NÓS, O SAGRADO E O SECULAR
A relação do cristianismo com a
cultura sempre foi marcada pelo dualismo entre o “sagrado” e o “profano”, também
chamado de secular.
Sagrado é tudo aquilo que divinizamos
ou está relacionado ao divino, tudo que utilizamos para prestar culto. Por outro lado o secular é tudo aquilo
que está relacionado ao mundo atual em que vivemos; tudo que se encontra fora
da esfera religiosa.
É muito comum nos perguntarmos:
Será que posso ir ao cinema? Será que posso usar esta roupa? Será que posso
beber vinho ou cerveja? Será que posso ouvir música secular? Será que posso ser
padrinho do meu irmão que vai se casar em outra religião?
Todas estas dúvidas existentes em nosso meio, em grande parte, é fruto
da separação que construímos ao longo dos anos entre o campo religioso (lugar
do sagrado) e o campo secular (lugar do profano). Algumas de nossas falas e ações demonstram essa
divisão de espaços em nossas mentes. Por exemplo:
·
“Aqui não pode fumar”. Por que aqui não pode fumar? O espaço é sagrado.
Lá fora você pode fumar a vontade. Por quê? Lá fora o espaço é secular. O
secular é o lugar do profano. Na verdade você não deve fumar em lugar nenhum,
pois o fumo destrói sua vida que é preciosa aos olhos de Deus.
·
“Não posso ir com essa roupa na igreja é muito decotada”. Por que você não pode ir? O espaço eclesiástico é sagrado. Lá fora
você usa porque o espaço é profano. Na verdade você não deveria usar essa roupa
lá fora, porque se ela não serve para ser usada aqui, também não serve para ser
usada lá, pois Deus será desonrado da mesma forma.
Dessa forma nós consideramos Luan
Santana, Michel Teló, Gilberto Gil e suas músicas profanas, porque estão fora
da esfera religiosa; por outro lado consideramos Ana Paula Valadão, Aline
Barros e suas músicas sagradas porque atuam na esfera religiosa.
O que não percebemos é que
existem muitas coisas de Deus no campo do profano, também chamado secular e
muitas coisas do diabo no campo religioso. Por exemplo:
·
No campo religioso: muitas igrejas tem pregado um evangelho que não é o de Jesus Cristo. Um
evangelho que promete vida próspera e cheia de dinheiro que não é prometido por
Cristo.
·
No campo secular: temos homens lutando pela justiça e dando a vida por causas nobres.
Lutando pela bandeira do Reino de Deus, mesmo sem conhecer a Deus como alguns
religiosos dizem conhecer. Temos pessoas produzindo arte das mais diversas que
são verdadeiras expressões de beleza e vida. Manifestações do Criador.
É muito comum nós cristãos nos
perdermos dentro destes dois ambientes. Lidamos com o sagrado e com o secular
de forma errada. Nós sacralizamos o que não é sagrado e profanamos o que é
sagrado. Isto se faz porque compreendemos o sagrado como um lugar, um espaço de
tempo ou um objeto que nos ajuda a prestarmos culto a Deus. Dessa forma o
templo, o horário do culto, os bancos, os instrumentos musicais, as músicas,
etc., se tornam sagrados para nós. Tudo que está fora dessa esfera religiosa de
adoração, nós consideramos seculares e objeto de desprezo, inclusive os seres
humanos que não vivem no mesmo campo religioso que nos encontramos.
O problema dessa concepção de dois mundos, um religioso e outro secular,
é que isso nos faz pessoas divididas, compartimentadas. Embora
afirmamos que Deus está em todo lugar e presente em todo tempo, no fundo acreditamos
que Ele está mais acessível em determinados lugares e horários, dessa forma vivemos
grande parte de nossas vidas como se Deus não estivesse conosco o tempo todo. Isso não afeta só a dimensão de
lugar e de tempo, mas também a
dimensão financeira: o dízimo pertence ao Senhor, e os outros 90% a quem
pertence? A dimensão
familiar: o cônjuge e os filhos deveriam ser sagrados, objetos de nosso
amor e dedicação maior, mas como lidamos com eles no dia a dia? A dimensão profissional:
lugar onde deveríamos honrar a Deus trabalhando de forma a honrar o patrão, e o
patrão honrar seu empregado e todos trabalhando com honestidade para o bem
maior de toda comunidade. Mas como trabalhamos de verdade? A grande maioria por
obrigação, pensando apenas em si mesmo e no dinheiro que vai receber. Afeta até
mesmo a dimensão
espiritual: Consideramos determinadas pessoas mais santas e mais
próximas de Deus. A oração do papa, do apóstolo ou do pastor é mais poderosa.
