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By Ferramentas Blog

quinta-feira, 25 de abril de 2013

ESTUDO TEOLÓGICO 1 - A AUTOCONSCIÊNCIA CARISMÁTICA NAS IGREJAS NEOTESTAMENTÁRIAS (I): UMA EXEGESE DE ROMANOS 12.1-8


A AUTOCONSCIÊNCIA CARISMÁTICA NAS IGREJAS NEOTESTAMENTÁRIAS (I): UMA EXEGESE DE ROMANOS 12.1-8*

Prof. Guilherme Vilela Carvalho

ABREVIATURAS/BIBLIOGRAFIA


ARA
Bíblia Almeida Revista e Atualizada, 2a. edição, 1993, Sociedade Bíblica do Brasil.
BJ
Bíblia de Jerusalém, 1991, Edições Paulinas.
CL**
Chave Linguística do Novo Testamento Grego, de Fritz Rienecker e Cleon Rogers; trad. Gordon Chown e Júlio Paulo Zabatiero (EVN, 1985).
GD**
Léxico do NT Grego/Português, de Wilbur Gingrich e Frederick W. Danker, trad. Júlio P. T. Zabatiero (EVN, 1984).
NDITNT
Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, eds. Lothar Coenen e Colin Brown, 4 vols (EVN, 1981-84).
LaSor
W. S. LaSor, Gramática Sintática do Grego do Novo Testamento (EVN, 1990).
NVI
Nova Versão Internacional - Novo Testamento, 1996, Sociedade Bíblica Internacional.
RV
Bíblia Almeida Revisada de Acordo com os Melhores Textos, 1967, Imprensa Bíblica do Brasil.
Schreiner
Thomas R. Schreiner, Interpreting the Pauline Epistles (Grand Rapids, Baker, 1990).
TEB
Tradução Ecumênica da Bíblia, 1994, Edições Loyola.
UBS
The Greek New Testament, Fourth Edition, 1996, United Bible Societes.
Wenham***
J. W. Wenham, The Elements of New Testament Greek (Cambridge, 1967).

NOTAS:
* este estudo é parte de uma série a respeito dos dons espirituais no Novo Testamento.
** todas as definições léxicas são derivadas de GD e CL.
*** embora não seja citado no corpo do escrito, o livro de Wenham foi utilizado para as análises gramaticais.

I. INTRODUÇÃO


O presente estudo é parte das pesquisas dentro da literatura paulina que tem como objetivo a reconstrução de uma teologia paulina dos dons espirituais. Um dos passos da pesquisa consistiu da exegese dos textos paulinos que tratam do assunto - no caso presente, Romanos 12.1-8.

O estudo do texto mostrou que os dons espirituais eram um importante sinal da qualidade e saúde da comunidade, e Paulo lançava mão deles estratégicamente na correção e edificação da comunidade. O ponto que buscaremos demonstrar através da interpretação do texto é o seguinte: no que se refere à vida comunitária, o grau de consciência e orientação carismática no ministério dos membros é um dos sinais da renovação de mentalidade sob o evangelho.


II. EXEGESE DE RM 12.1-8



12.1 Parakalw~ ou^&n uJmaV , a*delfoiv, diaV tw~n oi&ktirmw~n tou~ qeo~u, parasth`sai taV sw~mata uJmwn qusivan zw~san aJgivan eujavreston tw~/ qew~/, thvn logikhVn latreivan uJmw~n:

Notas léxico-gramaticais

1.                 Parakalw~, presente ind.at. 1.p.sg. parakalevw, "Rogo";
2.                 ou^&n, conj.coord. "pois", ou "então";
3.                 uJmaV , Pron. acus. 2.p.pl. "a vós";
4.                 a*delfoiv, subs. nom pl. "irmãos";
5.                 diaV, prep. gen. "por meio";
6.                 oi&ktirmw~n, subs. gen. pl. "misericórdias";
7.                 qeo~u, subs. gen. sg. "de Deus";
8.                 parasth`sai, inf. aor. parivsthmi, "apresentar";
9.                 sw~mata, subs. acus. pl. "corpos";
10.             uJmwn, pron. gen. 2.p.pl. "de vós, vossos";
qusivan, subs. acus. sg. "sacrifício";
·                    zw~san, part. pres. at. zaVw, "vivente";
·                    aJgivan eujavreston, adj. acus. sg., "santo ; agradável";
·                    qew~/, subs. dat. sg., "a Deus";
·                    logikhVn, adj. acus. sg. logikoVV , "racional"/"espiritual";
·                    latreivan, subs. acus. sg. "culto";
·                    uJmw~n, pron. gen. 2.p.pl. "vosso".

Sintaxe
O verso apresenta duas orações coordenadas relativas, sem conjunção coordenativa(1). A primeira oração se liga também coordenativamente à última oração do capítulo 11, pela conjunção "pois"; "eu vos exorto" é a idéia principal, motivada "pelas misericórdias de Deus" (objeto indireto genitivo). "irmãos" é um aposto.
A segunda oração é coordenada aditiva da primeira oração do vs 2. Tem como idéia central a expressão "apresenteis os vossos corpos a Deus como sacrifício"; "[como] sacrifício" é um complemento do objeto "corpos", e "vivo, santo e agradável" é uma locução adjetiva referente ao complemento "sacrifício"; a expressão "o vosso culto racional" é uma locução apositiva, sendo "vosso" e "racional" adjetivos de "culto".

Tradução
Por isso eu vos exorto, irmãos, por causa das misericórdias de Deus, a que apresenteis os vossos corpos [como] sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, [que é] o vosso culto espiritual.

