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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

ECLESIOLOGIA 21 - A CONCEPÇÃO AMBROSIANA DA IGREJA COMO ESCOLA

A CONCEPÇÃO AMBROSIANA DA IGREJA COMO ESCOLA

1. A visão ambrosiana da educação e da Igreja

Visamos, nesse ponto, indicar as marcas essenciais da educação na visão ambrosiana e o papel da Igreja enquanto sua transmissora.
 
1.1. A educação segundo Ambrósio

Indicando as principais características da educação na concepção de Ambrósio, devemos referir-nos a duas matrizes educacionais, isto é, aquela bíblica e a pagã. Elas contribuíram, significativamente, com seus ideais, à formação da visão ambrosiana acerca da educação, só que, precisa-se dizer logo, não se pode tratá-las como fatores iguais, mas, antes, opostos. A concepção pagã da educação, de fato, marca presença no pensamento de Ambrósio como um contributo negativo que, via oppositionis, lhe ajuda a cristalizar uma concepção bem diferente que se baseia, essencialmente, na Bíblia.
Assim, apoiando-se nos ideais apresentados no Antigo e no Novo Testamento, Ambrósio, além de incluir no âmbito de seu interesse educacional as dimensões naturais da existência do homem, põe em relevo, sobretudo, aquelas sobrenaturais, o que não foi priorizado pela cultura clássica. Trata-se, aqui, de realizar um processo que ajuda o homem a se relacionar, de modo familiar, com Deus mesmo, isto é, de rendê-lo, pela santificação, semelhante ao Ser Absoluto1 . A educação, pois, colocando o homem nessa nova dimensão que corresponde à visão bíblica, recebe assim nova orientação de sentido em relação ao que preconizava o ideal helenístico-romano.
Devemos ter presente, naturalmente, que a realização desse objetivo da educação cristã não pode ser separada do fenômeno de fé. Essa é o pressuposto necessário no processo edu-cativo e só com base nela se abre um caminho para uma educação e para uma formação, cujo critério fundamental para determinar os conteúdos e a prática pedagógica é que estes levem o homem a crescer na união com Deus, ou, mais especificamente, com Cristo2 .
Isso significa que a educação não prepara o homem para o ato de fé: esta não pode ser o fruto dos empreendimentos educativos. O ato da fé entra na dimensão muito sugestiva, é fruto da livre decisão humana e brota da experiência muito pessoal com o divino3 . O processo educativo, pois, vem como uma coisa posterior ao livre ato da fé: é, como conseqüência, na e não para a fé.
Sendo assim, podemos dizer que a educação, na visão de Ambrósio, consiste no aprofundamento do encontro primitivo e das relações entre o homem e Deus, o que se efetua numa progressiva conscientização e sensibilização dos fiéis à obra salvífica de Deus para torná-los mais capazes em perceber, assimilar e responder, sujeitando-se continuamente à realidade criadora e redentora divinas, com a própria vida a esse agir divino4 . A educação, pois, pode ser considerada como processo que prepara o homem para uma sempre mais intensiva experiência do Ser Divino.
Essa teocêntrica direção da educação não vislumbra, porém, os seus interesses para com o homem; aliás, seu teocentrismo inclui perfeitamente o aspecto antropológico, no sentido de que é muito claro, para Ambrósio, que somente em Deus o homem pode alcançar a plenitude da sua existência. Nesse caso, a educação pode ser vista como um meio que, antes de tudo, faz o homem descobrir a si mesmo, isto é, sua individualidade, a qual, enquanto portadora da imagem divina, testemunha a conexão ôntica entre ele e o Ser Divino5 . Educar significa direcionar o homem a Deus e criar-lhe a possibilidade de desenvolver uma existência completa e total, quer dizer, aquela que consiste no aperfeiçoamento de todas as faculdades e as capacidades correspondentes à sua verdadeira essência.
Tendo esses escopos, a educação, como conseqüência, visa tirar todos os obstáculos que dificultam a união entre o homem e Deus, libertando, o primeiro, de suas imperfeições. Essa função da libertação, concebida de modo ético, consiste tanto em demonstrar ao homem de que, quando ele peca, cai na escravidão, no poder das forças contrárias a Deus e Dele se separa, quanto em ajudá-lo a superar, oferecendo os devidos meios, o seu estado de limitação para alcançar a liberdade e a perfeição do Ser Divino6 .
Quando Ambrósio fala da união entre o fiel e Deus, ele sublinha, ainda, que dessa união brotam frutos tanto na vida terrena do homem, quanto naquela ultraterrestre. Em ambos os casos trata-se da felicidade e do amadurecimento pessoal, vistos, durante a existência terrena, como germes da felicidade e do amadurecimento no eon escático, quando o homem alcança a perfeição em suas três principais dimensões: ôntica, cognitiva e volitiva. Sendo assim, a educação é esse meio que conduz o homem a tal desenvolvimento, que lhe possibilita tornar-se pessoa que, em virtude da Criação e da Redenção, deve ser, isto é, a pessoa santa e semelhante a Deus; porque, somente desse modo, ele pode ser considerado digno de existir diante Dele tanto na vida presente, bem como na eternidade7 .

