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quinta-feira, 10 de agosto de 2023

SERMÕES 201 - A DESCONSTRUÇÃO DA ÉTICA DO REINO DE DEUS

 A DESCONSTRUÇÃO DA ÉTICA DO REINO DE DEUS

Série: A Ética do Reino de Deus

 

Durante este mês de Agosto estamos refletindo na série “A Ética do Reino de Deus”. O nosso tema de hoje é “A Desconstrução da Ética do Reino de Deus”. Eu gostaria de começar esta série de mensagens relembrando nossa definição sobre ética. Primeiro ponto: O que é ética.

 

1 – O QUE É ÉTICA?

A palavra “ética” é de origem grega, ethos. A palavra ética significa maneiras, hábito, comportamento, modo de ser, caráter. Quando dizemos “aquela pessoa não é ética”, estamos dizendo que ela não tem boas maneiras, que não tem caráter, é destituída de valores morais, que seu modo de ser transgride os padrões morais estabelecidos.

Ø Acredito que podemos definir a ética como o conjunto de regras e valores que fundamentam o comportamento moral de um grupo ou de um indivíduo.

Esse conjunto de regras e valores morais definem quais atitudes são consideradas certas ou erradas. Portanto quando falamos da ética do Reino de Deus estamos falando do conjunto de regras e valores morais que definem quais atitudes são consideradas certas ou erradas aos olhos de Deus.

Ao longo da história humana os valores morais do Reino de Deus foram sendo estabelecidos no mundo através dos judeus e mais tarde estes valores morais foram espalhados pelo mundo através de nós cristãos, seguidores de Jesus, o Cristo de Deus. 

Eu vou tentar de uma forma resumida e bem superficial mostrar como se deu a construção da ética do Reino de Deus sobre a humanidade, para que depois possamos ver como está ocorrendo essa desconstrução em nossos dias.

 

2 – A CONSTRUÇÃO DA ÉTICA DO REINO DE DEUS

Vamos começar falando do como a ética do Reino de Deus se estabeleceu em nosso mundo. Para nos ajudar a refletirmos na construção da ética do Reino de Deus eu vou dividir a história em períodos e vamos estudá-la de uma forma bem generalizada e resumida conforme falei anteriormente.

 

PRIMEIRO PERÍODO: DA CRIAÇÃO AO NASCIMENTO DE JESUS

·      O anseio no coração do homem por Deus e a imoralidade culturizada

Este primeiro período da história humana será caracterizado pelo anseio no coração do homem por Deus e a imoralidade incluída dentro das culturas das diversas civilizações.

Em Gênesis encontramos o relato da criação (Gn 1.1).

1 No princípio Deus criou os céus e a terra. (Gênesis 1.1)

Este primeiro verso da Bíblia nos diz que o nosso planeta não é eterno e que tudo que conhecemos não é eterno, foi criado por Deus de forma intencional. A vida não surgiu como obra do acaso. Por muitos anos a humanidade sempre afirmou que a vida era obra das mãos de Deus.

A queda no Éden deu origem ao pecado e tornou o pecado inerente a natureza do ser humano. O pecado intrínseco na natureza humana levou o ser humano a se distanciar do verdadeiro Deus, mas não conseguiu e não consegue sufocar o desejo do ser humano de se encontrar com seu criador, porque Deus colocou no coração do homem o desejo pela eternidade, conforme lemos em Eclesiastes 3.11.

11 Ele fez tudo apropriado a seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim este não consegue compreender inteiramente o que Deus fez. (Eclesiastes 3:11)

Na busca de apaziguar este desejo da alma pela eternidade o homem cria para si deuses tentando satisfazer este anseio. Entretanto este anseio só pode ser preenchido pelo Eterno.

É relevante observarmos que mesmo o homem se distanciando de Deus e criando falsos deuses para si, a crença de um deus criador sempre esteve presente em todos os povos, de forma que os registros históricos das civilizações mais antigas sempre descrevem a crença destes povos em um deus sustentador da vida.

Os egípcios e os nórdicos tinham seus deuses, os romanos e os gregos também tinham os seus deuses. Desde a criação e o surgimento dos povos o ser humano sempre reconheceu a existência de um deus criador e governador da vida.

De forma natural essa crença foi construindo uma ética comportamental a partir da relação do ser humano com seus deuses. As religiões sempre foram determinantes na construção da ética social dos povos. Elas ditavam os comportamentos morais e imorais de uma civilização. A verdade é que o ser humano sempre viveu em uma relação doentia com estes deuses, uma relação de culpa e medo baseado na meritocracia.