Versões
As versões RV e ARA são bastante semelhantes na tradução (a diferença apenas em "vosso corpo", contra o plural da RV, mas por razões estéticas). TEB expressa com maior exatidão o teor do texto: "... vos oferecerdes a vós mesmos..." - o leitor percebe com mais clareza o que Paulo quer dizer com sw~mata. RV, ARA e BJ iniciam o texto com o verbo (parakaleo) seguindo o original; apenas a NVI põe a conjunção no início, para ressaltar a relação do cap 12 com o argumento total dos capítulos anteriores.
Todas as versões reconhecem na expressão thvn logikhVn latreivan uJmw~n uma expressão apositiva (cf. CL, acusativo referente ao objeto qusivan); RV e ARA seguem o texto UBS colocando a vírgula; NVI, BJ e TEB preferem destacar o aposto usando "dois pontos"(:), sendo que a última constrói uma oração para alcançar o máximo de clareza: "este será o vosso culto espiritual".
BJ traduz qusivan como "hóstia" (sacrifício em RV, ARA e NVI), bastante sugestiva para um católico, mas não muito clara do ponto de vista da figura bíblica (paulo não tem em mente uma missa, mas o serviço sacerdotal judaico!). Difere ainda das outras ao traduzir, juntamente com a TEB, o adjetivo logikoVV como "espiritual", onde as outras vertem "racional". A CL admite essa possibilidade, embora tenha como sentido primário "o que pertence ou é relativo à razão". GD também dá o significado "espiritual" para o termo.

Comentário
Por isso eu vos exorto, irmãos, Paulo principia nesse verso uma extensa aplicação prática ou parênese, como indica o subtítulo da BJ, que se baseia na instrução anteriormente transmitida. A partícula ou^&n (pois) "refere-se ao resultado do argumento como um todo(2)" por causa das misericórdias de Deus é certamente uma referência ao conteúdo dessa instrução; Paulo discorreu longamente a respeito do evangelho da graça(3), e essa compreensão agora se torna o poder por meio do qual as exortações deverão tomar posse dos leitores ("pelas" não significa "em favor de" mas "por meio de" pois temos a preposição com genitivo diaV tw~n). a que apresenteis os vossos corpos como sacrifício O termo parivsthmi significa literalmente "pôr à parte" para qualquer propósito(4); em Lc 2.22,23 significa o mesmo que "santificar" ou "consagrar". Era usado para a apresentação de um sacrifício, o que cabe bem em nosso texto.
O termo qusia (sacrifício) era usado para o culto judaico, tanto para o sacrifício expiatório como para o sentido de culto e adoração(5). O contexto aponta para esse sentido (culto racional) e o uso paulino do termo, mesmo ao se referir à obra de Cristo é o cúltico (cf. Ef 5.2; Fp 2.17; 4.8; 1Co 10.18). Paulo usa a figura do sacrifício para referir-se à consagração de vida que se gasta e até mesmo se consome no serviço divino: "É a vida, e não o ritual, que agora é o verdadeiro sacrifício do povo de Deus." (6)
` Swvmata (corpos) é popularmente entendido como "o corpo físico", mas em Paulo o termo é usado para referir-se à existência humana como um todo(7). Não que o termo não envolva o aspecto material; mas Paulo segue o pensamento do AT segundo o qual a vida humana não é outra coisa senão somática, i.é, uma vida em relação com o mundo "natural"; assim, a salvação em Paulo não é o "vôo da alma", mas a ressurreição e o corpo celeste (1Co 15). Como em outros lugares (cf. Rm 6.12; 1Co 9.27) o corpo é a existência humana completa, mas com referência especial à sua relação com o mundo. Desse modo, Paulo pede que os romanos consagrem tudo o que são, não meramente como pessoas religiosas, ou quanto à vida interior, mas todo o seu conjunto de capacidades naturais e relações naturais da vida presente.
vivo, santo e agradável a Deus A expressão "sacrifício vivo" parece ter a intenção deliberada de causar impressão; a idéia é de um viver que se consome tal qual o sacrifício, no culto, mas sem deterioração ou extinção; e portanto, contínuo. Trata-se de um viver de dedicação e oferta. "Santo" significa evidentemente, consagrado e separado para Deus; desse modo, a vida presente, em toda a sua plenitude, deve ser "sagrada" e vivida como pertencente à divindade e tendo seu fim último no prazer e serviço divino(8). Portanto, "agradável", pois se ocupa de satisfazer a Deus ou dar-lhe prazer, como o animal queimado cuja fumaça sobe a Deus como "cheiro suave". Somente a consagração plena aqui referida poderá realmente agradar a Deus (cf. Rm 8.8). que é o vosso culto racional. latreia é realmente o culto e a adoração, e não propriamente o "serviço", o que nos dá um sentido interessante; o culto é muito mais que atos específicos e rituais de adoração e louvação. A adoração cristã deve ser a expressão de toda uma vida; ou a vida inteira consiste dum ofertório(9). Quanto ao sentido de logikoVV há dificuldades. BJ traduz "espiritual", enquanto as outras trazem "racional". RV, no entanto, traz em 1Pe 2.2 "leite espiritual" para o mesmo termo (logikon). A palavra é composta do adjetivo logioV (cf. At 18.24) com o prefixo -koVV , "o que é próprio de", "relativo a", "com as características de". Assim, "o que pertence à razão", ou "racional". O uso no grego secular destacava não somente a relação com a razão humana, mas, devido à oposição entre esta, como função do espírito, e o corpo, o caráter "espiritual" ou "não material". Tanto em 1Pe 2.2 como em Rm 12.1, seria possível entender a palavra no primeiro sentido, "racional". Assim o culto a Deus deve ser "inteligente" e "consciente". Em 1Pe 2.2 o sentido não fica muito bom (leite inteligente? ou leite apropriado à razão?). Nada há no contexto que recomente uma preocupação com a razão por parte de Pedro.
É verdade que em Rm 12.1-3 Paulo parece dar importância ao papel da mente especialmente no vs 2 (nouV ); no vs 3 fala sobre o "pensar". Entretanto, nouV pode ter o sentido ético, como o conjunto de atitudes e disposições (e.g. 1Co 2.16; Ef 4.17,18. Cf. rodapé, nota 18). Além disso, o "pensar" no vs 2 signfica a autoconsciência e atitude racional para consigo mesmo(10).
O sentido de "espiritual" como referente à autenticidade religiosa é adequado ao texto; no caso, após usar a figura do sacrifício para descrever a consagração cristã, Paulo procura afirmar que esse culto não é realizado com práticas rituais ou sacrifícios literais, mas interiormente. Tratar-se-ia então de um "culto espiritual", em oposição ao culto ritual(11). Não que Paulo estivesse negando o caráter "somático" do culto, mas destacando a participação autêntica da pessoa no culto que se realiza nela, e não no ritual externo. "A liturgia é a vida" (12).
Não podemos nos esquecer de que toda a expressão é apositiva, funcionando como uma descrição da natureza daquela consagração de vida inteira a Deus. Entende-se que o culto não consiste de um sacrifício de animais e atos rituais, mas de um viver de consagração prática, enraizado numa entrega plena e autêntica da vida em adoração a Deus.

