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By Ferramentas Blog

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

HISTÓRIA DA IGREJA 4 - A IGREJA DEIXA JERUSALÉM


A IGREJA DEIXA JERUSALÉM

Até o momento concentramos nossa atenção sobre a Igreja de Jerusalém. Foi lá que se originou o cristianismo. Mas é também quase exclusivamente dela que fala nossa fonte principal, os Atos, em sua primeira parte. Ora, durante os quinze primeiros anos de sua existência, os cristãos se haviam espalhado muito; Eusébio exagera sem dúvida quando escreve que ainda sob o reinado de Tibério, quer dizer antes de 37, na hora de aparecer Calígula, "ecoava pela terra toda a voz dos evangelistas e Apóstolos" (H. E. 2,3,1). A afirmação é no entanto ao menos tão verdadeira quanto o que nos dizem os Atos. A expansão do cristianismo no mundo judeu fora de Jerusalém mereceu apenas uma indicação por parte deles. Talvez possam certos setores receber hoje nova claridade.
Por outro lado, o estudo da igreja primitiva de Jerusalém nos mostrou a complexidade do ambiente judeu, no qual a Igreja se desenvolve, além das diversidades que tal contexto aí causa. Mencionamos os fariseus, os saduceus, os essênios, os helenistas. Existem ainda os herodianos e os zelotes. Mas Justino nomeia alem deles os "genistas, os meristas, os galileus, os helênios, os batistas". Conhecemos também os samaritanos. Não é fácil identificar todos esses grupos. Representam esses correntes diversas às margens do judaismo oficial. Os samaritanos são uma delas. As seitas batistas jordanianas são outra. Existem personagens mais inquietantes, os "magos", Simão ou Teudas, quer dizer judeus influenciados pelo dualismo iraniano. Reencontraremos o prolongamento destas correntes no cristianismo ortodoxo ou heterodoxo.


Se afinal o cristianismo se desenvolve principalmente e em primeiro lugar no meio judeu da Palestina e da Diáspora, aborda no entanto desde logo os ambientes pagãos. Mas ainda aqui nossos documentos, redigidos em grego e em favor dos gregos, estão sobretudo interessados no desenvolvimento da Igreja no mundo pagão ocidental. Ora, a missão cristã se desenvolveu igualmente no mundo pagão oriental, cuja língua cultural era o aramaico: na Transjordânia, Arábia, Fenícia, Celessíria, Adiabena, Osroena. Precedera-a a missão judia. Helena, rainha dos adiabênios, convertera-se do zoroastrismo para o judaísmo pêlos anos de 30 P.C. O cristianismo "sírio" assumiu importância considerável nos dois primeiros séculos. Os Atos nos apresentam a missão como vinculada em primeiro plano aos helenistas. Houve porém igualmente missão aramaica. Eusébio nos conta que Tomé evangelizou os partas (3,1,2). Todo um ciclo de Tomé, Evangelho de Tomé, Atos de Tomé, Salmos de Tomé constituem o eco desta missão.
Desta complexidade do judeu-cristianismo, que vai dos anos 30 a 45, conseguimos fixar certos elementos. No que concerne a Palestina, a questão da origem da igreja na Galiléia continua sendo um enigma. Os Atos atestam sua existência (9,31). Três fatos merecem análise. E. Lohmeyer propõe que se distinga nas fontes dos Evangelhos uma tradição galiléia, distinta da tradição de Jerusalém que seria assim o eco da catequese galiléia. Em segundo lugar, as inscrições judeu-cristãs arcaicas descobertas em Nazaré atesta evangelização muito antiga. De fato, as relações entre a Galiléia e a Judéia poderiam explicar por que os Atos não fazem menção da primeira. As relações de família de diversos Apóstolos com a Galiléia tornariam improvável que ela não tivesse sido desde logo evangelizada. Sobra-nos uma última questão. Entre as seitas judias, mencionam Justino e Hegesipo os galileus. Os documentos de Wadi Mouraba'at os conhecem igualmente. Tal grupo parece poder identificar-se com os zelotes de Josefo. O movimento zelote fora fundado no ano G P. C. por Judas o galileu.
