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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

REFLEXÃO 171 - A DITADURA DOS TOLERANTES

A ditadura dos tolerantes


Há algum tempo recebi o convite para participar de um programa de debates, recém iniciado pela MTV onde abordariam a questão do homossexualismo. Aceitei o convite com certa hesitação. Minha paixão pela polêmica, porém, me impediu de dizer não. Nos bastidores, antes de ir ao ar, percebi que seria minoria mais uma vez (embora seja pentecostal e corintiano). Sentei-me à mesa, rodeado por um “drag queen” e uma ativa militante do movimento lésbico. Mal o programa começou e já se percebia claramente que ele visava uma apologia do homossexualismo (ou homossexualidade, como querem os politicamente corretos). Cada um dos mais de quinze painelistas se revezava em defender a prática homossexual como uma questão de preferência e não de ética. Finalmente, a apresentadora do programa perguntou minha opinião.

Pausadamente, procurando me esquivar da pecha de fundamentalista e homofóbico, expus o que penso ser um consenso do pensamento evangélico: “Cremos em um Deus criador e preservador de todo o universo. Ele, além de possuir pessoalidade, preocupa-se com a felicidade de toda a sua criação. Dele provém uma lei moral que fornece os parâmetros do comportamento humano e por ser exterior a nós, não se molda às nossas preferências.” “De acordo com essa lei moral,” continuei com o mesmo tom de voz, “nós evangélicos, entendemos o homossexualismo como um pecado, uma perversão moral.” Bastaram essas palavras. O tempo fechou. Quase todos ao redor da mesa falavam, cada qual subindo um pouco seu tom de voz. Alguns, quase que descontrolados, proferiam palavrões. Sarcasticamente, confesso, perguntei: “Afinal de contas esse espaço não é plural? Por que não posso manifestar meu ponto de vista, assim como os senhores expõem os seus? Se vocês pregam a tolerância, porque tanta intolerância ao meu ponto de vista?” Meu sarcasmo não deu resultado. Cada vez que tentava falar, me abafavam aos gritos. 

A modernidade sempre se gabou de respeitar os diferentes. Voltaire, arauto do Iluminismo, dizia: “Devemos tolerar-nos mutuamente, porque somos todos fracos, inconseqüentes, sujeitos à mutabilidade, ao erro. Um caniço vergado pelo vento sobre a lama porventura dirá ao caniço vizinho, vergado em sentido contrário: ‘Rasteja a meu modo, miserável, ou farei um requerimento para que te arranquem e te queimem’?” Por que mesmo anunciando o respeito à opinião do outro, a Modernidade patrocinou a Revolução Francesa? Por que o estado marxista promoveu o expurgo de Stalin? Por que na Alemanha, berço dos maiores filósofos e teólogos, aconteceu o Holocausto? Se a modernidade é tão tolerante com o diferente, por que tanta intolerância? 

Entendamos um pouco da Modernidade. Primeiro, ela valorizava o método. A tolerância para com a razão, para a prova “irrefutável”, tornou-se desnecessária. Sponville afirma: “Quando a verdade é conhecida com certeza, a tolerância não tem objeto.” Ele e todos os filósofos da modernidade crêem que os cientistas necessitam não de tolerância, mas de liberdade. Os fatos, provenientes da observação empírica, impõem-se. Refutá-los é negar a razão. Como a ciência não depende de opiniões, ela não necessita de tolerância, mas de respeito. Depois, a Modernidade também é naturalista. Só trabalha com um sistema fechado em que matéria, energia, tempo e chance são as únicas variáveis consideradas. Portanto, verdade deve ficar contida nesses elementos. Como filosofar, é pensar sem provas, e provar faz parte do paradigma da Modernidade, a filosofia (também a teologia) é tolerada desde que obedeça as regras da abordagem científica e naturalista. Nesse sistema, somente os céticos ao transcendente como Hume e Bultmann recebem qualquer reconhecimento. O resto é descartado como irrelevante. Terceiro, a Modernidade é universalista. Aceita que seus achados transcendem ao tempo e ao espaço. Devido a essa visão é que a modernidade, de acordo com D. A Carlson, adotou a dialética Marxista da história, a teoria Hegeliana do espírito universal, a visão pós-Iluminista do progresso e a teologia liberal que aceita como factível apenas o que é julgado racional e “científico”. Aqueles que se recusarem à ditadura da Modernidade, são imediatamente rotulados: medievais, supersticiosos, reacionários. A tolerância da Modernidade se restringe aos limites impostos por ela; quem fugir deles percebe rapidamente sua intransigência. Mas, voltemos ao programa da MTV. 