12.2 kaiV mhV suschmativzesqe tw`/ ai*w`ni touvtw/, a*llaV metamorfou`sqe th`/ a*nacainwvsei tou` noovV , ei&V toV dokimavzein u&maV tiv toV qelhma tou` qeou`, toV a*gaqoVn kaiV eu*avreston kaiV tevleion.

Notas léxico-gramaticais

1.                kaiV, conj. coord. "e";
2.                mhV, Adv. negação "não;
3.                suschmativzesqe, pres. imp. pass. 2.p.pl. suschmativzw, "vos deixeis mais conformar", "sede ainda conformados";
4.                tw`/ ai*w`ni, subst. dat. sg. ai*w`n, "era", "século";
5.                touvtw/, pron. demonstr. neut. sg. "esta";
6.                a*llaV, conj. coord. "mas";
7.                metamorfou`sqe, pres. imp. pass. 2.p.pl. metamorovw, "sede transformados continuamente";
8.                th`/ a*nacainwvsei, subs. dat. sg. a*nakainosiV , "pela renovação";
9.                noovV , subs. gen. sg. noovV , "mente", "disposição mental";
10.            ei&V , prep. gen. "a fim de que";
11.            toV dokimavzein, inf. pres. dokimazw "reconhecer", "discernir";
12.            u&maV , pron. pessoal acus. pl. "a vós";
13.            tiv, pron. interrogativo "qual";
14.            qelhma, subs. acus. sg. "vontade";
15.            qeou`, subs. gen. sg. "de Deus";
16.            a*gaqoVn, adj. acus. neut. sg. "boa";
17.            eu*avreston, adj. acus. neut. sg. "agradável";
18.            tevleion, adj. acus. neut. sg. "perfeita".

Sintaxe
Temos nesse versículo duas orações coordenadas e uma subordinada à segunda. A primeira oração está também em coordenação aditiva(13) com a segunda do vs 1, pela conjunção "e". A idéia principal da primeira é o "não se deixem conformar".
O segundo período está em oposição ao primeiro (coordenação disjuntiva(14)), e é composto por subordinação. A idéia principal é "deixem-se transformar", o que se dará através da "renovação da vossa mente" (objeto direto dativo instrumental).
A segunda oração é uma subordinada adverbial final (finalidade ou propósito) preposicional, modificando o verbo metamorfou`sqe, definida pela preposição "para [que]". A própria oração é subordinada reduzida do infinitivo (por ser o verbo principal infinitivo). A idéia principal é o propósito da transformação, o discernimento da vontade de Deus. Segue-se à oração, novamente, uma locução apositiva referente a "vontade de Deus" (objeto da oração anterior), que descreve por adjetivos essa vontade.

Tradução
E não vos deixeis mais conformar com a presente era, mas sede transformados por meio da renovação da [vossa] mente, para que [assim fazendo] possais discernir qual [seja] a vontade de Deus, [que é] boa, agradável e perfeita.