Estabeleceram os primeiros cristãos contatos com os zelotes? Cullmann supôs que diversos Apóstolos mantivessem tais contatos. Simão, o zelote, em todo caso, saíra deste meio. Aos olhos dos judeus de Jerusalém, saduceus e fariseus, os discípulos de Jesus podiam ter passado por tais. O fato de serem em parte galileus contribuiria para tanto. Gamaliel assimila o movimento que se liga a Jesus ao de Judas o galileu. Os trabalhos de Brandon e de Reicke parecem demonstrar que, se a comunidade cristã não pode prender-se ao movimento, os elementos vindos do zelotismo eram entre eles muito ativos. Tentarão arrastar a comunidade cristã para a revolta contra a dominação romana. Podemos perguntar-nos se este cristianismo zelote não foi o dos colonos e pescadores galileus, que falavam o aramaico e se converteram ao cristianismo, e se o fato de pertencerem a um mundo que deveria desaparecer por completo a partir de 70 não explica o silencio dos escritos do Novo Testamento a respeito deles.
As origens da igreja da Samaria, pelo contrário, mereceram relato nos Atos. Relacionam-nas com a expulsão dos helenistas de Jerusalém em 37. Um dos Sete, Filipe, desce a Samaria (8,4). Como o lembrou com precisão Cullmann, os helenistas teriam sido bem acolhidos pêlos samaritanos, pois com eles compartilhavam a hostilidade contra a teocracia do Templo e o sacerdócio de Jerusalém. O meio samaritano apresentava por outro lado características singulares que parecem ter levado a missão ao malogro. É este sem dúvida o sentido do episódio de Simão. O personagem e apresentado pêlos Atos como praticando a magia, fazendo-se passar pelo "Grande Poder" e exercendo profunda influência (8,9-10). Justino. que também era samaritano, nos fornecerá mais tarde outros pormenores (1 Apol 16,1-3). Mostra-nos ele Simão adorado por quase todos os samaritanos como sendo seu Primeiro Deus; uma mulher, Helena, lhe é associada neste culto, como o Primeiro Pensamento. Ireneu precisa que Simão ensinava a criação do mundo pêlos anjos, o mau governo do mundo pêlos mesmos, e a deposição deles pelo Primeiro Poder (Adv. Haer. 1,23,3).
É difícil extrair destas tradições as doutrinas que remontam ao próprio Simão e a seus discípulos, simonianos ou helenistas. Temos que ver, quem sabe, em Simão o representante dum messianismo samaritano, análogo ao do "profeta", de quem Pilatos cerceou o movimento em 36. Simão por sua vez era discípulo de Dosíteo, que aplicava a si o texto de Deut 18,1 o sobre 0 profeta anunciado por Moisés. Dosíteo e Simão parecem representar uma corrente ascética e escatológica paralela à de Qumrân, com a qual possuem pontos de contato. Misturam-se porém aí elementos mágicos e sincretistas, característicos duma heterodoxia judaica. Tal heterodoxia não se identifica com o gnosticismo. Mas é o meio em que, após 70, aparecera o gnosticismo que será uma reinterpretação no sentido dum dualismo mais radical, elaborado após 0 malogro da expectativa escatológica, como o observou bem Grant, referindo-se a Simão. Neste sentido, Simão é mesmo o pai do gnosticismo, não sendo ele embora um gnóstico.
Ora, Simão recebe o batismo da mão de Filipe (At 8,13) e procura mesmo associar-se ao poder dele pela ação de Pedro (8,18). Ter-se-ia assim tornado uma espécie de Bispo dos samaritanos. Mas Pedro desmascara-lhe a insinceridade e o afasta. Simão terá no entanto seus discípulos. Justino nos diz que eram numerosos. É provável que tenham representado boa parte da comunidade cristã de Samaria. Houve pois aqui muito cedo uma heterodoxia cristã, que apresentou no início um caráter escatológico e em seguida se transformará no gnosticismo. Tal heterodoxia revela desde aquele momento traços sincretistas, característicos do meio samaritano. O dualismo ai se desenvolverá só após o ano 70. De fato, Filipe se fixará em Cesaréia (At 2,8). S. Paulo encontra comunidades ortodoxas na Samaria, no ano de 49 (At 15,3).
