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By Ferramentas Blog

quinta-feira, 17 de março de 2011

APOSTILA 7 - CRISTOLOGIA

APOSTILA DE CRISTOLOGIA

Pr. Cornélio Póvoa de Oliveira



TEOLOGIA SISTEMÁTICA - CRISTOLOGIA

Sumário:
Relação Entre Antropologia e Cristologia
Resumo Histórico da Doutrina de Cristo
Sua Preexistência
Sua Encarnação
Sua Humanidade
Sua Divindade
Sua Vida Terrena
A Kenosis
Sua Impecabilidade
Sua Morte
Sua Ressurreição
Sua Ascensão
Sua Volta


Bibliografia:

BERKHOF, Louis Berkhof. Teologia Sistemática. São Paulo. Editora Cultura Cristã, 2004; pgs. 281-303.

BÍBLIA ANOTADA. Versão Almeida, Revista e Atualizada. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1991.

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo. Vida Nova, 2002; pgs. 435-470.

LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. Rio de Janeiro. JUERP, 1993.

SEVERA, Zacarias de Aguiar. Manual de Teologia Sistmática. Curitiba. AD Santos Editora, 2003; pgs. 221-252.




CRISTOLOGIA – A DOUTRINA DE CRISTO

Relação entre Antropologia e Cristologia.
Há uma relação muito estreita entre a doutrina do homem e a de Cristo. A primeira trata do homem, criado à imagem de Deus e dotado de verdadeiro conhecimento, justiça e santidade, mas que, pela voluntária transgressão da lei de Deus, despojou-se da sua verdadeira humanidade e se transformou em pecador. Ela mostra o homem como uma criatura de Deus altamente privilegiada, trazendo ainda alguns traços da sua glória original, mas, todavia, uma criatura que perdeu os seus direitos de nascimento, sua verdadeira liberdade e justiça originais. Significa que a doutrina dirige a atenção não apenas, nem primeiramente, à condição do homem como criatura, mas, sim, à sua pecaminosidade. Salienta a distância ética que há entre Deus e o homem, distância resultante da queda do homem e que, nem o homem nem os anjos podem cobrir, e, como tal, é virtualmente um grito pelo socorro divino. A cristologia é em parte a resposta a esse grito. Ela nos põe a par da obra objetiva de Deus em Cristo construindo uma ponto sobre o abismo e eliminando a distância. A doutrina nos mostra Deus vindo ao homem para afastar as barreiras entre Deus e o homem pela satisfação das condições da lei em Cristo, e para restabelecer o homem em Sua bendita comunhão. A antropologia já dirige a atenção à provisão da graça de Deus para uma aliança de companheirismo com o homem que provê uma vida de bem-aventurada comunhão com Deus; mas a aliança só é eficiente em Cristo e por meio de Cristo. E, portanto, a doutrina de Cristo como Mediador da aliança deve vir necessariamente em seguida. Cristo, tipificado e prenunciado no Velho Testamento como o Redentor do homem, veio na plenitude do tempo, para tabernacular entre os homens e levar a efeito uma reconciliação eterna.




Resumo Histórico da Doutrina de Cristo
Com a morte dos apóstolos não demorou para que a Igreja se sentisse ameaçada pelas várias doutrinas que surgiam a respeito de Jesus Cristo.

A doutrina que mais foi atacada ou que mais trouxe confusão se refere ao que chamamos na teologia de união hipostática. União hipostática (também conhecida como união mística ou dupla natureza de Cristo) é a doutrina clássica da cristologia que afirma ter Jesus Cristo duas naturezas, sendo homem e Deus ao mesmo tempo.

Até o Concílio de Calcedônia surgiram algumas doutrinas que sacrificavam a divindade em detrimento da humanidade, como os:

Ebionitas  Origem desconhecida. Na busca de defender o monoteísmo negavam a divindade de Cristo. Eles o consideravam como um simples homem, filho de José e Maria, qualificado em seu batismo para ser o Messias, pela descida do Espírito Santo sobre Ele. Quando recebeu o Espírito Santo conscientizou-se de que era o messias. Afirmavam que era necessário obedecer todos os mandamentos da Lei de Moisés, inclusive a circuncisão.

Alogianos Rejeitavam os escritos de João por que entendiam que sua doutrina do logo estava em conflito, com o restante do Novo Testamento. Acreditavam que o Evangelho de João e o Apocalipse tivessem sido escrito por Cerinto, fundados da escola gnóstica. Também viam em Jesus apenas um homem, nascido miraculosamente de uma virgem e que no batismo receberá o espírito do Cristo, recebendo poder sobrenaturais. Surgiram por volta do ano 200 d.C.

Monarquismo - Enfatizavam a unidade absoluta de Deus, que conflitava com a doutrina da trindade, que vê Deus em uma unidade composta pelo Pai, Filho e Espírito Santo. Dividia-se em Monarquismo Dinâmico e Modalista.

    • Monarquistas Dinâmicos  Acreditavam de maneira muito semelhante aos alogianos, Jesus se tornou o Cristo após o batismo, ao se tornar habitação do Cristo. Paulo de Samosata era seu principal representante. Para eles Jesus nascera de José e Maria. Deste movimento surge o adocionismo.
      • Adocionismo - Jesus teria sido adotado por Deus. Somente se tornou Deus após a ressurreição.


    • Modalista - No terceiro século, conhecido como "sabelianismo" (Sabélio) concebia as três pessoas da trindade como os três modos pelos quais Deus se manifestava aos homens.



Por outro lado haviam aqueles que sacrificavam a humanidade em detrimento da divindade, como os:

Gnoticismo  Originou-se provavelmente na Asia Menor entre os anos de 135-200 d.C.. Estes foram profundamente influenciados pela concepção dualista dos gregos, em que a matéria, entendida como inerentemente má, é descrita como completamente oposta ao espírito. Rejeitavam a idéia de uma encarnação, de uma manifestação de Deus em forma visível, visto que isto envolveria um contato direto do espírito com a matéria. (Bem contra o mal; espírito vs carne, etc.).

Docetismo (antecedeu o gnoticismo) Eram apenas correntes de pensamentos e não uma seita organizada. A palavra doceta vem de doketes, dokein (parecer). Para os docetas, Jesus era só divino, o seu corpo era apenas um ilusão. Não podia ser humano, pois consideravam que a matéria era intrisecamente má. O corpo e o sofrimento de Jesus eram apenas aparentes, não reais. Era a filosofia grega se infiltrando nas igrejas. Existe hoje um docetismo disfarçado na crença em um Cristo tão distante da realidade humana, como se pode verificar na teologia popular católica, onde os “santos” estão mais próximos das pessoas do que Jesus Cristo.

Escola dos Alexandrinos  Defenderam a divindade de Cristo, e na busca de se colocarem em oposição aos gnósticos, criaram a concepção de Cristo como subordinado ao Pai. Interpretavam a Bíblia através do método alegórico. Seus principais representantes foram Clemente e seu discípulo Origenes.

    • Orígenes  Foi ele que criou a idéia da subordinação quanto à essência.


Tertuliano  Também defendeu a idéia de Cristo estar subordinado ao Pai, neste sentido ser um pouco menor que Deus.

Arianismo  Partindo do principio de Orígenes fez distinção entre Cristo e o Logos como a razão divina. Cristo é apresentado como uma criatura pré-temporal, super-humana, a primeira das criaturas, não Deus, e todavia, mais que um homem. Em outras palavras: Jesus é Deus, mas não igual ao Pai.

Atanásio  Contestou a Ário e defendeu vigorosamente a posição de que o Filho é consubstancial com o Pai e da mesma essência do Pai, posição que foi oficialmente adotada pelo Concílio de Nicéia, em 325.

Theodoro de Mopsêstia e Nestório (Nestorianismo)  Acentuavam a completa humanidade de Cristo e entendiam que a habitação do Logos nele era apenas uma habitação moral. Ele compreendiam Cristo lado a lado com Deus, mas não unido a Ele numa unidade de vida pessoal única. As duas naturezas estavam separadas uma da outra. Jesus agia uma ora com a natureza humana e ora com a natureza divina.

Eutico (Eutiquianismo)  Acreditava que a natureza humana de Cristo foi absorvida pela divina, ou que as duas se fundiram resultando numa só natureza (uma terceira natureza), posição que para muitos era a negação das duas naturezas de Cristo. O Concílio de Calcedônia, em 451, condenou esses conceitos e manteve a crença na unidade da pessoa, como também na dualidade das naturezas.


Após o Concílio de Calcedônia o erro Eutiquiano continuou com os Monofisitas e Monotelitas, mas finalmente foi dominado pela Igreja.

A conclusão do Concílio de Calcedônia foi de que Jesus teve uma natureza humana completa e uma natureza divina também completa, duas naturezas em uma só pessoa. Portanto, na pessoa de Jesus as duas naturezas estão unidas, sem confusão, sem mudanças, sem divisão, sem separação, conservando cada qual a sua própria especificidade.

A Idade Média acrescentou muito pouca coisa à doutrina da pessoa de Cristo.

• Alguns do escolásticos expuseram em sua Cristologia um conceito docético de Cristo. Para Tomaz de Aquino a pessoa do Logos tornou-se composta na encarnação, e Sua união com a natureza humana “impediu” esta última de chegar a ter uma personalidade independente.


Até o século XIX não houve grandes mudanças na doutrina da pessoa de Cristo. A Reforma não contribuiu muito com relação a essa doutrina. A confissão Helvética retrata o pensamento do século XVI a meados do século XVIII sobre este assunto.

Confissão Helvética: “reconhecemos, pois, que há no único e mesmo Jesus, nosso Senhor, duas naturezas – a natureza divina e a humana; e dizemos que estas são ligadas ou unidas de modo tal, que não são absorvidas, confundidas ou misturadas, mas, antes, são unidas ou conjugadas numa pessoa (sendo que as propriedades de cada uma delas permanecem a salvo e intactas), de modo que podemos cultuar a um Cristo, nosso Senhor, e não a dois. Portanto, não pensamos nem ensinamos que a natureza divina em Cristo sofreu, ou que Cristo, de acordo com a Sua natureza humana, ainda está no mundo e ,assim, em todo lugar”.

No século XIX deu-se grande mudança no estuda da pessoa de Cristo. Até àquele tempo, o ponto de partida fora predominantemente teológico, e a Cristologia resultante era teocêntrica,; mas durante a última parte do século dezoito houve crescente convicção de que se alcançariam melhores resultados partindo de algo mais próximo, a saber do estudo do Jesus histórico. Assim foi introduzido o “segundo período Cristológico”, assim chamado. O novo ponto de vista era antropológico, e o resultado foi antropecêntrico. Isto evidenciou-se destrutivo para a fé cristã. O Cristo sobrenatural deu lugar a um Jesus humano; e a doutrina das duas naturezas deu lugar para a doutrina de um homem divino.

Scheleiermacher  Esteve a frente do novo desenvolvimento. Ele considerava Cristo como uma nova criação, na qual a natureza humana é elevada ao nível da perfeição ideal. Acreditava que Cristo atingiu essa perfeição por que estava unido a natureza divina.

