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By Ferramentas Blog

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

ESTUDOS 30- A ECONOMIA GLOBAL E A ECONOMIA DE DEUS

A Economia Global e a Economia de Deus

Introdução
Devido as demandas deste tempo, final de milênio, um dos grandes temas para a teologia, tem sido a economia. Não que ao longo da história da teologia cristão não tenha havido este encontro, em diferentes oportunidades. Porém, este empreendimento, a princípio, à olhos incautos pode parecer contraditório. Alguém poderia perguntar: o que tem a ver uma coisa com a outra - teologia e economia?
Conforme afirma José Bittencourt Filho, a partir da própria mensagem central de Jesus, o Reino de Deus, símbolo histórico e econômico, podemos inferir que "teologia e economia jamais estiveram distantes, salvo nas versões espiritualizantes do Cristianismo". (Crítica Teológica à Economia Política, in Por uma Nova Teologia Latino-americana - A Teologia da Proscrição, São Paulo, Ed. Paulinas, 1996. Pg 24)


Economia, por definição é a "ciência que estuda a atividade produtiva" (Dicionário de Economia, Abril Cultural, 1995. Pg. 127). Definição aparentemente fria; entretanto se olharmos mais detidamente a origem da palavra, da raiz grega oikos, vamos verificar que em sua origem significou "a lei ou administração da casa". Neste sentido economia tem a ver com a forma como os humanos se organizam em sua oikoumene - casa comum, ou seja neste planeta em que vivemos.
Uma tarefa da teologia é fazer a leitura da situação da casa, com os óculos do Reino de Deus, procurando responder às questões postas na presente situação. Fazer crítica à organização da casa, a partir daquilo que se concebe ser a casa de Deus, esta categoria escatológica que já é e ainda não, no sentido de esperança pelo devir. Assim, são colocadas frente à frente duas lógicas distintas: a lógica da economia global (mercado global) e a lógica da economia divina (casa de Deus - Reino de Deus). Em síntese, a teologia aqui se preocupa com um tema fundamentalmente abrangente e urgente, que diz respeito à vida e ao ser, em sua auto-organização.
Quando nos detemos na reflexão sobre a economia, veremos que não é possível compreender esta realidade sem o auxílio da teologia e quando percorremos os caminhos do saber teológico, vamos também nos deparar com questões que não poderemos fazer frente, sem incursionarmos pelos conceitos e idéias da economia. O famoso teólogo Juan Luiz Segundo, concluiu que para continuar sua reflexão precisava conhecer mais a fundo as ciências econômicas, do mesmo modo o eminente economista Franz J. Hinkelammert, descobriu que somente poderia avançar em sua crítica à economia política, fazendo uso do instrumental científico da teologia. Assim, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que teologia e economia sempre dependeram mutuamente entre si.
A Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, sensível a este fato e aos sinais dos tempos, consciente da necessidade de uma leitura urgente a cerca da vida no contexto deste mundo, em rápido processo de globalização econômica, organizou uma semana de intensa reflexão em torno do tema: "A Economia Global e a Economia de Deus".
O conferencista desta 47a Semana Wesleyana, foi o Prof. Dr. M. Douglas Meeks - Reitor da Faculdade de Teologia Wesley, em Washington DC; professor na Vanderbilt University; foi pesquisador "Fulbright" em Tubingen, de 68 a 70; atualmente é um dos coordenadores do Oxford Institute, que reúne os teólogos metodistas de todos os continentes; sem dúvida, Dr. Meeks é atualmente uma dos mais competentes e respeitados teólogos da Igreja Metodista.
Visando repartir um pouco do que lá foi apresentado e debatido, apresentamos a seguir algumas notas colhidas nas quatro conferências. As mesmas foram feitas a partir das palavras do próprio conferencista, obviamente traduzidas, por isso, por vezes podem até parecer desconexas pela limitação de quem anota em conseguir acompanhar todas as colocações em um tempo real. É, portanto, preciso levar em consideração que sempre há limites nas anotações, por isso faremos o possível para melhorá-las, acrescentando alguns pequenos comentários pessoais, os quais aparecerão sempre entre colchetes em itálico.
