas “fontes”, segundo a qual os Evangelhos de Mateus e o de Lucas teriam sido compostos a partir de duas fontes principais: o Evangelho de Marcos de um lado e, de outro lado, uma compilação das palavras de Jesus (chamada Q, do alemão “Quelle”, “fonte”).
Essencialmente estas duas hipóteses são ainda aceitas atualmente na exegese científica, mas elas são objeto de contestações.


[i] O DILEMA DO MÉTODO HISTÓRICO-CRÍTICO NA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA – Augustus Nicodemus Lopes*
RESUMO: O ponto central deste artigo é que o método histórico-crítico de interpretação da Bíblia vive hoje um dilema causado pelo amadurecimento dos princípios que adotou por ocasião de seu nascimento, há cerca de 250 anos, como filho legítimo do Iluminismo e do racionalismo. Apesar do ufanismo com que o método foi saudado no início e ainda hoje é defendido por seus adeptos, ele não é, de fato, um método “científico” e desprovido de preconceitos de ordem ideológica e teológica. Na verdade, ele surgiu para fazer a separação entre Palavra de Deus e Escritura, proposta por J. Solomo Semler, uma distinção que é eminentemente teológica e que determinou o objetivo do método e seu funcionamento. O método histórico-crítico deu origem a diversas críticas, como a das fontes, da forma e da redação. O dilema em que o método hoje se encontra é devido a diversos fatores, apontados por estudiosos alemães como Gerhard Maier, Eta Linneman e Peter Stuhlmacher. O método histórico-crítico assumiu desde o início pressupostos dogmáticos que refletem rejeição da autoridade e infalibilidade das Escrituras. Ele também estabeleceu um alvo que é impossível de ser alcançado, ou seja, separar o cânon normativo do cânon formal, estabelecendo exegeticamente a distinção entre Palavra de Deus e Escritura. A verdade é que o cânon bíblico não pode ser dividido entre normativo e formal. O método histórico-crítico, por sua própria natureza, abriu uma enorme brecha entre a academia e a Igreja, não somente pela escassez de resultados e pela evidente desarmonia entre eles, como também por impedir o acesso da Igreja ao conhecimento das Escrituras. Por fim, o método histórico-crítico esquece que a razão natural é incapaz de reagir adequadamente à revelação divina. O artigo termina com a defesa de um método de interpretação historicamente associado ao método gramático-histórico de interpretação, adotado, usado e defendido pelos reformadores, que tenha como pressuposto a inspiração e veracidade das Escrituras e a unidade do cânon formal, e que procura estar sensível aos estudos modernos de ciências correlatas que podem trazer algum auxílio à interpretação do texto bíblico.

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