Isso é mentira. Todos nós temos livre acesso a Deus por meio de Jesus Cristo. Tudo
isso é fruto dessa visão de dois mundos um secular e outro sagrado. Mas de onde
surgiu essa concepção de um espaço sagrado e outro secular?
1 – A Construção do Espaço
Sagrado no A.T.
Muitos historiadores e teólogos
afirmam que essa dicotomia entre o sagrado e profano surgiu pela influência da
cultura grega (pensamento gnóstico: separação entre o espírito e a matéria) e
intensificada pela igreja Católica na idade média. Embora ambas as afirmações
tenham contribuído para dividir o mundo em sagrado e secular, o surgimento
deste pensamento já se evidenciava na cultura judaica muitos anos antes.
16 Quando Jacó acordou do sono, disse:
"Sem dúvida o Senhor está neste lugar, mas eu não sabia!"
17 Teve medo e disse: "Temível é
este lugar! Não é outro, senão a casa de Deus; esta é a porta dos céus". (Gênesis 28.16,17)
Jacó estava fugindo de seu irmão, Esaú. Cansado e já de noite ele se
deita e tem um sonho. Neste sonho Deus fala com Jacó e o encoraja. Ao acordar
ele pronuncia estas palavras que lemos. O lugar onde ele estava era um lugar
comum até ele ser visitado por Deus durante o sono. Ele passa a ver aquele
lugar como um espaço sagrado, inclusive batiza aquele local com o nome Betel,
que significa “casa de Deus”.
5 Então disse Deus: "Não se
aproxime. Tire as sandálias dos pés, pois o lugar em que você está é terra
santa". (Êxodo
3.5)
Nesta passagem,
Moisés pastoreava o rebanho de seu sogro, Jetro, quando ele vê uma sarça
ardendo em fogo, mas não sendo consumida pelo fogo. Moisés achou estranho e se
aproximou da sarça. Então Deus disse para ele “não se aproxime,..., pois o
lugar é terra santa”. O próprio Deus afirma que Moisés entrou em um lugar que
ele não tinha conhecimento, um espaço santo.
15 De hoje em diante os meus olhos estarão abertos e
os meus ouvidos atentos às orações feitas neste lugar.
16 Escolhi e consagrei este templo para que o meu
nome esteja nele para sempre. Meus olhos e meu coração nele sempre estarão. (2
Crônicas 7.15,16)
Ao término da construção do templo, Deus diz estas palavras:
“escolhi e consagrei este templo”.
Percebemos que no
Antigo Testamento Deus vai construindo dentro da cultura judaica a
diferenciação do que é sagrado e do que é secular. Deus utiliza alguns símbolos
para tornar este conceito mais forte, como a Arca da Aliança, o Tabernáculo e o
Templo.
Então este conceito de espaço sagrado é proveniente da
revelação dada por Deus ao povo de Israel, e nós somos frutos dessa revelação e
trazemos ainda muita herança do judaísmo no que diz respeito a este conceito de
espaço sagrado e secular.
Precisamos compreender
que embora Deus seja imutável, isto significa dizer que Ele é o mesmo Deus em qualquer
tempo da história humana. A revelação que Deus faz de si mesmo aos seres humanos é
progressiva. O conhecimento que Abraão possuía de Deus é menor que o conhecimento
que Moisés possuía de Deus, que por sua vez é menor que o conhecimento que Davi
possuía de Deus, que por sua vez é menor que o conhecimento que Daniel possuía
de Deus. A revelação plena de Deus se concretiza na pessoa de Jesus Cristo. Se desejamos
conhecer Deus plenamente e não em parte, precisamos olhar para Jesus e para os seus
ensinos. Tudo antes de Cristo eram sombras, as festas, o sábado, os alimentos e
suas prescrições, o dízimo, a Lei de Moisés, tudo que diz respeito à velha
aliança eram sombras.