I. Deus como Administrador
Devemos partir de uma pergunta fundamental: Como, nós que somos batizados em Jesus Cristo, podemos ser fiéis a Ele, em um tempo de economia global?
O ser da economia global é o capital. A lógica desta sociedade é a troca de mercadorias e a economia de mercado é a única coisa que podemos dizer, no momento, como universal [no sentido em que afeta a todos os seres deste planeta].
Existem cinco ameaças presentes na economia global:
1. há um hiato, uma separação muito grande entre ricos e pobres, tanto nos países desenvolvidos, como nos países em desenvolvimento. Atualmente nos EUA, menos de 1% da população detém mais de 40% da riqueza do país;
2. há uma enorme migração de trabalhadores(as) não habilitados, não qualificados, para a indústria de última geração, de alta tecnologia, que mexe mais com o trabalho cerebral;
3. com o fim da guerra fria [que de fria só tinha o nome], não existe mais, no momento, um poder nacional ou de bloco dominante no mundo. O que está acontecendo é que grandes corporações empresariais, transnacionais [sem nacionalidade totalmente definida] estão se formando, com um poder superior ao de qualquer país ou bloco de países;
4. ninguém sabe se a democracia e a economia do mercado global serão capazes de sobreviver juntos e promover a vida neste planeta. A democracia vê a pessoa como um voto, cada pessoa é um voto, e procura fortalecer a sua dignidade enquanto pessoa que vota. A economia de mercado e o mercado global vê a pessoa enquanto consumidor, cada pessoa é um consumidor; mas e aqueles(as) que não têm poder de consumo? Estes(as) não existem para o mercado global [equivale dizer: quem não tem poder de consumo não é, o não-ser é nada e o nada é o inexistente];
5. a natureza mesma está sendo cada vez mais explorada para atender as necessidades ou os serviços dos objetivos econômicos do ser humano.
Cabe insistirmos na pergunta: Como nós cristãos, que somos batizados em Jesus Cristo, podemos continuar sendo fiéis a Ele, face ao mercado global?
O mercado é importante, e até maravilhoso, entretanto nós devemos afirmar que ele não é Deus. [Ocorre que a economia global cria uma profusão de ídolos para ocupar o lugar do verdadeiro Deus e o mercado é a maior entidade idolátrica, que reivindica adoração em nosso tempo]. A economia de mercado é certamente melhor que o escravismo, o feudalismo ou o mercantilismo.
Outro problema é que a economia global tem uma tendência a transformar tudo em mercadoria e exercer uma soberania sobre tudo. É muito comum hoje a expressão: "Fora do mercado não há salvação". [Esta expressão tem uma clara matriz religiosa - nesta ótica a redenção é o mercado]
Outra questão instigante neste momento é: O que acontece com a Igreja de Jesus Cristo, numa sociedade influenciada por esta lógica da economia global? O que significa ser Igreja dentro deste contexto? Onde está o espaço que poderia ser guiado pela lógica da graça?
A teologia liberal tem afirmado que devemos isolar Deus do tema economia. Mas a teologia bíblica se refere a Ele em termos de economia - como economista.
Quem é Ele então?
A palavra economia, como a conhecemos hoje [com o sentido que a ela é dado hoje], entrou em pauta no mundo a partir de 1776, com Adam Smith [escocês - cursou Humanidades na Universidade de Glasgow - estudos greco-romanos, matemática, ética, direito, teologia e filosofia; foi influenciado por um dos maiores teóricos protestantes da Filosofia do Direito Natural, Francis Hutcheson]. Entretanto a palavra economia é muito mais antiga e significava "a lei da casa"- "oikos", casa e "nomos", lei. Daí deriva a expressão "oikonomia tou Theos", a economia de Deus. Economia tinha, no princípio, a ver com a questão da vivência, da sobrevivência humana. Com Smith, entretanto, este conceito foi diminuindo de intensidade.
Nossa primeira tarefa diante do mercado global é recuperar a nossa memória da casa. A Igreja sem as memórias da graça de Deus é simplesmente uma outra instituição, mas não a Igreja.
