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By Ferramentas Blog

terça-feira, 10 de março de 2015

HISTÓRIA DA IGREJA 6 - A IGREJA PRIMITIVA E SEU DESENVOLVIMENTO

A Igreja Primitiva e seu Desenvolvimento

Em paralelo às discussões sobre a existência ou não da figura histórica real de Jesus, o desenvolvimento inicial do movimento cristão é um tópico central para a compreensão exata de como um fenômeno religioso local, com origem em uma província menor do Império, pôde se transformar de maneira tão rápida em um movimento cultural verdadeiro, estabelecendo raízes no poder secular e se firmando como a única e maior religião do Ocidente por milênios.

 A própria Igreja prega o início da expansão cristã como sendo de crucial importância, como crédito máximo de fé dos apóstolos à sua crença, ainda não divulgada – o pentescostes sempre foi considerado um marco para o movimento cristão. Contudo, o que sabemos de histórico, de factível e real sobre esse desenvolvimento inicial do cristianismo ?


Até o cristianismo tomar sua posição como religião oficial do Império, caímos em brumas. Originalmente, só dispúnhamos dos dados fornecidos pela própria Igreja sobre a expansão inicial da Igreja com os apóstolos e, mais precisamente, sob Paulo.

Inegavelmente, muito da Igreja foi definido e construído sob a tutela de Paulo. Contudo, o fato histórico em sí é bem diferente do retratado pelos escritos sinóticos, como veremos a seguir.

Uma abordagem documental e lógica sobre a figura de Paulo, assim como das primeiras expansões cristãs, é uma linha de pesquisa histórica relativamente recente, trazida à tona pelas pesquisas em torno do "Jesus Histórico". Muito ainda há a ser feito e pesquisado e, creio que seria mesmo imprudência tomarmos o assunto como plenamente definido e completo. Como veremos, algumas lacunas históricas necessitam (e chegam mesmo a clamar) por atenção. Documentos importantes ainda não sofreram o devido estudo metódico necessário para podermos considerá-los documentos históricos de fato, como a maioria dos evangelhos apócrifos – que têem seu número crescendo em quantidade alarmante e mesmo espantosa.

Nossa proposta de estudo é exatamente nos debruçarmos sobre esse período, onde a Igreja passou de religião a Poder, onde os mitos católicos ainda estavam sendo definidos, esse ponto crítico quando a Igreja passou de perseguida a perseguidora. O ponto exato onde uma religião menor, em frente a outras várias na cidade mais cosmopolita do Império, Roma, pode não só sobreviver e se firmar, mas ainda eliminar as suas demais concorrentes, se lançando ao estrelato de religião oficial do Império.

Como isso aconteceu ? Por que ? E, talvez, o principal, por quem ? Quem pode Ter usado o catolicismo incipiente como um movimento tão coeso e estruturado ? Quem deu forma a Igreja ? De certo, a figura de Jesus – mítica ou não – se apresenta nesse contexto, com menor importância, como motivador e não responsável pelo cristianismo.

O que veremos a seguir é um estudo histórico sobre esses temas. Uma das várias tentativas de se levantar o véu da religião e de se encarar de frente o cristianismo em sua verdadeira face: como um dos maiores fenômenos culturais da Humanidade, comparável ao Helenismo, com bases históricas, documentais e racionais.

I – Paulo
O caso de Paulo é único. Ao lado de Pedro e da comunidade judaico-cristã, eis que surge um "novo", alguém que não participava do círculo original dos pregadores que, assumindo que possui uma vocação exigente, lança-se em meio aos pagãos, sendo o primeiro a perceber que poderia se passar diretamente da idolatria a Cristo. Personagem excepcional para a história da Igreja, sua presença foi de tal modo importante que alguns estudiosos acreditam ver nele o primeiro foco do cristianismo: isso porque, se os Atos dos Apóstolos consagram quinze dentre vinte e quatro capítulos ao apostolado de Paulo, muito pouco nos informam sobre a atividade de Pedro – o "príncipe dos apóstolos" – de quem rapidamenmte perdem-se os traços.

