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By Ferramentas Blog

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

ESTUDOS 31 - A EDUCAÇÃO TEOLÓGICA E SEUS PROBLEMAS

A Educação Teológica e Seus Problemas
Embora tenhamos comemorado os 140 anos da chegada de Kalley ao Brasil em agosto passado, ainda vai demorar para comemorarmos os 100 anos da Educação Teológica Congregacional.

1. OS PRIMÓRDIOS
A história revela que sempre houve e há um certo desinteresse pela educação teológica confessional. Provavelmente, uma das razões é que não nascemos uma denominação. Mesmo quando ela surgiu, em 1913, veio com um nome estranho: "União das Egrejas Evangélicas Indenominacionais do Brasil e Portugal". O que as unia era, simplesmente, os Vinte e Oito Artigos da Breve Exposição das Doutrinais Fundamentais do Cristianismo, os artigos de fé assinados por Kalley e os oficiais da Igreja Evangélica Fluminense, em julho de 1876. Era o início de uma denominação com um nome que era um contra-senso. Imagine alguém perguntando: "você é de que denominação?" E a resposta: "Somos da denominação Indenominacional." Alguém afirma que as coisas tomaram esse rumo por conta do medo da identificação com os congregacionalistas americanos, que eram liberais. Àquela altura, na Segunda década do século XX, o Evangelho Social de Walter Rauschenbush já dominava o cenário teológico norte-americano e os fundamentalistas já haviam lançado seus manifestos intitulados "The Fundamentals", desde 1907.

Penso que esta não é a questão definitiva. É remota esta preocupação para uma igreja incipiente, no início do século XX. Talvez isto estivesse na mente de João dos Santos, que havia estudado no Colégio de Pastores de Spurgeon e lá conhecera a influência do liberalismo teológico muito antes de seu declínio ante a dialética barthiana. Mas o Dr. Souza, era, ainda jovem, um teólogo competente. Não temos teólogos com aspas. Temos teólogos de fato como Souza e Porto Filho. Ambos conheciam o sistema congregacionalista desde os separatistas ingleses. Conheciam e liam os manuais do congregacionalismo em outras línguas, principalmente o inglês. Souza traduziu parte do A Manual of Congregational Principles" de R. W. Dale, que durante dois anos foram publicados em O Cristão. Este livrinho, editado na Inglaterra em 1884, e provavelmente lido por Kalley, é, depois da Declaração de Savoy, o principal fundamento do sistema doutrinário congregacional. Foi reeditado recentemente na Inglaterra, depois de muitos anos esgotado. Herdei uma cópia do Rev. José Barbosa Ramalho, de 1914, com longos trechos sublinhados, prova de leitura e consulta. Aliás, é bom que se diga que nossos antigos pastores examinavam melhor a Bíblia que nós, porque liam em várias línguas. A necessidade os conduziu à profundidade. Se hoje, no universo editorial protestante no Brasil, a produção de obras clássicas ainda deixa a desejar, o que dizer no início do século? Simplesmente não havia mercado. Daí a importação de manuais de teologia e a necessidade da aprendizagem de uma outra língua. Além do mais, quem lê o grego e o hebraico bíblico leva vantagem na compreensão do texto. Na Alemanha, e nas faculdades européias, ainda hoje se espera que os estudantes de teologia aprendam de cor as doutrinas, de pelo menos um teólogo clássico do período pós-reformado da ortodoxia, sejam eles luteranos ou calvinistas e isto naturalmente em latim, língua em que Porto Filho era mestre e a ensinava em nosso seminário. Há na língua latina aquilo que Tillich chama de "cânon da compensação filosófica e teológica". A precisão lingüística e suas distinções lógicas superam em muito as imprecisões dominantes no pensamento protestante. Não existe língua moderna alguma com este tipo de precisão. Com isto perdeu-se muito da profundidade teológica.