Precisamos nos lembrar de coisas básicas, sobre a casa de Deus e que não aparecem na economia de mercado:
1. A casa de Deus tem a ver com a idéia do receber o dom da graça;
2. o reavivamento em Wesley significava reavivar a missão junto aos empobrecidos; tornar a Igreja um lar para quem não tem casa; o centro da evangelização estava na prática da mordomia cristã;
3. evangelismo, em Wesley, significava pregar ou anunciar o evangelho de Cristo em oposição a outras verdades, que estavam presentes e pretendiam dominar o mundo [vida em oposição à morte];
4. a mordomia cristã pretende tornar a Igreja o lar para os que não têm casa; tornar a Igreja, a casa na economia da existência e da vida, contra a economia da escravidão e da morte;
5. a Igreja Metodista pode perder as suas relações com a sua memória, a menos que se torne um lar para os que não têm casa.
O que, então, é preciso para que um lugar se torne casa?
1. Água [símbolo de vida]
2. Pão [sem alimento não há vida]
3. A mesa [símbolo do encontro - lugar de comunhão]
4. As histórias ao redor da mesa [a vivência, a interação, a comunhão]
5. Uma toalha. O símbolo da reciprocidade e da mutualidade do dar e do receber, sem o que a vida não pode ser protegida contra a morte.
Precisamos recuperar a idéia de ver Deus pelas lentes da economia. Quando vemos Deus pela via política, nos vem a idéia de Deus como rei sentado no trono, soberano, todo poderoso, insondável, incapaz de sofrer, etc...
A partir das tradições de Moisés e de Jesus, Deus habita entre nós. Em Filipenses 2 temos a célebre teoria quenótica [da quenósis - ou auto-esvaziamento de Deus na revelação em Jesus Cristo]. Deus é um construtor de casas, o qual redime o mundo, transformando-se num mordomo e servo desta casa.
De acordo com o Antigo Testamento, o nome de Deus é "Eu Sou aquele que te tirou da economia da escravidão".
No NT o nome de Deus é "Eu Sou aquele que te tirou da economia da morte".
O primeiro economista na Bíblia é José.
[Na história de José] O povo é salvo da morte com o pão, mas é conduzido [por este pão] à escravidão. Nos capítulos 37, 39 e seguintes do Gênesis, esta história de pão e escravidão é contada [com riqueza de detalhes].
José se tornou o grande ministro da economia no Egito. Ele é agora o presidente do banco central do Egito, é também o presidente da bolsa de valores mais forte do mundo, a qual determina todas as jogadas econômicas e as oscilações do mercado no mundo.
Quando a fome aumentou (cap. 47) e seus irmãos chegaram até ele, implorando por pão, vai se desenvolvendo uma trama que passo a passo leva à escravidão.
No primeiro momento, diante do pedido de pão, José responde: Sim, eu tenho o pão de que vocês tanto necessitam. Mas..., vocês podem comprar?
Os irmãos respondem: Nós não temos dinheiro.
Mas José, que é um homem de bom coração, insiste: Não há problema, vocês podem trocar pelo seu gado, por peles ou por camelos, quem sabe.
Entretanto os irmãos respondem: Nós não temos gado, não temos pele, não temos camelo.
José então, tentando atendê-los com benevolência, diz: Bem..., vocês podem trocar pela terra de vocês.
Os irmãos respondem: Mas nós também não temos terra.
Finalmente José profere a sentença da escravidão: Bem, se vocês não têm dinheiro, gado, pele, camelos ou terra, mas vocês precisam de pão, bem..., vocês podem trocar por vocês mesmos. Por seus corpos, por sua força, pela sua existência mesma.
Esta é a lógica do mercado. Troca mercadorias por mercadorias. Assim a própria existência se torna mercadoria [o ser é coisificado e vale enquanto bem alienável].
Mas, a quem pertence a terra, a quem pertencem as pessoas? [Salmo 24.1]
Na próxima conferência será dada continuidade a esta abordagem.
II. A Sociedade de Mercado e a Economia da Torah e do Evangelho
Quem é Deus? E quem somos nós?