Entre os grupos situados a margem do judaismo oficial, temos que assinalar um outro. Em diversas noticias sobre seitas judias, no tempo das origens da Igreja, fala-se de seitas batistas. Hegesipo, ao lado dos essênios, galileus, samaritanos, saduceus, fariseus, de quem já falamos, menciona os masboteus (H. E. 4,22,7). Justino fala de batistas, Epifânio, de sabeus. Sabeus e masboteus são sinônimos para batistas. Este grupo compartilha com os judeus as crenças e as observâncias noáquicas. Seu rito essencial aliás é o banho no Jordão, considerado rio sagrado . O grupo se identifica com populações não judias, ribeirinhas do Jordão, aparentadas aos judeus, mas estrangeiras em relação à comunidade de Israel: são os ancestrais dos mandeus.
Os contatos do cristianismo primitivo com este ambiente são complexos. Por um lado, houve certamente no espirito dos judeus do tempo certa confusão a propósito dos cristãos e destas seitas batistas, pelo fato de o batismo no Jordão ser adotado primeiro por João Batista e em seguida pela Igreja cristã. Mas, como o demonstrou Rudolf, nada há de comum entre sabeus e cristãos, a não ser a importância dada ao Jordão como rio sagrado. Outro dado talvez tenha contribuído para tal confusão. O termo Nazareu, nazoraios, é aplicado a Jesus no Evangelho (Mt 2,23). Ora, a palavra aparece como a mais antiga designação dos mandeus. Aliás em Epifânio, sob a forma nasaraios designa-se uma seita judia. São conhecidas as discussões levantadas em torno da palavra. É certo que significa "observante". Por outro lado designava os batistas. Por uma confusão intencionada pêlos batistas, foi ela aplicada a Cristo e aos cristãos pêlos judeus (At 24,5), exatamente como o termo samaritano. Mas graças ao jogo de palavras tão familiar aos semitas, o termo transformou-se em titulo de glória para os cristãos e foi relacionado com nezer, rebento, que é titulo messiânico.
Continua sendo fato curioso existir uma seita cristã de nazareus e que ela se encontre precisamente na Transjordânia. Epifânio lhe consagra uma notícia. São cristãos judaizantes. O centro deles se encontra em Pela na Gaulanítida. Possuímos fragmentos de um Evangelho dos nazareus, escrito em aramaico e lido por São Jerônimo na Transjordânia. Epifânio identifica-os com os judeu-cristãos expulsos da Palestina após 70. Mas é provável que tais judeu-cristãos se tenham filiado a uma comunidade já existente. A comunidade porém trazia o nome de nazareus, que partilhava com os demais grupos transjordânicos, sendo termo genérico para as seitas batistas desta região. Apresentava outros traços ainda. A arqueologia nos revelou a importância na Transjordânia de santuários consagrados aos santos não-judeus Lot, Jó e Melquisedec. É alias o meio em que surgirá o ebionismo, hostil aos sacrifícios, praticando o uso freqüente dos banhos de purificação, ligado aos preceitos noáquicos.
Afinal é isso: sem deixar a Palestina, a missão cristã iria topar um último meio, prestes a pô-la em presença de novos problemas era o paganismo greco-romano. A Palestina compreendia efetivamente cidades gregas, habitadas principalmente por pagãos. Situavam-se elas em sua maioria à borda do Mediterrâneo. Ora, os Atos nos ensinam que o apostolado dos helenistas se estendeu também a tal região. Filipe aparece em Cesaréia e em Jope. Perto de Gaza, batiza ele um prosélito judeu de origem etíope (8,27). Convém notar que nestes diversos setores, em Samaria primeiro, depois em Cesaréia, Gaza e Jope, Pedro segue a Filipe. Fato que parece pôr em evidência o papel de controle sobre o conjunto da Igreja de que os doze se consideram encarregados. O caráter universal da missão de que foram investidos toca em particular a Pedro. Assim se confirma o papel de árbitros que os Doze pareciam desempenhar em Jerusalém.