Hegel  Seu conceito a respeito de Cristo é parte integrante do seu sistema panteísta de pensamento. O verbo se fez carne significa para ele que Deus se encarnou na humanidade, de modo que a encarnação expressa realmente a unidade de Deus e o homem.


“A doutrina das duas naturezas de Cristo desapareceu da teologia moderna e em seu lugar temos uma identificação panteísta de Deus e o homem. Essencialmente, todos os homens são divinos, desde que todos têm em si um elemento divino; e todos são filhos de Deus, diferindo de Cristo somente em grau. O ensino moderno acerca de Cristo está baseado na doutrina da continuidade de Deus e o homem. E é exatamente contra essa doutrina que Barth e os que pensam como ele ergueram sua voz. Nalguns círculos atuais há sinais de um retorno à doutrina das duas naturezas” (Louis Berkhof – pág. 155).




Informação Extra:

Concílios da Igreja Indivisa

50 C. de Jerusalém As leis judaicas e os cristãos}

325 1º C. de Niceia Contra o arianismo. Credo

381 1º Constantinopla Finalização do Credo

432 C. de Éfeso Contra o nestorianismo

451 C. de Calcedónia Contra o monofisitismo princípio da união hipostática

553 2º Constantinopla Contra os nestorianos

681 3º Constantinopla Contra o monotelitismo

767 2º C. de Niceia Legaliza veneração de imagens

867 e 1064:Cismas entre as Igrejas Romana e Ortodoxas



Concílios da Igreja Romana

869 4º Constantinopla A paz entre o Ocidente e o Oriente

1123 1º de Latrão Disciplina. contra os Valdenses e Albigenses.

1139 2º de Latrão Idem

1179 3º de Latrão Idem

1215 4º de Latrão Idem

1245 1º de Lião

1274 2º de Lião

1311 C. de Viena

1414 C. de Constância Fim da rivalidade entre os papas

1431 Basileia-Ferrara- Florença-Lausana Reforma e união com as igrejas orientais

1512 5º de Latrão



A partir de 1517: Reforma e surgimento das Igrejas Protestantes

1545 Concílio de Trento Contra- Reforma

1870 1º Concílio Vaticano Doutrina da infalibilidade papal

1962 2º Concílio Vaticano Aggiornamento da Igreja




1 – SUA PREEXISTÊNCIA

Jesus afirma sua eternidade quando diz: “... antes que Abraão existisse, EU SOU” (Jo 8.58) e também quando diz: “Eu sou o Alfa e o Ômega” (Ap 22.13).

1.1  – Provada pelo A.T.
·       Miquéias 5.2 – “Mas tu, Belém-Efrata, embora pequena entre os clãs de Judá, de ti virá para mim aquele que será o governante sobre Israel. Suas origens estão no passado distante, em tempos antigos”.
·         Isaías 9.6 – “Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz”.

1.2  – Provada pelo N.T.
·         João 1.1, em comparação com o versículo 14 – “No principio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Ele estava com Deus no principio. (...) Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós...”
·         João 8.58 – “Respondeu Jesus: Eu lhes afirmo que antes de Abrão nascer, Eu Sou!”
·    1 Pe 1.20 – “Conhecido antes da criação do mundo, revelado nestes últimos tempos em favor de vocês”.

1.3  – Provada por obras
Certas obras atribuídas a Cristo exigem Sua preexistência.
Ex.: criação
·         1 Coríntios 8.6 – “para nós, porém, há um único Deus, o Pai, de quem vêm todas as coisas e para quem vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem vieram todas as coisas e por meio de quem vivemos”.
·         Colossenses 1.16 – “pois nele (Jesus) foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invísiveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades, todas as coisas foram criadas por ele e para ele”.

1.4  – Provada por aparições
As aparições do Anjo do Senhor (Gn 48.16; Êx 3.2,4; Jz 13.18). Estas eram teofanias, manifestações do verbo antes da sua encarnação, e só ocorreram antes dela.
Exemplo: Gênesis 18 – 1O Senhor apareceu a Abraão (...). 2Abraão ergueu os olhos e viu três homens em pé, a pouca distância. Quando os viu, saiu da entrada de sua tenda, correu ao encontro deles e curvou-se até o chão (Abraão o adorou e o mesmo recebeu sua adoração). 10Então disse o Senhor: voltarei a você (...).

1.5  – Provada pelos Seus nomes
·         Logos – O termo logos trazia para os gregos uma dupla referência. Era tanto à Palavra de Deus poderosa e criadora do Antigo Testamento, pela qual os céus e a terra foram criados (Sl 33.6), como ao princípio organizador ou unificador do universo, dando-lhe conjunto e sentido dentro do pensamento grego. João ao fazer uso desta palavra, com certeza estava identificando Jesus com essas duas idéias e acrescentando que Ele não só era a Palavra poderosa, criadora e a força que organiza e unifica o universo como também se fez homem.
·         Deus – A palavra Deus (Theos) é atribuída a Cristo. Apesar de a palavra “theos” (Deus) ser em geral reservada no Novo Testamento para Deus Pai, há algumas passagens em que é também empregada em referência a Jesus Cristo. Em todos esses trechos, a palavra “Deus” é empregada com um sentido denso em referência àquele que é Criador do céu e da terra, o governante de tudo. Entre essas passagens encontram-se: João 1.1; 1.18 (em manuscritos mais antigos); 20.28; Romanos 9.5; Tito 2.13; Hebreus 1.8 e 2 Pedro 1.1.
  Um exemplo veterotestamentário do nome Deus aplicado a Cristo encontra-se numa passagem bem conhecida: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus forte...” (Isaías 9.6).
·         Filho de Deus – Ainda que o título “Filho de Deus” possa às vezes ser simplesmente empregado em referência a Israel (Mt 2.15), ou ao homem criado por Deus (Lc 2.38), ou ao homem regenerado em geral (Rm 8.14, 19,23), há, entretanto, casos em que a frase “Filho de Deus” refere-se a Jesus como o Filho celestial eterno igual ao próprio Deus (Mt 11.25-30; 17.5; 1 Co 15.28; Hb 1.1-3, 5, 8). Isso ocorre especialmente no evangelho de João, em que Jesus é visto como um Filho singular do Pai (Jo 1.14, 18, 34, 39) que revela plenamente o Pai (Jo 8.19; 14.9). Ele é também aquele que possui toda a autoridade proveniente do Pai para dar vida, pronunciar julgamento eterno e governar sobre tudo (Jo 3.36; 5.20-22, 25; 10.17; 16.15). Como Filho, ele foi enviado pelo Pai e, portanto, existia antes de vir ao mundo (Jo 3.37; 5.23; 10,36).
·      Javé (Jeová ou Iavé) e Kyrios – O nome “Senhor” é aplicado a Deus na Septuaginta, como equivalente de Jeová e como tradução de Adonai no Antigo Testamento.
      Ás vezes a palavra Senhor (Gr. Kyrios) é empregada simplesmente como tratamento respeitoso dispensado a um superior (Mt 13.27; 21.30; Jo 4.11). 
         Às vezes pode simplesmente significar “patrão” de um servo ou escravo (Mt 6.24; 21.40). Jesus é tratado como o Senhor (Kyrios).
      A palavra kyrios é empregada para traduzir o nome do Senhor 6814 vezes no Antigo Testamento grego. Assim, qualquer leitor grego da época do Novo Testamento que conhecesse um pouco o Antigo Testamento grego reconheceria que, nos contextos apropriados, a palavra “Senhor” era o nome do Criador e Mantenedor do céu e da terra, o Deus onipotente.



2 – SUA ENCARNAÇÃO
Embora a palavra não ocorra de maneira explicita na Bíblia, a igreja tem empregado o termo encarnação para referir-se ao fato de que Jesus era Deus em carne humana. A encarnação foi o ato pelo qual Deus filho assumiu a natureza humana.
Mas o equivalente grego do latim "in carne" (τη σαρκι, en sarki, "na carne") se encontra em algumas declarações importantes no Novo Testamento a respeito da pessoa e obra de Jesus Cristo. Em 1 Timóteo 3.16 fala sobre "Aquele que foi manifesto na carne". João atribui ao espírito do anticristo qualquer negação que Jesus Cristo "veio em carne" (1 João 4.2). Paulo diz que Cristo realizou sua obra de reconciliação "no corpo da sua carne" isso quer dizer que Cristo pela sua morte nos reconciliou com DEUS (Colossenses 1.22; Efésios 2.15), e, que ao enviar Seu Filho "em semelhança de carne pecaminosa" Deus "condenou ... na carne, o pecado" (Romanos 9.3). Todos esses textos mostram de diversas maneiras que Cristo garante a salvação porque veio em "carne" e morreu "na carne".
No grego “sarx - sarx” que significa “carne” faz distinção com ossos, tendões, pele, etc., em outras palavras, ela não é meramente o corpo, mas o homem todo como pessoa.
No grego “soma - soma” consiste em ossos, sangue, tendões, carne e pele, representando o corpo fisico ou material.
Nesse sentido teológico, "carne" não é de maneira nenhuma alguma coisa que o homem possui, mas é antes uma coisa que o homem é, sinalizado pela fraqueza e fragilidade próprias da criatura e nesse particular aparece em contraste com "espírito".


2.1 – Significado
·        Estar em carne (Jo 1.14) – em corpo humano.
·        Estas palavras o apóstolo João ataca duas posições claras do gnosticismo:
o      É um repudio a idéia do logos jamais se encarnar.
o      Repudia a idéia de que o grande mal do homem está no corpo (carne matéria – soma).

2.2 – Seu meio
O nascimento virginal.
·        Predito – Isaías 7.14
·        Consumado – Mt 1.18-25; Lc 1.26-38
·        Provado – O pronome feminino empregado em Mateus 1.16 indica que o nascimento de Jesus veio por Maria apenas, sem participação de José.
§       Milagres: Um corpo humano foi maravilhosamente concebido sem contribuição de um pai terrestre.
§       Deus adicionou na encarnação toda a natureza humana, mas sempre retendo toda a natureza divina (“união hipostática”).

2.3 – Suas razões
·      Revelar Deus aos homens (Jo 1.18);
·      Prover um exemplo de vida (1 Pe 2.21);
·      Prover um sacrifício pelo pecado (Mc 10.45; Hb 10.1-10);
·      Destruir as obras do diabo (Lc 4.18; 1 Jo 3.8; Hb 2.14);
·      Reconciliar o homem com Deus (2 Co 5.19: 1 Tm 2.5-6);
·      Ser um sumo sacerdote misericordioso (Hb 5.1-2, Hb 9.26);
·      Cumprir a aliança davídica (Lc 1.31-33);
·      Ser sobremaneira exaltado (Filipenses 2.9).