Àqueles que opõem Paulo a Pedro, pode-se responder que os evangelhos – inclusive o Evangelho de João – ressaltam várias vezes a importância do papel de Pedro como intemediário entre Jesus e os outros apóstolos; que os Atos mostram Pedro presidindo a eleição de Mateus e falando em nome dos seus; que o próprio Paulo, em Coríntios I, apresenta Pedro como a primeira testemunha da ressureição: é junto a Pedro, aliás, que ele vem encontrar a confirmação de sua missão.

Isso não impede que esse pequeno judeu helenizado seja, o verdadeiro líder do movimento expansionista cristão, sendo ao mesmo tempo testemunha, pregador e organizador. Para esse apostolado, Paulo contribuiu com as riquezas de uma personalidade adequada a religião, com uma fé ardorosa, uma sensibilidade aguda, por vezes desconfiada, uma inteligência apurada pelas formas cotidianas da vida apostólica, com profundas influências helenísticas, que seriam somadas a sua cultura judaica. Paulo encontra um fraco e débil movimento marginal no judaísmo e o converte em uma das mais promissoras religiões de sua época. Não seria exagero considerarmos que Paulo, e não Jesus, é o verdadeiro fundador do Cristianismo. A ele o movimento deve seu sucesso.

No ano de 44, Paulo encontra-se em Antióquia: Barnabé, chefe da comunidade cristã, chamou-o de Tarso, de onde se irradiou sua reputação de pregador. Durante um ano, Paulo e Barnabé trabalham juntos. Na primavera de 45, eles embarcaram para Chipre, depois para Panfília. Tornado chefe da missão, Paulo irradia influência em torno de Perge e depois em Antióquia da Pisídia; em, seguida, percorre a Licaônia: Icônio, Listra e Derbe. Em toda parte, ele procede da mesma maneira: na sinagoga, toma a palavra, como o rito judaico o autoriza, e se esforça por demonstrar pelas escrituras que Jesus é o Messias esperado por Israel; depois, sua pregação orienta-se para os gentios. Não lhe faltam dificuldades: aquí, os judeus incitam a multidão a apedrejá-lo; acolá, tomam-no pelo eloqüente Hermes, ao passo que mostram querer adorar Barnabé, cuja altura evoca Júpiter.

Retornando a Antióquia, Paulo choca-se com os judeus-cristãos, que pretendem ligar a salvação ao rito da circuncisão. Mesmo se dobrando às prescrições judaicas – "para os que estão sujeitos a lei, fiz-me como se estivesse sujeito à lei" - , Paulo não compreende por que impor a circuncisão aos gentios desejosos de ingressar na Igreja. A controvérsia é levada a Jerusalém, diante dos chefes da comunidade cristã, Pedro e João. Eles dão seu aval aos métodos paulinos, malgrado a resistência de muitos irmãos. O cristianismo se diferenciava cada vez mais de sua origem judaica.

No outono de 49, Paulo parte da Antióquia para uma viagem missionária que terá a duração de três anos. Separa-se de Barnabé e leva consigo Silas, cidadão romano. Em Listra, Paulo e Silas juntam-se a Timóteo, jovem grego nascido de mãe judia. Juntos atravessam a Frígia e a Galácia, penetram na Macedônia, e alcançam Filipos, onde são presos. Chegam a Tessalônica, onde os judeus acusam-nos de agir como adversários do imperador, porque apresentam Jesus como rei. Chegam a Beréia, onde a sinagoga acolhe avidamente a palavra de Paulo, "examinando a cada dia as escrituras para ver se tudo era exato".