Versões
Os verbos "conformar" e "transformar" estão no modo passivo, como na tradução literal acima. RV, ARA, BJ e NVI não vêem aí qualquer particularidade, traduzindo no ativo. Apenas a TEB se distingue traduzindo o segundo verbo no passivo: "sede transformados".
O termo ai*w~n é traduzido como "mundo" em RV, BJ e NVI; embora seja uma possibilidade, no contexto brasileiro pode levar a compreensão errada(15). ARA traduz mais literalmente ("este século"), e a TEB é a mais precisa ao qualificar temporalmente o "mundo" ("o mundo presente").
O verbo dokimavzein significa "provar por meio de teste", "aceitar como provado após o teste"(16), e daí, "verificar". RV e ARA buscam expressar essa nuance vertendo "experimenteis". NVI pretende ser mais clara em evidenciar que a "prova" ou "teste" envolve reconhecimento e aceitação, traduzindo "experimentar e comprovar". BJ e TEB traduzem dokimavzein [...] tiv como "discernir qual", enfatizando o primeiro aspecto do processo, a prova ou o teste em si (ênfase portanto inversa à a NVI). Essa última escolha provavelmente é melhor devido ao pronome interrogativo tiv , que limita o sentido de dokimavzein.
Embora RV, ARA e NVI não dêem destaque a isto, o que temos, provavelmente, na expressão toV a*gaqoVn kaiV eu*avreston kaiV tevleion é um aposto semelhante ao do vs1, com o fim de ressaltar o caráter elevado da vontade de Deus; nesse caso BJ e TEB são mais fiéis ao original, ao menos quando o seguem pondo os adjetivos no fim do verso; possivelmente isso também é resultado do sentido atribuído a dokimavzein.
O sentido final de BJ e TEB fica um pouco diferente das outras: em RV, ARA e NVI o aposto indica qualidades que reconhecemos na vontade de Deus depois ou no ato de "experimentá-las"; nas primeiras, os adjetivos indicam os sinais que nos capacitam a "reconhecer" ou "discernir" a vontade de Deus.
Comentário
E não vos deixeis mais conformar marca o início de outra exortação de Paulo. O passivo presente indica que os leitores já tem estado involuntariamente sob pressão ético-religiosa e influência do mundo; deles se pede uma reação ativa e uma resistência a esse amoldamento forçado. com a presente era, tem claro sentido escatológico. Paulo usa o termo aiw`n para referir-se não propriamente ao mundo como situação física, mas como momento em relação a Deus, e portanto, como momento escatológico (1Co 1.20; 2.6,8; 3.18; 10.11). A era presente é um tempo de alienação que está findando desde que o tempo da salvação já chegou (2Co 5.17). É esta realidade decadente à qual a sociedade atual pertence que pressiona os crentes. mas sede transformados por meio da renovação da [vossa] mente, é o mandamento positivo posto diante dos leitores. Tal como a pressão modeladora do mundo, a obra do Espírito não depende da vontade humana para iniciar; mas os crentes devem responder ao Espírito cooperando com Ele em sua obra. Fica claro ainda que o produto - a transformação - não é nunca heroísmo ético e religioso que glorifica o homem, mas algo que ainda que difícil e desafiante, é natural e não forçado. O meio para se colocar sob tal força transformadora é a renovação da mente. Envolve esta tanto um elemento intelectual, cognitivo-reflexivo (1Co 14.14,15, "entendimento") como a atitude mental, o posicionamento e avaliação emocional daquilo que é conhecido-pensado, a própria escolha pessoal(17) (1Co 2.14,16; 2Co 4.4; Ef 4.17,18) (18). A renovação da mente é portanto algo próximo de um arrependimento contínuo; uma progressiva autocompreensão e cosmocompreensão a partir do evangelho e sob a influência do Espírito, de modo que o crente seja capaz de perceber com clareza a natureza das coisas, discernindo o mal como algo verdadeiramente ruim, e compreendendo a beleza e superioridade do bem. É mais do que mudança de idéias; é uma renovação das percepções espirituais; é uma aquisição de discernimento espiritual. para que [assim fazendo] possais discernir qual [seja] a vontade de Deus, O que significa dokimavzein no texto? Embora o termo possa ter a nuance de "experimentar", e de fato o uso Paulino favoreça um sentido positivo de "avaliação positiva"(19), essa palavra pode obscurecer o sentido na medida em que não evidencia o aspecto de juízo crítico e avaliação por que é comunicado, e não considera o fato de que o pronome interrogativo modifica o sentido ao incluir a dúvida - a idéia não concorda com "experimentar", pois essa última idéia pressupõe que a dúvida foi vencida. Além disso, o contexto anterior favorece o sentido de "discernimento". A idéia então é que a renovação da mente estimula o discernimento da vontade de Deus, na aquisição da capacidade de identificar e responder positivamente a Ela. [que é] boa, agradável e perfeita. O aposto tem a intenção de identificar as características da vontade de Deus: trata-se de algo perfeitamente útil e significante, eticamente válido e capaz de produzir em nós certo prazer e satisfação. Isso é o sinal das coisas de Deus. O discernimento espiritual capacita o crente a identificar a vontade de Deus justamente porque esta vai lhe parecer valiosa e cheia de sentido.

12.3 Levgw gaVr diVa th~V cavritoV th~V doqeivseV moi pantiV tw/~ o!nti e*n u&mi~n mhV u&perfronei`n par *o] dei~ fronei`n, a*llaV fronei`n ei*V toV swfronei`n, e&kavstw/ w&V o& qeoVV e*mevrisen mevtron pivstewV .

Notas léxico-gramaticais

19.            Levgw, pres. ind. at. 1.p.sg. "digo";
20.            gaVr, conj. coord. "pois";
21.            diVa, prep. gen. "pela";
22.            cavritoV , subs. gen. sg. "graça";
23.            doqeivseV , part. aor. pass. divdomi, "concedida";
24.            moi, pron. pessoal dat. sg. "a mim";
25.            pantiV, pron. dat. sg. "a todo";
26.            o!nti, part. pres. dat. sg. "[que] é, tem estado";
27.            e*n, prep. dat. "entre";
28.            u&mi~n, pron. dat. 2.p.pl. "vós";
29.            mhV, adv. neg. "não";
30.            u&perfronei`n, inf. pres. at. , "ser altivo", "pensar alto demais acerca de si mesmo";
31.            par *o] dei~, composição: prep. acus. (para) + pron. rel. (o]) + verbo impessoal (dei`), "além do que é necessário";
32.            fronei`n, inf. pres. at., "pensar";
33.            a*llaV, conj. coord. "mas";
34.            ei*V , prep. acus.,"para";
35.            swfronei`n, inf. pres. at. sofrwnevw, "ser sóbrio";
36.            e&kavstw/, adj. dat. sg. "cada um";
37.            w&V , conj. subord. comparativa "conforme";
38.            qeoVV , subs. nom. sg., "Deus";
39.            e*mevrisen, aor. ind. at. 3.p.sg. merivzw, "concedeu";
40.            mevtron, subs. neut. nom. "medida";
41.            pivstewV , subs. gen. neut. sg. pivstiV "da fé".
.