A evangelização do litoral ia pôr a comunidade cristã em contato com o ambiente pagão, grego ou romano. Os Atos referem-nos o caso do centurião Cornélio, da coorte itálica ( 10,1 ). É interessante, por revelar-nos até que ponto os Apóstolos se sentiam incorporados na comunidade religiosa judia. O texto observa realmente que é ilícito a um judeu ter contato com um estrangeiro (10,28). Apesar disso, declara Pedro que não se lhe pode recusar o batismo. Assim desde o inicio reconheceram os Apóstolos que a comunidade cristã estava aberta aos pagãos. Veremos quais os problemas que dai surgirão em breve, uma vez que os judeu-cristãos continuavam a sentir-se ligados às observâncias judaicas.
O balanço final dos primeiros desenvolvimentos da Igreja na Palestina, fora de Jerusalém, continua apesar de tudo muito magro. Parece que a Galiléia, a Samaria e a Transjordânia se transformaram em centros de grupos dissidentes, simonianos, zelotes ou ebionitas, todos eles reflexos de formas marginais do judaismo. E esta sensibilidade para a heterodoxia judaica ainda é uma das formas da estreita dependência do cristianismo primitivo em relação ao mundo judeu. Na realidade, foi a Síria que se formou o grande foco de irradiação do cristianismo, durante os primeiros quinze anos O primeiro centro cristão, depois de Jerusalém, foi Antioquia. Mas o fato de Antioquia ter sido posta em tanta evidência pêlos Atos dos Apóstolos, explica-se por pertencer ela ao mundo helenístico e não ao aramaico. Existe, é verdade, uma Síria aramaica, na Fenícia com Damasco, na Osroena com Edessa, Síria que desempenha papel importante, embora os documentos canônicos apenas a mencionem. Também aqui deveremos tentar restabelecer as perspectivas.
O primeiro centro que encontramos e Damasco. Os Atos nos fornecem duas indicações. Quando Saulo se converteu, no ano de 38, já existia uma comunidade cristã em Damasco, uma vez que para lá se dirigiu com o fito de efetuar prisões. Por outro lado, os Atos 11, 1 9 relacionam a evangelização da Fenícia, de que faz parte Damasco, com. os helenistas expulsos de Jerusalém. A primeira comunidade de Damasco constituiu-se pois em 37. Os cristãos de Damasco são judeus; em caso contrario, a jurisdição sobre eles não caberia ao sumo-sacerdote de Jerusalém. Insiste-se aliás que a palavra foi anunciada unicamente aos judeus (11,19). Os cristãos são chamados "os homens deste caminho", o que equivale a uma designação propriamente judaica para uma seita. Precisa-se ainda mais que São Paulo prega, após a conversão, nas sinagogas (9,20). Um dos cristãos de Damasco, Ananias, é nomeado (9,10): homem piedoso, "segundo a Lei", e estimado pêlos judeus (At 22,12).
Poderemos precisar ainda mais o que venha a ser a comunidade de Damasco? Conviria anotar desde já que ela foi fundada pêlos helenistas. A perseguição, de que São Paulo e instrumento, visa os helenistas. Enquanto os cristãos de Damasco são helenistas é que Paulo irá prendê-los. Aí está uma primeira indicação. Em parte ao menos a comunidade de Damasco se compunha de helenistas. Ainda um segundo elemento: Possuímos, como é notório, a regra da comunidade judia aparentada com a de Qumrân e que se fixara em Damasco. Ora, verificaram-se certos traços semelhantes entre a primeira comunidade cristã de Damasco e a tal comunidade sadocita. O discurso de Santo Estêvão, que representa a teologia dos helenistas, cita um verso de Amós 5,25-27, verso que se reencontra no Documento de Damasco (essênio) (9,2). A catequese que Ananias propõe a São Paulo e que aparece reproduzida nos Atos, 22,13-15, sugere contatos impressionantes com os temas do Documento sadocita. É pois possível que a primeira comunidade de Damasco tenha sido constituída em parte por sadocitas convertidos.