2.4 – A Pessoa
A pessoa de Cristo encarnado incluía:
·        Divindade plenamente mantida (100% Deus);
·        Perfeita humanidade (100% homem);
·        União numa única pessoa para sempre (Deus e homem). Jesus terá um corpo com aparência humana para sempre. Depois da ressurreição Ele tinha a aparência de um homem (Jo 20.15; 21.4-5). Hoje, está no céu como homem (1 Tm 2.5). Voltará como homem (Mt 16.27-28; 25.31; 26.64-65). Julgará como homem (At 17.31).



3 – SUA HUMANIDADE
Ontologia é a parte da filosofia que trata do ser enquanto ser, isto é, do ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres. Tendo-se em conta que "onto", do grego, vem a significar indivíduo ou ser, e "logia", significa estudo; tem-se que "ontologia" vem a ser o estudo investigativo e comparativo do indivíduo - aqui tido como exemplar da espécie humana - frente aos demais seres vivos, passando pela sua concepção, criação, evolução e extinção. Busca, portanto, o conhecimento profundo acerca da natureza do ser humano, levando em conta os aspectos fisiológicos e espirituais, confrontando-os com aqueles que caracterizam e distinguem os demais seres vivos.
·         Jesus enquanto homem estava subordinado ao Pai. Contudo essa subordinação é de ofício, operação (Jesus veio para fazer a vontade do Pai), mas ela não é de essência-poder. Jesus Cristo não é menor que o Pai.


3.1 – Ele possuía um corpo humano – Lc 2.7; 1 Tm 2.5 “... Jesus Cristo, homem”.
·         Nascido de mulher (Gálatas 4.4);
·         Sujeito ao crescimento (Lucas 2.52);
·         Possuía uma mente humana (Lc 2.40 – passou pelo processo de aprendizagem);
·         Visto e tocado por homens (1 João 1.1; Mateus 26.12);
·         Sem pecado (Hebreus 4.15);

3.2 – Ele possuía alma e espírito humanos
·    Mateus 26.38 – “Disse-lhes então: A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem comigo”.
·         Lucas 23.46 – “Jesus bradou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”.
·         Orou – Mc 1.35; Lc 11.1

3.3 – Ele foi sujeito às limitações da humanidade
·         Ele sentiu fome (Mateus 4.2);
·         Ele sentiu sede (João 19.28);
·         Ele se cansou (João 4.6);
·         Ele chorou (João 11.35);
·         Ele foi tentado (Hebreus 4.15);
·         Ele teve sono (Mt 8.24);
·         Dependeu do Pai (Mc 1.35; Jo 6.15);
·         Morreu (Mt 27.50; Jo 19.34).

3.4 – Ele recebeu nomes humanos
·         Filho do homem (Dn 7.13; Lucas 19.10);
·         Jesus (Mateus 1.21);
·         Filho de Davi (Marcos 10.47);
·         Carpinteiro (Mc 6.3).

3.5 – Ele morreu
·         Romanos 5.6 – “De fato, no devido tempo, quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios”.
·         1 Coríntios 15.3 – Pois o que primeiramente lhes transmiti foi o que recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras”.

Implicação da humanidade de Cristo à Expiação aplicável em nosso benefício. O Cristo pôde ser nosso sacerdote, empatizando-se e intercedendo (Hb 4.15) por nós. Jesus, homem, mostra-nos a verdadeira natureza humana.
A humanidade de Jesus foi marcada pelo sofrimento e obediência que o conduziu a cruz.




4 – SUA DIVINDADE
Ao falarmos da divindade de Jesus mostraremos que Seu nome prova sua divindade, contudo iniciaremos dando ênfase primeiramente aos dois nomes mais usados, pois estes descrevem sua natureza e sua obra.

·        O nome “Jesus” – O nome Jesus é a forma grega do hebraico, Jehoshua, Joshua (Josué 1.1); Zc 3.1), ou Jeshua (forma normalmente usada nos livros históricos pós-exílicos), que significa salvação ou redenção. Afirma-se que este nome é derivado de Jeho (Jehova) e shua (socorro).
·        O nome “Cristo” – Se Jesus é o nome pessoal, Cristo é o nome oficial do Messias. É o equivalente de Maschiach (ungido) do Antigo Testamento.


4.1 – Provada pelos Seus nomes
·        Deus (Hebreus 1.8);
·        Filho de Deus (Mateus 16.16; 26.61-64a);
·        Senhor (Mateus 22.43-45);
·        Rei dos reis e Senhor dos senhores (Apocalipse 19.16);
·        Advogado e intercessor (1 Jo 2.1);
·        Alfa e Ômega (Ap 1.8).


4.2 – Provada por Suas características
·      Onipotência – Essa é demonstrada quando Jesus acalmou a tempestade no mar com uma palavra (Mt 8.26-27), multiplicou os pães e peixes (Mt 14.19) e transformou a água em vinho (João 2.1-11). Podemos incluir vários outros textos que mostram seu poder. Ex. Mateus 28.18. Jesus operava sinais e maravilhas e Seu nome era glorificado e Ele era adorado.
·        Onisciência – Era demonstrada no fato de conhecer os pensamentos das pessoas (Mc 2.8), de ver, de muito longe, Natanael sob a figueira (Jo 1.48), de conhecer “desde o principio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair” (Jo 6.64). Outros texto: João 1.48.
·        Onipresença – Durante seu ministério terreno esse atributo não foi manifestado. Contudo Jesus afirma sua onipresença ao declarar que quando a Igreja fosse estabelecida onde ela se reunisse Ele estaria presente (Mateus 18.20). Além disso, antes de deixar a terra, disse aos discípulos: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20).
·      Eterno (João 1.4; 5.26) – Jesus possuía o atributo divino da imortalidade, a incapacidade de morrer. Ele é a própria vida. Vemos isso indicado no início do evangelho de João, quando Jesus fala aos judeus: “Destruí esse santuário, e em três dias o reconstruirei” (Jo 2.19). Precisamos insistir que Jesus realmente morreu, mas a morte não o podia deter. Também é significativo observar que o próprio Jesus afirma que atuaria em sua ressurreição, embora outras passagens digam que o Pai atuou na ressurreição. Em outra passagem do Evangelho de João, Jesus alega ter poder para entregar a vida e reassumi-la: “Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai” (Jo 10.17,18).

4.3 – Provada pro Suas obras
·        Criação (João 1.3, Cl 1.16) – criador do universo, dos anjos, etc.;
·        Sustentação e preservação da criação (Colossenses 1.17; Hb 1.3);
·        Perdão de Pecados (Lucas 7.48);
·        Ressurreição dos Mortos (João 5.25; 10.28; Fp 3.21) – Doador da vida imortal;
·        Julgamento (João 5.27; 2 Tm 4.1) – Juiz dos vivos e dos mortos;
·        Pastor (Sl 23.1; Jo 10.11; 1 Pe5.4);
·        Envio do Espírito Santo (João 15.26).

4.4 – Provada pela adoração oferecida a Ele
·        Por anjos (Hebreus 1.6);
·        Por homens (Mateus 14.33);
·        Por todos (Filipenses 2.10).

4.5 – Provada por Sua igualdade na Trindade
·        Com o Pai (João 14.23; 10.30);
·        Com o Pai e o Espírito Santo (Mateus 28.19; 2 Coríntios 13.13).
·        Consubstancialidade é um conceito cristológico introduzido na profissão de fé pelo Concílio de Niceia (325 d.C) e que diz respeito à divindade de Cristo, por ser da mesma substância do Pai. O termo consubstancialidade é o correspondente ao termo grego homoousios, termo original que designa essa realidade. Este termo provém da junção de homos, que significa “o mesmo”, e ousios, proveniente de ousía, que significa substância ou essência. Assim, o termo tem o sentido de “da mesma substância, com a mesma essência”.



5 – SUA VIDA TERRENA

5.1 – Sua Preparação
·        Nascimento
·        Infância, pré-adolescência e crescimento até a maturidade
·        Batismo
·        Tentação

5.2 – Sua Pregação
·        Ministério inicial na Judéia (João 2.13-4.3)
·        Ministério na Galiléia (Marcos 1.14-9.50)
·        Ministério da Peréia (Lucas 9.51-19.28).

5.3 – Sua Paixão
·        A última semana em Jerusalém (Lucas 19.29-22.46);
·        Traição e prisão (João 18.2-13);
·        Julgamento perante Anás (João 18.12-24);
·        Julgamento perante Caifás (Marcos 14.53-15.1);
·        Julgamento perante Pilatos (Marcos 15.1-5);
·        Julgamento perante Herodes (Lucas 23.8.12);
·        Segundo julgamento perante Pilatos (Marcos 15.6-15);
·        Crucificação;
·        Sepultamento;
·        Ressurreição.



6 – A KENOSIS

6.1  – Significado
A palavra “kenosis” significa literalmente esvaziamento.
O texto que fundamenta esta doutrina se encontra na carta que o apóstolo Paulo escreveu aos irmãos da igreja de Filipo – “a si mesmo se esvaziou (ekenosen), assumindo a forma de servo” (Filipenses 2.7).

6.2 – A verdadeira doutrina da Kenosis
A doutrina da “kenosis” envolve:
·        O encobrimento de Sua glória pré-encarnada;
·        Sua condescendência em assumir a semelhança de carne pecaminosa (a forma humana) durante a encarnação;
·        O não uso voluntário de alguns de Seus atributos durante Sua vida terrena

6.3 – Teoria falsa da Kenosis
O grande erro cometido por muitos a respeito desta teoria:
·        Alguns kenoticistas defendem que Cristo transformou-se literalmente num homem, reduzindo-se total ou parcialmente às dimensões de um homem, e depois cresceu em sabedoria e poder, até que afinal se tornou Deus de novo.
·        Cristo perdeu, ao abrir mão, certos atributos durante Sua vida terrena. Se isso tivesse acontecido, Ele teria deixado de ser Deus durante este período.



7 – SUA IMPECABILIDADE
Ainda que o Novo Testamento seja claro em afirmar que Jesus era plenamente humano exatamente como nós, também afirma que Jesus era diferente em um aspecto importante: ele era isento de pecado e jamais cometeu um pecado durante sua vida.
Algumas considerações:
·        Devemos nos lembrar que a natureza humana de Jesus era a mesma de Adão antes do pecado. O que nos mostra que ele poderia pecar.
·        Devemos considerar que diferentemente de Adão, Jesus também possui uma natureza divina. Portanto não poderia pecar.
·        A união de ambas as naturezas o impediu de pecar.


7.1 – Significado
Cristo era incapaz de pecar.

7.2 – Objeção
Se Cristo era incapaz de pecar, não poderia ter sido genuinamente tentado e, portanto, não poderia ser um sumo sacerdote compassivo (Hebreus 4.15).
Jesus foi verdadeiramente tentado? A tentação que Jesus sofreu era real para Ele? Jesus foi verdadeiramente tentado e viveu esta tentação de maneira real.

7.3 – Resposta
A realidade da tentação não está na natureza moral da pessoa tentada e nem depende dela, e a possibilidade de compaixão não depende de uma correspondência especifica entre os problemas enfrentados.
Devemos considerar que a grande tentação de Jesus em usar seu poder e seus atributos como Deus era muito grande, contudo Ele suportou todas as coisas como qualquer outro homem e as venceu.

