A DESCONSTRUÇÃO DA ÉTICA DO REINO DE DEUS
Série: A Ética do Reino de Deus
Durante
este mês de Agosto estamos refletindo na série “A Ética do Reino de Deus”. O
nosso tema de hoje é “A Desconstrução da Ética do Reino de Deus”. Eu gostaria
de começar esta série de mensagens relembrando nossa definição sobre ética.
Primeiro ponto: O que é ética.
1 – O QUE É ÉTICA?
A palavra
“ética” é de origem grega, ethos. A palavra ética significa maneiras, hábito,
comportamento, modo de ser, caráter. Quando dizemos “aquela pessoa não é
ética”, estamos dizendo que ela não tem boas maneiras, que não tem caráter, é
destituída de valores morais, que seu modo de ser transgride os padrões morais
estabelecidos.
Ø
Acredito que podemos definir a ética como o conjunto de
regras e valores que fundamentam o comportamento moral de um grupo ou de um
indivíduo.
Esse conjunto de regras e valores morais definem quais
atitudes são consideradas certas ou erradas. Portanto quando falamos da ética
do Reino de Deus estamos falando do conjunto de regras e valores morais que
definem quais atitudes são consideradas certas ou erradas aos olhos de Deus.
Ao
longo da história humana os valores morais do Reino de Deus foram sendo estabelecidos
no mundo através dos judeus e mais tarde estes valores morais foram espalhados
pelo mundo através de nós cristãos, seguidores de Jesus, o Cristo de Deus.
Eu vou tentar de uma forma resumida e bem superficial mostrar como se deu a construção da ética do Reino de Deus sobre a humanidade, para que depois possamos ver como está ocorrendo essa desconstrução em nossos dias.
2 – A CONSTRUÇÃO DA ÉTICA
DO REINO DE DEUS
Vamos
começar falando do como a ética do Reino de Deus se estabeleceu em nosso mundo.
Para nos ajudar a refletirmos na construção da ética do Reino de Deus eu vou
dividir a história em períodos e vamos estudá-la de uma forma bem generalizada
e resumida conforme falei anteriormente.
PRIMEIRO
PERÍODO: DA CRIAÇÃO AO NASCIMENTO DE JESUS
·
O
anseio no coração do homem por Deus e a imoralidade culturizada
Este
primeiro período da história humana será caracterizado pelo anseio no coração
do homem por Deus e a imoralidade incluída dentro das culturas das diversas
civilizações.
Em
Gênesis encontramos o relato da criação (Gn 1.1).
1 No princípio Deus criou os céus e a
terra. (Gênesis 1.1)
Este
primeiro verso da Bíblia nos diz que o nosso planeta não é eterno e que tudo
que conhecemos não é eterno, foi criado por Deus de forma intencional. A vida
não surgiu como obra do acaso. Por muitos anos a humanidade sempre afirmou que
a vida era obra das mãos de Deus.
A
queda no Éden deu origem ao pecado e tornou o pecado inerente a natureza do ser
humano. O pecado intrínseco na natureza humana levou o ser humano a se
distanciar do verdadeiro Deus, mas não conseguiu e não consegue sufocar o
desejo do ser humano de se encontrar com seu criador, porque Deus colocou no
coração do homem o desejo pela eternidade, conforme lemos em Eclesiastes 3.11.
11 Ele fez tudo apropriado a seu tempo. Também pôs
no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim este não
consegue compreender inteiramente o que Deus fez. (Eclesiastes
3:11)
Na
busca de apaziguar este desejo da alma pela eternidade o homem cria para si
deuses tentando satisfazer este anseio. Entretanto este anseio só pode ser
preenchido pelo Eterno.
É
relevante observarmos que mesmo o homem se distanciando de Deus e criando
falsos deuses para si, a crença de um deus criador sempre esteve presente em
todos os povos, de forma que os registros históricos das civilizações mais
antigas sempre descrevem a crença destes povos em um deus sustentador da vida.
Os
egípcios e os nórdicos tinham seus deuses, os romanos e os gregos também tinham
os seus deuses. Desde a criação e o surgimento dos povos o ser humano sempre
reconheceu a existência de um deus criador e governador da vida.
De
forma natural essa crença foi construindo uma ética comportamental a partir da
relação do ser humano com seus deuses. As religiões sempre foram determinantes
na construção da ética social dos povos. Elas ditavam os comportamentos morais
e imorais de uma civilização. A verdade é que o ser humano sempre viveu em uma
relação doentia com estes deuses, uma relação de culpa e medo baseado na
meritocracia.
Podemos
dizer que via de regra as civilizações criaram deuses para substituir o único
Criador e verdadeiro Deus, buscando apaziguar o clamor de suas almas pelo
Eterno. Mas ao não reconhecerem o Criador na criação se tornaram indesculpáveis
diante de Deus e por isso Ele os entregou as suas próprias paixões vergonhosas,
no sentido que os deixou livres para viverem suas paixões pecaminosas e imorais.