E eis que Paulo chega a Atenas. Todos os dias ele discute na ágora com os gregos sutis e cultos, mas céticos e levianos. Reencontra-os no Aerópago, onde anuncia um Deus desconhecido, único e invisível, que fez a Terra e os homens e que "fixou um dia para julgar o Universo com justiça, por um homem que ele destinou, oferecendo a todos uma garantia ao ressuscitá-lo dentre os mortos". Um escravo crucificado e saído do túmulo ! Com risos de zombaria, enviaram o orador de volta aos seus sonhos: "Ouvir-te-emos a respeito disso outra vez !".

O pequeno judeu desce a Corinto, o porto cosmopolita onde, entre duzentos mil homens livres servidos por quatrocentos mil escravos, trabalham numerosos orientais, melhor preparados do que os gregos para receber a mensagem evangélica. Misturado aos pobres e marinheiros – ele próprio se faz fabricante de tendas – Paulo permanece dezoito meses em Corinto. E, depois de seu ministério ter sido inaugurado "na fraqueza, no temor e em grandes atribulações, Paulo adquire segurança. Fala da cruz sem receio de chocar o orgulho do judeu ou escandalizar a razão grega. É de Corinto – onde se organiza uma importante comunidade cristã – que Paulo remete suas duas epístolas aos tessalonicenses, que ele quer fortalecer na fé, mantendo-os na esperança do retorno iminente do Senhor. Depois de uma curta escala em Éfeso, a magnífica, êmula de Alexandria, plantada sob o Sol implacável, em torno do templo de Artemis, uma das maravilhas do mundo. Apesar de conduzir numerosas almas para Cristo, Paulo deve travar em Éfeso aquilo que ele chamará, na Segunda carta aos coríntios, de "seu combate contra as feras": "são ministros de Cristo ? Como insensato digo: muito mais eu. Muito mais, pelas fadigas; muito mais, pelas prisões; infinitamente mais, pelos açoites. Muita vezes, vi-me em perigo de morte".