Por que tanta intolerância à ética judeu-cristã? Por que tanto incômodo à cosmovisão religiosa? O problema reside nos pressupostos transcendentais. O cristianismo baseia-se na revelação de uma lei moral, outorgada por um Deus que não pode ser definido como parte de minha humanidade (humanismo), reduzido a uma energia (naturalismo) ou mera projeção mítica (neurose freudiana). A premissa cristã que propõe a revelação do transcendente como um valor epistemológico, bate de frente com a modernidade. O cristão sabe que sabe por revelação. Pedro já asseverava no primeiro século: “Porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.20). Na Modernidade, a verdade religiosa não é factível, é questão de opinião. Nunca ninguém está absolutamente certo sobre os assuntos espirituais. Portanto, religião não pode participar do debate público; deve manter-se reduzida à arena dos juízos; não é demonstrável nem refutável. 

A revelação da lei moral de Deus, caso aceita, obrigaria as pessoas a obedecê-la, acabando com a noção de preferência. A Modernidade propõe que a lei moral seja uma construção humana, restrita à cultura e ao tempo de sua elaboração; caso aceitasse que provém de Deus, reconheceria que todos, em todas as épocas, deveriam obedecê-la. 

Sponville diz que uma ditadura imposta pela força é um despotismo; se ela se impõe pela ideologia, um totalitarismo. O problema da Modernidade é que, mesmo sem querer, vem se tornando cada dia mais déspota e totalitária. Não somente rechaça os valores da ética cristã, como tenta forçar seus pressupostos como únicas opções válidas, por serem cientificamente irrefutáveis. O homossexualismo, por exemplo, é hoje discutido como uma questão de mutação do código genético, descartando a moral. Os militantes gays conseguiram manter o debate no nível “científico”. Nessa esfera, basta provar uma alteração nos genes e está tudo resolvido: O homossexual foi programado, na evolução, para agir daquele modo e não há como interferir em suas “preferências”. Mas o pleito homossexual é pequeno diante das implicações dessa forma de intolerância. 

Carlson propõe em seu livro The Gagging of God (O Amordaçar de Deus) que experimentamos uma nova espécie de intolerância. Em sociedades relativamente livres e abertas, a tolerância mais nobre é aquela exercitada para com as pessoas, mesmo quando se discorda de seus pontos de vista. “Essa robusta tolerância para com as pessoas, mesmo quando há forte desacordo às suas idéias, gera uma medida de civilidade no debate público, mesmo quando a discussão é apaixonada.” Para Carlson, o ocidente vive uma tolerância de idéias, não mais de pessoas. 

O resultado de se adotar esse novo tipo de tolerância é que há menos discussão dos méritos de idéias conflitantes, e menor civilidade. Há menos discussão porque a tolerância de idéias diversas, exige que evitemos criticar as pessoas por adotarem aquelas idéias. Assim, a Modernidade vai admitindo excentricidades, loucuras, e comportamentos bizarros. Ninguém tem o direito de dizer nada sobre o comportamento de ninguém. Só há problema quando qualquer idéia tenta provar sua superioridade sobre qualquer outra. Imediatamente, o mundo cai. Exclusividade é intolerável na modernidade, principalmente no campo religioso. A palavra proselitismo (na sua concepção técnica) virou palavrão. Cada um na sua. Desde que você não se intrometa com o meu estilo de vida. Ninguém precisa mudar, pois todas as opções religiosas, morais, éticas, filosóficas são válidas, não porque sejam verdadeiras, mas porque todas são igualmente questionáveis. Voltaire dizia: “O que é tolerância? É o apanágio da humanidade. Somos todos feitos de fraquezas e erros; perdoemo-nos reciprocamente nossas tolices (grifo meu), é esta a primeira lei da natureza.”

O resultado disso tudo é um mundo cada vez mais inconseqüente quanto à sua ética, cada vez mais secularizado e cada vez mais intolerante para com a fé cristã, que continua com um discurso exclusivista e proselitista. 

Saí do programa da MTV dizendo para mim mesmo. “Incrível como os liberais são fundamentalistas na defesa do seus posicionamentos. Intolerantes! Não aceitam, que seus pontos de vista sejam questionados por outros que pensam diferentemente. Talvez tenham medo de estar errados. ”

AUTOR DESCONHECIDO

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