Sintaxe
O verso 3 é composto de duas orações principais, coordenadas disjuntivamente pela conjunção a*llaV; as duas juntas estão coordenadas explicativamente(20) com o vs 2 pela conj. gaVr. Cada oração, por si, tem uma oração subordinada.
A primeira oração principal tem como verbo principal levgw, com dois objetos indiretos, um genitivo (diVa th~V cavritoV th~V doqeivseV moi) e um dativo (pantiV tw/~ o!nti e*n u&mi~n). O particípio do objeto genitivo tem função de adjetivo atributivo(21). mhV u&perfronei`n par *o] dei~ fronei`n é uma oração subordinada reduzida do infinitivo(22), e a expressão "além do [que é] necessário pensar" é um objeto direto infinitivo(23).
A segunda oração principal é também reduzida do infinitivo (verbo principal fronein) com um obj. indireto infinitivo (ei*V toV swfronei`n), e liga-se pela conjunção subordinativa conformativa w&V à oração subordinada substantiva objetiva direta conformativa(24), cuja idéia principal é fato de Deus repartir a fé.

Tradução
Pois eu digo, pela graça a mim concedida, a cada um de vós [que] não pense de si mesmo além do que convém pensar, mas pense [cada um] de modo a ser sóbrio, segundo a medida da fé [que] Deus repartiu [a cada um].

Versões
Tanto RV como ARA traduzem gaVr como "porque". Nesse caso o que é dito no vs 3 (e 4) deve ser a causa do dito no vs 2. Mas fica difícil encontrar relação lógica e a conjunção fica com função retórica. BJ e TEB simplesmente omitem na tradução(25). A NVI traduz de modo semelhante a RV e ARA ("pois"). Na tradução optei pelo sentido inferencial(26), "portanto", ou "assim". Nesse caso, pode-se fazer uma relação satisfatória entre o vs 2 e o 3, considerando 3ss como aplicação do princípio geral dado em 1.1,2.
` A TEB adota um caminho diferente ao traduzir o jogo de palavras em torno de fronevw:"não tenhais pretensões além do que é razoável, sede bastante razoáveis para não serdes pretensiosos" e deixou mais claro o sentido de finalidade em ei*V toV swfronei`n, que é importante ao indicar que no texto a sobriedade é o resultado de se pensar de acordo com a fé concedida por Deus.

Comentário
Pois eu digo, pela graça a mim concedida, a cada um de vós [que] não pense de si mesmo além do que convém pensar, Para Paulo o apostolado não era fruto de sua personalidade, mas da vocação e graça de Deus. É essa graça que confere a Paulo o direito de falar (2Co 13.10). E ele fala a respeito de ter um autoconceito fora da realidade, acima do que é na verdade - o complexo de superioridade. O conectivo deixa claro que o tema com o qual agora ele lida está em continunidade, como uma aplicação do ensinado anteriormente, ou seja: renovação mente e discernimento espiritual significam que passo a avaliar-me e me compreender corretamente. mas pense [cada um] de modo a ser sóbrio, ou pense cada um com tal discernimento que venha a ter uma imagem pessoal consistente e realista; que compreenda o que é e onde pode chegar, e se livre de extremos. Não existe fronevw(27) neturo; sempre nossas opiniões estão carregadas de sentido ético-religioso. segundo a medida da fé [que] Deus repartiu [a cada um]. Do que Paulo está falando? de 1) da fé como princípio de existência comum que deve ser seguido por todos? 2) como a doutrina/crença de todos (analogia fidei)?; 3) como um modo de descrever a dádiva específica de Deus a cada um? O fato de Paulo só se referir à fé no sentido 2) bem amis tarde, nas pastorais, torna este princípio improvável. O sentido mais provável, entre 1) e 3) é 3), como veremos mais adiante.

12.4 kaqavper gaVr e*n e&niV swvmati pollaV mevlh e!comen, taV deV mevlh pavnta ou* thVn au*thVn e!cei pra`xin,

Notas léxico-gramaticais

42.            kaqavper, conj. coord. "assim como";
43.            gaVr, conj. coord. "pois";
44.            e*n, prep. dat. "em";
45.            e&niV, adj. num. cardinal dat. "um";
46.            swvmati, subs. dat. sg. "corpo’;
47.            pollaV, adj. acus. pl. "muitos";
48.            mevlh, subs. acus. neut. pl. mevloV "membros";
49.            e!comen, pres. ind. at. 1.p.pl. "tem";
50.            deV, conj. coord. "e";
51.            pavnta, adj. nom. neut. pl. "todos";
52.            ou*, adv. neg. "não";
53.            au*thVn, pron. pessoal acus. fem. 3.p.sg. "a mesma";
54.            e!cei, pres. ind. at. sg. "tem";
55.            pra`xin, subs. acus. neut. sg. "função".