7.4 – Resultados
·        A tentação provou a impecabilidade de Cristo;
·        A tentação o capacitou a ser um sumo sacerdote misericordioso.



8 – OS SOFRIMENTOS E SUA MORTE

8.1 – Os Sofrimentos (Berkoff)
Vários pontos devem ser salientados com relação aos sofrimentos de Cristo.
1)      Ele sofreu durante toda a Sua vida. Toda a Sua vida foi uma vida de sofrimentos. Foi uma vida de servo, a do Senhor dos Exércitos, a vida do único ser humano sem pecado, na diária companhia de pecadores, e a vida do Santo num mundo amaldiçoado pelo pecado. O caminho da obediência foi para Ele, ao mesmo tempo, um caminho de sofrimento. Ele sofreu com as repetidas investidas de Satanás, com o ódio e a incredulidade do Seu povo, e com a perseguição dos Seus inimigos. Visto que Ele pisou sozinho o lagar, a Sua solidão só tinha que ser deprimente e o Seu senso de responsabilidade, esmagador. Seu sofrimento foi um sofrimento consagrado, e cada vez mais atroz, conforme o fim se aproximava. O sofrimento iniciado na encarnação, chegou finalmente ao clímax na passio magna (grande paixão) no fim da Sua vida. Foi quando pesou sobre Ele toda a ira de Deus contra o pecado.
2)      Sofreu no corpo e na alma. Tanto o corpo como a alma foram afetados pelo pecado, e a punição tinha que atingir ambos. Além disso, a Bíblia ensina claramente que Cristo sofreu em ambos. Ele agonizou no jardim, onde a Sua alma esteve “profundamente triste até a morte”, e também Ele foi esbofeteado, açoitado e crucificado.
3)      Seus sofrimentos resultaram de várias causas. Em última análise, todos os sofrimentos de Cristo resultaram do fato de que Ele tomou o lugar dos pecadores vicariamente. Mas podemos discernir várias causas próximas, como: (1) O fato de que Ele , que era o Senhor do Universo, teve que ocupar uma posição subalterna, sim, a posição de servo cativo, ou escravo, e Aquele que tinha inerentemente o direito de exercer mando, ficou com a obrigação de obedecer. (2) O fato de que Aquele que era puro e santo, teve que viver numa atmosfera pecaminosa e corrupta, diariamente na companhia de pecadores, e os pecados do Seus contemporâneos constantemente O lembravam da enormidade da culpa que pesava sobre Ele. (3) Sua perfeita noção e clara antecipação, desde o início da Sua vida, dos sofrimentos extremos que, por assim dizer, o esmagariam no fim. Ele sabia exatamente o que estava para vir, e a perspectiva estava longe de ser animadora. (4) Finalmente, também as privações da vida, as tentações do diabo, o ódio e rejeição do povo, e os maus tratos e perseguições a que esteve sujeito.
4)      Seus sofrimentos nas tentações. As tentações de Cristo são parte integrante dos Seus sofrimentos. Essas tentações se acham na vereda do sofrimento, Mt 4.1-11; Lc 22.28; Jo 12.27; Hb 4.15; 5.7,8. Só penetrando empaticamente nas provações dos homens em suas tentações, Jesus poderia ser o Sumo Sacerdote compassivo que foi e atinge as culminâncias da perfeição provada e triunfante, Hb 4.15; 5. 7-9. Não podemos pôr em dúvida a realidade das tentações de Jesus como o último Adão, por mais difícil que seja conceber que alguém que não podia pecar fosse tentado.

  8.2 – Morte do Salvador (Berkoff)
Os sofrimentos do Salvador culminaram finalmente em Sua morte. Neste contexto devemos dar ênfase aos seguintes pontos:
1)      A extensão da Sua morte. É simplesmente natural que, quando falamos da morte de Cristo neste contexto, temos em mente primeiro e acima de tudo a morte física, isto é, a separação de corpo e alma. Ao mesmo tempo, devemos lembrar que isto não esgota a idéia da morte apresentada na Escritura. A Bíblia faz uma conceituação sintética da morte, e considera a morte física apenas como uma das suas manifestações. Em segundo a morte é a separação de Deus, mas esta separação pode ser vista de duas maneiras diversas. O homem se separa de Deus pelo pecado, e a morte é o resultado natural, de modo que até se pode dizer que o pecado é a morte. Mas não dessa maneira que Jesus se tornou sujeito à morte, visto que Ele não tinha nenhum pecado pessoal. Com relação a isto, deve-se ter em mente que a morte não é meramente a conseqüência natural do pecado, mas é, acima de tudo, a punição do pecado, punição judicialmente imposta e infligida. É a ação pela qual Deus se retira do homem com todas as bênçãos de vida e felicidade, e visita o homem com ira. É segundo este ponto de vista judicial que se deve considerar a morte de Cristo. Deus impôs judicialmente a sentença de morte ao Mediador, desde que Este se incumbiu voluntariamente de cumprir a pena do pecado da raça humana. Uma vez que Cristo assumiu a natureza humana com todas as suas fraquezas, como ela existe desde a Queda, e assim se fez semelhante a nós em todas as coisas, com a exceção única do pecado, segue-se que a morte operou nele desde o princípio e se manifestou em muitos dos sofrimentos aos quais Ele esteve sujeito. Ele era um homem de dores e sabia o que é padecer. O catecismo de Heidelberg diz acertadamente que “todo o tempo em que Ele viveu na terra, mas especialmente no fim da Sua vida, Ele suportou, no corpo e na alma, a ira de Deus contra o pecado de toda a raça humana”. Estes sofrimentos foram seguidos por Sua morte na cruz. Mas isso não foi tudo; Ele esteve sujeito, não somente à morte física mas também à morte eterna, se bem que sofreu esta intensiva, e não extensivamente, quando agonizou no jardim e quando bradou na cruz, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Num curto período de tempo, Ele suportou a ira infinita contra o pecado até o fim, e saiu vitorioso. Isto somente Lhe foi possível graças à sua natureza exaltada. (...) O Logos permaneceu unido à natureza humana, mesmo quando o corpo estava no túmulo; a natureza divina absolutamente não podia ser desamparada por Deus; e a pessoa do Mediador foi e continuou sendo sempre objeto do favor divino.
2)      O caráter judicial de Sua morte. Era deveras essencial que Cristo não sofresse morte natural, nem acidental, e que não morresse pelas mãos de um assassino, mas sob sentença judicial. Ele tinha que ser contado com os transgressores e condenado como criminosos. Além disso, Deus dispôs providencialmente que o Mediador fosse julgado e sentenciado por um juiz romano. Os romanos tinham talento para a lei e a justiça, e representavam o poder judicial mais alto do mundo. Poder-se-ia esperar que o julgamento perante um juiz romano serviria para demonstrar claramente a inocência de Jesus, o que de fato aconteceu, para que ficasse absolutamente claro que Ele não foi condenado por nenhum crime cometido por Ele. Isto dá testemunho do fato de que, como diz o Senhor, Ele “foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo foi ele ferido”. E quando o juiz romano, não obstante, condenou o inocente, ele é verdade, também se condenou a justiça humana como ele a aplicara, mas, ao mesmo tempo, impôs sentença a Jesus na qualidade de representante do mais elevado poder judicial do mundo, exercendo as suas funções pela graça de Deus e ministrando a justiça em nome de Deus. A sentença de Pilatos foi também sentença de Deus, embora sobre bases inteiramente diferentes. É também significativo que Jesus não foi decapitado, nem mortalmente apedrejado. A crucificação não era uma forma judaica de castigo, mas, sim, romana. Era considerada tão infame e ignominiosa, que não podia ser aplicada a cidadãos romanos, mas somente à escória da humanidade, aos escravos e criminosos mais indignos. Sofrendo esse tipo de morte, Jesus satisfez as extremas exigências da lei. Ao mesmo tempo, padeceu morte amaldiçoada, e assim provou que se fez maldição por nós, Dt 21.23; Gl 3.13.


8.3 – O Sepultamento do Salvador (Berkoff)
Poderia parecer que a morte de Cristo foi o derradeiro estágio da Sua humilhação, principalmente em vista de uma das suas últimas palavras na cruz: “Está consumado”. Mas, com toda a probabilidade, esse pronunciamento se refere ao Seu sofrimento ativo, isto é, ao sofrimento no qual Ele teve parte ativa. Este de fato se consumou quando Ele morreu. É evidente que o Seu sepultamento também fez parte de Sua humilhação. Note-se especialmente o seguinte: (a) Voltar o homem ao pó, do qual fora tomado, é descrito na escritura como parte da punição do pecado, Gn 3.19; (b) Diversas declarações da escritura implicam que a permanência do Salvador na sepultura foi uma humilhação, Sl 16.10; At 2.27, 31; 13.34, 35. (...) O sepultamento dos cadáveres foi ordenado por Deus para simbolizar a humilhação do pecador. Há um certo acordo entre os estágios da obra objetiva de redenção e a ordem da aplicação subjetiva da obra de Cristo. A Bíblia fala do pecador sendo sepultado com Cristo. Pois bem, isso tem que ver com o despojamento do homem velho, e não do revestimento do novo, cf. Rm 6.1-6. Conseqüentemente, o sepultamento de Jesus também faz parte da Sua humilhação. Além disso, o sepultamento de Jesus não serve apenas para provar que Jesus estava realmente morto, mas também para remover os terrores do sepulcro para os remidos e santifica-lo para eles.


8.4  – A Descida do Salvador ao Hades
Base Bíblica - Há especialmente quatro passagens que entrarão em consideração aqui.
(1) Ef. 4.8, 9 – “Por isso é que foi dito: ‘Quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativos muitos prisioneiros, e deu dons aos homens. Ora, que quer dizer subiu, senão que também havia descido até às regiões inferiores da terra?”
(2) 1 Pe 3.18, 19 – “Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. Ele foi morto no corpo, mas vivificado pelo Espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão que há muito tempo desobedeceram, quando Deus esperava pacientemente nos dias de Noé, enquanto a arca era construída...”.

8.5 – A Morte de Cristo é Destacada em toda Palavra
·    No A.T. ela é como que um fio escarlate percorrendo a história, como o próprio Cristo demonstrou (Lucas 24.27,440.
·         No N.T. ela é mencionada pelo menos 175 vezes.
·         É o propósito máximo da encarnação de Cristo (Mateus 20.28; Hb 2.14).
·         É o coração do próprio evangelho (1 Coríntios 15.1-3).

8.6 – Sua descrição
·       Um resgate – A morte de Cristo pagou o preço da penalidade pelo pecado (Mateus 20.28; 1 Timóteo 2.6);
·     Uma reconciliação – A posição do mundo em relação a Deus foi modificada pela morte de Cristo, de tal modo que todos os homens agora podem ser salvos (2 Coríntios 5.18-19);
·         Uma propiciação – A justiça de Deus foi satisfeita com a morte de Cristo (1 João 2.2);
·         Uma substituição – Cristo morreu no lugar dos pecadores (2 Coríntios 5.21);
·         Uma prova do amor de Deus – A entrega de Seu único filho demonstra todo o amor que Deus sente pelo mundo e pelo homem em especial (João 3.16; Romanos 5.8).