Como cristãos, para dizermos quem é Deus, geralmente contamos a história de Jesus, sobre quem é Jesus. [Mas antes disso vamos ver o que nos diz o Antigo Testamento sobre Deus].
Um outro grande economista do Antigo Testamento foi Moisés. Neste contexto da história de Moisés, encontramos uma resposta que o Antigo Testamento nos dá sobre a pergunta quem é Deus, ela está expressa em Êxodo 3.7ss.
Com origem na metafísica grega, na teologia liberal, Deus tem sido definido como todo poderoso, onipotente, onipresente, onisciente, imutável, insondável, e muitos outros atributos dessa natureza, todas definições altamente abstratas.
Nos tempos modernos estes atributos, altamente abstratos, não respondem mais à sociedade, por outro lado, não descrevem a realidade do Deus da Bíblia.
A Palavra do Deus de Israel é de redenção e não de controle. A promessa fundamental deste Deus da escritura é Emanuel. A divindade de Deus significa habitar no meio daqueles que não são divinos.
Ele diz: Eu sou o que sou. Numa tradução mais correta: Eu sou o que tornarei a ser. Esta não tem sido uma ontologia muito adequada. Não podemos ter uma ontologia do ser de Deus antecipadamente.
O Deus da Bíblia só poderá ser compreendido ao conhecermos o trabalho econômico de Deus em favor de seu povo. A economia da escravidão foi desmantelada [O trabalho redentor de Deus, na reconstrução da casa de Israel, define, na prática, quem Ele é; esta ontologia de Deus está ligada a sinais concretos do seu ser].
[Após o trabalho econômico de Deus, em favor da reconstrução da casa de Israel,] A primeira atitude do povo ao chegar no deserto, foi a de reclamar da liberdade. [Eles diziam a Moisés: Deus nos tirou da casa do Faraó, para que morramos de fome neste deserto. Diziam isso, lembrando das cebolas do Egito.] Foi aqui que Deus decidiu por uma nova economia. Um novo pão: o maná (tradução mais aproximada do termo: o que é isto?).
Ao se tornar conhecido este pão (o que é isto?), foi exatamente o contrário do pão do faraó (o pão da escravidão):
O maná
O pão do faraó
- Não podia ser estocado, não era mercadoria (Ex 16.18)
- Era guardado em grandes quantidades, em grandes celeiros (acumulação)
- Era um bem social para ser distribuído, dentro da lógica da graça, radicalmente diferente (Ex 16.16) (partilha)
- Era uma mercadoria, para ser trocada, dentro da lógica do mercado (até mesmo pela própria vida humana)
Esta história do novo pão de Deus, culmina quando na Santa Ceia repartimos o pão de maneira comum, como símbolo da quebra de todas as barreiras e aproximação dos iguais. O pão da vida se torna símbolo de todos os bens que devem ser distribuídos, estabelecendo uma diferença radical entre a lógica do mercado e a lógica da graça:
Lógica do Mercado
Lógica da Graça
- pão da escravidão
- pão da liberdade
- pão das lágrimas e do sofrimento
- pão da alegria e da festa
- pão da morte
- pão da vida
No Sinai são dadas as leis da casa da liberdade (Ex 20.22 à 23.33; Dt 12-26; Lv 17-26). A questão fundamental aí era como viver na casa da liberdade, evitando cair novamente na escravidão.
Estas leis da casa da liberdade apresentam um princípio fundamental para a vida da casa: obedecer a Deus e a forma de distribuir a justiça - repartindo, partilhando e mantendo a comunhão. A lei econômica de Deus é vida em oposição à morte.
Sobre estas regras da Torah para a casa da liberdade, vamos fazer algumas considerações, ligando a nossa tradição:
1. não podemos entender João Wesley sem entender o que ele compreendeu como leis da casa, para serem vividas;
2. os protestantes liberais e conservadores têm desconsiderado as leis da Torah para a convivência da casa, e, por conveniência, têm dito que estas leis foram substituídas pelo Evangelho; estamos noutra dispensação, dizem;
3. Wesley observou, do mesmo modo que os Pais Apostólicos [especialmente nos Pais Capadócios], que estas regras foram realçadas por Jesus, no Evangelho;
4. os cristãos não são obrigados a observar todas as regras da Torah, mas as regras da casa, que Jesus preservou, são ordenadas para que as observemos. Jesus as radicalizou.