Sintaxe
O verso 4 é composto de duas orações coordenadas aditivas (conj. deV). A primeira é uma oração com sujeito "nós" oculto(28), um objeto direto acusativo (pollaV mevlh) e um objeto indireto dativo (e*n e&niV swvmati). Na segunda oração pavnta é adjetivo do sujeito taV mevlh e o pronome au*thVn tem função intensiva(29) ("mesma").
As duas orações coordenadas são regidas pela conjunção subordinativa comparativa kaqavper, sendo assim orações subordinadas comparativas. A oração principal encontra-se no verso 5, desde que a conjunção se refere ao verbo e*smen. Duas idéias são expressas: 1) em um único corpo há muitos membros; 2) os membros não tem todos a mesma função.

Tradução
Pois assim como em um único corpo temos muitos membros, e os membros não tem todos a mesma função,

Versões
Pouca diferença há entre as versões nesse versículo. Onde BJ, ARA e RV lêem "em um corpo", NVI traz "cada um de nós tem um corpo", provavelmente enfatizando a partir do verbo e!comen que Paulo não fala de um corpo "qualquer" mas do corpo de cada um de nós.
ARA e RV trazem "nem todos tem a mesma função"; BJ, TEB e NVI trazem "não tem todos a mesma função". Há uma pequena diferença de nuance; na primeira, muitos com a mesma função é uma possibilidade (embora não a regra); na segunda, simplesmente se afirma que cada um tem uma função distinta. Esse último caso parece se conformar melhor ao contexto, que enfatiza a diversidade, e além disso é a tradução mais literal de pavnta ou* thVn au*thVn e!cei pra`xin.

Comentário
Pois assim como em um único corpo temos muitos membros, e os membros não tem todos a mesma função, No versículo 4 temos o desenvolvimento de nova etapa no argumento de Paulo, iniciado no vs 3. O "pois" indica que o que temos aqui em diante é uma explicação da afirmação do vs 3, ou seja, do fato de que devemos pensar de acordo com a fé que Deus repartiu a cada um. Para facilitar o entendimento, faremos aqui uma exposição do argumento total.
O verso nos faz duas afirmações: 1) um só corpo tem muitos membros; 2) os membros não tem todos a mesma função. Temos portanto duas ênfases: a unidade na pluralidade e a diversidade de funções. As duas juntas compõe o período que está em subordinação comparativa ao do vs seguinte (5), o que exige que ambas as afirmações recebam sua contraparte explicativa na segunda parte. Ora, a oração principal no vs 5 tem uma clara ênfase na unidade, correspondendo portanto à primeira oração do vs 4. Precisamos portanto encontrar a contraparte explicativa da segunda oração do vs 4 depois do vs 5 - de fato, nós a temos no vs 6. Ele começa com uma oração que é coordenada disjuntiva do vs 5, e sua ênfase é na diversidade. É portanto logicamente necessário e gramaticalmente possível entender que o vs 6a é a conclusão do pensamento iniciado no vs 4.
Desde que em 6b Paulo já encerrou o sub argumento iniciado no vs 4 e passa a discutir os carismas individualmente, podemos esperar que os vs 4 a 6a constituem um todo completo; além disso, sabemos que esse texto é uma explicação, por parte de Paulo, de sua exortação ao pensar de acordo com a medida da fé; finalmente, sabemos que de 6b em diante a ênfase é na diversidade, sendo que Paulo retoma a idéia de medida/regra de fé aplicando ao caso específico da profecia.
Qual é a idéia principal do texto? A expressa na conclusão: Nela Paulo faz uma afirmação da diversidade e a utiliza para fazer uma exposição prática a partir do vs 6. Portanto o contraste unidade/diversidade é usado, em 4-6a, por Paulo, para dar ênfase à diversidade; este é o argumento. Isso explica porque Paulo não fala de unidade até o final do parágrafo (vs 8), mas apenas sobre a diversidade de dons.
Finalmente, desde que 4-6a é uma explicação parentética do "pensar segundo a medida da fé", devemos entender que a "medida da fé" não é imediatamente um fator de unidade, mas de diversidade. A "medida da fé não pode ser, portanto, a "analogia fidei" nem a fé cristã como estatuto geral de existência, mas como a fé que Deus concedeu a cada um, no sentido subjetivo. A retomada de uma expressão semelhante em 6b, após o parêntese (analogia da fé) deve ser entendida como uma retomada de 3c tendo exatamente o mesmo sentido de fé subjetiva.

12.5 ou@twV oi& polloiV e@n sw`mav e*smen e*n Cristw`/, toV deV kaq *ei%V a*llhvlwn mevlh.

Notas léxico-gramaticais

56.            ou@twV , adv. "assim", "portanto";
57.            polloiV, adj. pron. nom. pl. "[os] muitos";
58.            e@n, adj. cardinal nom. sg. "um";
59.            sw`mav, subs. nom. sg. "corpo";
60.            e*smen, pres. ind. at. 1.p.pl. ei*mi, "nós somos"
61.            e*n, prep. dat. "em";
62.            Cristw`/, subs. dat. sg. "Cristo";
63.            deV, conj. coord. "e";
64.            kaq *ei%V , prep. acus (kaq) + adj. pron. cardinal nom "individualmente".
65.            a*llhvlwn, pron. recíproco gen. "uns dos outros";
66.            mevlh, subs. acus. neut. pl. "membros".

Sintaxe
"ou@twV oi& polloiV e@n sw`mav e*smen e*n Cristw`/" é a oração principal que rege as subordinadas comparativas do vs 4; Liga-se aos vs 3 e 2 pela conjunção coord. explicativa gaVr, e é uma oração nominal (verbo e*smen).
A oração principal está coordenada aditivamente (conj. coord. deV) com outra oração nominal: toV kaq *ei%V a*llhvlwn mevlh. A segunda oração está com o com verbo elipsado. Cada oração expressa uma idéia principal: 1) os muitos membros formam um único corpo; 2) individualmente somos membros uns dos outros.