8.7 – Falsas teorias sobre Sua morte
·         Teoria do exemplo ou da influência moral – O único propósito da morte de Cristo foi exercer uma influência positiva sobre o homem.
·         Teoria governamental – O governo de Deus sobre o universo exigia que Ele fizesse da morte de Cristo um exemplo de Seu ódio ao pecado.
·   Teoria neo-ortodoxa – A morte de Cristo foi uma revelação do amor de Deus e da pecaminosidade do homem, mas não uma substituição pelo pecado do homem.
·         Resgate e Satanás – O resgate efetuado pela morte de Cristo foi efetivamente pago a Satanás.




9 – SUA RESSURREIÇÃO (Berkoff)
9.1 - Natureza da ressurreição
A ressurreição de Cristo não constituiu no mero fato de que Ele retornou à vida, dando-se a reunião do corpo e a alma. Se isso fosse tudo que ela envolveu, Cristo não poderia ser chamado “as primícias dos que dormem”, 1 Co 15.20, nem “o primogênito de entre os mortos”, Cl 1.18; Ap 1.5, dando que outros foram devolvidos à vida antes dele. Sua ressurreição consistiu, antes, em que nele a natureza humana, o corpo e a alma, foi restaurada à sua prístina força e perfeição e até mesmo elevada a um nível superior, enquanto que o corpo e a alma foram reunidos num organismo vivo. (...). Diz-nos Paulo em 1 Co 15.42-44 que os corpos futuros dos crentes serão incorruptíveis, isto é, não terão possibilidade de sofrer decadência; gloriosos,o que significa que esplenderão de fulgor celestial; poderosos,isto é, cheios de energia e, talvez, de novas faculdades; e espirituais, o que não significa imateriais ou etéreos, mas adaptados aos seus respectivos espíritos, cada corpo sendo um perfeito instrumento do espírito. Da narrativa dos evangelhos, aprendemos que o corpo de Jesus passou por notável mudança, de modo que Ele não podia ser facilmente reconhecido e podia aparecer e desaparecer de repente, de maneira surpreendente, Lc 24.31; 36; Jo 20.13, 19; 21.7; mas era, não obstante, um corpo material e muito real, Lc 24.39. (...). A ressurreição de Cristo tem significação tríplice: (1) Constituiu uma declaração do pai de que o último inimigo tinha sido vencido, a pena tinha sido cumprida, e tinha sido satisfeita a condição em que a vida fora prometida; 2) Foi um símbolo daquilo que estava destinado a suceder aos membros do corpo místico de Cristo em sua justificação, em seu nascimento espiritual e em sua bendita ressurreição futura, Rm 6.4, 5, 9; 8.11; 1 Co 6.14; 15.20-22; 2 Co 4.10, 11, 14; Cl 2.12; 1 Ts 4.14; (3) relacionou-se também instrumentalmente com a justificação, a regeneração e a ressurreição final dos crentes, Rm 4.25; 5.10; Ef 1.20; Fp 3.10; 1 Pe 1.3.

9.2 – O autor da ressurreição
Em distinção dos outros que ressuscitaram dos mortos, Cristo ressurgiu por Seu próprio poder. Ele falou de Si mesmo como a ressurreição e a vida, Jo 11.25, declarou que tinha o poder de entregar a Sua vida e de retoma-la, Jo 10.18, e até predisse que reedificaria o templo do Seu corpo, Jo 2.19-21. Mas a ressurreição não foi uma realização unicamente de Cristo; freqüentemente é atribuída, na escritura, ao poder de Deus em geral, At 2.24; 32; 3.26; 5.30; 1 Co 6.14; Ef 1.20, ou mais particularmente, ao pai, Rm 6.4; Gl 1.1; 1 Pe 1.3. E se a ressurreição pode ser chamada obra de Deus, segue-se que o Espírito Santo também agiu nela, pois todas as opera ad extra (obras divinas externas à Trindade) são obras do Trino Deus. Ademais, em Rm 8.11 isso também está implícito.

9.3 – Tentativas de negar a ressurreição
A narrativa do túmulo vazio e das aparições de Jesus após a ressurreição apresenta a muitos um desafio a ser explicado, sem aceitar a ressurreição. Eis algumas das mais importantes tentativas:
A.    Teoria da falsidade. Afirmam que os discípulos praticaram fraude deliberada, roubando o corpo do túmulo e depois declarando que o Senhor ressuscitara. Os soldados que vigiavam o sepulcro foram instruídos para fazer circular aquela história, e Celso já recorreu a ela para explicar o túmulo vazio. É claro que esta teoria impugna a veracidade das primeiras testemunhas – os apóstolos, as mulheres, os quinhentos irmãos, e outros. Mas é extremamente improvável que os desanimados discípulos tivesses a coragem de impingir tal falsidade ao mundo hostil. É impossível acreditar que tivessem perseverando em meio aos sofrimentos, com uma crua falsidade como essa. Além disso, só o fato da ressurreição de Cristo. Estas considerações logo levaram ao abandono dessa idéia.
B.     A teoria do desmaio. Segundo essa teoria, Jesus não morreu de fato, mas apenas desfaleceu, conquanto se pensasse que Ele estava realmente morto. Mas, naturalmente isto levanta diversas perguntas difíceis de responder. Como se pode explicar que tanta gente se enganou, e que o golpe da lança não matou Jesus? Como é que Jesus, em Seu estado de exaustão, pôde fazer rolar a pedra que tapava o túmulo e depois ir de Jerusalém a Emaús e voltar? Como se explica que os discípulos não O trataram como uma pessoa doente, mas viram nele o poderoso Príncipe da vida? E o que foi feito de Jesus depois disso? Se se eliminar a ressurreição, naturalmente a ascensão também será eliminada. Terá Ele voltado para algum lugar desconhecido, passando em segredo o resto d Sua vida? Tantas são as improbabilidades que pesam sobre essa teoria, que o próprio Strauss a ridicularizava.
C.    Teoria da visão. Esta se apresenta em duas formas:
1)      Alguns falam de visões puramente subjetivas. Na excitação do seu estado mental, os discípulos se fixavam tanto no Salvador e na possibilidade do Seu retorno a eles, que por fim pensaram realmente que O viram. A faísca foi lançada pela temperamental e excitável Maria Madalena, e logo a chama se acendeu e se espalhou. Faz tempo que essa teoria vem sendo a favorita, mas ela também está prenhe de dificuldades. Como poderiam surgir essas visões, se os discípulos não esperavam a ressurreição? Como podiam aparecer, quando os discípulos estavam empenhados em suas ocupações comuns, e não estavam entregues à oração ou à mediação? Seria possível o rapto ou êxtase requerido para a produção de visões subjetivas ter começado logo no terceiro dia? Em tais visões, os discípulos não teriam visto Jesus circundando por um halo de glória celestial, ou então exatamente como O tinham conhecido, e desejoso de reatar o companheirismo com eles? Será que alguma vez as visões subjetivas se apresentam simultaneamente a várias pessoas? Como explicar as conversas visionárias?
2)      Em vista da extrema fraqueza dessa teoria, alguns eruditos apresentaram uma versão diferente dela. Alegam que os discípulos tiveram visões objetivas reais, miraculosamente enviadas por Deus, para persuadi-los a ir avante com a pregação do Evangelho. Isto de fato evita algumas das dificuldades apresentadas, mas se defronta com outras. Admite o sobrenatural; e, se isso é necessário, pro que não concede a ressurreição, que certamente explica todos os fatos? Além disso, essa teoria nos pede que acreditemos que estas visões enviadas por Deus foram tais, que enganaram os apóstolos. Será que Deus procura realizar os Seus fins por meio de ilusões?
D.    Teorias míticas. Passou a existir uma nova escola mítica que descarta, ou ao menos dispensa, as teorias da visão e da aparição, e procura explicar a “: lenda” da ressurreição com o auxílio de concepções importadas da babilônia e doutros países orientais pelo judaísmo. Essa escola alega, na somente que a mitologia das antigas religiões orientais contém analogias da narrativa da ressurreição, mas também que essa narrativa é realmente oriunda de mitos pagãos. Essa teoria foi elaborada em várias formas, mas é igualmente infundada, em todas as suas formas. É caracterizada por uma grande arbitrariedade em forjar uma relação da narrativa dos evangelhos com mitos pagãos, e não teve êxito em juntá-los. Além disso, demonstra extrema desconsideração para com os fatos, como se acham na escritura.

9.4 – A ressurreição um fato
·         O túmulo vazio;
·         As aparições:
o   Maria Madalena (João 20.11-17);
o   Às outras mulheres (Mateus 28.9-10);
o   A Pedro (1 Coríntios 15.5);
o   Aos discípulos no caminho de Emaús (Lucas 24.13-35);
o   Aos dez discípulos (Lucas 24.36-43);
o   Aos onze discípulos (João 20.26-29);
o   A sete discípulos junto ao mar da Galiléia (João 21.1-23).
o   A mais de 500 pessoas (1 Coríntios 15.6);
o   Aos onze em Sua ascensão (Mateus 28.16-20);
o   A Paulo (1 Coríntios 15.8)
·         A existência da Igreja;
·         A mudança operada nos discípulos que antes da ressurreição estavam com medo;
·         O dia de pentecostes;
·         A mudança do dia de culto para domingo.

9.5 – A natureza de Seu corpo ressurreto
·         Era um corpo real (João 20.20);
§  Não era uma ressurreição como a de Lázaro (Jo 11).
§  Cristo se tornou as primícias de um novo tipo de vida humana (1 Co 15.20-23).
·         Foi transformado de modo a nunca mais ser sujeito à morte e a limitações (Romanos 6.9).

9.6 – O significado da Ressurreição com relação
·         A Jesus Cristo
o   Provou que Ele era o Filho de Deus (Romanos 1.4);
o   Confirmou a verdade de tudo que Ele dissera (Mateus 28.6).
·         A todos os homens
o   Tornou certa a ressurreição de todos (1 Coríntios 15.20-22);
o   Garante a certeza do juízo vindouro (At 17.31).
·         Os crentes
o   Dá certeza de aceitação perante Deus (Romanos 4.25);
o   Supre poder para o serviço cristão (Efésios 1.19-22);
o   Dá garantia a ressurreição dos crentes (2 Coríntios 4.14);
o   Designa Cristo como Cabeça da Igreja (Efésios 1.19-22)
o   Garante-nos um Sumo Sacerdote misericordioso no céu (Hebreus 4.14-16).