Não que Damasco fosse o principal centro da comunidade sadocita. O Documento sadocita fala do pais de Damasco (8,21; 20,12), o que parece mais conforme com os usos da seita, que pelas informações de Filo não se fixava nas cidades, mas nas aldeias. Já se pensou em precisar que se trate de Kokba, 15 quilômetros ao sudoeste de Damasco. Ora parece que judeus-cristãos se encontram já em época muito remota, em Kokba. Harnack lembra uma tradição que fixa Kokba, como lugar da conversão de São Paulo. As distâncias tornam possível o fato. Mas podemos entrever ai também a sobrevivência de uma relação entre Paulo e Kokba, que contaria com outra origem: conta-se que, fugindo de Damasco, Paulo se refugiou na Arábia (Gál 1,17). Ora, Arábia designa nesta época o reino nabateu, que se estende de Damasco a Petra. Possível, que a aldeia da Arábia para a qual se tenha retirado Paulo seja Kokba. Notemos para tanto que os Atos (9,23) não supõem que Paulo tenha deixado a região de Damasco.
Explicar-se-iam assim os traços sadocitas que lhe perpassam o pensamento. A breve catequese de Ananias antes do batismo não bastaria para justificá-los. Paulo é fariseu e assim, no momento da conversão, estranho ao essenismo. Tudo se explica no entanto se Paulo passou os três anos, que medeiam entre a conversão e a viagem. a Jerusalém (38-41), no ambiente de sadocitas convertidos. Acrescentemos ainda, declara o próprio São Paulo, que após a estadia na Arábia, voltou a Damasco (Gál 1,17). Não se havia pois afastado da cidade. Somos assim levados a supor, em Damasco e em Kokba, a existência de uma comunidade cristã, vinda do essenismo. O ambiente se transformou sem dúvida no foco principal do cristianismo essenizante. A ele relacionaríamos de bom grado os Testamentos dos XII Patriarcas, obra dum sadocita convertido ao cristianismo. O trabalho apresenta contatos notáveis com o Documento sadocita. Foi objeto de novos arranjos. Mas a primeira redação pode ter sido muito arcaica.
O segundo centro - e o principal - da expansão da Igreja na Síria é Antioquia. Cidade, politicamente importantíssima. Além de capital da Província do Oriente, constituía ainda um foco de cultura grega. Sua população na maioria síria, dava-se ares de cosmopolita; com muitos gregos e judeus em seu meio. A evangelização remonta, como a de Damasco, a vinda dos helenistas em 37. É promovida primeiro entre os judeus. Os Atos no entanto precisam que determinados elementos dentre os helenistas, gente de Chipre e de Cirene, provenientes de Jerusalém mas de língua grega, se dirigiram também aos gregos, quer dizer aos pagãos ( 11,20). Converteu-se grande número. Antioquia aparece assim como o primeiro centro de uma comunidade importante de pagãos feitos cristãos Em 42, diante do desenvolvimento da comunidade, os Apóstolos enviam-lhes Barnabé. O episódio se apresenta como um paralelo à missão de Pedro na Samaria. Atesta a vontade dos Apóstolos de assegurarem a unidade das comunidades sob a sua direção colegiada.