É de Éfeso que Paulo remete duas de suas mais belas cartas. Na carta aos gálatas, ele os conclama a sacudir definitivamente o jugo da lei, depois de lhes lembrar a origem e a força de sua própria vocação. O cristianismo era forçado a sair da clandestinidade.
A primeira carta aos coríntios, supostamente na primavera de 57, tornou-se necessária devido às divisões que enfraqueciam a comunidade de Corinto. Será que se tratava de um ofensiva judaizante ? Ou da ação de gnósticos acobertados pela autoridade de um certo Apolo ? A ética helênica e ao legalo judaico, Paulo opõe a liberdade do Cristão, para quem a ressureição de Cristo é a justiça, a santificação e a redenção. Todo um novo sistema de valores, é criado como um produto diferente dos oferecidos pelas religiões de então.
Paulo é obrigado a sair rapidamente de Éfeso, porque um fabricante de estatuetas de Artêmis provocou grande tumulto contra os cristãos, que prejudicavam seu comércio, assim como sua fé. Vai para a Macedônia, de onde envia aos Coríntios uma Segunda carta: um poderoso partido – difídil de identificar entre tantas possibilidades – minava-lhe a autoridade. De Corinto, onde fica por três meses, escreve aos romanos, para pedir-lhes que lhe propiciassem uma viagem que, de Roma, deveria induzí-lo até a Espanha.
Mas antes, ele precisa levar a Jerusalém, o produto da coleta feita no Oriente em favor da Igreja, voltando a cidade de Jesus após mais de uma década. De Filipos, ele parte para Trôades, de onde ruma para Mileto. Aos irmãos de Éfeso que foram vê-lo, ele confidencia seus presentimentos: "E agora estou certo de que não haveis mais de rever o meu rosto (…) Mas não considero preciosa minha própria vida, contanto que leve a bom termo minha carreira e cumpra o ministério que recebí do Senhor Jesus…"
Inicia-se a paixão de Paulo – da qual apenas alguns episódios são conhecidos. Em Cesaréia, onde desembarca, tentam detê-lo, mas em vão; o Pentecostes judeu já o vê em Jerusalém: sua presença desencadeia a cólera daqueles que o consideram um traidor do judaísmo. A ponto de ser linchado, ele é preso como agitador. Estando prestes a ser flagelado, ele recorre a sua qualidade de cidadão romano, conseguindo que o enviem a Cesaréia, onde reside o procurador Félix, que faz com que o assunto se arraste durante dois anos. Seu sucessor, Festo, cansado de ouvir Paulo apelar para César, acaba por enviá-lo a Roma. Através de Sidônia, Creta, Malta e Puteóli, no curso de uma travessia movimentada, Paulo chega a capital do Império, onde passa dois anos em liberdade vigiada, mantendo correspondência com os fiéis de Colossas, Éfeso e Filipos. A narrativa contida nos Atos dos Apóstolos, se detém neste ponto.
As cartas pastorais – a Tito e a Timóteo, cuja autenticidade é contestada e praticamente negada atualmente – permite supor que o apóstolo sobreviveu ao seu primeiro cativeiro romano; o cativeiro ao qual a Segunda carta a Timóteo se refere seria sua prisão no tempo de Nero. Segundo Eusébio, Paulo teria sido decapitado em Roma e teria sido enterrado junto a Pedro.
As peregrinações de Paulo a pontos distantes são essenciais para a disseminação do cristianismo primitivo. Sua passagem em pontos chaves como Atenas e Roma foram fundamentais para a divulgação da nova seita judaica, assim como para a ampliação de sua filosofia e a construção de seus diversos dogmas. Sem Paulo, o cristianismo ficaria restrito a Jerusalém e cercanias, entrando para a História como apenas uma das diversas seitas judaicas, comuns na sua época.
Paulo é a chave da disseminação e coesão do cristianismo, assim como de sua universalidade (da qual ele é o único responsável) – ou seja: a salvação está aberta a todos os povos, independente se circuncisos ou não, cidadãos ou escravos. A fraternidade cristã é um dos produtos diretos da influência de Paulo na estrutura do cristianismo.
I.1 – Paulo e os Primórdios da Igreja
Os membros da pequena comunidade que Jesus deixara em Jerusalém após sua suposta ascenção, apresentavam-se como judeus dissidentes, abandonando os ensinamentos ritualistas dos fariseus e passando a ter como referência as palavras do mestre – considerado o Messias anunciado – que abria espaço para um comportamento mais emocinal, mais emotivo do que o oferecido pelo ritualismo fariseu.
Aquele primeiro grupo judeu-cristão, que seria tão essencial para o estabelecimento do cristianismo, era uma comunidade bem temerosa. Segundo as epístolas do primeiro século, teriam vivido por longo tempo confinados na sala superior da casa em que o próprio Jesus teria celebrado sua última ceia. Somente após a reafirmação de Pentecostes, tais tímidos ganham força e são transformados, aquelas pessoas humildes, em arautos tão vibrantes que, desde o início, seus ouvintes acusam-nos de estar cheios de vinho. A festa judia levara a Jerusalém uma enorme multidão. Pedro, um pescador e possível membro de destaque da sociedade comercial local, ainda ontem um renegado, dirige-se a essa multidão pregando a vinda e a ressureição do Messias. Pela primeira vez, temos o relato de uma pregação em público dos discípulos de Jesus.
Pedro é escutado, sobretudo pelos judeus da diáspora, o que pode explicar a presença, bem cedo, de um pequeno grupo de judeus cristãos em Damasco, Antióquia, Alexandria e Roma. Um certo número desses judeus, com contatos diretos com filosofias helenistas, ficaram em Jerusalém. Para se ocuparem deles, os apóstolos designaram os diáconos – em número de sete, segundo os Atos dos Apóstolos. Estêvão, um dos sete, é uma figura de proa, não hesitando em identificar com a idolatria o culto prestado a Deus no Templo de Jerusalém, substituindo tal culto em suas pregações pela ordem instaurada pelo Filho do Homem. Naturalmente, Estêvão termina por ser apedrejado como blasfemador. A posição avançada de Estêvão, porta-voz dos "helenistas", marca uma primeira etapa da evolução da comunidade judaico-cristã.