Podemos dizer que via de regra as civilizações criaram deuses para substituir o único Criador e verdadeiro Deus, buscando apaziguar o clamor de suas almas pelo Eterno. Mas ao não reconhecerem o Criador na criação se tornaram indesculpáveis diante de Deus e por isso Ele os entregou as suas próprias paixões vergonhosas, no sentido que os deixou livres para viverem suas paixões pecaminosas e imorais.

O apóstolo Paulo ao escrever sua carta aos irmãos de Roma ele fala sobre essa realidade pervertida que os romanos estavam vivendo, conforme podemos ler em Romanos 1.20-32. Essa realidade estava presente também entre os gregos, persas e outras civilizações. A idolatria anda abraçada com a imoralidade e levou os povos a viverem a imoralidade como algo natural de suas culturas.

Entretanto este período, da criação até o nascimento de Jesus, também é marcado pela manifestação poderosa de Deus na história humana com o fim de prover a salvação da humanidade através de Jesus Cristo.

 

·      Deus se revela a humanidade e estabelece uma aliança com um povo

Lemos em Gênesis 12 que Deus faz uma aliança com Abraão (Gênesis 12.1-3).

1 Então o Senhor disse a Abrão: "Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. 2 "Farei de você um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome, e você será uma bênção. 3 Abençoarei os que o abençoarem, e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra serão abençoados". (Gênesis 12:1-3)

O Deus único e verdadeiro, o Deus que criou os céus e a terra, tomou a decisão de fazer uma aliança com Abraão, um homem, e a partir desta aliança Ele começa a se revelar para nós e a revelar seu plano redentor, com o fim de nos salvar da condenação eterna, pois o pecado no Éden condenou toda a humanidade à morte eterna.

Nós seres humanos somos o ente que têm o privilégio de sermos imagem e semelhança de Deus, isto significa que recebemos de Deus a capacidade de raciocinarmos e livremente tomarmos decisões. Tal condição nos deu a capacidade de alterar e transgredir a Ordem em que a realidade foi estabelecida, e o fizemos no Éden, o que nos tornou o único responsável pela presença do mal em nosso planeta. Portanto, por sermos inteligentes e livres, temos uma relação ética com o Criador, relação esta que passa a estar marcada pela justiça divina que faz com que nós respondamos pelo mal cometido, mas também nos possibilita a reconhecermos a graça salvadora em Cristo Jesus.

A partir de Abraão, Deus constrói um povo, a nação de Israel, com o fim de se revelar as demais nações através deste povo. Na medida em que Deus vai se revelando ao povo de Israel através da Lei e dos Profetas, vai sendo construído a ética estruturante desta cultura e ao mesmo tempo vai sendo revelado a nós à ética do Reino de Deus.

Diferentemente dos outros povos que construíam seus deuses e suas estruturas sociais a partir de si mesmos, a nação de Israel recebeu do Deus criador a forma como deveriam adorá-Lo e como deveriam viver como nação.

 

SEGUNDO PERÍODO: DO NASCIMENTO DE JESUS ATÉ 312 d.C.

Com o nascimento de Jesus o cristianismo começou a ser implantado. Jesus através de sua morte e ressurreição inaugura o período da graça na história humana. Seu sangue derramado na cruz redime a humanidade do pecado no Éden e estabelece o caminho de redenção do homem por meio do sangue vertido na cruz.

Jesus resgata à ética do Reino de Deus fundamentada no amor a Deus e ao próximo que havia sido esquecida pelos religiosos do judaísmo, que passaram a praticar a Lei sem amor e temor. Mateus, discípulo de Jesus registra as seguintes palavras de seu mestre (Mateus 5.20).

20 "Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus". (Mateus 5:20)

Seus discípulos dão continuidade a sua pregação e ao resgate da ética fundamentada no amor a Deus e ao próximo. Os discípulos de Jesus no surgimento da igreja eram conhecidos pelo amor. O livro de Atos nos relata o cuidado que tinham um com o outro de tal forma que ninguém possuía necessidade alguma.

A pregação de Jesus e dos seus discípulos não era bem vista pelo Império Romano, pois a afirmação de que Jesus era Deus e único Senhor sobre tudo e todos feria o ego dos imperadores romanos que se diziam deuses e ordenavam que o povo os adorassem.

Mesmo em meio às muitas perseguições o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo se espalhou por todo o Império Romano, por toda cultura greco-romana.

Os cristãos eram perseguidos e cruelmente assassinados pelo Império Romano por declararem que somente Jesus é Senhor e Deus. Assim foi até 312 d.C. quando o imperador Constantino no “Edito de Milão” decretou que os cristãos não deveriam mais ser perseguidos e que as posses que foram tiradas deles deviam ser devolvidas.  Os cristãos passaram a viver abertamente sua fé e até se envolveram na administração do império.