Foi em Antioquia que pela vez primeira se atribuiu o nome de "cristãos" aos membros da comunidade (11,26). Como o notou bem E. Peterson, o termo encerra ressonância política. Desigua os "partidários de Chrestos". Familiariza-nos com a idéia que se formavam os meios romanos a respeito da comunidade cristã, como seita messiânica. É o paralelo exato com a primeira menção que fará do cristianismo um escritor latino pagão: "Judaei impulsore Chresto tumultuantes", dirá Suetônio. O fato de o grupo dos cristãos recebe uma alcunha oficial atesta que a comunidade apresentava assaz grande consistência para fazer sua aparição no nível da vida oficial. Assim tal designação passa a ser o primeiro sinal da existência da Igreja aos olhos do mundo romano. Poderíamos anotar ainda que a qualificação foi dada aos cristãos de Antioquia, segundo o autor dos Atos, sob o reinado de Cláudio (41-54), ou mais precisamente no começo do reinado. Será igualmente sob Cláudio, que Suetônio fará menção dos cristãos.
Sobre a comunidade local de Antioquia os Atos de nada mais nos informam. Interessam-se apenas por Antioquia, como ponto de partida da missão na Ásia. A Epístola aos Gálatas nos permite porém deslindar-lhe mais um traço. Afirmamos que a igreja de Antioquia foi a primeira a apresentar uma comunidade importante de cristãos, convertidos do paganismo. Mas Gálatas 2,12 nos revela a existência paralela de uma comunidade de judeu-cristãos. Antioquia era a primeira cidade em que tal justaposição se produzia. Na Epístola aos Gálatas transparece claramente que as duas comunidades estavam separadas. Convertidos ao cristianismo, os judeus continuavam submissos às observâncias e em particular a interdição de comerem com os não-judeus, quer dizer também com os pagãos convertidos. Como a eucaristia tinha lugar por ocasião de uma refeição, era impossível aos judeu-cristãos e aos pagano-cristãos celebrarem-na juntos. Veremos adiante o problema com que se enfrenta então São Pedro. Devia ele, como judeu, partilhar da eucaristia com os pagano-cristãos? Ou, como Apóstolo, devia manter-se acima de tais divisões e assistir a uma e a outra?
Assim Antioquia se transformou muito cedo, em oposição a Jerusalém, num centro de expansão do cristianismo por sobre o meio helenístico pagão. É a partir daí que a obra missionária garantira sua continuidade. É igualmente a Antioquia que se prendem alguns dos documentos mais antigos do cristianismo e que apresentam traços comuns. O Evangelho segundo Mateus, embora a redação definitiva se tenha dado mais tarde, parece transmitir o eco exato da catequese no meio antioqueno. O lugar que aí ocupa S. Pedro leva a concluir neste sentido. Situa-se num meio em que as relações entre a comunidade judia e a comunidade pagã são intensas. 0 mesmo se diga da Didaquê. A origem síria é muito provável. Apresenta em sua parte catequética uma tradição paralela àquela que encontra ressonância em Mateus. As alusões aos profetas nos põem num contexto achegado àquele que já nos é conhecido pela descrição dos Atos em Antioquia. Em sua parte litúrgica, ouvimos o eco da liturgia antioquena primitiva.
Devemos unir à evangelização de Antioquia também a das regiões vizinhas. Na Epistola aos Gálatas, São Paulo nos conta que prega na Síria e na Cilícia, sem duvida em 43-44, ano que passa em Antioquia com Barnabé. A evangelização de Chipre é mais antiga. Os Atos (11,19) nos dizem que os helenistas ai chegaram, depois de 37, ao mesmo tempo que para Antioquia. Quando Paulo e Barnabé para lá se dirigirem em 45, encontrarão comunidades constituídas. Em Chipre se encontrará Paulo com o procônsul Sérgio Paulo que conhecemos através de uma inscrição. Achava-se ele sob a influência de um profeta e mago judeu, Barjesus. Eis o primeiro testemunho da concorrência entre o proselitismo judeu e o apostolado cristão, sobre a qual M. Simon chamou em hora boa a atenção. Em Antioquia da Pisídia veremos, um pouco mais tarde, os judeus ciosos das conversões operadas por Paulo e operosos em levantar contra ele os prosélitos (At 13,50).