5. Wesley também notou que a graça já estava presente na Torah.
As cinco principais regras da casa da liberdade são:
1. não cobrem juros do pobre (Ex 22.22-27);
2. deixar as espigas que caem, lei da sega (Lv 23.22);
3. prática do dízimo (para construir a casa de forma que ninguém seja excluído dela; a idéia de que o dízimo é para sustentar a instituição da Igreja [estrutura] é muito recente na história da humanidade);
4. hospitalidade (Is 58.6-9);
5. praticar o sábado. Esta regra é fundamentalmente um ensino sobre a justiça de Deus, no contexto da economia de Deus: no jubileu (escravos são libertados, as dívidas são canceladas, a terra descansa e a riqueza é redistribuída entre todo o povo).
Obs.: Dentro do momento de perguntas, entre outros assuntos, o conferencista abordou o tema dos saques e da ocupação forçada da terra, falando sobre o Artigo 66 da Suma Teológica de Tomaz de Aquino, na qual Tomaz defende a legitimidade da apropriação de bens necessários a sobrevivência humana. Tomaz de Aquino fala em termos de "roubar do rico o que ele (o rico) não quer repartir". É uma boa pista de pesquisa para ser aprofundada sobre licitude destes acontecimentos, quando o povo está em risco de vida. Desde a idade média este argumento deixou de ser utilizado juridicamente. John Loock foi o último a trabalhar este conceito.
III. Dádiva e Mercadoria - Uma perspectiva Wesleyana sobre a Graça e o compartilhar
Hoje vamos tratar da questão da dádiva numa sociedade regulada pela mercadoria.
Em 1789, não muito antes da morte de sua morte, João Wesley prega um sermão pleno de lágrimas, desespero, exasperação e tristeza; este sermão ficou conhecido pelo título, "As causas da ineficiência da cristandade"; não é um título atribuído pelo próprio Wesley.
Talvez um título mais apropriado para este sermão seria: "Por que o reavivamento metodista tem fracassado?"
Este sermão é ao mesmo tempo uma condenação muito forte e uma argumentação muito forte e uma argumentação bem elaborada, que é tão relevante para os tempos em que ele foi pregado, como para nós metodistas dos tempos contemporâneos.
Qual é a razão pela qual os metodistas têm fracassado em relação à noção de reavivamento?
1. Não teria o metodismo uma doutrina sólida e uma disciplina clara? Sim, havia uma doutrina clara e uma disciplina sólida [conclui Wesley].
2. Por que os metodistas, que têm uma doutrina sólida e uma disciplina clara, não têm a mente de Cristo? Por que eles não andam como Cristo andou? Porque os metodistas não se doam; eles tem perdido o dom da auto-doação, de doar-se. Esqueceram como fazer isso [conclui Wesley].
O movimento metodista começou em torno de 1740, em favor e através dos pobres. Por duas gerações eles havia seguido a disciplina do "ganhe tudo o que puder, economize tudo o que puder e doe tudo o que puder". Mas, agora eles [os metodistas] haviam se tornado somente poupadores e não doavam mais. Wesley foi realmente duro neste sermão. Ele não poupou palavras para dizer o quanto os metodistas estavam longe do serem cristãos de fato.
"Mesmo que se observe os dois primeiros princípios, sem observar o último, os metodistas são piores do que os filhos do inferno", dizia Wesley.
Os metodistas podem decair da graça, podem cair em apostasia? Perguntava Wesley. Sim, sem dúvida, asseverava, acrescentando: "Vocês são os que impedem que a graciosa experiência de Deus desça sobre as suas assembléias."
Por que há quem não tenha o que precisa para viver? Porque vocês estão impedindo que isto aconteça! Afirmava com vigor.