16 Portanto, não permitam que ninguém os julgue
pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou
à celebração das luas novas ou dos dias de sábado.
17 Estas coisas são sombras do que haveria de vir;
a realidade, porém, encontra-se em Cristo. (Colossenses 2.16,17)
Tudo era um preparo para a revelação maior e final de Deus
por meio de seu Filho Jesus Cristo. Jesus redefine a dimensão do campo sagrado
e de nossa relação com Deus.
2 – A Redefinição do Espaço Sagrado a Partir de Jesus Cristo
20 Nossos antepassados adoraram neste monte, mas
vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar". 21 Jesus
declarou: "Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não
adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. 22 Vocês,
samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, pois a
salvação vem dos judeus. 23 No entanto, está chegando a hora, e de fato já
chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em
verdade. São estes os adoradores que o Pai procura. 24 Deus
é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em
verdade". (João 4.20-24)
Neste encontro de Jesus com a mulher samaritana, Ele nos
ensina uma nova dimensão de compreensão do espaço sagrado e secular.
A mulher pergunta a Jesus qual o lugar de prestar culto a
Deus? Qual é o lugar sagrado? Jesus afirma que nem no monte, nem em Jerusalém.
Jesus redefine a adoração, redefine o que é sagrado e
secular. Jesus inaugura uma nova visão de mundo, inaugura uma nova dimensão de
vida.
Nós transferimos o significado do Tabernáculo e do Templo
para os templos atuais que chamamos de igreja. Dessa forma sacralizamos o
lugar, o tempo e as coisas.
24 "O Deus que fez o mundo e tudo o que nele
há é o Senhor do céu e da terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas.
(Atos 17.24)
Essa atitude de sacralizarmos o lugar, o tempo e as coisas
vão contra a Palavra de Deus. Jesus sacralizou a vida e não um lugar, nem um
determinado tempo ou coisas. Eu e você fomos sacralizados quando Jesus derramou
o Espírito de Deus em nós.
Lembre-se você foi feito santuário, assim também a pessoa que
está ao seu lado. Você foi sacralizado, e seu irmão também foi. Portanto trate-o
como sagrado aos olhos de Deus.
19 Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário
do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês
não são de si mesmos? (1 Coríntios 6.19)
A partir de Cristo nós não precisamos ir ao monte ou a um templo
para adorar, não precisamos de um dia especial para adorar, não precisamos de
uma festa especial para adorar, porque nos tornamos o próprio templo de Deus. Nossa
vida é o campo sagrado. Tudo que diz respeito a nossa vida se tornou sagrado.
Não existe mais um lugar sagrado, não existe mais sábado
sagrado, não existe mais festa sagrada, não existe mais uma oferta sagrada, não
existe mais espaço para o sagrado e o secular, pois somos o templo vivo de Deus.
Vivemos 24h em comunhão plena com Deus.
Tudo que fazemos, nosso trabalho, o uso de nossos recursos
financeiros, de nossos dons, tudo que somos e temos pertencem a Deus, pois Ele
não só nos comprou, como fez habitação em nós, e nos imergiu Nele. Vivemos
imerso no sagrado.
A compreensão dessa realidade deve mudar nossa cosmovisão,
nossa ética, nossa conduta, nossa fala, em fim nosso viver.
3 – Todas as Coisas Foram Criadas Nele, Por Ele e Para Ele
16 pois nele foram criadas todas as coisas nos céus
e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou
autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele. 17 Ele
é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste. (Colossenses
1.16,17)
Nele foram criadas todas as coisas. Nele tudo subsiste.
Portanto nada existe fora do campo sagrado. Todas as coisas não só foram
criadas por Ele e para Ele, mas tudo está imerso Nele e só tem existência Nele.
O universo existe para cultuar a Deus.