Durante a narração do apedrejamento de Estêvão, aparece, pela primeira vez nos Atos dos Apóstolos, um judeu da Ásia – Saulo, que se tornaria Paulo.
Contamos com poucas informações sobre a vida de Paulo antes de sua conversão. Sua família, judia de origem mas que havia adquirido o direito de cidadania romana, estabelecera-se na Cilícia, em Tarso, cidade amplamente aberta para as rotas comerciais e os sincretismos religiosos: foi lá que nasceu Saulo, no princípio da Era Cristã. Em Jerusalém, ele seguiu as lições de um doutor famoso, Gamaliel, sendo atraído pelo ideal farisaico. Temperamento apaixonado, ele seguiu o cristianismo nascente, no qual nada mais via além de uma heresia e impostura.
Lançado à terra por uma "força invencível" no caminho para Damasco, ele passa algum tempo nos ermos do reino nabateu antes de rumar para Jerusalém, onde encontra os chefes da comunidade judaico-cristã: Tiago e Pedro; junto a eles, fortalece sua fé no Cristo crucificado e perseguido. De Jerusalém, após essa brevíssima visita, sem ter ido a local sagrado algum, parte para Antióquia em companhia de Barnabé e é lá que o encontraremos quando da preparação de sua primeira viagem missionária.
Na Palestina, os discípulos de Jesus estendem timidamente seu campo de ação. Os Atos dos Apóstolos relatam o episódio do ingresso de um eunuco – ou seja, um semita – da rainha da Etiópia na Igreja, graças ao diácono Filipe. Os eunucos estavam excluídos da comunidade de Israel. Mais significativa ainda é a pregação do mesmo Filipe, depois de Pedro e João, para os samaritanos, "esses pestilentos". E melhor ainda: o Espírito impede Pedro – que em Cesaréia, cidade pagã, batiza o centurião Cornélio – a quebrar um tabu, universalizando a mensagem cristã para todos os povos, e não exclusivamente aos judeus; mas os murmúrios escandalizados – "entrastes em casa de incircuncisos e comeste com eles !" – que acolhem Pedro em sua volta provam que os espíritos ainda não estavam preparados para esse salto universalisante.
Nesse meio tempo, na comunidade cristã, os ritos judaicos se enriquecem com uma liturgia original: a administração do batismo e também, por ocasião das ceias comunitárias, o rito eucarístico da fração do pão. É provavelmente no curso dessas reuniões que os cristãos se interrogam sobre Jesus e sua mensagem, repensado suas lembranças e contos, controlando os materiais que viriam a se tornar os evangelhos sinóticos.
II– A Primeira Expansão Cristã
Na Igreja Palestina – mais estruturada do que o mundo paulino -, Pedro era o chefe incontestado; depois dele, Tiago. As viagens de inspeção de Pedro na Judéia, na Samaria e até em Antióquia atestam a irradiação da Igreja, que, no entanto, mais do que as comunidades da Ásia e da Grécia, encontrava dificuldade para se desembaraçar dos laços muito fortes do judaísmo dominante.
Mas o que aconteceu a Pedro ? A tradição católica diz que ele morreu como um mártir, em Roma. Não existe nenhuma prova histórica sobre isso, mas as investigações empreendidas por ordem de Pio XII provaram que, no século II, sabia-se que um mártir muito importante – e especulamos que tenha sido Pedro – for a enterrado em uma necrópole da colina vaticana.
Pode-se dizer que a primeira comunidade cristã de Roma tenha sido fundada por Pedro ? Parece mais factível que a semente do cristianismo tenha sido semeada em Roma por judeus vindos de Jerusalém antes mesmo da diáspora. Quando Paulo chega a Roma, os cristãos já são numerosos. De toda maneira, a tradição católica sustenta que Pedro ficou durante longo tempo na capital do Império, onde foi também crucificado . O primado de Pedro foi transmitido ao chefe da Igreja Romana. E, na memória dos cristãos, Pedro, saído da tradição judaico-cristã, e Paulo, apóstolo dos gentios, permaneceram inseparáveis.
Na Palestina, as comunidades continuavam levando uma vida difícil. Por volta de 62, Tiago foi executado. Depois de 70, Jerusalém foi esmagada e destruída por Tito; sobreviveram alguns pequenos grupos de cristãos na Transjordânia; elos separados da corrente, acabariam por se transformar em seitas heterodoxas, influenciadas em grande parte pelo gnosticismo e pelo maniqueísmo.