Tradução
assim nós, sendo muitos, somos um único corpo em Cristo e individualmente membros uns dos outros.

Versões
O adjetivo substantivado oi& polloiV, "os muitos" não fica claro se vertido literalmente. Uma vez que a intenção é contrastar a diversidade ("os muitos") à unidade do corpo ( ) justifica-se o acréscimo de "embora" (RV) , "conquanto" (ARA). Por outro lado, isso pode obscurecer o contraste entre os vs 5 e 6 ao ressaltar o leve contraste dentro do vs 5 (transformando o sujeito "os muitos" numa oração coordenada concessiva(30), "embora [sejamos] muitos") e enfraquecer a simetria dos dois versículos. Nesse caso é preferível seguir BJ, NVI e TEB (que tem uma posição intermediária), apenas afirmando que há muitos membros sem ressaltar o contraste.
RV e NVI traduzem kaq *ei%V ("individualmente", e "cada um") e as outras omitem o termo; com exceção da TEB, que tem uma traducão inusitada: "cada um no que lhe cabe". Aparentemente quer transmitir o mesmo que RV e NVI, mas corre o risco de ser mal entendida (seria "cada um a seu próprio modo"?).

Comentário
assim nós, sendo muitos, somos um único corpo em Cristo. Paulo se utiliza da imagem do corpo para expressar seu ensino da unidade na diversidade. Ele escreve esse texto depois da carta aos Coríntios, do que podemos esperar que ele esteja dizendo basicamente a mesma coisa que em 1Co 12.12. Nunca é demais ressaltar que para Paulo a unidade da igreja tem sua causa e realidade na pessoa de Cristo; e individualmente membros uns dos outros aponta para a dependência mútua e para a consciência de compromisso fraternal que devemos ter uns para com os outros.

12.6. e!conteV deV carivsmata kataV thVn cavrin thVn doqei`san h&mi`n diavfora, ei!te profhteivan kataV thVn a*nalogivan th`V pivstewV ,

Notas léxico-gramaticais

67.            e!conteV , part. pres. at. nom. pl. e!cw "tendo";
68.            deV, conj. coord. disj. "porém";
69.            carivsmata, subs. acus. pl. "dons";
70.            kataV, prep. acus. "segundo";
71.            cavrin, subs. acus. fem. sg. "graça";
72.            doqei`san, part. aor. at. acus. divdwmi, "concedida";
73.            h&mi`n, pron. pessoal dat. 1.p.pl. "a vós";
74.            diavfora, adj. acus. pl. "diferentes";
75.            ei!te, conj. subord. condicional. "se";
76.            profhteivan, subs. acus. fem. sg. profhteia, "profecia";
77.            a*nalogivan, subs. acus. sg. "de acordo com", "conforme"; ou "em proporção à";
78.            pivstewV , subs. gen. sg. "da fé",

Sintaxe
O vs 6 tem um total de três orações. A primeira, e!conteV deV carivsmata kataV thVn cavrin thVn doqei`san h&mi`n diavfora está em coordenação com a oração principal anterior (vs 5). É uma oração participial, mas verbal. A expressão kataV thVn cavrin thVn doqei`san h&mi`n é uma locução preposicional, sendo que o particípio doqei`san tem função de adjetivo atributivo(31).
Na expressão ei!te profhteivan kataV thVn a*nalogivan th`V pivstewV , temos um período composto por subordinação. A composição é indicada pela conjunção subordinativa condicional ei!te. Desde que a conjunção se refere ao subs. profhteivan, ele deve ser considerado a prótese (oração subordinada; condição) e a segunda parte do período a apódose (oração principal, ação central) (32). Na primeira oração, o verbo está elipsado; poderia ser e!comen. Na segunda oração o verbo também está elipsado, e o que temos é o adjunto adverbial de modo (indicado na preposição kataV).

Tradução
Tendo pois, diferentes carismas, conforme a graça a nós concedida, se [temos o dom de] profecia, [exerçamo-lo] de conformidade com a fé [que temos].

Versões
A tradução acima concorda com ARA e BJ ("porém"), entendendo que o vs 6 principia retomando o contraste entre unidade e diversidade anunciado no vs 4: unidade/diversidade no vs 4, unidade no 5 e diversidade no 6 (NVI omite o deV e RV entende que em 6ss temos o resultado lógico de ambos os vs 4 e 5; TEB perde completamente o fio da meada e não clarifica o contraste entre os vs 4 e 5).
O termo para "diferentes" (diavfora) fica apenas no final da oração; o teor da sentença parece ser uma ênfase na diversidade, enfatizada pela posição do termo. Que essa é a tônica do texto fica claro desde o vs 3, que fala sobre a fé "repartida".
RV e ARA trazem "a proporção" ou "a medida da fé", sem tentar esclarecer o sentido de "fé". NVI traz "sua fé", com sentido subjetivo de atitude humana; TEB segue o mesmo caminho, traduzindo "de acordo com a sua fé", com sentido subjetivo. BJ verte "da nossa fé", e a nota de rodapé diz "a norma da fé" ou "a confissão de fé". RV traduz "medida de fé" para as duas expressões, no vs 3, mevtron pivstewV e no vs 6, analogivan thV pivstewV . O sentido subjetivo é o melhor, como veremos abaixo.