O
apóstolo Paulo ao escrever sua carta aos irmãos de Roma ele fala sobre essa
realidade pervertida que os romanos estavam vivendo, conforme podemos ler em
Romanos 1.20-32. Essa realidade estava presente também entre os gregos, persas
e outras civilizações. A idolatria anda abraçada com a imoralidade e levou os
povos a viverem a imoralidade como algo natural de suas culturas.
Entretanto
este período, da criação até o nascimento de Jesus, também é marcado pela
manifestação poderosa de Deus na história humana com o fim de prover a salvação
da humanidade através de Jesus Cristo.
·
Deus
se revela a humanidade e estabelece uma aliança com um povo
Lemos
em Gênesis 12 que Deus faz uma aliança com Abraão (Gênesis 12.1-3).
1 Então o Senhor disse a Abrão: "Saia da sua terra, do meio dos seus
parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. 2 "Farei de você um
grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome, e você será uma
bênção. 3 Abençoarei os que o abençoarem, e
amaldiçoarei os que o amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra
serão abençoados". (Gênesis 12:1-3)
O
Deus único e verdadeiro, o Deus que criou os céus e a terra, tomou a decisão de
fazer uma aliança com Abraão, um homem, e a partir desta aliança Ele começa a
se revelar para nós e a revelar seu plano redentor, com o fim de nos salvar da
condenação eterna, pois o pecado no Éden condenou toda a humanidade à morte
eterna.
Nós
seres humanos somos o ente que têm o privilégio de sermos imagem e semelhança
de Deus, isto significa que recebemos de Deus a capacidade de raciocinarmos e
livremente tomarmos decisões. Tal condição nos deu a capacidade de alterar e
transgredir a Ordem em que a realidade foi estabelecida, e o fizemos no Éden, o
que nos tornou o único responsável pela presença do mal em nosso planeta. Portanto,
por sermos inteligentes e livres, temos uma relação ética com o Criador,
relação esta que passa a estar marcada pela justiça divina que faz com que nós
respondamos pelo mal cometido, mas também nos possibilita a reconhecermos a
graça salvadora em Cristo Jesus.
A
partir de Abraão, Deus constrói um povo, a nação de Israel, com o fim de se
revelar as demais nações através deste povo. Na medida em que Deus vai se
revelando ao povo de Israel através da Lei e dos Profetas, vai sendo construído
a ética estruturante desta cultura e ao mesmo tempo vai sendo revelado a nós à
ética do Reino de Deus.
Diferentemente
dos outros povos que construíam seus deuses e suas estruturas sociais a partir
de si mesmos, a nação de Israel recebeu do Deus criador a forma como deveriam
adorá-Lo e como deveriam viver como nação.
SEGUNDO PERÍODO: DO
NASCIMENTO DE JESUS ATÉ 312 d.C.
Com
o nascimento de Jesus o cristianismo começou a ser implantado. Jesus através de
sua morte e ressurreição inaugura o período da graça na história humana. Seu
sangue derramado na cruz redime a humanidade do pecado no Éden e estabelece o
caminho de redenção do homem por meio do sangue vertido na cruz.
Jesus
resgata à ética do Reino de Deus fundamentada no amor a Deus e ao próximo que
havia sido esquecida pelos religiosos do judaísmo, que passaram a praticar a
Lei sem amor e temor. Mateus, discípulo de Jesus registra as seguintes palavras
de seu mestre (Mateus 5.20).
20 "Pois eu lhes digo que se a justiça de
vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo
nenhum entrarão no Reino dos céus". (Mateus 5:20)
Seus
discípulos dão continuidade a sua pregação e ao resgate da ética fundamentada
no amor a Deus e ao próximo. Os discípulos de Jesus no surgimento da igreja eram
conhecidos pelo amor. O livro de Atos nos relata o cuidado que tinham um com o
outro de tal forma que ninguém possuía necessidade alguma.
A
pregação de Jesus e dos seus discípulos não era bem vista pelo Império Romano,
pois a afirmação de que Jesus era Deus e único Senhor sobre tudo e todos feria
o ego dos imperadores romanos que se diziam deuses e ordenavam que o povo os
adorassem.
Mesmo
em meio às muitas perseguições o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo se
espalhou por todo o Império Romano, por toda cultura greco-romana.
Os
cristãos eram perseguidos e cruelmente assassinados pelo Império Romano por
declararem que somente Jesus é Senhor e Deus. Assim foi até 312 d.C. quando o
imperador Constantino no “Edito de Milão” decretou que os cristãos não deveriam
mais ser perseguidos e que as posses que foram tiradas deles deviam ser
devolvidas. Os cristãos passaram a
viver abertamente sua fé e até se envolveram na administração do império.