Se a fisionomia de Paulo é esclarecida pelos textos sagrados e se a silhueta de Pedro e do próprio Tiago aparecem por vezes no horizonte do século I, o que sabemos nós dos outros apóstolos e de suas ações ? Nada ou quase nada. Eusébio e Rufino pretenderam que, após a morte de Tiago, foi designada a cada um deles uma zona de ação: o sul da Rússia para André, a Índia para Bartolomeu, a Pártias para Tomé, a Etiópia para Mateus… Mas trata-se apenas de uma lenda, sem fundamentação histórica alguma. No entanto, que poderia supor que algum dos doze tenha esquecido a ordem de Jesus "ide e fazei que todos os povos se tornem meus discípulos" ? O desaparecimento histórico dos apóstolos, levanta a grave questão se eles realmente existiram. É impossível que tais seguidores tenham existido e vivido sem deixar qualquer vestígio histórico ou mesmo alguma citação na documentação da época.

O autor do primeiro evangelho – Mateus, o antigo publicano – revela uma rica personalidade, mas nada sabemos de sua suposta vida. Quanto a João – o apóstolo que Jesus amava – as lendas que cercam sua história perderam importância para os cristão, frente aos textos apaixonados a ele atribuídos. Após a morte de Paulo, João pode ser encontrado em Éfeso: ele parece ter sido a mais elevada autoridade religiosa do fim do primeiro século na Ásia, mas não existe nenhuma documentação que assegure essa posição. Tertuliano sustentou a lenda de que João teria sofrido em Roma, ao tempo de Domiciano, o suplício de óleo fervente, do qual teria saído são e salvo. Exilado em Patmos, teria morrido centenário em Éfeso.

O quarto evangelho – o de João – é um documento único. Não que, no essencial, ele não repita os sinóticos, mas sim porque aquilo que interessa a João é menos a Galiléia, onde Jesus prega a cura, do que Jerusalém, onde se estabelece a nova aliança; é menos as parábolas de Cristo do que as reflexões sobre os mistérios de Deus: Jesus Deus, Verbo, Luz e Pão da Vida, Jesus formando um só com o Pai, Jesus propagando a vida pelo amor. Não há dúvida de que a idéia de um Verbo era familiar a filosofia da época, assim como o conceito da trindade e vários outros preceitos que viriam a se tornar dogmas católicos, mas em João, o logos não é o pensamento de Deus e sim sua Palavra encarnada.

Quais são as causas da assombrosa progressão do cristianismo durante os três primeiros séculos ? Depois de Paulo e Pedro, o silêncio da História recai sobre a tividade de seus discípulos e êmulos; a nossos dias não chegou nenhum nome de propagador ou arauto. Mas essa obscuridade não foi infecunda. O cristianismo foi transmitido de boca em boca por mercadores, viajantes, transportadores, escravos libertos, judeus helenizados e gentios convertidos que passaram a seguir Cristo.

É verdade que a "missão" cristã se beneficiou de um contexto histórico e geográfico mais do que privilegiado. Uma estreita rede de relações humanas, facilitada pela segurança nas estradas e pela atividade nos portos, permitia que os homens e as idéias se locomovessem e se espalhassem rapidamente. Além disso, o Império Romano era extremamente tolerante com qualquer religião, de origem romana ou não. Roma era uma cidade cosmopolita por natureza, com cultos das mais diversas origens convivendo lado a lado, com uma harmonia permitida apenas pelo politeísmo vigente.