Para Wesley tudo aquilo que ultrapassa o que é necessário e conveniente para a vida, pertence ao pobre. Estas duas palavras definiam o que pode ser propriedade de um cristão: necessário e conveniente.
Wesley não estava apenas levantando uma questão ética. Não é uma simples questão de não darmos o bastante para os pobres ou para a Igreja. Trata-se, para ele, de uma questão que está no centro da salvação. Os metodistas não doam mais e assim eles se recusam a receber a bênção de Deus. Assim não podem mais ser chamados discípulos. Eles não habitam em Deus e Deus não habita neles. Se tornaram mortos no Espírito e o reavivamento metodista está moribundo.
Hoje também há uma situação contrária a prática da doação, que torna a doação impossível, inconcebível: [no mundo do mercado globalizado, tudo é mercadoria, nada é visto através da lógica da graça].
Existem hoje quatro formas primárias de poder no mundo:
1. o estado;
2. a economia;
3. os meios de comunicação;
4. a tecnologia.
A lógica do estado pode ser vista, de modo positivo como participação no bem comum e de forma negativa como coerção. A lógica da mídia é positivamente a transmissão de informação e negativamente a manipulação daquilo que é aparente (mundo virtual). A lógica da tecnologia pode ser construída positivamente como um instrumento humano para simbiose com a natureza [em favor do ser] ou negativamente como criação humana contra a natureza [contra o ser]. Preponderante, a lógica do mercado é a troca de mercadorias.
Cada vez mais os outros poderes estão à serviço da lógica do mercado e por esta lógica balizados. Tudo se torna em mercadoria.
Se nós cristãos guardamos a nossa memória, saberemos que as coisas necessárias para a vida não devem se tornar em mercadorias.
Já se disse: "Fora da Igreja não há salvação" e hoje se diz: "fora do mercado não há salvação". A lógica do mercado penetra em tudo e o tempo e espaço da Igreja e da Graça se torna cada vez mais fraco.
João Wesley identificou esta situação há mais ou menos 250 anos atrás.
Nas sociedades atuais o ato de doar pode destruir a liberdade de seguir a sua própria determinação. A realidade da doação esconde uma forma de contrato e usura.
Mesmo no interior da família isto está cada vez mais se tornando uma troca de mercadorias. Há sempre uma sensação de compromisso [a ser saldado] com alguém que nos dá um presente; ficamos sempre devedores e em muitos casos nos esforçamos para "pagar" com algo bem superior, caracterizando uma relação usurária.
João Wesley entendia que, se não há o ato de doar-se não há conteúdo para a fé cristã e não há possibilidade de existência da Igreja, ou seja, não há graça, não há Igreja. A Igreja é fruto da graça.
Na medida em que Deus nos oferece sua graça Ele nos capacita a fazer o mesmo. Se não houver esta graça não haverá o reavivamento e não haverá a existência da Igreja. Talvez esta seja a pior situação no metodismo hoje.
Estamos tão acostumados com a lógica do mercado global, da troca, que a lógica da graça nos parece muito estranha; estamos tentando ser cristãos sem a lógica da graça.
A Trindade nos ajuda a compreendermos a lógica da graça:
Como vive a comunidade da Trindade? De acordo com o ensino paulino a atividade Trina é uma comunidade genuína de diversidade. Deus não é apenas um ser diferente ou que aparece de modos diferentes. A Trindade é uma comunidade absolutamente una na comunhão do amor.
Os Pais Apostólicos Capadócios, apreciados por João Wesley, nos deram a melhor descrição da idéia de graça e doação na comunidade divina de pessoas, através da sua doutrina da pericorésis. Esta palavra possivelmente surgiu no contexto de danças antigas e significava mútua coerência, ou seja, estamos sempre juntos na dança.
Cada pessoa da Trindade é distinta, mas por outro lado, cada uma é o que é em relação as outras. Não há uma unidade autônoma, independente ou isolada. Não podemos compreender o significado das pessoas da trindade isoladamente, mas através da idéia de interdependência mútua.
As pessoas da Trindade repartem entre si a fim de realizar o seu trabalho. São distintas mas não divididas. Deus é único.