O que temos hoje é mais informação e com isto ficamos andando nas águas rasas da teologia. Joel Leitão que, enquanto escrevo este texto, agoniza nos seus quase 92 anos de idade, consulta a Bíblia em 7 idiomas e, por diletantismo, escrevia em latim para antigos colegas de ministério. Meu próprio pai, no interior do Nordeste, possuía uma pequena biblioteca com vários manuais em inglês, fruto dos seus anos de estudo no antigo Seminário Presbite-riano na Madalena, em Recife, nos idos de 1940. Sei também que esta era a realidade de muitos outros ministros da União e fora dela. Já fui questionado do por quê do inglês em nossos seminários, seja por obreiros ou por seminaristas indolentes.
Creio, após esta longa digressão, que o problema do desinteresse pela Educação Teológica não se deve ao congregacionalismo norte-americano, mas às nossas próprias origens. Por questões históricas, que não me cabe levantar neste artigo, Kalley não se preocupou com o ensino teológico nativo. Isto foi uma questão circunstancial. Ele não era anti-acadêmico. Mas não teve a mesma disposição de seu colega presbiteriano, Simonton, que, chegado em 1859, aos 26 anos de idade, deixou ao morrer, em 1867, vitimado pela febre amarela e sem ter completado 35 anos, o embrião de um seminário no Rio de Janeiro, que seria o primeiro na América Latina.
Nosso primeiro pastor, o Rev. João Manoel Gonçalves dos Santos, terminou seu curso, em Londres, e foi ordenado em 1876. Assim, durante a Segunda metade do século XIX não se desenvolveu a idéia de um seminário congregacional no Brasil. Isto também explica a falta de crescimento. IE Fluminense, 1858; Pernambucana, 1873; Passa Três, 1897; Niterói, 1899.
2. O PROBLEMA DA TEOLOGIA
Há ainda uma outra razão para o descaso histórico com a formação teológica: o problema da frágil confessionalidade gerou a falta de compromisso. Ora, a confissão religiosa não se restringe apenas à forma de governo, embora, no nosso caso, seja o que resta, e o congregacionalismo seja eminentemente uma forma de governo. Mas mesmo isto está ameaçado de desaparecer, se nada for feito. Quando olhamos as diversas confissões de fé do cristianismo, vemos nelas, por meio de credos e documentos, explicações das origens e do caráter de suas origens históricas e teológicas. Mesmo os católicos, que são cristãos, vemos em suas confissões, sua identidade. São semi-pelagianos na doutrina do pecado e da graça, crêem na efetividade dos sacramentos, reconhecem a primazia do bispo de Roma e da importância normativa da tradição eclesiástica. Isto é uma identidade. Os luteranos crêem na justificação pela fé somente (sola fide), na exaltação da Palavra de Deus como principal meio de graça e na afirmação do sacerdócio universal de todos os crentes; os calvinistas marcam sua posição no reconhecimento da depravação total da raça humana, na expiação limitada, na graça irresistível, na dupla eleição e na perseverança dos santos. Além disso, destacam o aspecto do caráter legal da Bíblia e da disciplina da igreja. Os batistas são membros de sua denominação porque são convencidos de que o batismo por imersão é o único justificável; os metodistas são o que são porque temperam certo calvinismo com modificações arminianas. E os congregacionais? Onde estão seus pontos de convergência? O que nos une? A forma de governo? Recentemente li num boletim dominical de uma de nossas igrejas, que a forma de governo congregacional é a causa do nosso atraso no processo evangelizante. Parece que a forma de governo não nos une mais. Não temos manuais de teologia. Não temos catecismos. Desconhecemos os grandes congregacionalistas como P. T. Forsyth, R. W. Dale, Jonathan Edwards e John Owen. O que resta? Levanta-se a exclamação de Jacques Senarclens, no prefácio de sua obra, Herdeiros da Reforma (ASTE, 1970): "Herdeiros da Reforma!" Somos ainda os herdeiros? Manifestamos a mesma fé dos reformadores? O que sabemos sobre isto?
3. A FUNDAÇÃO DO SEMINÁRIO
Foi na Convenção de 1913, no Rio de Janeiro, que o Dr. Souza apresentou as teses referentes à necessidade de criação de um seminário para a União. Em 3 de março de 1914, o seminário iniciou suas atividades. Seu primeiro reitor foi o Rev. Alexander Telford e tendo como professores os Revs. Francisco de Souza, Leonidas da Silva e Pedro Campelo. Os primeiros alunos foram: Jonathas Thomaz de Aquino, Bernardino Cardoso Pereira, Abílio Nogueira e José Barbosa Ramalho. Em Recife, somente em 1927 é que se iniciaria a obra de Educação Teológica denominacional. Coube ao Rev. James Haldane a direção do Educandário, com três alunos: Arthur Pereira de Barros, Elias Alves de Oliveira e Luiz de França.
O antigo Seminário da União funcionou de 1914 a 1921. No período em que esteve fechado, os obreiros eram preparados no antigo Seminário Unido, uma obra cooperativa ente congregacionais, presbiterianos e metodistas. Mas, em 1932 voltaram a ser ministradas as aulas no Seminário Evangélico Congregacional. No Nordeste aconteceu fenômeno semelhante. Com as matrículas reduzidas a três ou quatro alunos, o Instituto fechou suas portas. Os presbiterianos mantinham um seminário com igual número de alunos. Era o Seminário Evangélico do Norte. De 1936 a 1943 funcionou unido, sendo Deão o Rev. William B. Forsyth.