No caso do cristianismo, as numerosas comunidades judias da diáspora e depois as comunidades paulinas serviram naturalmente de correias de transmissão para a evangelização. Não por acaso os principais centros do cristianismo nascente foram Antióquia, Tessalônica, porta aberta para a Macedônia, Corinto, em contato com o Egeu e o Adriático, e Roma, coração do Império.

Na verdade, o Império Romano foi a verdadeira pátria do cristianismo. Foi Roma que iniciou a Igreja.
III – A Consolidação da Igreja com o Império


Antes do fim do século I, o Império ainda não havia sentido a elevação da nova seita judaica. O mais antigo documento oficial mencionando cristãos, data do ano de 112: trata-se da carta endereçada a Trajano por parte de Plínio, o Jovem, procônsul da Bitínia, província na qual o cristianismo crescia enormemente.

Durante um longo tempo os judeus não se diferenciavam dos cristãos, sendo atribuído apenas especificamente aos cristãos a característica de perturbar a paz das cidades com suas pregações e fanatismo (conforme nos conta Plínio em sua carta, pedindo orientação ao Imperador). Em Roma, no entanto, aparentemente a distinção é clara já na época de Nero.

O que nos leva a essa figura histórica destratada e condenada pela cristandade chamada Nero. Na noite de 18 para 19 de julho do ano de 64, três quartos da cidade de Roma foram devastados por um incêndio que só será dominado seis dias depois. A opinião pública de Roma atribui a tragédia – errôneamente – a Nero. Acusado, o imperador encontra nos cristãos, odiados por muitos no Império e considerados como misantropos, ateus e mantenedores de orgias e cultos terríveis nas catacumbas, como possíveis bodes-expiatórios. Na noite de 15 de agosto de 64, o circo de Nero, situado no local onde hoje se ergue a basílica de São Pedro, vários cristãos são punidos exemplarmente, reduzidos a tochas vivas, iluminando os jogos e as diversões. Tudo isso nos é contado pelos Anais, de Tacitus.

Tertuliano afirma que Nero deu um instrumento jurídico à sua ação contra os cristãos, o Institutum Neronianum , cuja interdição essencial era: "Non licet esse Christianos ". Os historiadores se dividem quanto a esse fato. De qualquer forma, não foi somente a razão de estado que levou Nero a perseguir os cristãos.

A situação continuou a mesma no tempo de Domiciano (81-96). Na última década do século I, a religião cristã fez grandes progressos, ganhando adeptos até mesmo nos círculos vizinhos ao imperador: assim, por exemplo, M. Flavius Clemens e Flavia Domitilia, primos irmãos de Domiciano, e M. Acilius Glabrio, um dos cônsules de 91. Na medida em que o autoritarismo e os defeitos físicos de Domiciano alimentavam sarcasmos da elite romana, o imperador procura atendê-la golpeando os cristãos, que são espoliados ou executados por intolerância religiosa. O combate ao cristianismo parece ter sido particularmente violento na Ásia.

Dois anos após a morte de Domiciano, o Império caiu nas mãos de Trajano (98-117), o optimus , o homem que leva as qualidades de homem de Estado ao seu mais alto grau. Ele se vangloria de manter sua antiga tolerância romana. Respondendo a Plínio, o Jovem, procônsul da Bitínia, que o consultara sobre a conduta a manter em relação aos cristãos, Trajano fixa uma norma de conduta: "os cristãos, com efeito, não partilham da fé do Império e são intransigentes com sua própria; desde que convictos de seus erros, deve-se puní-los, mas não se deve procurá-los e deve-se deixar de lado as denúncias anônimas: todo inculpado que se arrepender deve ser libertado".