Como as pessoas da Trindade se tornam unidas? João Wesley respondia: "Deus é amor!"
O conceito de unidade é sempre um conceito político e de poder. Quem deseja unidade? O presidente de uma nação, o general de um exército, o rei de uma monarquia, o bispo deseja a unidade da Igreja.
O problema da concepção de unidade dos ocidentais é que ela tem sido vista como uma entidade de ditadura.
O poder da cruz é o da auto-doação. A partir das relações pericoréticas da Trindade podemos conceber que:
1. um dom, uma graça é doado livremente;
2. um dom deve ser apropriado ao doador e ao receptor;
3. um dom deve ser devolvido, retornado - inseparável do doador e do receptor (dando para receber de volta).
Na teologia moderna existe a concepção do dom puro, que não precisa ser devolvido, retornado; isso nos leva a uma concentração na idéia de justificação e à teologia luterana dos dois espelhos.
A perspectiva de João Wesley é diferente: a justificação significa o ato de recebermos o dom, já a santificação é o ato de retorno, a devolução ou o repartir o dom.
Distinção entre doação e mercadoria: os dons deixam de ser dons se não são usados e repartidos, quando são vendidos eles tem sua natureza alterada, está se praticando troca no mercado. Na troca de mercadoria não há nenhuma alteração entre quem compra e quem vende, não há nenhuma emoção. No contexto de doação o relacionamento é muito diferente; quando doamos nos conhecemos, o relacionamento muda e esta mudança chamamos de gratidão.
A dádiva nos leva a termos o bastante. A troca de mercadoria nos leva aquele sentimento de querer mais e de não ter o bastante. É a diferença entre trocas de mercadorias e de doação.
A noção de dádiva substitui esta visão de consumo narcisística da troca. (Romanos 8.32).
IV. Praticando a "Economia de Deus" na Comunidade de fé
De que formas a economia de Deus pode expressar-se concretamente na comunidade de Deus?
Deus tem trabalhado para redimir o mundo, construindo casas e comunidades de vida em oposição a morte.
A luz desta cultura do mercado parece que não podemos fazer o que Deus está nos pedindo. Não temos muito dinheiro em nossa tesouraria, nem um arsenal de armas mortais, não temos ações na bolsa, não temos uma rede sofisticada de mídia, tampouco temos uma casa que legisla em nível nacional. Mas, Deus, pelo Espírito Santo, tem nos dado todo o necessário para construirmos casas para quem não tem casa.
O que Deus está nos oferecendo:
1. o nome de Jesus - nele temos também um nome e é este nome que oferecemos ao mundo;
2. a Palavra do Evangelho - palavra de perdão e libertação diante da ameaça da morte;
3. a água do batismo, pela qual temos as promessas de Deus e nos comprometemos com Ele;
4. a mesa da Comunhão, na qual encontramos a economia de Deus, como deve ser formada e o seu poder;
5. o Pão da Vida, que nos provoca a dizer a coisa mais subversiva diante deste mundo de economia global: "O Senhor é o meu pastor e nada me faltará!"
A idéia do mundo é que estes dons não são suficientes para enfrentar o mercado, mas para nós sim, são mais do que suficientes.
Jesus como um economista que constrói casa de vida, é apresentado no Evangelho segundo João, capítulo 2, no decorrer de uma festa.
O capítulo 1 quer esclarecer de onde Jesus realmente veio? (Jo 1.1)
Jesus, no Evangelho de Marcos inicia seu ministério logo após a prisão de João Batista, existe no ar uma sensação de perigo. Em Lucas ele começa pregando algo muito perigoso na sua terra natal [sinagoga], o que causa uma revolta naquela congregação. Entretanto, em João, a primeira coisa que Jesus faz, depois que sai do seminário, é ir a uma festa. Como poderia surgir algo importante, teologicamente em uma festa de casamento?
O primeiro capítulo de João trata do relacionamento de Jesus com seu Pai celestial. O que trata este capítulo 2 de João? Trata do relacionamento de Jesus e a sua mãe terrena.