Quando almoço, quando lavo roupa, quando jogo futebol; tudo é
sagrado, pois tudo que produzo deve ser expressão de adoração a Deus e de Sua
vida em mim. Trabalho com Ele, passeio com Ele, eu vivo Nele e Ele em mim.
Não existe mais a roupa de domingo e da semana. Não existe
mais um espaço de culto e um dia de culto, todos os dias são de culto, tudo que
faço é culto a Deus. Não existe mais o dízimo do Senhor. Tudo que ganho é do
Senhor. Dez por cento é o mínimo que devolvo à Deus para manter a igreja “CNPJ”
ativa e alcançando mais vidas para Cristo através de suas obras, e assim devo
proceder, mas o restante também é Dele, não me pertence, devo usar de forma a
honrá-lo.
Cristo nos restaurou para que a nossa existência Nele possa
glorificar a Deus novamente. Não pode existir em nossas vidas compartimentos
entre o sagrado e o secular. Não existem mais músicas seculares ou sagradas.
Tudo que ouço deve conter ensinos saudáveis, deve ser belo aos olhos de Cristo,
caso contrário eu os apago da minha vida. A questão não é se foi produzida pelo
espaço religioso ou secular, pois todo dom é dadiva de Deus, mas se o ensino
produz edificação ou se o conteúdo tem beleza.
Nem tudo que é produzido no espaço religioso é bom e edifica, e por
outro lado, nem tudo que é produzido no mundo secular é ruim e destrutivo.
Não podemos nos esquecer que toda arte (música, dança,
poesia, etc.) e toda capacidade criativa do homem provém de Deus. Recebemos a
capacidade de criar ao sermos feitos por Deus a Sua imagem e semelhança. O
pecado gerou a distorção levando o ser humano caído a produzir coisas ruins,
mas nem tudo que o ser humano caído produz é ruim. Existe muita manifestação da
criatividade de Deus em meio à cultura que chamamos secular.
O homem não só constrói armas e bombas, mas também faz ponte
para unir pessoas, produz remédios com o fim de curar os enfermos e doentes,
estende as mãos aos que passam por tragédias, escrevem músicas que aliviam a
dor da alma, etc. A bondade de Deus se mostra teimosamente no ser humano, mesmo
em meio à corrupção causada em seu ser ao se desconectar do Criador. Como dizem
por aí “até os brutos amam”.
Conclusão: Quero concluir levantando algumas perguntas práticas para
nossas vidas. Não pode existir dimensão secular na vida daqueles que estão
imersos em Cristo. Portanto:
·
Como você usa o
espaço da casa que Jesus te deu? Você abriu
seu lar para um GP ou não quer sujar a casa? Sua casa pertence a Jesus e Ele deseja
que você seja hospitaleiro. Deus sempre nos ensinou a acolher o estrangeiro.
·
Como você tem administrado
o tempo que Deus te deu e pertence a Ele? Tem
evangelizado vidas ou apenas assistido seriados da TV? Tem orado pelos projetos
do Reino ou só jogado futebol? Tem se engajado no ministério que Deus te deu ou
só se engaja nos seus próprios sonhos?
·
Como você tem lidado
com o próximo que Jesus colocou no seu caminho? Jesus te chama para amar, perdoar, suportar, aconselhar,
sujeitar, etc.. Você pertence a Deus para servir ao próximo. Jesus sacralizou a
vida e não as coisas. O próximo é sagrado para Deus, pois Cristo morreu por
ele. Faça boas obras aos que fazem parte de seu relacionamento para que Deus
seja glorificado.
·
Como você lida com o
trabalho que Jesus te deu? Você honra seu patrão?
Você patrão honra seu funcionário? Você cumpre fielmente com seu horário de
trabalho ou enrola? Você serve as pessoas por meio de seu trabalho com amor ou
faz murmurando?
·
Como você tem
administrado o dinheiro que Jesus te dá? Você tem
sido fiel no dízimo? Você tem sido generoso para com sua igreja e com seu
próximo? Você tem usado os recursos financeiros que Deus te deu só para seu
prazer?
Você é cristão em todo lugar, em todo tempo, em todas as
dimensões da vida.
Pr. Cornélio Póvoa de Oliveira
09/09/2018
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