É um fato, que temos as melhores informações sobre a evangelização das regiões chamadas da Ásia, Macedônia e Acaia. Dois homens desempenharam aqui um papel decisivo: Paulo e Barnabé. Voltemos a falar sobre o primeiro. É o personagem do cristianismo apostólico que melhor conhecemos, graças aos Atos, escritos aliás por um de seus companheiros, e graças as suas próprias Epístolas. Perseguidor dos helenistas em 36, convertido em 38, passou três anos em ambiente sadocita cristão perto de Damasco. Dirige-se a Jerusalém no ano de 41; lá se encontra com Pedro e Tiago, o irmão do Senhor (Gál 1,18; At 9, 27). Choca-se com os helenistas judeus (At 9,29) e volta a Tarso sua pátria (At 9,30). É aí que Barnabé irá procurá-lo em 48. Barnabé o havia conhecido em Jerusalém no ano de 41 e o havia apresentado aos Apóstolos. Leva-o consigo para Antioquia onde passam juntos um ano (42-43).
Temos que precisar bem sua posição em relação a igreja de Antioquia. Os Atos nos informam que neste momento existiam na igreja de Antioquia "profetas e doutores" (At 13,1). Estes são enumerados: Barnabé, Simeão chamado Niger, Lúcio 0 Cireneu, Manaém, irmão de leite de Herodes, O tetrarca, e Saulo. Tal grupo não parece pertencer a comunidade local de Antioquia de que acima falamos, mas há de identificar-se antes com os missionários helenistas. É o caso de Barnabé. Entre os missionários vindos a Antioquia se encontrava gente de Cirene (At 11,20). Ora, Lúcio é cireneu. Manaén; pertence ao meio herodiano. O grupo toma Saulo como sócio, situando sua atividade em plano superior. Antioquia não passa de porto de encontro. De fato, a missão prolongará a dos Doze. É por isso que estão em contato permanente com eles. Barnabé lhes apresenta Paulo em 41. Em 44, se dirige novamente a Jerusalém na companhia de Paulo (At 11,30; 12,25). Na volta, trazem João Marcos consigo (At 12,25). Antes disso, os Apóstolos lhes haviam enviado um grupo de profetas; entre os quais figurava Ágabo (At 11,27).
Temos a sensação de estarmos diante de homens, diretamente associados a obra dos Doze; é sem dúvida assim que temos de no-los representar. Os Atos designam-nos sob o nome de profetas e de doutores (At 13,1). Os dois títulos reaparecem em I Cor 12,28, imediatamente após os Apóstolos. Parece impossível ver aí unicamente a expressão de dons carismáticos. Profetas e doutores voltarão a figurar na Didaquê (15,1 e 2). Parece mesmo tratar-se de ministros eclesiásticos. Em oposição aos presbíteros, que constituem as hierarquias locais, dão-nos a impressão de exprimirem os ministérios missionários. A Didaquê estabelece um paralelismo entre os dois (15,1). Apresentam caráter universal como os Apóstolos, que lhes delegam todos os poderes ou parte deles, assim como procediam em relação as hierarquias locais. Acontece aliás que de um grupo passem ao outro. Os Sete, no início membros da jerarquia local de Jerusalém, tornam-se missionários quando expulsos.
Também é verdade que no grupo missionário com residência em Antioquia, Barnabé e Paulo constituem dois casos particulares. Barnabé é nomeado por primeiro. Desempenha o papel de chefe. O que parece supor que dispõe de delegação mais completa por parte dos Apóstolos. Representa ele em relação aos demais missionários o que Tiago representa em relação aos presbíteros de Jerusalém. Possui tudo o que é comunicável no apostolado. Identifica-se com os andres ellogimoi, de que fala a Epistola de Clemente (44,1-3) e que são os únicos a possuir autoridade para estabelecerem ministros, quer dizer, para conferirem ordens. O caso de Paulo é diferente. Afirma ser Apóstolo no sentido pleno da palavra, quer dizer, que recebeu os poderes diretamente do Senhor, em vista de uma missão particular. Tal reivindicação talvez explique sua ruptura com Barnabé.