10 – SUA ASCENSÃO
A transição de Cristo para a vida superior na glória começou na ressurreição e foi aperfeiçoada na ascensão. Não significa que a ascensão é destituída de significado independente. Mas, embora as provas bíblicas da ascensão não sejam tão abundantes como as da ressurreição, são mais que suficientes.
Alguns textos que relatam a ascensão de Cristo: Lc 24.50-53; At 1.6-11; Jo 6.62; 14.2, 12; 16.5, 10, 17, 28; 17.5; 20.17; Ef 1.20; 4.8-10; 1 Tm 3.16.

10.1 – A natureza da ascensão
Pode-se descrever a ascensão como a subida visível da pessoa do mediador da terra ao céu, segundo Sua natureza humana. Foi uma transição local, de um lugar para outro.

10.2 – O que é o Céu? (At 1.9-11)
Alguns estudiosos de tempos recentes consideram que o céu é uma condição, e não um lugar, e daí não concebem a ascensão em termos locais. Eles admitem que houve um elevar-se momentâneo de Cristo aos olhos dos doze, mas consideram isto somente como um símbolo da elevação da nossa humanidade a uma ordem espiritual muito superior à nossa vida presente. A concepção local, porém, é favorecida pelas seguintes considerações: (1) O céu é descrito na Escritura como um lugar de habitação de seres criados (anjos, santos, a natureza humana de Cristo). Todos estes seres se relacionam de algum modo com o espaço; somente Deus está acima de todas as relações espaciais. Por certo, as leis utilizadas no espaço celestial podem diferir das que se utilizam no espaço terrestre. (2) O céu e a terra são repetidamente colocados em justaposição na escritura. Deste fato parece que se pode inferir que, se um deles é um lugar, o outro terá que ser um lugar também. Seria absurdo colocar um lugar e uma condição em justaposição dessa maneira. (3) A Bíblia nos ensina a pensar no céu como um lugar. Várias passagens dirigem o nosso pensamento para cima, ao céu, e para baixo, ao inferno, Dt 30.12; Js 2.11; Sl 139.8; Rm 10.6,7. Isto não teria sentido, se ambos não devessem ser considerados como locais, nalgum sentido da palavra, (4) O ingresso do Salvador no céu é retratado como uma subida. Os discípulos vêem Jesus ascendendo até que uma nuvem o intercepta e O oculta da vista deles. O mesmo colorido local está presente na mente do escritor de Hebreus, em 4.14.

10.3 – Significado
·         Fim do período de limitação que Cristo se sujeitou.
·         Exaltação (Efésios 1.20-23; 1 Pe 3.22; Fl 2.9).
·         Precursor (Hebreus 6.20).
·         Início de Seu ministério sumo sacerdotal (Hebreus 4.14-16).
·         Preparação de um lugar para Seu povo (João 4.2).
·         Senhorio sobre a Igreja (Colossenses 1.18).

10.3 – Os estados de Jesus Cristo
·         Humilhação à encarnação, sofrimento, morte e sepultamento.
·         Exaltação à ressurreição, ascenção, sentar-se à destra de Deus e a volta em poder e glória.



11 – SEU MINISTÉRIO ATUAL

            11.1 – Figuras que demonstram Sua atuação hoje
O atual ministério de Cristo no céu é todo relacionado, direta ou indiretamente, à Sua função de mediador, e é revelado por sete ilustrações.
·         O último Adão e a Nova Criação (1 Co 15.45; 2 Co 5.17).
o   Significado – Cristo como o doador da vida, aquele que pagou o preço do pecado original e deu início a nova raça humana.
·         Cristo o Cabeça e a Igreja Seu corpo.
o   Significado – Direção, sustento, concessão de dons espirituais.
·         Pastor e ovelhas (João 10.10).
o   Significado – Direção e cuidado.
·         Videira e ramos (João 15).
o   Significado – Produção de fruto espiritual.
·         Pedra angular e pedras do edifício (1 Co 3.11; 1 Pe 2.4-8).
o   Significado – Fundamento de nossa existência, vida e segurança.
·         Sumo sacerdote e sacerdócio real (1 Pe 2.5-9).
o   Significado – Sacrifício e intercessão.
·         Noivo e noiva (Ef 5.25-27).
o   Significado – prontidão e santidade




12 – SUA VOLTA


12.1 – O regresso como um estágio da exaltação
Às vezes se omite a volta de Cristo na consideração dos estágios da Sua exaltação, como se a sessão à destra de Deus fosse o ponto culminante. Mas isto não está certo. O ponto supremo não será alcançado enquanto Aquele que sofreu nas mãos do homem não voltar na qualidade de juiz. Ele mesmo indicou isto como uma prerrogativa mediatária, Jo 5.22, 27, e o mesmo fizeram os apóstolos, At 10.42; 17.31. Além das passagens que falam da designação de Cristo como juiz, existem várias que se referem à Sua atividade judicial, Mt 19.28; 25.31-34; Lc 3.17; Rm 2.16; 14.9; 1 Co 5.10; 2 Tm 4.1; Tg 5.9.

12.2 – Termos bíblicos sobre o retorno de Cristo
Diversos termos empregados para designar a futura vinda de Jesus Cristo. O termo parousia é o mais comum deles. Em primeiro lugar, significa simplesmente “presença”, mas também serve para designar uma vinda precedendo uma presença. Este é o sentido comum do termo quando empregado com relação à volta de Jesus Cristo, Mt 24.3, 27, 37, 39; 1 Co 15.23; 1 Ts 2.19; 3.13; 4.15; 5.23; 2 Ts 2.1; Tg 5.7, 8; 2 Pe 3.4.
Um segundo termo é apocalypsis, que acentua o fato de que a volta de Jesus Cristo será um ato revelador dele. Indica o desvendar de algo anteriormente oculto, neste caso, o desvendar da oculta glória e majestade de Jesus Cristo, 2 Ts 1.7; 1 Pe 1.7, 13; 4.13. Um terceiro termo é epiphaneia, o glorioso aparecimento do Senhor – Sua gloriosa manifestação. Está implícito que aquilo que é o posto a descoberto é algo glorioso, 2 Ts 2.8; 1 Tm 6.14; 2 Tm 4.1-8; Tt 2.13.

12.3 – A maneira do regresso de Cristo
Alguns situam o regresso de Cristo no passado, alegando que a promessa da Sua volta foi cumprida quando ele retornou no Espírito Santo. Referem-se eles à promessa registrada em Jo 14-16, e interpretam a palavra parousia como significando simples presença. Pois bem, pode-se dizer que, num sentido, Cristo retornou no Espírito Santo e, como tal, está presente na igreja. Mas este foi um retorno espiritual, ao passo que a Bíblia nos ensina a ter em vista um retorno físico e visível de Cristo, At 1.11. Mesmo depois do Pentecoste, somos instruídos a esperar anelantes a vinda de Cristo, 1 Co 1.7; 4.5; 11.26; Fp 3.20; Cl 3.4; 1 Ts 4.15-17; 2 Ts 1.7-10; Tt 2.13; Ap 1.7.

12.4 – O propósito do Seu regresso
A segunda vinda de Cristo se dará com o propósito de julgar o mundo e aperfeiçoar a salvação do Seu povo. Anjos e homens, vivos e mortos, comparecerão perante Ele para serem julgados segundo o registro que deles terá sido guardado, Mt 24.30, 31; 25.31, 32. Será uma vinda com terríveis sentenças sobre os ímpios, mas também com bênçãos de eterna glória para os santos, Mt 25.33-46. Enquanto que ele sentenciará os ímpios ao castigo eterno, justificará publicamente os Seus e os conduzirá ao perfeito gozo do Seu reino eterno. Isto assinalará a vitória completa de Jesus Cristo.

12.5 – Anunciada pelo próprio Cristo
Mateus 24.27, 37, 42; 25.1-13




É costume falar de três ofícios com relação à obra de Cristo, a saber, os ofícios profético, sacerdotal e real. Embora alguns dos chamados pais primitivos da igreja já falassem dos diferentes ofícios de Cristo, Calvino foi o primeiro a reconhecer a importância de distinguir os três ofícios do Mediador e chamar a atenção para isto num capítulo específico das suas Institutas.(...). Desde os dias da |Reforma, a distinção foi aceita em geral como um dos lugares comuns da teologia, embora não houvesse acordo geral quanto à importância relativa dos ofícios, nem quanto à sua interrelação. Uns colocavam em primeira plano o oficio profético, outros o sacerdotal, e ainda outros o real. Houve quem lhes aplicasse a idéia de sucessão cronológica, entendendo que Cristo agiu como profeta durante o Seu ministério público aqui na terra, como sacerdote em Seus sofrimentos finais e em sua morte na cruz, e como rei age agora, que está assentado à mão direita de Deus. Outros, porém, salientavam acertadamente o fato de que se deve entender que Ele agiu e age em Sua tríplice capacidade em Seu estado de humilhação e em Seu estado de exaltação.

13.1 – O OFÍCIO DE PROFETA
A.    Os termos empregados na Escritura. O velho Testamento emprega três palavras para designar um profeta, a saber, nabhi, ro’eh e chozeh. O sentido radical da palavra nobhi é incerto, mas, por passagens como Ex. 7.1 e Dt 18.18, fica evidente que a palavra designa alguém que vem com mensagem da parte de Deus para o povo. As palavras ro’eh e chozeh acentuam o fato de que o profeta é alguém que recebe revelações da parte de Deus, particularmente na forma de visões. (...). No Novo Testamento usa-se a palavra prophetes, composta de pro e phemi. A preposição não é temporal, neste caso. Conseqüentemente, a palavra prophemi não significa “falar de antemão”, mas “proferir”. O profeta é alguém que fala da parte de Deus. Desses nomes, tomados em conjunto, podemos deduzir que o profeta é alguém que vê coisas, isto é, que recebe revelações, que está a serviço de Deus, particularmente como mensageiro, e que fala em Seu nome.
B.     O dever dos profetas. Era dever dos profetas revelar a vontade de Deus ao povo. Isto podia ser feito na forma de instrução, admoestação e exortação, promessas gloriosas ou censuras severas. Eles eram os monitores ministeriais do povo, os intérpretes da lei, especialmente nos seus aspectos morais e espirituais. Era seu dever protestar contra o mero formalismo, acentuar o dever moral, fazer ver a necessidade do serviço espiritual e promover os interesses da verdade e da justiça. Se o povo se afastava das veredas do dever, eles tinham que chamá-lo de volta à lei e ao testemunho, e anunciar o iminente terror do Senhor sobre os ímpios. Mas a sua obra também estava intimamente relacionada com as promessas da graça de Deus para o futuro. Era seu privilégio descrever as coisas gloriosas que Deus tinha em depósito para o Seu povo. Também fica evidente pela escritura que os verdadeiros profetas de Israel tipificavam o grande profeta que havia de vir no futuro, Dt 18.15, cf. At 3.22-24, e que já estava agindo por meio deles nos dias do velho testamento, 1 Pe 1.11.