TERCEIRO PERÍODO: DE 312 d.C. ATÉ 1517 d.C.
Este período
abrange desde o “Edito de Milão” até a Reforma Protestante. Durante este período
o cristianismo se estabeleceu como a religião oficial nas diversas nações que
estavam sob o domínio do Império Romano.

Durante este
período o cristianismo se distanciou das verdades bíblicas e se perdeu como
religião, contudo, ainda assim, muitos valores cristãos foram estabelecidos
pela igreja sobre as nações pertencentes ao Império Romano.
Até a Reforma
Protestante a Igreja Católica Apostólica Romana era a única instituição cristã
que falava em nome de Deus, exercendo poder até mesmo sobre os reis. Ainda no
inicio dos primeiros anos pós-reforma protestante o mundo buscava em Deus
respostas para suas questões da vida. Deus e a Bíblia eram a fonte da
compreensão da vida e da verdade.
A partir da
reforma podemos dizer que se iniciou o período da desconstrução da ética do
Reino de Deus sob a vida dos indivíduos e das estruturas sociais.
3 – A DESCONSTRUÇÃO DA ÉTICA DO REINO DE
DEUS
Quando
eu falo da desconstrução da ética do Reino de Deus, estou querendo dizer que o
mundo que antes tinha Deus e a Bíblia como fonte da compreensão da verdade e
fundamento para os comportamentos morais e estruturantes da sociedade, começa a
trocar esta fonte de compreensão da verdade e fundamento por outras fontes.
No
século XVII, o filósofo francês René Descartes (1596-1650), chamados por muitos
como o fundador da filosofia moderna, é um dos pioneiros que começa a
questionar as estruturas sociais da idade média, do período feudal. Ele
defendia a tese de que a dúvida era o primeiro passo para se chegar ao
conhecimento. Começou lá um processo de desconstrução. É preciso duvidar,
questionar todas as verdades com o fim de chegar ao conhecimento. Muitos dizem
ser ele o pai do racionalismo.
No
século XVIII, por volta de 1715 surgiu o “Iluminismo”, fruto do pensamento de
Descartes, um movimento intelectual e filosófico que defendia a razão como
principal fonte de autoridade e legitimidade para as questões da vida. Este
movimento defendia entre muitas coisas a liberdade, o progresso, a fraternidade
e a separação da Igreja-Estado.
Os
iluministas afirmavam que o mundo seria muito melhor se fosse construído sob o
paradigma da razão. A verdade passou a ser estabelecida pela razão e pelo senso
comum do que é verdade. A verdade já não vem como revelação de Deus, mas é
construída pelo senso comum da humanidade.
O
filosofo alemão e iluminista Immanuel Kant (1724-1804) diz que o iluminismo
representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se
impuseram sobre si. Ele dizia que os seres humanos criaram para si mesmos
“deuses” ou “religiões” porque se sentiam incapazes de governarem a si mesmos.
O
desafio da modernidade é o ser humano tomar posse de sua vida, de sua história.
A realidade é construída pelo indivíduo e não imposta pelos que detém o poder. O
indivíduo passa a priorizar sua felicidade como realização de vida.
No
século XX surge a era pós-moderna. Por volta de 1950 começamos a viver um novo
momento na historia, uma nova forma de compreender a verdade. O mundo passou a
legitimar a verdade a partir da experiência. Houve uma valorização do ser
humano como centro do mundo. Cada indivíduo determina o que é verdade para si a
partir de sua própria experiência. Em outras palavras a verdade se tornou
subjetiva. Assim o que é verdade para um, pode não ser para outro. A
pluralidade se tornou presente uma vez que tudo pode ser bom, pois o bem e o
mal se tornaram subjetivos. O homem passou a ouvir a si mesmo. Vivemos o tempo
da introspecção.
Dessa
forma a ética do Reino de Deus, o conjunto de valores e comportamentos morais
estabelecidos por Deus deixaram de serem verdades comuns a todos. Elas são
verdades para nós cristãos que devido a nossa experiência pessoal com Jesus nos
submetemos ao Senhorio de Jesus Cristo. Mas o mundo, a ordem que governa sobre
os incrédulos vem desconstruindo a realidade de que Deus e a Bíblia são a fonte
da verdade para os comportamentos morais da sociedade e para a construção do
modelo familiar.
REFLEXÃO FINAL
·
Adão
– Mas o Senhor Deus chamou o homem, perguntando: "Onde está você?"
(Gênesis 3.9)
·
Moisés
- Moisés, porém, respondeu a Deus: "Quem sou eu
para apresentar-me ao faraó e tirar os israelitas do Egito?" (Êxodo 3:11)
Pr. Cornélio
Póvoa de Oliveira
13/08/2023
(noite)
Nenhum comentário:
Postar um comentário