Esse "restrito" de Trajano (112) iria fazer jurisprudência, ainda que a atitude do poder em relação aos cristãos, ao longo dos séculos II e III, careça de clareza. Os grandes Antoninos, Adriano (117-138), Antonino Pio (138-161) e Marco Aurélio (161-180), nada fariam para agravar a legislação anticristã. Mas aquí e acolá eclodiriam chamas de antagonismo e tombariam mártires e pagãos, devido às pressões entre os cristãos e a população local.

Mais hostis foram os Severos. Sétimo Severo (193-211), em 202 assina um rescrito visando ao mesmo tempo os judeus e os cristãos. Fica interdito não apenas fazer-se cristão mas também "fazer" cristãos; a justiça não deve apenas esperar as denúncias e sim procurar cristãos. É sobretudo no Egito e na África – onde o cristianismo progride rapidamente – que esse rescrito faz mais vítimas.

O cruel Caracala (211-217), Heliogábalo, um oriental desequilibrado (218-222), e o Severo Alexandre, imperador muito religioso (222-235), deixam adormecida a legislação precedente. Quiseram fazer de Severo Alexandre um admirador de Cristo: isso não é verdade; aliás, seu reinado foi marcado esporadicamente por execuções de cristãos, denunciados pela multidão. Fenômeno idêntico ocorreu ao tempo de Filipe Árabe (244-249), transformado abusivamente em cristão. No entanto, é certo que em meados do século III mais de um funcionário do Império é convertido ao cristianismo. "Nós enchemos os campos, as cidades, o Fórum, o Senado, o Palácio", escrevia o orgulhoso Tertuliano.

Outra onda de perseguição se desencadeia na época do valoroso Décio (249-251), preocupado em fazer o desgastado Império retornar às virtudes e ao culto da antiga Roma. No ano de 250, todos aqueles que, no território do Império, gozam do direito de cidadania romana são obrigados a se manifestar expressamente (ou seja, através de um sacrifício, uma libação ou participação em uma ceia sagrada) sua adesão a religião oficial. Certificados (os libelli ) atestarão o fato; os contraventores poderão sofrer a pena de morte. A aplicação desse edito provoca não poucas renegações, mas também encontra resistências que dão origem a numerosos martírios em Roma, na Ásia, no Egito e na África.

Valeriano (253-260), através de dois editos, agrava essa legislação, visando sobretudo a cabeça do corpo cristão: bispos, padres, diáconos. A igreja da África é dizimada. Sobrevêem oito anos de paz sob o reinado de Galieno (260-268), inimigo das desordens policiais. Aureliano (268-275) não tem tempo de impor ao Império o seu sonhado sincretismo solar.

Quando, depois de dez anos de anarquia, Diocleciano assume as rédeas do Império (284), o mundo conhece um mestre cujas profundas reformas permitiram a Roma uma última explosão de brilho. Mas a vontade imperial de unificação administrativa e religiosa, a impossibilidade para os cristãos de associar o culto de Jesus ao rito adoratio – essencial aos olhos de Dioclesiano e de seu associado Maximiano – e o papel sempre mais importante desenvolvido pelo cristianismo na sociedade romana explicam suficientemente a duração (303-313) e a violência da última perseguição, à qual o nome de Diocleciano permaneceu definitivamente ligado. Houve muitos martírios, ainda que, em muitos lugares, as ordens vindas de cima tenham sido amortecidas pelo enfraquecimento das posições pagãs ou pela coabitação entre pagãos e cristãos.

A tendência do cristianismo tornar-se moda no Império, algo que vinha ocorrendo desde Domiciano, tornava-se uma realidade. O cristianismo apresenta-se nesse período como um verdadeiro movimento contra-cultural, tornando-se símbolo de novos tempos e aglutinando várias promessas em torno do Império e do Futuro. Em suma, ser batizado e participar dos cultos católicos (muitos ainda nas catacumbas) exerce o mesmo fascínio nos romanos que os mistérios anteriomente tiveram.


AUTOR DESCONHECIDO

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