 

TERCEIRO PERÍODO: DE 312 d.C. ATÉ 1517 d.C.

Este período abrange desde o “Edito de Milão” até a Reforma Protestante. Durante este período o cristianismo se estabeleceu como a religião oficial nas diversas nações que estavam sob o domínio do Império Romano.

 

                                                      

 

Durante este período o cristianismo se distanciou das verdades bíblicas e se perdeu como religião, contudo, ainda assim, muitos valores cristãos foram estabelecidos pela igreja sobre as nações pertencentes ao Império Romano.

Até a Reforma Protestante a Igreja Católica Apostólica Romana era a única instituição cristã que falava em nome de Deus, exercendo poder até mesmo sobre os reis. Ainda no inicio dos primeiros anos pós-reforma protestante o mundo buscava em Deus respostas para suas questões da vida. Deus e a Bíblia eram a fonte da compreensão da vida e da verdade.

A partir da reforma podemos dizer que se iniciou o período da desconstrução da ética do Reino de Deus sob a vida dos indivíduos e das estruturas sociais.

 

3 – A DESCONSTRUÇÃO DA ÉTICA DO REINO DE DEUS

Quando eu falo da desconstrução da ética do Reino de Deus, estou querendo dizer que o mundo que antes tinha Deus e a Bíblia como fonte da compreensão da verdade e fundamento para os comportamentos morais e estruturantes da sociedade, começa a trocar esta fonte de compreensão da verdade e fundamento por outras fontes.

No século XVII, o filósofo francês René Descartes (1596-1650), chamados por muitos como o fundador da filosofia moderna, é um dos pioneiros que começa a questionar as estruturas sociais da idade média, do período feudal. Ele defendia a tese de que a dúvida era o primeiro passo para se chegar ao conhecimento. Começou lá um processo de desconstrução. É preciso duvidar, questionar todas as verdades com o fim de chegar ao conhecimento. Muitos dizem ser ele o pai do racionalismo.

No século XVIII, por volta de 1715 surgiu o “Iluminismo”, fruto do pensamento de Descartes, um movimento intelectual e filosófico que defendia a razão como principal fonte de autoridade e legitimidade para as questões da vida. Este movimento defendia entre muitas coisas a liberdade, o progresso, a fraternidade e a separação da Igreja-Estado.

Os iluministas afirmavam que o mundo seria muito melhor se fosse construído sob o paradigma da razão. A verdade passou a ser estabelecida pela razão e pelo senso comum do que é verdade. A verdade já não vem como revelação de Deus, mas é construída pelo senso comum da humanidade.

O filosofo alemão e iluminista Immanuel Kant (1724-1804) diz que o iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram sobre si. Ele dizia que os seres humanos criaram para si mesmos “deuses” ou “religiões” porque se sentiam incapazes de governarem a si mesmos.

O desafio da modernidade é o ser humano tomar posse de sua vida, de sua história. A realidade é construída pelo indivíduo e não imposta pelos que detém o poder. O indivíduo passa a priorizar sua felicidade como realização de vida.

No século XX surge a era pós-moderna. Por volta de 1950 começamos a viver um novo momento na historia, uma nova forma de compreender a verdade. O mundo passou a legitimar a verdade a partir da experiência. Houve uma valorização do ser humano como centro do mundo. Cada indivíduo determina o que é verdade para si a partir de sua própria experiência. Em outras palavras a verdade se tornou subjetiva. Assim o que é verdade para um, pode não ser para outro. A pluralidade se tornou presente uma vez que tudo pode ser bom, pois o bem e o mal se tornaram subjetivos. O homem passou a ouvir a si mesmo. Vivemos o tempo da introspecção.

Dessa forma a ética do Reino de Deus, o conjunto de valores e comportamentos morais estabelecidos por Deus deixaram de serem verdades comuns a todos. Elas são verdades para nós cristãos que devido a nossa experiência pessoal com Jesus nos submetemos ao Senhorio de Jesus Cristo. Mas o mundo, a ordem que governa sobre os incrédulos vem desconstruindo a realidade de que Deus e a Bíblia são a fonte da verdade para os comportamentos morais da sociedade e para a construção do modelo familiar.

 

REFLEXÃO FINAL

 

·        Adão – Mas o Senhor Deus chamou o homem, perguntando: "Onde está você?" (Gênesis 3.9)

 

·        Moisés - Moisés, porém, respondeu a Deus: "Quem sou eu para apresentar-me ao faraó e tirar os israelitas do Egito?" (Êxodo 3:11)

 

Pr. Cornélio Póvoa de Oliveira

13/08/2023 (noite)

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