É deste grupo que na primavera de 45 há de partir uma missão para a Ásia; a ela o autor dos Atos empresta uma importância particular, porque marca o início do ministério de São Paulo. Os Atos nos descrevem as circunstancias da partida. Durante uma assembléia eucarística, Barnabé e Paulo foram colocados à parte e os demais lhes impuseram as mãos. Não pode tratar-se de uma ordenação Barnabé e Paulo já estavam investidos dos poderes apostólicos. Trata-se de um rito missionário. Barnabé e Paulo embarcam em Seleucia porto de Antioquia. A partir deste momento, a narração de Lucas repousa sobre os documentos que lhe provêm de São Paulo apresentando indicações históricas e geográficas notáveis, que fazem com que a evangelização da Ásia nos seja muito mais conhecida do que a de qualquer região que tenhamos percorrido até aqui.
No entanto tal missão permanece geograficamente limitada. As cidades evangelizadas serão Perge e Átala na Panfília, Antioquia na Pisídia, Icônio, Listra e Derbe na Licaônia. O apostolado de Paulo e Barnabé se exerce primeiro nos meios judeus. Pregam nas sinagogas (At 13,5; 13,14; 14,1) em dia de sábado. Apresentam-se pois como pertencendo a uma seita judia. Alhures no entanto se dirigem igualmente aos pagãos; em Antioquia, da Pisídia, os pagãos vêm escuta-los um sábado na sinagoga (At 1 3,44); o mesmo se dá também em Icônio (14,1). Em Listra, Paulo e Barnabé realizaram um milagre e a população os toma como Zeus e Hermes, querendo sacrificar-lhes um boi ornamentado com grinaldas (14,11-12).
Nestas duas regiões, Paulo e Barnabé realizam conversões tanto entre judeus, prosélitos (13,43; 14,1), como também entre pagãos (13,43; 14,1). Estabelecem comunidades locais; para o governo, ordenam "presbíteros" pela imposição das mãos (14,23), como se fazia em Jerusalém e Antioquia. Encontram porém em toda parte violenta hostilidade dos meios judeus (13 45). Estes excitam contra eles as populações pagãs. Em Antioquia da Pisídia, são as autoridades da cidade que se vêem sublevadas pêlos judeus (13,50). Em Icônio e Listra é a população (14,2; 14,19). De fato a acolhida junto aos pagãos é mais favorável do que junto aos judeus. Esta averiguação é nova. E decisiva para São Paulo. A partir deste momento, começa ele a elaborar sua teologia da rejeição dos judeus e da conversão dos pagãos (13,46-47). Vemos aparecer nesta hora novo tipo de querigma, que já não apela para o cumprimento das profecias, mas para a aliança de Noé (14,15- 17) . O traço marcante das comunidades licaônicas e pisidianas há de ser o da importância do elemento provindo do paganismo. São Paulo não havia buscado tal resultado. Há de suscitar-lhe mesmo graves problemas.

A missão de Paulo, é ela a única em direção ao Ocidente? Os Atos nos informam, que em 43, após a morte de Tiago, Pedro deixa Jerusalém, indo "para um outro lugar" (At 12,17). Não se falará mais dele antes de 49, quando o encontraremos no concílio de Jerusalém. Nenhum texto canônico nos diz alguma coisa sobre sua atividade missionária durante este tempo. Mas Eusébio escreve que foi a Roma, no início do reinado de Cláudio pelo ano de 44. (H.E. 2,14,6). Parece certo por outro lado que Roma e evangelizada durante o período que vai de 43 a 49. Suetônio conta que Cláudio expulsa os judeus em 49, porque agitavam "sob o incentivo de Chrestos". Isso atesta a existência de discussões entre judeus e judeu-cristãos, provocando conflitos que chegam aos ouvidos do imperador. Exatamente em 51, Paulo encontra em Corinto judeus convertidos expulsos de Roma por Cláudio. São Áquila e Priscila. Em 57, São Paulo se dirigira à comunidade de Roma já considerada importante. Em 60, encontrará ele em Puteoli e em Roma comunidades constituídas.

AUTOR DESCONHECIDO

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