4. A FUNDAÇÃO DO IBP
Em 1945 foi criado, no Rio de Janeiro, o Instituto Bíblico da Pedra – o IBP – que teve como seus primeiros diretores o casal Thomson. Em 1965 foi criado o Seminário Teológico Congregacional do Rio de Janeiro, fruto da união entre IBP e STRJ. Em 1971 foram encerradas as atividades no internato. A partir daí, nos anos de 1970, o Seminário funcionou precariamente, sem sede própria, sem paradeiro certo e somente em regime de externato. Quando eu mesmo fui estudar, no final dos anos setenta, o Seminário já funcionava nas dependências da IE Fluminense e os seminaristas de outros estados eram encaminhados para um velho casarão nos fundos da primeira Igreja Congregacional de Niterói, uma construção apenas no tijolo e sem banheiro, cedido por empréstimo ao STCRJ. Dez anos depois, em 1981, por insistência de uns poucos, o Seminário voltou a funcionar em regime de internato, em Pedra de Guaratiba, cumprindo ali seu papel.No Recife, depois de muita instabilidade, o Seminário passou por uma reformulação nos anos de 1970, quando foi convidado para dirigir aquela instituição o Rev. Nilson Ferreira Braga. Nilson fez um grande trabalho de visitas e contatos com as igrejas e o Seminário progrediu. Cumpre seu papel, atendendo aos vocacionados do Nordeste.
5. OS DESAFIOS DE UM NOVO MILÊNIO
Estamos às vésperas de um novo milênio, tempo adequado para se refletir sobre nossos propósitos quanto a Educação Teológica confessional. Manter esta educação na Denominação é um enorme desafio. O problema é que o espírito do denominacionalismo parece desaparecer do nosso meio. A cada dia surgem novas escolas e em cada esquina, uma nova proposta, com variadas opções de estudo da teologia. É verdade que muitas não são escolas confiáveis, mas quem se preocupa com isso? A ordem é terceirizar. Quero levantar três questões, nesse ponto:
1. Qual o conceito que temos de educação teológica. É a preparação de pessoas para o ministério? É a transmissão de ensino bíblico e teológico? Ou será muito mais que isto, incluindo sua formação de modo integral, preocupação com sua vida, não só de trabalho, mas também suas questões pessoais?
2. Qual o perfil dos obreiros que precisamos? Queremos pastores, missionários, missionários-pastores. Alguns acham que o pastor difere do mestre ou teólogo, por causa de uma interpertação equivocada de Efésios 4:11.
3. Qual a relação ideal entre igrejas e seminário? De que forma as igrejas precisam investir nas instituições teológicas para lhes dar condições de cumprirem sua tarefa? Deus chama o vocacionado de dentro de nossas igrejas. O verbo kaleo (chamar, no grego) aparece mais de duzentas vezes no Novo Testamento. Então, a igreja precisa acompanhar o desempenho do candidato e assumir sua parte no processo de preparação. É bom lembrar que o dom para o ministério (e nenhum outro) é um dom particular. Ninguém recebe um dom para benefício próprio. Ele é dado para benefício da igreja. Eu o recebo para o bem dela (I Co.12:7). Assim, se é dela, só ela pode atestar sua autenticidade. A vocação por si só gera descrédito quanto à formação de obreiros. Um indivíduo pode ir para o seminário por várias razões que não seja a vocação. Pode ir por falta de oportunidade na vida. Pode ir por causa do desemprego. Nesse caso será um desastre. Não há uma vocação. Pode ir por um deslumbramento inicial, por uma paixão, por um namorado ou pela simples pressão de alguém. É aqui que entra a tremenda responsabilidade da igreja de atestar essa vocação. O mesmo Espírito que concede discernimento para alguém pregar é o mesmo que concede discernimento aos crentes para verificar a autenticidade de um chamado. Há quem pense que esta tarefa pertence ao seminário, mas, observe: é a igreja que o irá recomendar; é ela que conhece sua vida e testemunho; que é servida por ele; é ela que pode verificar a veracidade de sua mensagem. Aqui o papel do seminário é secundário. Ele só deve aguardar o aval da Igreja.
Finalmente, a questão financeira. Muitas igrejas não reconhecem que a manutenção de uma pessoa no seminário é um ministério e uma tarefa missionária, como manter um obreiro no campo. A diferença é que, no caso do seminarista, o investimento começou cedo. Uma das falácias que precisamos exorcizar de nosso meio é aquela da igreja rica e da igreja pobre. Não existe isso. Existe igreja com visão e igreja sem visão. A chamada igreja rica pode não manter nem enviar ninguém. A que dizem ser pobre, pode mandar muitos. A visão que temos da obra é que vai determinar nosso procedimento. Então, cabe à igreja: orar com e pelos vocacionados; despertar outros e atestar sua vocação, enviá-los e sustentá-los, enquanto seminaristas, para dar-lhes condições de um bom preparo.
Aqui e em qualquer lugar do mundo, para que o obreiro seja bem preparado, precisa de treinamento, de acompanhamento, de dedicação e estudo concentrado. Precisamos resgatar a seriedade do ensino residencial, e o compromisso com a Confissão onde Deus nos chamou a trabalhar.

AUTOR DESCONHECIDO

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