1.2. A Igreja como escola

Tendo presente a essência da educação na visão de Ambrósio, devemos indicar, agora, o papel da Igreja relacionado com o processo educativo. O pensamento de Ambrósio se caracteriza por uma forte exclusividade, no sentido de que a Igreja não é considerada uma das instituições onde se realiza a educação, mas como a única instituição.
Confluem para essa idéia ao menos dois fatores: o primeiro é a convicção que Ambrósio tem de que a Igreja foi convocada à existência por Deus, que continua presente nela: como a Igreja brotou da Palavra divina, assim, também, o projeto educativo tem Nela a sua origem. A educação, pois, na Igreja não se desenvolve por um estabelecimento humano, mas divino, e tem suas garantias na pessoa de Deus8. O segundo fator põe em relevo a conexão intrínseca entre o fenômeno da fé, da Igreja e da educação: só as pessoas que acreditam na Palavra de Cristo constituem a Igreja9 , o que significa que lá, onde existe a Igreja, lá, também, se realiza, necessariamente, em todo o fiel, o processo educativo, enquanto assumido na livre decisão.
Esses fatores fazem com que a Igreja possa ser, de fato, considerada o único lugar onde se abre o espaço para o homem realizar a adesão a Deus e aperfeiçoar a sua existência. É nela onde Cristo apresenta seu projeto educativo e fornece os meios para atuá-lo: na Igreja, pois, por intermédio do Espírito Santo10 , se proclama, na liturgia, a Palavra divina, se propaga, durante a instrução catequética, a doutrina dogmática e moral, se celebram os sacramentos, se realiza o caminho de virtude e se faz a experiência da oração.
Considerando o fato de que todos esses meios são de autoria divina, resulta, em conseqüência, que a Igreja, enquanto seu elemento humano, permanece sempre discípula. Ela é escola, antes de tudo, só se é vista como grupo de pessoas que, motivadas pela fé, aceitam o projeto de Cristo e fazem Dele o seu único Mestre11 .
Só no seu elemento divino a Igreja é sujeito ou agente da educação: ela cumpre seu papel educador quando, por meio dos autorizados representantes, transmite e promove a Palavra salvífica do único Mestre. Nesse modo, a Igreja tem razão de sua existência como escola só enquanto relacionada estritamente com a Escritura e em plena dependência desta.
E é fácil, de fato, notar a fidelidade de Ambrósio, ao idear a visão da Igreja como escola, aos dados bíblicos. Ele a elabora quase exclusivamente à base da Escritura e é ela que forma o pano de fundo de cada elemento de sua concepção.
Isso se percebe já no esforço que Ambrósio faz para demonstrar que a Igreja promove o projeto educativo somente aos moldes evangélicos. Assim, como Jesus educava os discípulos para que eles aderissem ao seu projeto e seguissem o seu destino12 , a função educadora da Igreja consiste em fazer o homem percorrer o caminho que Cristo percorreu e participar dos mesmos acontecimentos13 . Por isso, também, em cada elemento do processo educativo se espelham os atos e as palavras de Jesus: como os mistérios sacramentários, a prática de virtude e a oração marcavam a vida de Jesus, que terminou com a morte, ressurreição e ascensão para realizar a união com Deus, assim, também, a Igreja apresenta ao homem os mesmos meios para alcançar a mesma meta14 .
Esse formalismo bíblico está confirmado, ainda, por vários outros aspectos da dimensão educacional da Igreja. Constatamos, de fato, que os conceitos e as categorias que pertencem ao campo semântico do vocabulário escolar e educacional como os termos referentes seja às pessoas que desenvolvem a ação educadora na Igreja (magister, doctor), seja às que se submetem ao processo educativo (discipulus), seja à matéria a ser ensinada (doctrina, disciplina), seja à atividade docente (docere) e à de aprendizagem (discere), seja o termo central da paidéia greco-romana, a virtus, todos eles são de proveniência e de caráter eminentemente bíblico ou fundamentados na Escritura. Da Bíblia e à sua luz, também, Ambrósio tira e interpreta não só a doutrina de cunho moral e dogmático15  ou todos os componentes da caminhada do discipulado16 , mas até os princípios da filosofia, da poesia e da retórica, isto é, os componentes principais da paidéia clássica, ele reduz à Escritura17 .
Justamente podemos, pois, aplicar à Igreja uma fórmula que Ambrósio referiu à atividade docente dos mestres humanos18 , e que explica perfeitamente o seu status na dimensão educacional: a Igreja é escola secundum Scripturas, segundo as Escrituras, isto é, ela é, na visão ambrosiana, a escola bíblica.