13.1.1 – Distinções Aplicadas à Obra de Cristo
Cristo age como profeta de várias maneiras:
Tanto antes como depois da encarnação. Ele agiu como profeta mesmo na antiga dispensação, como nas revelações especiais do Anjo do Senhor (Gn 18.1-3,13), nos ensinos dos profetas, nos quais agiu como o espírito de revelação (1 Pe 1.11), e na iluminação espiritual dos crentes.
Tanto imediata como mediatamente. Ele exerceu o Seu ofício profético imediatamente, como o Anjo do Senhor do período do velho Testamento, e como o Senhor encarnado, por meio dos Seus ensinos e também do Seu exemplo, Jo 13.15; Fp 2.5; 1 Pe 2.22. E o exerceu mediatamente, através da operação do Espírito Santo, por meio dos ensinos dos profetas do Velho Testamento e dos apóstolos do Novo, e o exerce agora mesmo, pelo Espírito que habita nos crentes, como também pela instrumentalidade dos ministros do Evangelho. Isto significa também que ele dá continuidade à Sua obra profética objetiva e externamente, e subjetiva e internamente mediante o Espírito, que é descrito como o Espírito de Cristo.

13.1.2 – Provas Bíblicas do Ofício Profético de Cristo
A Escritura atesta de várias maneiras o oficio profético de Cristo. Ele é prenunciado como profeta em Dt 18.15, passagem aplicada a Cristo em At 3.22, 23. Ele fala de Si como profeta em Lc 13.33. Além disso, alega que traz uma mensagem do Pai, Jo 8.26-28; 12.49, 50; 14.10, 24; 15.15; 17.8, 20; prediz coisas futuras, Mt 24.3-35; Lc 19.41-44, e fala com singular autoridade, Mt 7.29. Suas poderosas obras serviam para autenticar a Sua mensagem. Em vista disso tudo, não admira que o povo O tenha reconhecido como profeta, Mt 21.11, 46; Lc 7.16; 24.19; Jo 3.2; 4.19; 6.14; 7.40; 9.17.

13.2 – O OFÍCIO SACERDOTAL
A.    Os Termos Empregados na Escritura. A palavra veterotestamentária para sacerdote é quase sem exceção kohen. As únicas exceções acham-se em passagens que se referem a sacerdotes idólatras, 2 Rs 23.5; Os 10.5; Sf 1.4, onde se encontra a palavra chemarim. O significado original de kohen é incerto. Não é impossível que nos primeiros tempos indicasse um funcionário civil bem como um servidor eclesiástico, cf. 1 Rs 4.5; 2 Sm 8.18; 20.26. É evidente que a palavra sempre indicava alguém que ocupava posição honrosa e de responsabilidade, e que estava revestido de autoridade sobre outros; e ainda que, quase sem exceção, serve para designar um oficial eclesiástico. A palavra neotestamentária para sacerdote é hiereus, que, ao que parece, indicava originariamente “um ser poderoso” e, mais tarde, “uma pessoa sagrada”, “uma pessoa dedicada a Deus”.
B.     A Distinção Entre um Profeta e um Sacerdote. A Bíblia faz ampla, mas importante, distinção entre profeta e sacerdote. Ambos receberam de Deus o seu encargo, Dt 18.18, 19; Hb 5.4. mas o profeta foi nomeado para ser representante de Deus junto ao povo, para ser Seu mensageiro e para interpretar a Sua vontade. Era primeiramente um mestre religiosos. Por outro lado, o sacerdote era representante do homem junto a Deus. Tinha o especial privilégio de aproximar-se de Deus, e de falar e agir em favor do povo. É verdade que, na antiga dispensação, os sacerdotes também eram mestres, mas o seu ensino diferia do ensino dos profetas. Ao passo que estes acentuavam os deveres, responsabilidades e privilégios morais e espirituais, aqueles salientavam as observâncias rituais envolvidas num adequado acesso a Deus.

13.2.1 – As Funções do Sacerdote nos Termos Indicados na Escritura
A passagem clássica na qual são dadas as verdadeiras características do sacerdote e na qual sua obra é em parte designada, é Hb 5.1. Estão indicados ali os seguintes elementos:
A.    o sacerdote é tomado dentre os homens para ser o seu representante diante de Deus;
B.     age no interesse dos homens nas coisas pertencentes a Deus, isto é, nas coisas religiosas; Ele também fazia intercessão pelo povo (Hb 7.25).
C.    sua obra especial consiste em oferecer dádivas e sacrifícios pelos pecados.
D.    os abençoava em nome de Deus, Lv 9.22.

13.2.2 – Provas Bíblicas Do Ofício Sacerdotal de Cristo
O Velho testamento prediz e prefigura o sacerdócio do redentor vindouro. Há claras referencias a isto em Sl 110.4 e Zc 6.13. Além disso, o sacerdócio do Velho Testamento, e particularmente o sumo sacerdote, claramente prefiguram um Messias sacerdotal. No Novo Testamento há somente um único livro em que ele é chamado sacerdote, qual seja, a Epistola aos Hebreus, mas ali o nome é repetidamente aplicado a Ele, 3.1; 4.14; 5.5; 6.20; 7.26; 8.1. Ao mesmo tempo, muitos outros livros do Novo Testamento se referem à obra sacerdotal de Cristo, como veremos na discussão deste assunto.
A Obra Sacrificial de Cristo foi dupla, de acordo com a escritura. Sua tarefa máxima foi a de oferecer um sacrifício todo-suficiente pelo pecado do mundo. Era próprio do oficio de sacerdote apresentar oferendas e oferecer sacrifícios pelo pecado. Cristo foi o ofertante e a oferta ao mesmo tempo.

A grande e central parte da obra sacerdotal de Cristo jaz na expiação, mas esta, naturalmente, não é completa sem a intercessão. Sua obra sacrificial na terra requer o Seu serviço no santuário celestial. Ambas são partes complementares da tarefa sacerdotal do Salvador.

13.2.3 – A Causa Motora da Expiação:
1) Ela se acha no Beneplácito de Deus. Às vezes ela é descrita como se a causa motora da expiação estivesse no amor compassivo de Cristo pelos pecadores. Ele era tão bondoso e tão cheio de amor que a simples idéia de que os pecadores poderiam perder-se para sempre Lhe causava aversão. Daí, Ele se ofereceu como vitima no lugar deles, cumpriu a pena dando a Sua vida pelos transgressores e assim, pacificou um Deus irado. Nalguns casos, este conceito incita os homens a elogiarem Cristo por Seu sacrifício supremo, mas, ao mesmo tempo, a censurar a Deus por exigir e aceitar tal preço. (...). Segundo este conceito, aparentemente Cristo recebe o que Lhe é devido, mas Deus fica privado da honra que Lhe cabe. De acordo com a escritura, a causa motora da expiação se acha no beneplácito, desta boa vontade de Deus, em salvar o pecador. Foi predito que Ele viria ao mundo para cumprir a vontade de Deus, “... e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos”, Is 53.10. Por ocasião do Seu nascimento, os anjos cantaram: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem”, Lc 2.14. A gloriosa mensagem de Jo 3.16 é que “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Diz Paulo que Cristo “se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai”, Gl 1.4. E ainda, “aprouve a Deus que nele residisse toda a plenitude, e que, havendo feito a paz pelo seu sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as cousas, quer sobre a terra, quer nos céus”, Cl 1.19, 20. Não seria difícil acrescentar outras passagens similares.
2) No Amor e na Justiça Combinados. É necessário evitar toda a qualquer unilateralidade nesta questão. Se dissermos que a expiação se funda somente na retidão e na justiça de Deus como causa motora da expiação, e daremos pretexto àqueles inimigos da teoria a satisfação, quanto à expiação, que gostam de descrevê-la como se implicasse que Deus é um ser vingativo, interessado unicamente em Sua honra. Se, por outro lado, consideráramos a expiação como pura expressão do amor de Deus, não faremos justiça à retidão e à veracidade de Deus, e reduziremos os sofrimentos e a morte de Cristo a um enigma inexplicável. O fato de que Deus entregou o Seu Filho unigênito a amargos sofrimentos e a uma morte ignominiosa não pode ser explicado somente com base no princípio do Seu amor.

13.2.4 – Objeções à Doutrina da Absoluta Necessidade da Expiação
Há especialmente duas objeções muitas vezes levantadas contra a idéia de que Deus tinha que exigir satisfação para poder perdoar o pecado e, porque não havia outro meio, constituiu Seu unigênito Filho um sacrifício pelo pecado do mundo.
1. Isso Torna Deus Inferior ao Homem – O homem pode perdoar gratuitamente os que o ofendem, e muitas vezes o faz, mas, de acordo com o conceito que está sendo considerado, Deus não pode perdoar enquanto na recebe satisfação. Quer dizer que ele é menos bom e menos caridoso que os homens pecadores? (...). A base da Sua determinação de redimir bom número de membros da raça humana e, nestes, a própria raça, só se pode achar em Seu beneplácito. O amor aos pecadores assim revelado não foi despertado por alguma consideração da satisfação exigida, mas foi inteiramente soberano e livre. O próprio Mediador foi uma dádiva que, naturalmente , não podia depender da expiação. E finalmente, não devemos esquecer que Deus mesmo forjou a expiação. Ele teve que fazer um tremendo sacrifício, o sacrifício do Seu único e bem-amado Filho, para salvar os Seus inimigos.
2. Pressupõe Uma Cisão Na Trindade – (...). Diz David Smith, o auto de In the Days of His Flesh (Nos Dias da Sua Carne): “Ela (a teoria penal da satisfação) coloca um abismo entre Deus e Cristo, representando Deus como Juiz severo que insistia na execução da justiça, e Cristo como o compassivo Salvador que se interpôs e satisfez a Sua exigência legal e apaziguou a Sua justa ira. Eles não estão unidos, nem em Suas atitudes para com os pecadores, nem nas funções que desempenham. Deus é propiciado, Cristo propicia; Deus exige a punição, Cristo a sofre; Deus cobra o débito, Cristo o paga”. Esta objeção também se baseia num mal entendido do qual, pelo menos em parte, têm culpa aqueles cristãos que falam e cantam como se Cristo, e não o Deus triúno, fosse exclusivamente ao autor da salvação deles. A Bíblia nos ensina que o Deus triúno providenciou livremente a salvação dos pecadores. Não havia coisa alguma que O constrangesse. O pai fez o sacrifício do Seu filho, e o filho ofereceu-se voluntariamente. Não houve cisão, mas, sim, a mais bela harmonia entre o pai e o Filho. Cf. Sl 40. 6-8; Lc 1.47-50, 78; Ef 1.3-14; 2. 4-10; 1 Pe 1.2.

13.2.5 - A Natureza da Expiação
A doutrina da expiação aqui apresentada é a doutrina da satisfação ou substituição penal, que é a doutrina claramente ensinada pela palavra de Deus.
A. Declaração da Doutrina da Expiação Substitutiva e Penal - Na discussão deste conceito, devemos acentuar diversas particularidades.