As mães desejam que a vida funcione e seja importante para as pessoas; desejam que seus filhos se desenvolvam; fazem tudo para atender uma necessidade, dizer ou fazer as coisas na hora mais apropriada.
Quando a mãe chama Jesus e diz que o vinho está acabando; ele dá uma resposta bastante abrupta (não muito polida): "Mulher, não tenho nada com isso, ainda não chegou a minha hora!" Talvez Jesus estivesse ali no casamento contra gosto (Ele brinca dizendo: talvez naquela noite houvesse um jogo da seleção brasileira, na televisão, e ele quisesse assisti-lo - bem, seria muita falta de bom senso escolher uma data de casamento num dia em que a seleção brasileira estivesse jogando).
Parece que quando Jesus deu aquela resposta, sua mãe deve ter dito algo como: "eu realmente não estou dando atenção ao fato de que você é o Filho de Deus, eu estou ordenando que você vá imediatamente à cozinha e faça alguma coisa sobre a necessidade de mais vinho". Ele tem sua relação e origem com o Pai, mas também tem a sua relação com sua mãe terrena que diz: "faça o que eu digo!". Maria humaniza Jesus, insiste no fato de que sua atividade tem que ver com os problemas humanos. Se Ele não é Deus, estamos em dificuldades, mas se Ele não é realmente humano, estamos em dificuldades muito mais sérias. Ele sai dali e faz o que sua mãe pediu. Ele não quer fazer, mas faz.
Esta é a história do Filho de Deus indo para a cozinha. Jesus como construtor de comunidades, como economista, providenciando sobre as necessidades mais básicas de sobrevivência das pessoas.
O fim da história mostra Jesus ressuscitado, preparando um café da manhã, para os discípulos na varanda. Sua última mensagem é: "alimentem as minhas ovelhas".
Em Jo 13.1-16 vemos novamente Jesus em torno de uma mesa - a última refeição que ele teria com os discípulos.
Quem eram os discípulos? Não eram pessoas muito agradáveis. Judas, que parecia ser um homem bom, que queria ser bom, mas ele traia Jesus com um beijo. Pedro que anuncia seu amor para Jesus, mas no momento da dificuldade ele nega três vezes. Tomé, que duvidava de tudo o que Jesus tinha dito. Tiago e João que estavam somente preocupados sobre quem teria o lugar de destaque no Reino. Todos os demais estavam com raiva deles, por causa do seu desejo. Os zelotes entre os discípulos estavam muito decepcionados porque Jesus não tinha um envolvimento maior com ação política. Os fariseus achavam que Ele não era muito espiritual. Eles não tinha a capacidade de acompanhar Jesus no momento da oração, eles precisavam descansar um pouco, enquanto Ele estava sendo entregue na mão dos pecadores. Eles fugiram na hora em que Jesus teve que ir à julgamento. Na hora da crucificação todos os que estavam na mesa já tinham ido embora. Apenas as mulheres ficaram.
Jesus lavou os pés dos discípulos e os secou com uma toalha. A toalha tem finalidade de limpar o suor, enxugar as lágrimas, curar - a toalha tirou as escamas dos olhos de Paulo, também tem a função de curar ou limpar a lepra, ainda, para o conforto do bebê e para limpá-lo, a toalha também existe limpar, servir e prover uma refeição ao redor da mesa.
Uma de nossas funções mais importantes de nossa ação pastoral é ajudar a resgatar a ênfase wesleyana no ato diacônico - diaconia. O pastor(a) deve ajudar as pessoas na comunidade em que ele(a) serve é ajudar as pessoas a participar desta vida diaconal. A função pastoral: Ez 34.14-16. O que Deus diz aos falsos pastores: Ez 34.4.
A mesa mais importante que conhecemos é Mesa do Senhor. A economia do Senhor recebe sua força ao redor da mesa. O propósito do ministério pastoral é ajudar ao povo de Deus a tornar a vida eucarística real em toda a vida.
A ética da Mesa do Senhor se torna a ética para nossa vida em sua totalidade. As maneiras junto a esta mesa deve se tornar as maneiras junto a todo tipo de refeição junto a todas as mesas.
Rev. Luis de Souza Cardoso


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