Comentário
Tendo pois, diferentes carismas, conforme a graça a nós concedida, é claramente a conclusão do argumento de 4-6a. Deus equipou a igreja com uma diversidade de capacidades espirituais para o serviço, os charismata(33), que jamais devem ser entendidos como meritórios e razão de orgulho ou vergonha para seus possuidores; todos os dons são dignos e necessários. Mas é fato que a medida de charismata pode variar, e a graça que cada um recebe não é idêntica à do outro (Ef 4.7). Paulo, embora reconhecendo que todos eram necessários, era capaz de dizer que a profecia era superior às línguas (1Co 14.5), que apostolado vinha em primeiro lugar (1Co 12.28; Ef 3.5) e que há dons "melhores" (1Co 12.31). Isso não deve nos assustar de modo nenhum: Deus é soberano na distribuição dos charismata e pode dar mais a um que a outro (1Co 12.11); se [temos o dom de] profecia, [exerçamo-lo] de conformidade com a fé [que temos]. O que significa " de conformidade a fé que temos"? Segundo concluímos acima, a expressão refere-se à fé subjetiva que Deus deu a cada um. De algum modo essa fé tem relação com os dons espirituais, pois é o fator de diversidade que move o argumento de 3 a 6, e dificilmente trata-se da fé salvadora, desde que essa não é fator de unidade, mas de diversidade, ou do "dom da fé" (cf. 1Co 12.9), pois este não é dado a todos. Paulo refere-se aqui a um tipo de fé específica, diretamente relacionada à experiência carismática e ao serviço de cada cristão, e que tem o poder de regular o exercício daquele dom. Além disso, o cristão vai compreender seu lugar no corpo e encontrar moderação pelo reconhecimento dessa "medida de fé" que Deus lhe deu (vs 3). Mais à frente veremos com maior clareza o sentido no texto.
Seja como for, o dom de profecia deve ser exercido de acordo com a fé. O profeta do NT está em continuidade com o do AT, desde que a igreja se autocompreendia como povo escatológico de Deus, reunido pelo Espírito, e como beneficiária do "Espírito da profecia"(34). O profeta recebia de maneira carismática e supra-racional revelações (normalmente em caráter oracular) entregues nas reuniões da igreja(1Co 14.30) , e tinha a função de edificar toda a igreja com seu ministério (1Co 14.3). Segundo Paulo, os profetas cristãos não eram infalíveis (1Co 14.29; 1Ts 5.19-21).

12.7. ei!te diakonivan e*n th`/ diakoniva/, e!ite o& didavskwn e*n th`/ didaskaliva/,

Notas léxico-gramaticais

79.            ei!te, conj. subord. condicional, "se";
80.            diakonivan, subs. acus. sg. "serviço";
81.            e*n, prep. dat. "em";
82.            diakoniva/, subs. acus. dat. locativo "no ministério";
83.            didavskwn, part. pres. at. "o ensinando", "mestre";
84.            didaskaliva/, subs. dat. sg. "[ato de] ensino".

Sintaxe
Temos no vs 7 uma repetição da construção de vs 6b. São dois períodos colocados disjuntivamente, cada um composto por subordinação. Novamente as próteses são regidas pela conjunção subordinativa condicional; na primeira o verbo está elipsado e e*n th`/ diakoniva/ é o adjunto adverbial modal. No segundo período a primeira oração é participial e a também da segunda temos apenas o adjunto adverbial modal e*n th`/ didaskaliva/ (o verbo está elipsado).

Tradução
se [temos o dom de] serviço prático, [exerçamo-lo] no serviço prático; se [temos o dom de] ensino, no ensino,

Versões
Sem dúvida a NVI comunica com mais clareza o sentido das exortações; "se o dom é servir, sirva". A TEB omite a conjunção subordinativa condicional com sério prejuízo do sentido, pois obscurece o fato de que o trabalho a ser realizado é condicionado pelo dom(35). Quanto à tradução dos períodos, RV e ARA se afastam completamente da tônica do texto quanto procuram harmonizar as exortações ao "serviço", ao "ensino" e à "exortação" (vs 8) acrescentando qualificantes para essas atividades. Isso decorre do não entendimento de que a exortação aos que "profetizam" não é específica mas geral, e implícita nas outras exortações (cf. comentário). A intenção do texto é afirmar que a atividade de cada um deve corresponder ao seu carivsmata. BJ e NVI tem a melhor versão.

Comentário
se [temos o dom de] serviço prático, [exerçamo-lo] no serviço prático; aqui temos a explicação complementar ao sentido da expressão "de conformidade com a fé". Depois de dar uma exortação clara e específica ao profeta, Paulo simplesmente ordena ao que tem o dom de serviço, que sirva - e faz algo semelhante até o vs 8. Se a exortação ao profeta fosse absolutamente específica, isso seria uma anomalia; mas não é o caso. A expressão, como vimos, é sinônima à de 3c e tem sentido plenamente geral, aplicando-se a todos os dons. Isso tem uma implicação: as exortações de Paulo em 7-8a significam a mesma coisa que a exortação ao profeta, ou seja, servir de acordo com o próprio charismata é servir de conformidade com a fé. O ponto é que o serviço de cada um deve corresponder ao seu dom espiritual. Aquele que tem dom de serviço deve servir, o que tem dom de ensinar, deve ensinar - o que tem dom de profecia deve profetizar, ministrando de acordo com a graça que recebeu. Isso nos dá um sentido um pouco mais específico para fé; parece ser no texto uma convicção subjetiva a respeito da graça recebida e da área de atuação determinada por Deus, ou algo como um senso de vocação específica. Esse uso não estaria afastado de Paulo. Embora use o termo "fé" com seu sentido mais comum de "confiança" em Rm 4.3 por exemplo, mais à frente em Rm 14.22,23 Paulo usa a palavra quase exatamente no sentido proposto para Rm 12: uma convicção pessoal, baseada no evangel 

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