1. A EXPIAÇÃO É OBJETIVA - Quer dizer que a expiação influi primordialmente na pessoa por quem é feita. Se um homem age mal e presta satisfação do mal que praticou, esta satisfação visa a influir na pessoa que praticou o mal, e não na parte ofendida. No caso em foco, significa que a expiação foi destinada a propiciar a Deus e reconciliá-lo com o pecador. Esta é, indubitavelmente, a idéia primordial, mas não implica que não podemos falar também da reconciliação do pecador com Deus. A Escritura o faz em mais de um lugar, Rm 5.10; 2 Co 5.19, 20. Deve-se ter em mente, porém, que isto não é equivalente a dizer que o pecador é expiado, o que significaria que Deus fez emendas ou reparações, que Ele prestou satisfação ao pecador. E mesmo quando dizemos que o pecador foi reconciliado, isto dever ser entendido como algo secundário. O Deus reconciliado justifica o pecador que aceita a reconciliação (...). Noutras palavras, o fato de que Cristo reconcilia a Deus com o pecador redunda numa ação reflexa da parte do pecador, em virtude da qual se pode dizer que o pecador se reconcilia com Deus. Desde que a expiação objetiva de Cristo é um fato consumado, e desde que agora é dever dos embaixadores de Cristo induzir os pecadores a aceitar a expiação e a pôr fim à sua hostilidade a Deus, não admira que ao aspecto secundário e subjetivo da reconciliação tenha, como tem, certa proeminência na Escritura.

2. É UMA EXPIAÇÃO VICÁRIA – Há diferença entre expiação pessoal e vicária. Nosso interesse se volta particularmente para a diferença entre ambas quanto à expiação de Cristo. Quando o homem caiu e se afastou de Deus, ficou devendo uma reparação a Deus. Mas ele só poderia expiar o seu pecado sofrendo eternamente a penalidade fixada para a transgressão. É o que Deus podia exigir, pela estrita justiça, e teria exigido, se não tivesse agido com amor e compaixão pelo pecador. De fato, porém, Deus designou um substituto na pessoa de Jesus Cristo para tomar o lugar do homem, e este substituto expiou o pecado e obteve eterna redenção para o homem. O dr. Shedd chama a atenção para os seguintes pontos de diferença neste caso: (1) A expiação pessoal é providenciada pela parte ofensora; a expiação vicária, pela parte ofendida. (2) A expiação pessoal excluiria o elemento de misericórdia; a expiação vicária representa a mais elevada forma de misericórdia. (3) A expiação pessoal estaria em ação para sempre e, daí, não poderia redundar em redenção; a expiação vicária leva à reconciliação e a vida eterna.

3. PROPÓSITO (EFEITO) DA EXPIAÇÃOA expiação foi destinada a afetar a relação de Deus com o pecador, o estado e a condição de Cristo como o Autor Mediatário da salvação , e o estado e a condição do pecador.
3.1. SEU EFEITO COM REFERÊNCIA A DEUS. Deve-se salientar primeiramente que a expiação não efetuou mudança alguma no ser interior de Deus, que é imutável. A única mudança que foi produzida foi uma mudança na relação de Deus com os objetos do Seu amor expiatório. Ele se reconciliou com aqueles que eram objetos da Sua ira judicial. Significa que a Sua ira foi desviada pela cobertura sacrificial do pecado deles. A expiação não deve ser descrita como a causa motora do amor de Deus, pois já foi uma expressão do Seu amor. Ela é muitas vezes apresentada como se, na teoria da satisfação, Deus não pudesse amar o pecador enquanto as Suas justas exigências não fossem satisfeitas.Mas, então, omite-se o fato de que Cristo já é a dádiva do amor de Deus, Jo 3.16. Ao mesmo tempo, é mais que certo que a expiação removeu os obstáculos às manifestação do amor redentor de Deus no perdão dos pecadores e em sua santificação, satisfazendo a justiça de Deus e as exigências da lei, tanto em seus aspectos federais como em seus aspectos penais.



3.2. SEU EFEITO COM RESPEITO A CRISTO. A expiação assegurou a multiforme recompensa para Cristo como o Mediador. Ele foi constituído Espírito vivificante, fonte inexaurível de todas as bênçãos da salvação para os pecadores. Ele recebeu:
A.      Tudo quanto dizia respeito à Sua glorificação, Sua presente glória messiânica inclusive. Razão pela qual ele orou quando, em Sua oração sacerdotal, por antecipação, já considerava completa a Sua obra: “E agora, glorifica-me, ó pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo”, Jo 17.5.
B.       A plenitude daqueles dons e graças que Ele confere ao Seu povo. Assim lemos em Sl 68.18: “Subiste às alturas, levaste cativo o cativeiro; recebeste homens por dádivas, até mesmo rebeldes, para que Deus habite no meio deles”. Paulo aplica esta passagem a Cristo em Ef 4.8.
C.      O dom do Espírito Santo para a formação do Seu corpo místico e para a subjetiva aplicação dos frutos da Sua obra expiatória. Isso é evidenciado pelas palavras de Pedro no dia de Pentecoste: “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do pi a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis”, At 2.33.
D.      Os confins da terra como Sua possessão e o mundo para o Seu domínio. Esta foi uma das promessas a Ele feitas: “pede-me, e eu te darei as nações por herança, e as extremidades da terra por tua possessão”, Sl 2.8. Que esta promessa foi cumprida está patente em Hb 2.6-9.

3.3. SEU EFEITO NO QUE SE REFERE AO PECADOR.
A.    A expiação não somente tornou a salvação possível para o homem, mas de fato a garantiu. Sobre este ponto os calvinistas contestam os católicos romanos, os luteranos, os arminianos e todos quantos ensinam uma expiação universal. Estes afirmam que a expiação de Cristo apenas tornou a salvação possível, e incerta, para aqueles a quem é oferecida. Mas o calvinista ensina que a expiação garantiu meritoriamente a aplicação da obra de redenção àqueles para os quais estava destinada e, assim, tornou certa e segura a sua salvação.
B.     Ela assegurou para aqueles a favor dos quais foi feita:
1)   Adequada posição judicial mediante a justificação. Isto inclui o perdão de pecados, a adoção de filhos e o direito a uma herança eterna.
2)   a união mística dos crentes com Cristo por meio da regeneração e da satisfação. Isto abrange a gradual mortificação do homem velho, e o gradual revestimento do homem novo, mediante Jesus Cristo.
3)   Sua bem-aventurança final, em comunhão com Deus, mediante Jesus Cristo, na glorificação subjetiva e no gozo da vida eterna, numa nova e perfeita criação.

4. A EXTENSÃO DA EXPIAÇÃO.
4.1. O Ponto Exato em Questão. Quando Deus enviou Cristo e quando Cristo veio ao mundo para fazer expiação pelo pecado, fizeram isto com a finalidade ou propósito de salvar somente os eleitos, ou todos os homens? Esta, e só esta, é a questão.
4.2. Exposição da Posição Reformada (Calvinista – expiação limitada). A posição reformada é que Cristo morreu com o propósito de real e seguramente salvar os eleitos, e somente os eleitos. Isto equivale a dizer que Ele morreu com o propósito de salvar somente aqueles a quem Ele de fato aplica os benefícios da Sua obra redentora.
4.3. Outras Posições. Várias tentativas têm sido feitas, em círculos que se dizem reformados, para modificar esta posição.
Os arminianos holandeses sustentavam que Cristo morreu com o propósito de tornar a salvação possível para todos os homens, sem exceção, embora nem todos sejam salvos. A salvação lhes é oferecida com a condição de haver fé e obediência evangélica, condição que eles podiam preencher em virtude da dádiva divina da graça suficiente ou comum a todos os homens.
Os universalistas calvinistas procuravam colocar-se entre a posição reformada e a dos arminianos. Distinguiam um duplo decreto de Deus: (a) Um decreto para enviar Cristo ao mundo para salvar todos os homens por Sua morte expiatória, com a condição da fé nele. Contudo, porque Deus viu que este propósito fracassaria, dado que ninguém aceitaria a Cristo pela fé, Ele propôs um segundo decreto ao primeiro. (b) Um decreto para dar a um certo número de pecadores, a saber, aos eleitos, uma graça especial, com o fim de gerar fé nos seus corações e garantir a sua salvação.

5. A Obra Intercessória de Cristo
A obra sacerdotal de Cristo não se restringe à oferta sacrificial de Si mesmo na cruz Às vezes se declara que, ao passo que Cristo foi Sacerdote na terra, é Rei no céu. Isto cria a impressão de que a Sua obra sacerdotal está terminada, o que de modo nenhum é correto. Cristo é um Sumo Sacerdote, não somente terreno, mas também, e especialmente, celestial. Ele é, mesmo quando assentado à destra de Deus, com majestade celeste, “ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem”, Hb 8.2. Ele só principiou a Sua obra sacerdotal na terra, e a está completando no céu. No sentido estrito da palavra, Ele não é contado entre os sacerdotes terrenos, que eram apenas sombras de uma realidade vindoura, Hb 8.4. Ele é o Sacerdote verdadeiro, o Sacerdote verdadeiro, o sacerdote de fato,a servir no verdadeiro santuário, do qual o tabernáculo de Israel era apenas uma sombra imperfeita. Ao mesmo tempo, Ele é agora o sacerdote que ocupa o trono, nosso Intercessor junto ao Pai.


13.3 – O OFÍCIO REAL
Na qualidade de Segunda Pessoa da Trindade Santa, o Filho eterno, Cristo, naturalmente, comparte o domínio de Deus sobre todas as Suas criaturas. Seu trono está estabelecido nos céus e o Seu reino domina sobre tudo, Sl 103.19. Esta realeza difere da realeza mediatária de Cristo, que é uma realeza outorgada e econômica, exercida por Cristo, não meramente em Sua natureza divina, mas como Theanthropos (o Deus-homem). Esta última não é uma realeza que pertence a Cristo por direito original, mas, sim, uma realeza na qual Ele foi investido. Ela não pertence a uma nova esfera que ainda estivesse fora do Seu domínio como Filho de Deus, pois tal esfera não se pode encontrar em parte alguma. É antes, para dize-lo com as palavras de Dick, a Sua realeza originária, “revestida de forma, com uma nova aparência, administrada para um novo fim”. Em geral podemos definir a realeza de Cristo como o Seu poder oficial de governar todas as coisas do céu e da terra, para a glória de Deus e para a execução do Seu propósito de salvação. 



BIBLIOGRAFIA:
BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo. Editora Cultura Cristã, 2004; pgs. 281-303.
BÍBLIA ANOTADA. Versão Almeida, Revista e Atualizada. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1991.
GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo. Vida Nova, 2002; pgs. 435-470.
LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. Rio de Janeiro. JUERP, 1993.
SEVERA, Zacarias de Aguiar. Manual de Teologia Sistmática. Curitiba. AD Santos Editora, 2003; pgs. 221-252.

2 comentários:

  1. Professor Cornélio,

    Peço autorização para utilização/reprodução de seu material (com a devida citação da fonte) em uma aula de Cristologia que ministrarei.
    Fraternalmente em Cristo,
    Alessandro Alcantara de Mendonça - Brasília - DF

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    1. Oi Alessandro sinta-se a vontade para fazer uso deste material.

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